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2.1. Resultados da primeira investigação

Os primeiros estudos que desenvolvemos a partir de um corpus oral incidiram no texto argumentativo, concebido de acordo com a perspetiva de Adam (2001, p. 104):

en rendant crédible ou acceptable un énoncé (conclusion) ap- puyé, selon des modalités diverses, sur un autre (argument / donnée / raisons).

Foi concedido particular enfoque ao plano de texto, concretamente à descrição das macroproposições mobilizadas pelos alunos, o que im- plicou deixar para segundo plano o contexto sociodiscursivo de produção.

Esta investigação, desenvolvida no âmbito da preparação da tese de doutoramento (Marques, 2010), veio mostrar, entre outros aspetos, que os alunos têm dificuldades em definir a conclusão a defender pe- rante uma dada questão polémica, o que os leva, não raro, à apresentação de um texto que se desenvolve em torno de duas con- clusões antagónicas, do género “Eu acho que X” e “Eu não acho que X”. Este fenómeno foi designado conclusão dupla (Marques, 2010, pp. 142- 146). O conteúdo dos argumentos presentes no corpus colocou tam- bém em evidência a preferência dos alunos pelos argumentos simples,2 expressos por meio de enunciados sintéticos e, por vezes,

sincopados. Comprovou-se também que os alunos não introduzem es- pontaneamente a contra-argumentação nos seus textos.

Estes primeiros estudos permitiram o esboço de um conjunto de sugestões de natureza conteudística e didática que apontaram no sentido da importância da seleção da questão polémica, associada a uma abordagem dos temas a tratar em sala de aula, construída numa perspetiva progressiva. Começar por realidades mais próximas dos alunos, contemplando temas sobre os quais estes já tenham tido oportunidade de refletir ou que integrem o domínio dos seus interes- ses facilita a definição da conclusão a defender. A proximidade que se estabelece com o tema ou a preparação com tempo de um tema que não seja familiar é ainda fundamental para a complexificação dos ar- gumentos a apresentar e para a inclusão de contra-argumentos no texto.

2.2. Intervenções didáticas

As conclusões do primeiro estudo levaram ao desenvolvimento de um conjunto de experiências que se centraram no género texto de opi- nião e visaram promover uma evolução na produção desse género do oral, com um enfoque particular na definição da conclusão a defender e no desenvolvimento dos argumentos. A partir deste momento, os es- tudos promovidos passaram a estar enquadrados num modelo didático de género (MDG) que assume que o ensino do oral só é pos- sível a partir de um género, tal como o defendem Dolz e Schneuwly (2009, p. 64),

dans l’optique de l’enseignement, les genres constituent un point de référence concret pour les élèves […] le travail sur les genres dote les élèves de moyens d’analyse des conditions so- ciales effectives de production et de réception des textes.

No âmbito deste modelo, considera-se que existem dimensões en- sináveis, nomeadamente os fatores de adequação contextual (que contemplam espaço, tempo, papéis discursivos e objetivo de comuni- cação) e a organização textual (considerando o plano de texto).

Entre as várias experiências de cariz didático desenvolvidas, desta- camos a criação de um concurso, designado Texto puxa Palavra – Concurso de Oratória, no qual alunos do 3.º ciclo têm como objetivo apresentar, perante um júri, um texto de opinião oral, a partir de um tema extraído de uma obra literária juvenil lida. Esta experiência e ou- tras da mesma natureza (como é o caso da atividade dedicada ao ensino secundário, intitulada Pensar Alto), que foram promovidas no âmbito da investigação que se tem vindo a desenvolver, teve a virtuali- dade de aproximar a produção textual do conceito de género, tal como o concebe o interacionismo sociodiscursivo. Por esta última razão, as atividades de preparação de texto foram sempre enquadradas por uma dada prática social, tendo em consideração um conjunto de caracte- rísticas sociocomunicativas que assentou na criação de um quadro comunicativo real com objetivos de comunicação também reais.3

Este quadro comunicativo real revelou-se fundamental para a defi- nição dos eixos da interação verbal que enquadram a produção verbal, o que permite uma adequação do texto ao género texto de opinião.

No que respeita à organização textual, os textos produzidos no âm- bito das experiências didáticas vieram mostrar que este modelo tem consequências positivas ao nível do desenvolvimento dos argumentos, visto que estes passam a ser concebidos maioritariamente como com- plexos, ou seja, um argumento principal é sustentado por um (ou mais) subargumento. Os argumentos evidenciaram ainda uma diver- sificação relativamente aos analisados na primeira investigação, uma vez que surgiram pela primeira vez argumentos pelo exemplo e de au- toridade (esta última manifestada em fenómenos de citação direta e indireta).

Estes resultados vieram confirmar a importância de, na fase da pre- paração do texto oral, se proceder a pesquisa, leitura e reflexão, atividades que se assumem como suscetíveis de propiciar o desenvol- vimento dos argumentos apresentados. No caso da experiência relatada, esta preparação ocorreu em torno de uma obra literária, mas os resultados obtidos mostram que outras opções são possíveis, que podem passar pela leitura ou pela investigação orientada.

Em síntese, os resultados obtidos tornam claro que a abordagem didática do texto de opinião será favorecida se, por um lado, os fatores de adequação textual forem reais (ou simulação de um contexto real)4

e explicitamente trabalhados na preparação da apresentação oral e se, por outro, existir um investimento no conhecimento da realidade as- sociada à questão polémica que está na base do texto de opinião. Esta perspetiva vai ao encontro do que defende Plantin (2005) quando afirma que toda a produção de opinião resulta de uma questão polé- mica, fruto de um confronto de posições, que leva a uma tomada de posição:

La mise en doute est définie comme un acte réactif d’un interlo- cuteur qui refuse de ratifier un tour de parole. Cette situation

interactionnelle oblige l’interlocuteur à argumenter, c’est-à-dire à développer un discours de justification. (Plantin, 2005, p. 53) Entre outros, um problema subsiste, porém: a inclusão de contra- -argumentos no texto. Os textos orientam-se tendencialmente para a sustentação da conclusão própria, obliterando o dialogismo natural do texto de opinião, que, como sustentou Plantin (2005), é uma caracte- rística definitória da própria argumentação:

On parlera de “modèle dialogal” de l‟argumentation pour cou- vrir à la fois le dialogal proprement dit, le polyphonique et l‟intertextuel, afin de mettre l’accent sur un aspect fondamen- tal de l’argumentation, celui d’articuler deux discours contradictoires” (Plantin, 2005, p. 54).

Os textos produzidos ainda não contemplam, portanto, a necessi- dade argumentativa de infirmar a posição alheia como forma de reforçar a conclusão própria.

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