Começamos em Lisboa, passamos pelo manicômio e estamos na Conservatória. Recordamos que em O ano da morte (2011) expomos conteúdos que no Ensaio (1995) foram sistematizados com mais precisão, neste tópico referente a Todos os nomes (1997), traremos temáticas presentes nos anteriores e que nele persistem.
No que tange ao tema da razão, a posição dos estoicos foi bastante retratada, sendo que eles defendem a sua primazia e a consequente marginalização das emoções. Este fragmento traz uma analogia que será relevante para prosseguirmos a análise:
O apaixonado é como uma criança cujo juízo não está ainda maduro; (...) Estamos, portanto, bem longe da concepção romântica da criança que faz dela esse poeta-visionário que desaparece, infelizmente, no adulto habituado a soluções e a evidências; para os Estoicos a criança é aquele que o homem deve destruir em si mesmo para chegar à razão (...) (BRUN, 1986, p. 84-5).
Conjecturamos que esta concepção dos estoicos colide com a exposta na narrativa, pois inúmeras vezes o Sr. José é comparado a uma criança. Uma delas é a frase do título desta seção em que a senhora do rés-do-chão direito dirige-se ao protagonista. Ela confessa ter sido amante do pai da menina e sentencia: “(...) perdoa-se porque se ama, ama-se por que se perdoa, o senhor é uma criança, ainda tem muito que aprender” (SARAMAGO, 1997, p. 63, grifo nosso). Ao receber a medicação do enfermeiro: “Pouco faltou ao Sr. José para desatar a chorar como uma criança quando sentiu a picada da agulha” (p. 131). Para que a sua pesquisa fosse entendida como uma ordem de serviço, Sr.
José redigiu uma credencial falsa, em tom autoritário, mas após lê-la: “Trémula de susto (...), a tal criança correu a proteger-se no regaço da mãe” (p. 57). Ao examinar os papéis da Conservatória buscando a mulher: “(...) Deixou de ser o Sr. José (...), deixou de ter cinquenta anos, agora é um pequeno José que começou a ir à escola, é a criança que não queria dormir” (p. 175).
A criança é um ser genuinamente apaixonado, e sendo o protagonista comparado a ela, nada mais coerente que as emoções estejam em primeiro plano. Ao contrário de O ano da morte (2011), onde elas são represadas e eventualmente extrapolam, neste romance o atípico é a ausência delas, segundo poucos exemplos. Ao dar os primeiros passos em sua aventura sentiu uma “serenidade que não parecia ser sua” (p. 56). Depois da advertência do chefe sobre a barba por fazer ele sentiu um “estranho sossego” (p. 211).
Sendo o represamento das emoções raras exceções, expomos o afloramento delas:
“pernas tremiam e o suor inundava-lhe a testa, estou feito uma pilha de nervos, repreendeu-se” (p. 46).
“Coração sensível, o Sr. José sentiu arrasarem-se de lágrimas os seus próprios olhos” (p. 66).
“Desesperado, nervos desfeitos, quase em lágrimas” (p. 79). “Pernas frouxas e uma onda de suor a inundar-lhe o corpo” (p. 141).
Ele abranda o sofrimento ao permitir que suas emoções irrompam: “Afastou o prato, deixou pender a cabeça sobre os braços cruzados e chorou sem vergonha (...). Se sentia melhor, enxugou bruscamente as lágrimas” (p. 159). Notamos mais uma similaridade
entre o Sr. José e o outro auxiliar, de guarda-livros, nas palavras do seu criador: “(...) o guarda-livros nem emoções nem sentimentos domina” (PESSOA, 2011a, p. 11). E Bernardo Soares confessa suas “emoções confusas” (PESSOA, 2006, p. 77) e o assomo de: “(...) lágrimas, lágrimas das quentes dos que não têm nem tiveram mãe” (PESSOA, 2006, p. 61).
Mas o Sr. José se comportando como uma criança, “como uma criança inoportuna” (PESSOA, 2006, p. 49) e de forma emotiva, teve êxito em sua missão? Vimos, no capítulo segundo que teve, uma vez que esta busca fez com ele descobrisse outro Sr. José. Além disso, o propósito “absurdo” (p. 83) gerou a “reação absurda do chefe” (p. 128) e teve “uma conversa de igual para igual, absurda” (p. 141) com ele. O auxiliar via o chefe como se fosse um deus, tanto que ele afirma para a sra. do rés-do-chão direito que ele “poderia dizer-lhe como se chamarão todas as [pessoas] que vierem a nascer daqui até o fim do mundo” (p. 62). E que o Conservador “conhece os reinos do visível e do invisível de cor e salteado” (p. 129). Esta é uma postura semelhante à que tinha Bernardo Soares, diante de seu patrão Vasques: “Ele é tudo para mim” (PESSOA, 2006, p. 49). Mas as “loucas aventuras” (p. 108), fizeram com que a rotina de não se reparar “nos auxiliares de escrita” (p. 43) se transformasse no inédito interesse “pela saúde de um auxiliar de escrita ao ponto de lhe mandar um portador com pastilhas” (p. 124). Gerou também escândalo entre os funcionários a pergunta ao Sr. José “se já se encontrava completamente restabelecido da doença” (p. 140).
Através das subversões, Sr. José conseguiu que a prática de nos “contentarmos com os números” (p. 256) fosse ultrapassada. A ação
dele produziu outro efeito concreto em toda a Conservatória. O seu chefe que dele admirador se tornou, reconheceu a “dupla absurdidade que é separar os mortos dos vivos” (p. 208). Enquanto no Ensaio foi retratada a indiferença quanto à morte dos colegas de confinamento, neste romance a proposta é: “Chorar por alguém que não se conheceu” (p. 240).
Confirmamos a visão dissonante ao estoicismo e alinhada à epígrafe do livro As pequenas memórias: “Deixa-te levar pela criança que foste” (SARAMAGO, 2006, p. 7), que está harmonizada, por sua vez, com um verso de Ricardo Reis: “Tendo as crianças por nossas mestras” (PESSOA, 2007, p. 25). E outra dissonância apresentada na narrativa entre a criança e o adulto é que o adulto Sr. José tinha “pânico das alturas” (p. 22) e enquanto criança o sonho era que “voava por cima dos quintais e dos telhados” (p. 253).
A razão, tão cara aos estoicos, nesta narrativa é, portanto questionada e não é vista como soberana. O protagonista vivencia momentos desvairados. “Abrigado debaixo duma das árvores da cerca, coração a bater como doido” (p. 86). Ao ver-se dentro do colégio o Sr. José achou isso “coisa de louco” (p. 99). A assertiva subjacente é que a razão não detém toda a sabedoria, por isto agir de forma contrária a ela produz, por vezes, resultados positivos. Este excerto prova que ele precisou opor-se a ela para efetivar a busca: “uma angústia súbita apertou-lhe a garganta enquanto a razão afligida tentava resistir, queria que ele mostrasse indiferença” (p. 47).
Por este motivo o narrador atribui ao Sr. José uma sabedoria peculiar. “O sábio é sábio consoante o grau de prudência que o exorne
(...), há que se reconhecer no Sr. José, (...) a existência de uma sabedoria involuntária” (p. 34). Ele não obedece a prudência que o manda aquietar-se em sua casa, e vai à escuridão da Conservatória buscar mais dados sobre os famosos. E na entrada do cemitério “ouviu a voz da prudência a dizer-lhe que deixasse para outro dia” (p. 229) a visita ao túmulo, mas não a acatou e o fez naquela oportunidade. Mais uma prova de que a prudência não era a principal característica de sua personalidade: “Aos prudentes terá parecido uma insensatez vir meter-se o auxiliar de escrita assim na boca do lobo” (p. 95).
Notamos que Todos os nomes (1997) reitera muitos conteúdos das narrativas anteriores. Sendo assim, verificaremos em que medida esta obra segue chancelando a mesma visão dos outros livros do corpus literário.
4 DESTINO
Neste capítulo versaremos um pouco sobre este tema “do qual pode-se dizer tudo” (SARAMAGO, 2011, p. 372) e sobre o qual os estoicos disseram bastante. Estabelecendo a conexão com a seção 1.2 do capítulo primeiro, verificaremos a concordância e o embate do autor com as respectivas teorias estoicas. De acordo com o raciocínio do pórtico uma imagem adequada é a de que os seres humanos são meras cartas nas mãos do logos, sendo que ele tem o poder de fazer diversas combinações, atribuir novas funções ou nos tirar do jogo94. Eles asseguram que o logos tudo ordena perfeitamente, mas também defendem a autonomia do ser humano em se submeter ou se rebelar, conciliando a existência do fatum com a da liberdade. O argumento alegado da existência da liberdade é que diferentes pessoas reagem de formas diversas a mesmos eventos. E o mencionado exemplo do cilindro, esclarecendo que a causa essencial do movimento dele não é externa, mas provém da sua própria natureza, ilustra tal prerrogativa.
Faremos uma alteração na ordem expositiva dos romances: o primeiro item deste capítulo – sobre O ano da morte (2011) - enfatizará a abordagem sobre o destino e o último – sobre o Ensaio (1995) – focará na liberdade. Todos os nomes (1997), por sua vez, fará a mediação entre os dois.
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Similar à sentença da personagem Alice: “Vocês não passam de um baralho de cartas” (CARROL, 2009, p. 168).
4.1 O QUE TEM DE SER, TEM DE SER E TEM MUITA FORÇA