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2 Mesure de la force de portance

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Desde os tempos coloniais os encontros festivos dos negros despertavam à atenção dos brancos43. Vasta literatura indica que os setores dominantes se dividiam entre tolerar e reprimir os batuques. Esses trabalhos demonstram que o controle dos batuques jamais seguiu um direcionamento único e uniforme. Na verdade, expressões culturais de matriz africana assumiram diferentes papéis a depender do contexto em que se tornavam públicas. Assim, pode-se considerar que as variantes que impulsionavam alguma autoridade, com maior ou menor poder, contra ou a favor dos batuques, eram muitas. Os pesquisadores são unânimes em reconhecer que tolerar ou reprimir dependia da hora e das circunstâncias, embora o estilo pessoal de uma autoridade ou senhor pudesse ser decisivo44.

Por outro lado, os batuques e os dias santos andaram lado a lado no Brasil. Entretanto, essa caminhada não foi harmoniosa. Os confrontos entre representantes da Igreja e os batuques perduraram até a República. Os primeiros a debater essa questão, ainda na atmosfera do Brasil colonial, foram os jesuítas Benci e Antonil. Diante de uma religiosidade sincrética que se esboçava e debruçados sobre o que consideravam a “cristianização imperfeita” dos africanos escravizados, Benci acreditava na austeridade paciente e constante para superar o problema, enquanto Antonil enxergava os “folguedos” dos negros numa outra perspectiva disciplinar. Para ele, a permissão dos batuques livraria os negros da melancolia, aliviando as mazelas do cativeiro e, por conseguinte, os tornando mais saudáveis e produtivos45.

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Ver REGINALDO, Lucilene. “Festas dos confrades pretos: devoções, irmandades e reinados negros na Bahia setecentista”. In: BELLINI, Lígia, SOUZA, Evergton e SAMPAIO, Gabriela dos Reis. Formas de crer: ensaios de história religiosa do mundo luso-afro-brasileiro, séculos XIV-XXI. Salvador: Editora Corrupio, EDUFBA, 2006, pp.197-225.

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REIS, João José. Tambores e temores: a festa negra na Bahia na primeira metade do século XIX. In. CUNHA, Maria Clementina Pereira (org.). Carnavais e outras frestas – ensaios de história social da

cultura. Campinas-SP: Editora da Unicamp, Cecult, 2002; ABREU, Martha. O império do Divino: festas

religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: Fapesp, 1999, p.284; SANTOS, Jocélio Teles dos. “Divertimentos estrondosos: batuques e sambas no século XIX”. In_ SANSONE, Lívio & SANTOS, Jocélio Teles dos (orgs.). Ritmos em trânsito: sócio- antropologia da música baiana. São Paulo: Dynamis Editorial; Salvador, BA: Programa A Cor da Bahia e Projeto S.A.M.BA, 1997, pp.15-38.

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SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986. pp. 92-93.

No terreno do sincretismo afro-católico historiadores sugerem, por exemplo, que os batuques que acompanhavam a coroação de Reis Congo no Brasil apontam para um processo de cristianização mais longo, iniciado na África do século XV, quando o primeiro soberano congolês converteu-se ao catolicismo. Esse processo de cristianização que levou ao “aportuguesamento” das instituições do Congo, por sua vez, não exterminou as tradições bakongo, servindo mais a interesses econômicos e de governo do que a interesses propriamente religiosos46. Em sentido semelhante, com relação às práticas religiosas dos povos da África Central e Ocidental, pesquisadores apontam que o uso comum do assim chamado “complexo cultural ventura- desventura” e o incessante nascimento de novos movimentos religiosos facilitou o ajuste e a propagação de renovados símbolos e liturgias que objetivam afastar o infortúnio e aproximar a sorte.47

No Brasil, a posição de Antonil frente às coroações de reis e as festas de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, refletem o ponto de vista da produção e reprodução do sistema, colocando-se a favor de manifestações sincréticas sob o ângulo do controle social e ideológico dos negros escravizados. Nota-se que apesar do perigo que as festas negras podiam representar para os brancos, elas dispunham de apelo e justificativa para a lógica do sistema escravista. Dessa maneira, foram utilizadas como instrumento de controle, entendidas como uma válvula de escape do contingente escravo. Através da devoção religiosa, da vida no interior das irmandades e da festa do santo padroeiro, a Igreja Católica tinha em vista um projeto evangelizador48.

Em 1624, em Angola, já havia catecismos elaborados nas línguas kimbundo e kikongo. Em 1658, um catecismo para uma missão em Alladá utilizava a palavra vodu para se referir ao deus cristão, e o nome do vodum Lisá era usado para identificar Jesus Cristo. Já em 1708, um jesuíta

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VAINFAS, Ronaldo & SOUZA, Marina de Mello e. “Catolização e poder no tempo do tráfico: o reino do Congo da conversão coroada ao movimento antoniano, séculos XV-XVIII”. Revista Tempo, 6, 1998, pp.95-118; ver também: SILVA, Alberto da Costa e. A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. Especialmente o capítulo 10: “No reino do Congo”, pp. 359-405.

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CRAEMER, W., VANSINA, J. e FOX, R. Op. Cit. 48

português elaborou um catecismo na língua de Alladá para ser usado no Brasil49. Contudo, a prática evangelizadora européia, tanto na África quanto nas Américas, não foi pacífica. Parceira do projeto colonial, além da violência simbólica também a violência física fez parte do processo. A política da “pregação pela espada e pelo açoite” foi largamente utilizada. Como justificativa se apregoava que para um povo bárbaro como o africano, o cristianismo não poderia ser imposto sem repressão50.

Na tentativa de encontrar o ponto de vista dos negros, Luiz Mott sumaria o debate antropológico em torno do assim chamado “sincretismo religioso afro-brasileiro” em duas dimensões: “1) ao cultuar os santos católicos, os africanos estavam apenas iludindo os donos do poder e os catequistas, pois sua devoção dirigia-se não a Nossa Senhora ou a Santo Antônio, mas às divindades de seus ancestrais camuflados atrás das imagens dos brancos; 2) os santos católicos foram incorporados ao panteão de origem, aumentando e intensificando a magia africana”. O autor considera pertinentes as duas explicações que, ao invés de serem exclusivas, seriam complementares51. Estaria assim delineado um caráter de fundamental preservação e resistência cultural dos negros, agindo criativamente em terreno adverso, defendendo e reconstruindo valores e práticas culturais.52

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THORNTON, John K. On the trail of Voodoo: African Christianity in Africa and the Americas.

Américas, v.44, n.° 3, pp.261-278.

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Ferretti cita o clérigo Balthazar Afonso, em 1585, contente com as táticas dos exércitos de Portugal tomando pequenas vilas de assalto: “Os portugueses queimaram vivos os pagãos em suas choupanas e várias cabeças eram expostas a fim de amedrontar os adversários. Em outra ocasião 619 narizes foram cortados pelos portugueses”. FERRETTI, Sérgio Figueiredo. “Sincretismo afro-brasileiro e resistência cultural”. In: BACELAR, Jeferson e CAROSO, Carlos (orgs.). Faces da tradição afro-brasileira: religiosidade, sincretismo, anti-sincretismo, reafricanização, práticas terapêuticas, etnobotânica e comida. Rio de Janeiro: Pallas; Salvador, BA: CEAO, 2.ª edição, 2006, pp.120-121.

51

MOTT, Luiz R. B. Escravidão, homossexualidade e demonologia. São Paulo: Ícone, 1988, pp.110-111; estudando o sincretismo nas religiões afro-brasileiras, Sérgio Ferretti afirma que todas as religiões são sincréticas e que “tal fato não diminui mas engrandece o domínio da religião, como ponto de encontro e de convergência entre tradições distintas”, ver: FERRETTI, Sérgio Figueiredo. Op. Cit., pp.113-130. 52

Em que pese a terminologia empregada, Laura de Mello e Souza, apoiada nos argumentos de Roger Bastide, enfatiza o caráter de preservação cultural do sincretismo religioso afro-católico: “Outorgado, talvez, num primeiro momento, pela camada dominante, o sincretismo afro-católico dos escravos foi uma realidade que se fundiu com a preservação dos próprios ritos e mitos das primitivas religiões africanas.” Ver: SOUZA, Laura de Mello e. Op. Cit., pp.93-94; sobre o posicionamento de alguns líderes da religião afro-brasileira, militantes do movimento negro e intelectuais sobre o sincretismo, ver: CONSORTE, Josildeth Gomes. “Em torno de um manifesto de Ialorixás Baianas contra o sincretismo”. In: BACELAR, Jeferson e CAROSO, Carlos (orgs.). Op. Cit., pp.71-91.

Analisando uma devassa contra a “Dança de Tunda” no Arraial de Paracatu, nas Minas Gerais dos idos de 1747, nos dias de setembro em que os católicos comemoram os santos Cosme e Damião, Mott não deixou de notar a pouca atenção dispensada pelo vigário-geral ao referido ritual dos negros (que articulava elementos africanos e católicos). Para Luiz Mott, a grande preocupação da maioria dos sacerdotes que viviam nas Minas “não era exatamente com o reino dos céus”, e sim, “amealhar o máximo de riqueza aqui mesmo na terra”. O autor também argumenta que somente uma mulher acusada de feitiçaria no Brasil foi enviada para os cárceres da Inquisição. Para ele, “os inquisidores estavam mais interessados em perseguir os abastados judeus e cristãos novos do que gastar tempo e dinheiro com batuques da negrada”53

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No entanto, desde a Idade Média o mundo vinha passando por uma progressiva demonização da existência. Processo que alcançou níveis quase insuportáveis com os jesuítas na época moderna. Estes julgavam as práticas lúdicas e religiosas dos outros, fossem indígenas ou africanos, como aberrações satânicas. No primeiro quartel do século XVIII, Nuno Marques Pereira (o Peregrino da América) realizou a primeira descrição literária que se tem notícia de um calundu54, caracterizando-o como demoníaco55. Também a referida “Dança de Tunda” que, na demonstração de Mott, “apresenta enorme semelhança aos candomblés e xangôs contemporâneos do Nordeste”, foi qualificada de “dança diabólica” que atentava contra a “santa fé católica”56

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Nas ruas da vila de Santo Amaro, Bahia, no natal de 1808, o padre local tentou acabar com as comemorações realizadas à moda africana pelos negros hauças e nagôs, acompanhados de gente “de toda qualidade”. Após se dirigir aos referidos africanos com “zelo apostólico” foi recebido

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“Acotundá ou a Dança de Tunda é o nome de um ritual religioso dedicado ao culto de deus da nação Courá (Lagos, Nigéria), praticado no Arraial de Paracatu (Minas Gerais) e que no ano de 1747 foi desmobilizado por um batalhão de capitães-do-mato perseguidores de negros fugidos.” Ver: MOTT, Luiz R. B. Op. Cit., pp.87-117.

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Calundu é a denominação mais antiga para rituais religiosos de matriz africana realizados no Brasil. Essa denominação já aparece na poesia de Gregório de Matos no século XVII. Ver: CASTRO, Yeda Pessoa de. Falares africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro. Rio de Janeiro: Topbooks Editora, 2001, p.192; SANTOS, Jocélio Telles. “Divertimentos estrondosos...”. Op. cit., p.17; A partir do século XVIII acontece um sensível aumento nas denúncias contra os calundus. Ver: MOTT, Luiz R. B. Op. Cit., p.109.

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SOUZA, Laura de Mello e. Op. Cit., pp.137-145. 56

com “palavras menos decentes” que argumentavam sobre o pouco tempo livre que tinham para se divertir ao contrário dos senhores que dispunham de todo o tempo para o lazer. Dessa maneira, os negros escravizados censuraram a escravidão e a religião católica, uma vez que, continuaram a batucar e dançar além de proferirem obscenidades contra o padre.57 No Rio de Janeiro, Martha Abreu observou que os batuques se intensificaram nas proximidades da Igreja de Santana no dia de sua santa, na segunda metade do século XIX. A autora argumentou que, sob o olhar vigilante de vizinhos e autoridades, os africanos e seus descendentes negociaram seu divertimento e também a possibilidade de recriar determinadas tradições religiosas através dos batuques no dia da santa.58

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