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Mesures correctives

Dans le document Étude de caractérisation géotechnique (Page 51-77)

11.5 Pistes de solutions pour les propriétaires

11.5.3 Mesures correctives

Se a complexidade e a suposta obscuridade de Heráclito foram apontadas por muitos filósofos posteriores a sua época, o mesmo não ocorreu com a ênfase e o apreço destinados à originalidade de suas ideias.

Sócrates é um dos melhores exemplos dessas críticas antagônicas. Ao ser interrogado por Eurípides sobre qual a sua opinião a respeito de Heráclito, ele teria respondido: “O que dele vim a compreender é magnífico; penso que deve sê-lo também o que não entendi: aliás, é preciso ser alguém mergulhador de Delos para lhe alcançar o sentido”, lembrando que os nadadores délios eram capazes de descer até as últimas profundidades das praias gregas para colher pérolas.144

No período clássico, Platão e Aristóteles fizeram menções ao trabalho de Heráclito. Ambos apropriaram-se de conceitos de forma não muito fidedigna.145 O mesmo ocorreu com os helenistas, em especial os estóicos e os céticos, que exaltaram Heráclito, associando algumas das teorias dos pré-socráticos para a estruturação do próprio sistema filosófico helênico. Também os neoplatônicos interessaram-se por seus escritos e, sobretudo, retrabalharam o seu conceito de Logos como determinante da verdade.

Seguiu-se um período lacunar sobre a obra de Heráclito, que só fora retomada com maior vigor pelos humanistas da Renascença, no séc. XIII, mas com um ponto importante a ser ressaltado: suas teorias foram revistas a partir dos textos em grego, o que clamava por uma análise menos subjetiva e mais próxima de suas ideias fundamentais.146

144 Os registros desse comentário advém de um escrito apócrifo, e alguns intérpretes o analisam como fruto

de uma ironia socrática (vide BERGE, 1969, p.9).

145 Acredita-se que Platão tenha feito suas análises da obra de Heráclito, a partir da influência de Crátilo,

que, embora fosse admirador de Heráclito, não fora fiel ao pensamento do mesmo. Aristóteles também teria se apropriado de alguns pensamentos heraclíticos com desvios, a exemplo da sua interpretação do monismo heraclítico. As reinterpretações de Heráclito, por parte de Aristóteles, são aprofundadas na seção 2.3.7.

Na época moderna, Grócio, Leibniz, Budé, Espinoza e Kant reconheceram as ideias de Heráclito. Mas foi a partir do século XIX que o trabalho conjunto de filósofos, historiadores e filólogos trouxe maiores elementos para que se pudesse trabalhar de forma substancial com as ideias de Heráclito. A primeira edição erudita de seus fragmentos (considerados 125 como autênticos) foi feita pelo inglês Bywater (1840-1917) em 1877. No século XX, esse trabalho foi confrontado pela tradução e nova compilação desses fragmentos feita pelas mãos do alemão Hermann Diels, em 1901. Em 1934/37 e 1951, Kranz completou e atualizou os escritos de Diels que, até hoje, tem sido uma das principais obras de referência e consulta aos fragmentos de Heráclito, razão pela qual a maioria dos trabalhos sobre o mesmo assumem essa numeração como base, referindo-se a esses dois nomes Diels e Kranz (DK).

Na contemporaneidade, Charles Kahn destaca-se nas traduções originais de Heráclito como intérprete do grego para a língua inglesa, tornando-se referência nas análises do pensador dentre os filósofos de língua inglesa e latinas.147

A atenção a Heráclito tem gerado, ao longo dos séculos, uma sucessão de debates intermitentes, com interpretações e abordagens diversas sobre o seu trabalho. Diante da fragmentação e necessidade de contextualização inerente a sua obra, reverberamos que, para fazer um salto analítico entre essa, de um contexto arcaico, para uma leitura contemporânea, o seu resgate exigiu atenção a dois pontos fundamentais: a) para além da seleção de fragmentos correlatos ao estudo da sabedoria, num total de 14 citações, procuramos resgatar sua linha teórica nuclear, aproximando-os de mais 23 fragmentos complementares para aprofundamento dessa análise; b) para tal empreitada, apoiamo-nos em intérpretes meticulosos e fomos exaustivos na busca pelas traduções mais adequadas aos termos originais em grego, a fim de procurar corresponder e evidenciar a base seminal de seu pensamento. Todo o percurso dessa pesquisa está exposto em nosso Apêndice. O total de 37 fragmentos foram selecionados como representativos de uma amostragem do pensamento de Heráclito sobre o tema específico de nossa pesquisa: a sabedoria. No entanto, de forma indireta, outros fragmentos são citados em notas de rodapé, a fim de

147 Charles Kahn é professor emérito da University of Pennsylvania, e autor de uma série de livros e artigos

sobre História da Filosofia Antiga, tendo sido considerado proeminente intérprete contemporâneo de língua inglesa da obra de Heráclito. Em The art and thought of Heraclitus (2004), Kahn elabora uma síntese primorosa dos fragmentos de nosso pensador de base, com comentários valiosos acerca dos mesmos, apontando e ponderando detalhes a termos e pontuações sugeridas pelas fontes clássicas de pesquisa sobre a obra heraclítica, como Diels, Kranz, Marcovich, Bywater, Bollack-Wismann e Kirk. O seu interesse em sublinhar as análises de Heráclito sobre a sabedoria o tornou nosso intérprete de referência. As influências resgatadas por nós, a partir desse autor, podem ser revisadas em nosso Apêndice.

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comporem uma orientação substancial das fontes cabíveis de apreensão das doutrinas heraclíticas como um todo.

É preciso sublinhar que o fôlego desse trabalho não está na exaustão de citações, mas em apontar a justa interrelação entre os fragmentos essenciais sobre a sabedoria, e aqueles que podem vir a contribuir ao seu próprio entendimento.

Identificamos quatro núcleos teóricos que versam sobre a sabedoria, e trabalharemos, nas próximas seções, interpretando cada um dos fragmentos-chave correspondentes a esses grupos. Os fragmentos complementares são associados na medida em que há a necessidade de reforçarmos conceitos elementares. Os temas e fragmentos-chave são os seguintes: (2.3.2) o domínio do Logos como condição para a sabedoria (frags. 1 a 5); (2.3.3) o sábio como investigador autêntico e responsável (frags. 6 a 8); (2.3.4) graus de sabedoria (frags. 9 a 11), e (2.3.5) o propósito divino no caráter da sabedoria (frags. 12 a 14).

Para estabelecer uma noção geral sobre os conceitos de sabedoria em Heráclito, a penúltima seção deste capítulo (2.3.6) restabelecerá as correlações entre os seus principais termos sobre o saber e apresentará, de forma revisional, a nossa leitura sobre a natureza da sabedoria na visão heraclítica. A seção 2.3.7, então, apontará os princípios heraclíticos sobre a sabedoria que se mantiveram, ou foram reformulados, no período clássico, com Aristóteles. Como as teorias de Aristóteles são a base dos trabalhos sobre a sabedoria em epistemologia contemporânea, acreditamos que esse diálogo sirva para indicar e reforçar as contribuições originais de Heráclito, além de servir como plataforma crítica indireta sobre as teorias já apresentadas no capítulo 1 (seções 1.3.1 a 1.3.5).

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