A língua precisa coincidir ou ao menos conciliar com o contexto em que o falante se encontra, ou seja, ela será adequada se corresponder às expectativas de cada situação de uso. Sobre essa questão, Bachman (2003) aborda que, na competência linguística, existe a classificação em competências organizacional e pragmática, sendo que na organizacional o uso da linguagem para comunicação é obtido pela interação entre as várias competências e o
contexto de uso da língua. Já dentro da competência pragmática encontra-se a competência ilocucionária, a qual apresenta os atos da fala, que são: ato de elocução, ato proposicional e ato ilocucionário, ou seja, o ato de dizer alguma coisa, o ato de envolver referência de algo e a função realizada ao dizer-se algo, respectivamente. A escolha do falante entre os enunciados de variados graus será uma função ilocucionária e, da sensibilidade em relação às características do contexto, este último, fazendo parte da competência sociolinguística. Dessa maneira, há uma distinção entre formas e função no uso discursivo da língua através dos atos da fala, que são realizados em uma situação de fala no meio social.
A partir da sensibilidade sociolinguística, seguida pela naturalidade, é permitido ao usuário formular ou interpretar um enunciado que não é apenas linguisticamente preciso, mas que é também estruturado de maneira semelhante à da fala nativa. Com isso, Bachman (2003) diz que a habilidade de interpretar referências culturais e figuras de linguagem é possível pelo conhecimento de significados que são próprios de uma região, nomes com conotação, nomes com sentido referencial, que se tornam distantes de pessoas que migraram e que, portanto, não estão incluídas na cultura local.
Para Bourdieu (1996), as diferenças surgem pelo confronto dos diferentes falares, pois a variação existe tanto no plano da pronúncia, como no léxico e no nível da gramática. Todo esse conjunto de diferenças é associado às diferenças sociais. Assim, os falares precisam fazer sentido, “[...] uma ordem ou mesmo uma palavra só pode operar quando tem a seu favor a ordem das coisas, pois sua realização depende de todas as relações de ordem que definem a ordem social [...]”. (BOURDIEU, 1996, p. 62). Com isso, nota-se que a língua e o social estão muito próximos em questão de sentido, de adaptação um do outro, encontrando a ideia de habitus estudada pelo autor, onde o que se exprime através do habitus linguístico é todo o habitus da classe social que o falante constitui, isto é, a posição ocupada na estrutura social.
A linguagem pode ser vista sob dois ângulos, um em que se faz o entendimento do que o falante deseja e outro em que é compreendida a mensagem de forma contrária ao que o falante tenta transmitir. Isso se dá em situações vivenciadas numa comunidade social. De acordo com Rajagopalan (1998), ao debater sobre identidade aproximando cada vez mais a língua da identidade social, se a língua se faz presente na comunidade social, ela está em constante evolução, assim a identidade social das pessoas é vista como algo flexível, que pode ir se aperfeiçoando no decorrer do tempo. Sobre essa questão, diz o autor:
A identidade de um indivíduo se constrói na língua e através dela. Isso significa que o indivíduo não tem uma identidade fixa anterior e fora da língua. Além disso, a construção de identidade de um indivíduo na língua e através dela depende do fato
de a própria língua em si ser uma atividade em evolução e vice-versa. Em outras palavras, as identidades da língua e do indivíduo têm implicações mútuas. Isso por sua vez significa que as identidades em questão estão sempre num estado de fluxo [...]. (RAJAGOPALAN, 1998, p. 41-42).
Nas comunidades étnicas, as línguas têm condições de sobrevivência devido às condições que a sociedade lhes oferece (MEY, 1998). Como toda manifestação linguística, o falar é mais complexo que a língua particular, já que, ao falar, mudam-se algumas expressões trazendo-as para perto da região em que se encontra o falante. Para Coseriu (1992), as atividades extralinguísticas acompanham e completam o falar, ou, às vezes podem substituí- lo. Logo, há atividades que não somente acompanham o falar, mas que podem influenciar sobre ele e a competência que corresponde, podendo dar diferentes interpretações ao que se quer transmitir.
O homem e a língua estão mutuamente ligados, segundo Orlandi (1987), nem a sociedade, nem as línguas são modificadas autonomamente, de modo que os atos dos homens são responsáveis para que aconteça a transformação. Com isso a autora deixa claro que “[...] não se pode estudar o ato lingüístico sem estudar o ato social em geral”. (ORLANDI, 1987, p. 106). Santos (1997) faz uma observação semelhante em que aborda a atualização linguística através da estrutura social, além de atribuir também aos padrões de relacionamentos entre os indivíduos, surgindo diferentes registros da língua, isto é, suas variações.
Nos estudos de Weinreich, Labov e Herzog (2006), a linguística é reconhecida como uma ciência social, posto que o elemento que pode variar para explicar a mudança linguística é a mudança social, de maneira que as variações linguísticas são consequências da mudança social. Essa informação se ajusta perfeitamente aos migrantes entrevistados para o presente estudo, valendo-se de que os entrevistados perceberam diferenças linguísticas pelo fato de conhecerem um novo meio social. Os autores, Weinreich, Labov e Herzog (2006, p. 99), mostram que os “[...] estudos empíricos têm confirmado o modelo de um sistema ordenadamente heterogêneo em que a escolha entre alternativas lingüísticas acarreta funções sociais e estilísticas, um sistema que muda acompanhando as mudanças na estrutura social”.
Ao abordar o nível lexical, Robinson (1977) expõe que se podem observar graus de familiaridade ao escolher determinada forma de tratamento em vez de outra. Com a fusão do comportamento com a linguagem há proporções lexicais que destinam ordem ou solicitação em relação ao comportamento alheio. Dessa forma, Robinson (1977, p. 66) observa:
[...] Os enunciados significam o que as pessoa decidem que signifiquem. É verdade que uma análise pormenorizada dos termos constituintes de qualquer provérbio, bem
como da relação que eles tenham entre si, não revelará o sentido idiomático, da mesma forma que as definições do dicionário não aumentarão a probabilidade de alguém entender a oração [...].
No estudo de Robinson (1977), a fala de um indivíduo pode indicar seus sentimentos, assim como, o tipo de personalidade e quem ele é. Mas, pode haver ligação com características da personalidade como inteligência, extroversão, entre outros. Dessa maneira, a fala pode indicar além da identidade pretendida, também a identidade real, já que a fala representa uma das fontes de informações que são relacionadas à identidade social do indivíduo em questão.
Na percepção de Lyons (1987), a personalidade está intimamente ligada à noção de socialização, uma em decorrência da outra, ao menos em partes. Assim, o autor expõe que a personalidade é, parcialmente, “[...] um fenômeno social. Aquilo que chamamos de personalidade é [...] o produto da socialização – o processo pelo qual somos transformados em membros de determinada sociedade e participantes da cultura que a caracteriza [...]”. (LYONS, 1987, p. 206 – grifo do autor).
Antunes (2007) salienta que o fato de a norma culta corresponder à norma socialmente prestigiada não é sinônimo de que ela seja a única representante da língua. Visto que o valor positivo recebido é em função a fatores de ordem socioeconômica e não, necessariamente, a fatores linguísticos, a autora mostra um exemplo: “[...] dizer assistir o jogo ou assistir ao jogo não implica nenhum grau maior ou menor de perfeição lingüística. Se um é considerado mais certo que outro é por mera convenção social, que se sustenta até o dia que os falantes quiserem”. (ANTUNES, 2007, p. 98 – grifos da autora). Assim, a autora aponta que há variações linguísticas, no entanto, existem falantes que sabem o que usar e quando, entretanto, há o oposto. Essas determinações são relacionadas à língua e à situação comunicativa, logo:
[...] ninguém fala o que quer, do jeito que quer, em qualquer lugar. Existem também os bem-comportados e os mal-comportados comunicativamente. Isto é, em toda cultura, prevalece um conjunto de normas que especificam quem pode falar, o quê, como, com quem e quando [...]. (ANTUNES, 2007, p. 63 – grifos da autora).
Outro autor faz uma relação parecida, Vogt (1989) compreende que a linguagem é o espaço no qual o homem existe e no qual o universo convencional dos signos estrutura seu pensamento, constituindo sua cultura. Com as percepções voltadas para a linguagem Moralis (2001) reconhece que o papel da linguagem, principalmente nas atividades ocupacionais, é o de assegurar a manutenção de interação, se bem que é através da comunicação que as pessoas se expressam e se firmam na sua comunidade. Para concluir Goffman (2002) apresenta que as
regras sociais estabelecem a forma como os indivíduos precisam se conduzir no meio, pois estão em grupo, já as regras de convivência organizam socialmente o comportamento dos que estão presentes na situação social e comunicativa.