A IN é vista por Baker (1988) como associada a três dos cinco processos de mudança na função gramatical: a passiva, a antipassiva e a ascensão do possuidor. O capítulo da tese intitulado “Noun Incorporation” é usado para mostrar que esses três processos de mudança na função gramatical são, na verdade, subtipos de IN. Já no início deste capítulo, o autor afirma que a produtividade e a transparência referencial da IN sugerem que esta é um processo sintático, e não um processo lexical de formação de palavra (BAKER, 1988:80).
Como afirmado no início desta seção, há certas limitações nas construções com IN. A literatura descritiva aponta para o fato de que certos tipos de IN não são atestados em nenhuma língua natural. Por exemplo, em nenhuma língua, foi descrita uma IN de um sujeito agente. Os nomes incorporados são, geralmente, argumentos internos do verbo, como explicado por Cabrera (2000:517- 524). Os argumentos externos que são incorporados não seriam argumentos externos verdadeiros, do ponto de vista da teoria gerativa, se aceitarmos como verdade a Hipótese Inacusativa. Em sentenças com IN de “sujeito”, os verbos são do tipo inacusativo (terminologia do modelo gerativo), de modo que esses sujeitos seriam objetos do ponto de vista estrutural, ou seja, nasceriam como objetos na estrutura profunda.
Portanto, os dados de diversas línguas apontam que a IN obedece a principal propriedade dos movimentos de XP e de Wh, a de que o vestígio é propriamente regido. De fato, um X0 só pode se mover para um Y0 que propriamente o governa. Segundo Baker (1988:53), os exemplos de IN citados na literatura obedece esta condição: sempre um verbo, um nome ou uma preposição se move para um verbo que governa o verbo/ preposição/nome incorporado.
Há uma controversa em torno da possibilidade de um argumento externo poder ser incorporado ao verbo ou não. Para autores como Ozturk (2004), os exemplos citados na literatura
como IN de agentes em línguas como o Turco, o Hindi e o Húngaro são, na verdade, exemplos de pseudo-incorporação nominal. Ozturk (2004) estende para argumentos externos a análise feita por Massam (2001) para argumentos internos. Segundo Ozturk (2004), em línguas que apresentam pseudo-incorporação nominal, o nome pseudo-incorporado não está sujeito a nenhuma restrição em termos de papeis temáticos. Tanto argumentos internos quanto argumentos externos podem ser pseudo-incorporados, pois a pseudo-incorporação não está sujeita à restrição de que X0 só pode se mover para um Y0 que propriamente o governa.
No capítulo intitulado Noun Incorporation, Baker (1988:76-146) busca explicar todas as limitações descritas na literatura no que se refere ao fenômeno da IN. Em particular, o modelo proposto pelo autor pretende explicar essa assimetria entre sujeito e objeto como elementos passíveis de sofrer incorporação nominal nas línguas em que esse processo é verificado. O modelo formal proposto por Baker neste capítulo explica essa assimetria como uma consequência dos princípios que restringem o movimento sintático de qualquer natureza, em particular, o movimento de um X0. De fato, os princípios universais propostos por Chomsky (1981) sugerem que a IN de um sujeito estrutural no núcleo do VP seria impossível, tendo em vista que o vestígio deixado pelo X0 sujeito c- comandaria o antecedente, o que viola um dos princípios relacionados a movimentos do tipo Move- Alpha. Essa assimetria é imediatamente entendida se assumirmos que a IN é derivada sintaticamente, com um movimento do tipo Move-Alpha (BAKER, 1988:82).
Segundo o autor, sua análise de IN é semelhante à feita por Belletti e Rizzi (1981) (BAKER, 1988:84-92) em relação ao clítico ne do italiano. Esses dois autores afirmam que o clítico é um item nominal que é núcleo de um sintagma nominal que contém o quantificador na estrutura profunda. O
ne se move sintaticamente para o verbo, deixando um vestígio. As limitações encontradas nessa
transformação são as mesmas encontradas por Baker em relação à IN. Assim como a IN, a cliticização do ne também apresenta a mesma assimetria entre o sujeito e o objeto da sentença. No modelo proposto por Belletti e Rizzi (1981), essas propriedades são consequências dos princípios universais que restringem o movimento sintático.
Outros fatos relevantes acerca de propriedades da IN são explicados e previstos pelo modelo proposto por Baker (1988). Por exemplo, o fato de que nomes nunca podem ser incorporados de fora de um sintagma preposicional. Se a IN é vista como um Move-Alpha, essa propriedade atestada translinguisticamente pode ser explicada facilmente, já que a projeção máxima PP funcionaria como uma barreira para o movimento do N (BAKER, 1988:86).
Ao estudar o processo de IN, o autor também traz propriedades estruturais importantes para o desenvolvimento da teoria gerativa. Por exemplo, em relação à teoria do caso, Baker mostra que um sintagma nominal cujo núcleo é incorporado não necessita de caso estrutural (BAKER, 1988:105- 108). O fato de esses NPs não precisarem de caso estrutural explica os exemplos de sentenças em que
ocorre toda uma reestruturação dos argumentos da sentença, em uma estrutura conhecida na literatura como ascensão do possuidor. Quando o núcleo de um objeto de um verbo que atribui caso acusativo é incorporado, o potencial do verbo em atribuir caso acusativo não é exaurido, de modo que o verbo atribuirá o caso estrutural acusativo para outro NP da sentença (BAKER, 1988:110).
Com base nas evidências de que esses sintagmas nominais que permitem que seu núcleo se incorpore a outro núcleo não necessitam de caso estrutural, o que seria uma aparente violação do Filtro de Caso, o autor repensa o porquê de NPs necessitarem de caso. Para o autor, essa propriedade da IN não é uma exceção periférica na teoria do caso. Neste sentido, Baker (1988:112) busca uma perspectiva em que esse fato seja previsível e explicável. O autor argumenta que o Filtro de Caso é só um caso especial de um requerimento mais geral de “visibilidade”.