A acção de formação decorreu numa empresa produtora e comercializadora de papel de embalagem, com uma população de cerca de 400 trabalhadores, localizada no norte de país.
Esta acção de formação surgiu no decurso da implementação de uma ferramenta informática para a gestão da actividade comercial da empresa, e mais propriamente, das actividades realizadas no armazém papel (recepção das bobinas de papel oriundas da produção, armazenamento de papel no armazém e carregamento das bobinas para proceder à expedição para os clientes).
Relativamente ao armazém de papel esta ferramenta informática seria materializada num computador instalado nos escritórios do armazém de papel que ficaria sob a responsabilidade do fiel de armazém e em terminais rádio- frequência a ser instalados nos empilhadores.
Objectivo da formação
A acção de formação intitulada “Logística, gestão de armazém e expedição” teve como principal objectivo preparar os trabalhadores do armazém de papel, utilizadores de empilhadores, para a utilização da nova ferramenta informática de modo a permitir uma melhor gestão do armazém de papel.
Destinatários
Os destinatários da acção de formação foram os 20 trabalhadores do armazém de papel que conduziam empilhadores. À altura tinham idades compreendidas
entre os 37 e os 57 anos, uma antiguidade na empresa de 22 anos em média (como eram, na sua maioria, trabalhadores que foram sendo reconvertidos de outros sectores da empresa a sua antiguidade no posto de trabalho correspondia a uma média de 13 anos).
Todos os condutores de empilhador possuíam a escolaridade mínima obrigatória (que neste caso equivalia a 4 anos de escolaridade).
Os condutores de empilhador trabalhavam num dos 5 turnos rotativos de 8 horas de trabalho.
Até aí realizavam o seu trabalho escrevendo numa folha de papel as informações necessárias (localização das bobinas no armazém, número das bobinas que iriam ser expedidas, matrícula do camião em que iriam expedir as bobinas, etc.). Pressuponha-se que com a introdução do rádio-frequência estas informações passassem a estar disponíveis no écran ou tivessem que ser escritas através do seu teclado.
Formadores
Apesar de estar previsto que a formação fosse assegurada pelos técnicos da empresa de consultoria contratada para a introdução da ferramenta informática, esta foi assegurada por um informático da própria empresa que estava destacado para fazer o acompanhamento de todo o processo.
Duração
A formação decorreu em cinco edições de duas horas cada. Cada uma das sessões decorreu imediatamente antes ou logo após o fim de um turno de trabalho de oito horas, ou seja, os trabalhadores iniciavam o seu dia de trabalho com duas horas de formação para de seguida cumprirem as oito horas de trabalho ou após o seu turno de trabalho viam a sua estadia na empresa prolongada para poderem participar nesta acção.
As sessões de formação decorreram no mês de Novembro de 1995, duas semanas antes da efectiva utilização da ferramenta informática.
Como foi deixado um rádio-frequência para os trabalhadores do armazém de papel treinarem na sua utilização, o número de horas que cada um apresentou
como correspondendo ao período de formação foi muito variável (entre 7 e 49 horas).
Local e condições de realização
A acção de formação decorreu nos escritórios do armazém de papel.
O método pedagógico privilegiado foi de tipo transmissivo (Lesne, 1984), havendo, no entanto, a possibilidade de se fazerem algumas experiências num rádio-frequência que ainda não estava instalado no empilhador. Contudo este rádio-frequência não tinha disponibilizada uma base de dados que permitisse concluir as operações e dar uma ideia do como funcionava na realidade (por exemplo se quiséssemos saber onde estava localizada uma bobina e para isso introduzíssemos o seu número, no écran aparecia uma informação que dizia que a operação não podia ser completada por falta de dados).
À altura da realização da formação o seu manual ainda não estava concluído pelo que só foi distribuído posteriormente aos formandos. No momento da formação apenas receberam uma folha com as informações básicas sobre a organização do teclado (por ordem alfabética e com algumas teclas com abreviaturas em Inglês: pgdw – page down; pgup – page up; del – delete, etc) e as regras básicas de utilização das principais funções do rádio-frequência. Conteúdos da formação
O conteúdo da acção versou o modo de utilização do rádio-frequência nas suas diferentes valências, ou seja, como fazer para localizar as bobinas de papel no armazém; para as transferir de localização no armazém; e, para as expedir para os clientes.
Avaliação da formação
A avaliação da formação feita através da resposta a um questionário padrão preenchido pelos formandos foi um pouco crítica no que se referia aos temas que deveriam ser incluídos e ao seu desenvolvimento. Alguns trabalhadores referiram a necessidade de um tempo superior para a formação, mais desenvolvimento nos “conhecimentos gerais” ou em “todos os aspectos que dizem respeito ao sistema global”, paralelamente à importância da prática: “o importante é a utilidade para o trabalho”, como referia um dos trabalhadores.
Metodologia
O diagrama da figura 1 refere-se às actividades por nós desenvolvidas no seio da empresa de papel no que se relaciona com a introdução da ferramenta informática no armazém de papel.
Os dados para este estudo foram recolhidos no período que decorreu entre Outubro de 1995 a Março de 1996 e estiveram na origem do estudo empírico da de um trabalho nosso anterior (Santos, 1997).
Para se poder contextualizar a acção de formação e as implicações que a nova ferramenta informática ia ter no planeamento, gestão e concretização das actividades pelos operadores foram feitas observações livres (Santos, 1994) prévias à introdução da ferramenta informática e posteriores a esta. E, num segundo momento, foram feitas observações mais sistematizadas, de registo contínuo (Santos, 1994), junto de trabalhadores sobre a utilização desta ferramenta.
Os dados recolhidos permitiram a elaboração de duas grelhas de entrevistas com objectivos distintos:
- a primeira, mais geral, semi-estruturada de resposta aberta (Lemos, 1993) procurava conhecer as representações dos operadores sobre a importância do armazém de papel no processo produtivo da empresa e das actividades aí desenvolvidas.
- a segunda, de resposta mais fechada (Lemos, 1993), surge da necessidade de perceber os conhecimentos detidos pelos operadores sobre um conjunto
de códigos numéricos e alfanuméricos, utilizados para caracterizar um vasto leque de situações (número de cliente, número de encomenda, código de embarque e tipo de transporte utilizado para a expedição do papel).
As entrevistas foram realizadas no seguimento uma da outra, nos escritórios do armazém de papel, em privado e durante o período de trabalho (decorria em períodos de menor pressão temporal autorizados pelo respectivo superior hierárquico). Duraram em média 30 minutos e foram registadas e transcritas na íntegra. Depois de transcritas foram devolvidas aos trabalhadores para que as suas informações fossem validadas por estes. Foi a convocação dos conhecimentos destes trabalhadores que permitiu melhor perceber o que estava em questão na formação, a complexidade da situação com que tinham que lidar e os modos concretos de trabalho que tinham que pôr em prática para fazer face à variabilidade das situações.
Relativamente à acção de formação, observamos 3 das 5 edições das acções de formação realizadas.
Uma vez que a aplicação informática utilizada no armazém de papel estava integrada numa mais geral de gestão de toda a parte comercial da empresa e para melhor percebermos a importância assumida pela introdução desta, decidimos também proceder a observações junto da Direcção Comercial.
Mas porque é que começamos por considerar que esta formação poderia não ser adequada para estes trabalhadores e para o trabalho que têm que realizar? Para responder a esta questão convocamos quer os conhecimentos disciplinares que se debruçam, nomeadamente, sobre os quadros de referência das práticas da formação, quer os conhecimentos postos em prática e formas de fazer face aos problemas com que os trabalhadores se confrontaram.