2. Approche expérimentale
2.3 Mesure et traitement des données
Em 1905, ao assumir a cátedra de professor de História na Universidade de Groningen, Holanda, Johan Huizinga viu-se diante de uma árdua tarefa. Como era tradição na academia holandesa, os novos professores deveriam começar a sua atividade docente por uma reflexão e uma tomada de posição pública em relação aos fundamentos da própria disciplina e sobre a tarefa de seu ensinamento. Logo no começo de sua aula, Huizinga se questionava se não seria mais apropriado fazer considerações históricas de ordem geral no final de uma carreira acadêmica, depois de uma “longa e, às vezes, dolorosa jornada”, do que numa aula inaugural. Especialmente no caso da disciplina histórica, “maturidade é um pré-requisito”, afirmava. Em seu caso, todavia, a aula inaugural não significava um desafio apenas no sentido de exigir uma reflexão “prematura” (ou imatura) sobre os traços gerais do conhecimento histórico, mas também, na medida em que a sua trajetória até chegar a esse cargo havia sido de tal forma singular, que lidar com os problemas da compreensão histórica requeria, naquele momento, um estudo de grande fôlego[255].
Huizinga não era um historiador de profissão. Entre a sua infância permeada pelas cores do passado pátrio, por brasões e cavaleiros medievais, até o momento de sua posse no cargo de professor de História em Groningen, um longo intervalo o havia separado dos problemas do conhecimento histórico. Durante a sua juventude ele havia se dedicado aos estudos linguísticos[256] e orientais e era nessas áreas que ele esperava obter reconhecimento acadêmico. Entretanto, por questões pessoais e por influência de seu professor P.J. Blok, ao terminar seu doutorado em 1897,
Huizinga havia se tornado, sem muito entusiasmo, professor de História na Escola Superior de Haarlem. Em relação a esses anos de magistério, ele dizia: “eu era agora um professor de História, mas de maneira nenhuma um historiador”[257]. Segundo sua autobiografia Meu caminho para a
história, escrita em 1943, tornar-se efetivamente um historiador foi algo que se deu somente com a
sua entrada na Universidade de Groningen. Só a partir desse momento ele se sentiu à vontade para afirmar que, depois de uma longa jornada, seu “caminho em direção à história estava então completo”[258].
O tema escolhido para a aula inaugural foi, segundo Huizinga, o resultado de uma “longa consideração”. Surgido de uma intuição que havia tido ainda de forma indefinida, muito tempo antes, foi somente no momento em que teve que escrever a sua aula inaugural que ele decidiu “colocá-la no papel”[259]. Assim, no momento em que teve a oportunidade de apresentar os seus “progressos” a respeito do assunto, seu discurso se tornava, como ele próprio admitia, uma espécie de “confissão de fé”. “Desde há muito tempo uma questão tem dirigido regularmente o rumo de meus pensamentos. [...] Não sei definir essa questão de outro modo a não ser como o ‘elemento estético das representações históricas’”[260]. Interessava-lhe, então, desenvolver a hipótese de que “a compreensão histórica é como uma visão, ou melhor, como uma evocação de imagens [...]”[261]. Não era, no entanto, sobre a ambição da “bela forma” na escrita da história que Huizinga pretendia refletir em sua aula inaugural. Antes, tratava-se de perceber o desempenho da “fantasia e da percepção da beleza”, enfim, da
imaginação histórica na busca do historiador pela compreensão do passado.
Huizinga estava ciente de que a opção por um tema da “teoria da história” levava-o a adentrar num “campo de batalha” onde o “alvoroço polêmico” tornava cada passo perigoso. Se durante um longo tempo a História havia seguido o seu caminho sem ser incomodada, desde o final do século XIX esta ciência teria sido forçada “a dar satisfação a si mesma e aos outros da legitimidade dos seus domínios e da independência da qual gozava”[262]. Huizinga se referia aqui ao debate historiográfico e filosófico em torno do estatuto científico da história que havia suscitado discussões acaloradas na Alemanha no final do século XIX, sobretudo em torno da obra do historiador Karl Lamprecht[263]. No cerne desse debate, que ficou conhecido como Methodenstreit, estavam questões relativas à validade e à especificidade do conhecimento histórico enquanto
conhecimento científico: seria a História “uma disciplina tão distante das ciências naturais nos
problemas, nos métodos, na natureza dos conceitos e na certeza dos seus resultados”, de fato uma ciência?[264]
Diante desse questionamento, parecia haver apenas duas alternativas que, para Huizinga, eram igualmente problemáticas: ou negar à História o estatuto de ciência ou modificar os objetivos e métodos dessa disciplina, fazendo-a assumir as características de uma “ciência exata” capaz de estabelecer “leis históricas de validade geral equivalentes às das ciências naturais”. A última alternativa, que consistia em formular uma “nova história científica”, estaria representada na obra de Karl Lamprecht, História da Alemanha (1891). Sustentando que a tarefa da pesquisa histórica deveria ser o estabelecimento de leis gerais de ordem causal, e que a História deveria se transformar em uma “psicologia social”, Lamprecht teria representado o ingresso do “método positivista na investigação histórica”[265].
Com a intenção de delinear uma severa crítica ao positivismo, assim como traçar uma clara divisão entre a História e as ciências naturais, Huizinga encontrou apoio na “moderna teoria independente das ciências do espírito”, espectro sob o qual reuniu os neokantianos Wilhem Windelband e Henrich Rickert, além de Wilhem Dilthey, Georg Simmel e Eduard Spranger. Esses filósofos, segundo ele, haviam conseguido superar “o esquematismo vazio e os frágeis conceitos de K. Lamprecht”[266] e com isso teriam libertado a história da “soberania das ciências naturais”. Com eles, Huizinga afirmava ter aprendido que a vida histórica nunca poderia ser completamente reduzida a conceitos gerais e que o reconhecimento de uma certa singularidade em todo evento histórico – fora, portanto, de regras sistemáticas preconcebidas – deveria permanecer a principal atividade do historiador. “A tarefa principal da ciência histórica é a indagação dos acontecimentos particulares não como tipos ou casos particulares de uma categoria geral, mas sim por sua importância intrínseca”[267].
Não foi, no entanto, apenas com o intuito de refutar o “positivismo” que Huizinga invocou os filósofos alemães da “teoria das ciências do espírito”. Se esses filósofos haviam ampliado o conceito de ciência a ponto de este incluir também a dimensão subjetiva do trabalho do historiador, restava ainda a tarefa de refletir sobre como essa subjetividade operava na formação do conhecimento histórico. Foi pelo caminho do “elemento estético das representações históricas” que Huizinga explorou essa abertura. “Não é a última vez que irei citar os filósofos da história alemães, dado que me proponho a ressaltar a analogia entre a visão que tenho tentado alcançar desde um ponto de vista estético e os êxitos da teoria do conhecimento”[268]. Segundo Huizinga, foi por intermédio dos resultados desses estudos epistemológicos que a relação fundamental entre história e arte foi reconhecida mais claramente. Se, por um lado, em K. Lamprecht a ideia de que a história era “arte” servia ao propósito derrogatório de anular o caráter científico dos estudos históricos que se dedicavam ao “singular e individual”, e, por outro, no historiador alemão Ernst Berheim, o “momento artístico” do conhecimento histórico se resumia à escrita da história e à “aspiração pela bela forma”, para Huizinga a dimensão estética do conhecimento histórico era entendida como o elemento principal de toda compreensão histórica.
D o conceito de representação na obra de Heinrich Rickert – que reconhecia a presença do elemento “estético” não somente na escrita da História, mas também no “modo de captar o
significado e o vínculo entre os fatos” –, Huizinga extraía a lição de que a atividade do historiador
não poderia ser compreendida como sendo idêntica a uma simples concatenação de dados e fatos verificados criticamente. “O conhecimento histórico nunca é uma soma de noções cronológicas e políticas e a associação de imagens presente na memória nunca é simplesmente uma adição”[269]. Mais do que um mero exercício de crítica ou de exposição descritiva, a representação diria respeito ao fato de que toda percepção da realidade não era apenas uma reprodução, mas uma transformação da realidade em nome de sua compreensibilidade. Contra a crença do realismo histórico de que seria possível reproduzir o passado “tal como ele realmente aconteceu”, Huizinga afirmava que a compreensão histórica, como a “atividade psicológica” própria do historiador, envolvia criar, da “realidade imediata e já vivida”, a “imagem teórica que chamamos história”. “O historiador nunca fotografa o passado: representa-o”[270].
natural-científico no qual prevalecia a tendência para a abstração e para a explicação, no pensamento histórico a tendência era para a representação. Caso a história quisesse “alcançar o seu objetivo, que é reviver o passado, deveria superar com consciência os limites do que é reconhecível por meio de conceitos e fazer surgir ante os olhos do leitor um conjunto claro de representações, em outras palavras, uma imagem” [271]. Somente um observador muito superficial poderia analisar a interpretação histórica como uma explicação puramente intelectual. Em todo estágio das atividades do historiador, na formação dos conceitos e na interpretação dos dados, estaria presente o uso de “funções psíquicas” que estariam muito além de uma “associação de ideias puramente lógicas”[272]. Querer banir esses elementos não racionais que a ciência histórica utilizava para alcançar seu conhecimento seria, segundo Huizinga, apenas uma exagerada tendência para a sistematicidade.
Pode-se perguntar, então, se existiria uma disposição particular que se teria revelado como a mais favorável para o desenvolvimento desse fator irracional da imaginação histórica – fator este considerado tão importante para a compreensão histórica. A resposta, para Huizinga, era evidente: “a sensibilidade estética é a que melhor prepara o campo para a faculdade da imaginação histórica”. Não era sua intenção, contudo, sustentar que o passado deveria ser estudado partindo da história da arte ou que somente por meio das expressões artísticas poder-se-ia entender a “direção do espírito no tempo”. Tratava-se, antes, “de ver refletidas na arte imagens obtidas por um estudo multiforme da tradição, ou de vê-las iluminadas pela arte”[273]. Enquanto indagava o passado, o historiador deveria observar a sua arte e ler sua literatura para aumentar a clareza de sua representação. Nesse sentido, a compreensão histórica teria, para Huizinga, um caráter similar àquele de uma visão: dizia respeito, em grande medida, à habilidade do historiador de evocar imagens nas quais o passado se apresentasse da forma mais autêntica e significativa possível. Sua aposta era de que as criações artísticas poderiam contribuir para a tarefa de “reviver” o passado ao ativar a sensibilidade do historiador para uma melhor compreensão dos fatos históricos[274].
Diante dessa abertura para a dimensão não racional do conhecimento histórico, seria necessário preocupar-se com o fato de que um interesse estético fortemente desenvolvido pudesse prejudicar a pretensão científica do conhecimento histórico? De jeito nenhum, respondia Huizinga. Optar pelo estético, pela visualidade (aanschouwelijkheid) do passado, não implicava, em nenhuma instância, a abolição da dimensão empírica do trabalho do historiador. Huizinga não abria mão de reforçar que a tarefa crítica daquele que se ocupava do estudo do passado deveria ser tratada como uma espécie de compromisso moral: antes de qualquer outro interesse, inclusive aquele estético, deveria vir o interesse ético de “reportar a verdade, ou pelo menos o que ele entende por verdade”. E quanto mais o historiador se mostrasse consciente de “que somente dispõem de um juízo estético”, tanto mais estaria próximo “do ideal da verdade objetiva que repousa em sua alma”[275].
As conclusões sobre o elemento estético das representações históricas foram, em grande medida, o alicerce sobre o qual Huizinga formulou sua concepção particular da tarefa da história e da história da cultura, em particular[276]. Da aula inaugural de 1905 nasceu não somente uma crítica às noções gerais, aos esquemas de desenvolvimento e às “explicações”, como também uma consciência dos riscos aos quais se expõem aqueles que confiam demasiadamente na própria sensibilidade estética[277]. Quanto de sua inclinação para o aspecto visual do passado permaneceria, dependia da
possibilidade de exercer no plano prático do trabalho de historiador as conclusões que haviam nascido de um contato intenso com o neoidealismo alemão na virada do século XIX para o XX.