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CHAPITRE 2 ETUDE DE LA SONDE DOSIMETRIQUE GAN

2.2.2 Etude des effets d’auto absorption

2.2.2.1 Mesure de radioluminescence X

A Floresta Amazônica é vista pelo mundo como um grande celeiro natural de espaço físico, biodiversidade e cultura. Uma construção simbólica que deve ser desmistificada, pois sobressaem nas discussões os mitos198 que foram criados e divulgados sobre a floresta ao

longo dos tempos e, por vezes, legitimados nas discussões políticas.

Como salienta Sarmento199, a cultura política é compreendida enquanto conjunto de

discursos e práticas políticas e culturais, o que remete à sua articulação tanto com a gênese das instituições de poder, quanto com o processo de definição das identidades individuais e/ou coletivas, tendo como referência a dimensão simbólica sobre a qual se funda, legitima e manifesta.

Quando os colonizadores europeus chegaram à região, produziu-se uma imagem na floresta de um manto verde e pujante, área homogênea, monótona, com ricos solos e demograficamente vazia, por essa razão a região passou a ser chamada, na altura, de “o inferno verde”, com uma fonte inesgotável de riquezas naturais, as quais as poderosas forças exteriores ambicionaram, propagando a nova conquista como “terra incógnita”. Aragón200

esclarece que,

198 Originalmente, baseando-se no estudo das mitologias de povos antigos, mito vem do grego Mythos e deriva de

dois verbos: mytheyo, que significa contar, narrar, falar alguma coisa para os outros, e mytheo que quer dizer conversar, nomear, anunciar, designar. Do apogeu do racionalismo grego até o início do século XXI, mito tinha sentido de fábula ou conto, uma fantasia das camadas mais ingênuas ou menos esclarecidas da sociedade. Para os gregos, a legitimidade do mito não reside em provas empíricas, mas na credibilidade de quem o narra, pois este é geralmente revelado por alguém confiável e que tem autoridade e, portanto, deve ser incontestável por quem ouve. (MONTIBELLER FILHO, Gilberto.Op. cit.)

199 SARMENTO, Cristina Montalvão. Op. cit.

A partir do contato europeu; e as principais transformações demográficas e espaciais ocorridas nela ao longo de sua história. Busca-se demonstrar que a região sempre foi vista como área de exploração e de ocupação, que era necessário integrar ao domínio das potências ou países que a disputaram, desconhecendo-se suas próprias potencialidades de desenvolvimento. E que ela é ainda vista como uma área distante, uma fronteira de recursos, um Eldorado, enfim uma terra incógnita, cujas riquezas fabulosas estariam à espera de exploração.

Engendrou-se no imaginário uma visão inexata sobre a maior floresta tropical do mundo. Nas discussões, sobressai-se como um dos principais mitos sobre a região Amazônia ela ser o “pulmão do mundo”, o que é um equívoco. Na perspectiva de Meirelles,201 esse

mito “baseia-se na crença de que todo o vegetal produz oxigênio. Isto é verdade para os vegetais em crescimento. Como a Amazônia é uma floresta em equilíbrio, onde as árvores estão maduras, o que se produz praticamente se consome”. Ou seja, o pulmão consome, não produz oxigênio, ao contrário do que pretendem atores políticos, autoridades e ambientalistas que utilizam essa imagem para dizer que a floresta é uma espécie de fábrica de oxigênio para o mundo.

A Floresta Amazônica é cobiçada não por ser o “pulmão do mundo”, já que oxigênio é engodo, mas pelas riquezas que pode oferecer. Na realidade, o interesse é pela biodiversidade da floresta, que está presente na flora, fauna, subsolo e nos rios. As algas marinhas são responsáveis por mais de 50% do oxigênio da Terra. Nada obstante, a existência da Floresta Amazônica ajuda a regular as temperaturas, os ventos, a umidade e as chuvas no planeta Terra.

Um dos mitos mais apregoados no mundo afora é o que cogita à “Amazônia um vazio demográfico”. Meirelles202 explica que foi referenciada como “uma terra onde não há

habitantes”, perspectiva que interessou ao longo da história a atores que consideravam a região como terra de ninguém e sem ninguém, pronta para ser ocupada e explorada. Sendo certo, como considera Aragón203, que

201MEIRELLES, João Filho. Op. cit. p. 22. 202Ibidem. p. 23.

É realmente a negação do homem do local e de sua cultura; o homem torna-se invisível, e, portanto, nada ou pouco vale. Sua opinião, cosmovisão, e formas de se relacionar com a natureza e a sociedade, pouco importam; pelo contrário, durante séculos esses homens e mulheres foram considerados obstáculos ao avanço da civilização; dever-se-iam, portanto, transformar ou serem eliminados. Essa é a saga dos primeiros habitantes da Amazônia desde o contato com os europeus, vítimas de tremenda destruição em nome do progresso.

Assim, justificou-se a tomada ilegal de terras indígenas, não sendo apontada como uma invasão, mas, pelo contrário, aparece como uma ocupação natural e até obrigatória numa região tão grandiosa, pouco habitada e monótona. Visão que muito interessou ao Regime Militar (1964-1985), segundo Meirelles,204 que defendia e incentivava a migração e o

loteamento da região com o slogan “terra sem homens para homens sem terra”. Como alegar que a região é um vazio territorial, com a presença de mais de 170 povos indígenas, além dos demais moradores, negando a diversidade na região e a presença do próprio homem.

Na contemporaneidade, o slogan anterior foi substituido pela argumentação “desenvolver sem destruir”, segundo a qual a Floresta Amazônica trata-se de uma imensa região de natureza pujante feito um manto verde, que deve ser preservada para garantir a sobrevivência da humanidade. Nessa perspectiva, o Brasil é apontado como o maior país amazônico, responsável pela destruição de suas riquezas naturais, e os Estados que compõem a Amazônia Legal são acusados de serem incapazes de conter o desmatamento da floresta e a poluição ambiental, o que justifica o estabelecimento de inúmeras organizações não governamentais em toda a região.

Um outro mito é imaginar que toda a Floresta Amazônica é uma área homogênea, que “todo o solo da Amazônia é fértil”. Como explica Meirelles205,

O cientista Herbert Shubart faz a pergunta: Se a maior parte do solo da Amazônia é de fertilidade tão baixa, como pode suportar uma floresta tão exuberante? A resposta está na reciclagem dos nutrientes pelos seres vivos.

204 MEIRELLES, João Filho. Op. cit. 205 Ibidem. p.37.

A floresta absorve e recicla todos os nutrientes liberados pelas folhas, galhos, troncos e animais mortos.

Apesar da grandeza e exuberância da floresta e da imensidão de suas águas, a ideia de homogeneidade geográfica não condiz e nem ajuda a compreender um espaço como o amazônico, que é diverso do ponto de vista de sua natureza e cuja maioria do solo é pobre, uma região frágil, sendo grande parte imprestável para a criação de gado e para a lavoura.

Até hoje, muitos aventureiros e garimpeiros procuram adentrar a Floresta Amazônica, com a ideia de enriquecer pela infinidade de ouro, diamante, esmeralda e outros metais, no entanto, segundo Meirelles206, poucos obtiveram sucesso no “Eldorado”, pois não

conseguiram transformar em riqueza econômica as matérias-primas extraídas da floresta, sendo obrigados a viver em condições precárias por falta de uma infra-estrutura básica adequada.

Diante dessa reflexão, Moreira207 afirma que:

Vimos que, na perspectiva do poder que é a da ciência política, a constituição formal tem principalmente relação com a imagem que o poder deseja radicar na sociedade, e que julga contribuir para a obediência pela mobilização dos mitos populares de legitimidade.

Assim, à medida que vai sendo desmistificada a Floresta Amazônica, percebe-se que sobressai nas discussões políticas uma imagem criada sobre a floresta, que é mais mito que realidade. Ou ainda a elaboração de um mito acontece eminentemente com base na contínua repetição e reelaboração de uma imagem. A política existe para tentar evitar o conflito, no entanto, fazer política é uma atividade interpretativa sobre diferentes e, muitas vezes, contraditórias demandas da sociedade, para serem julgadas, comparadas, combinadas e respondidas. Através da ação, é preciso perceber no tempo e no espaço as oscilações tanto simbólicas quanto concretas nas decisões políticas.

206 Ibidem.

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