Larissa Tavares Martins
Mestranda em Patrimônio Cultural; Universidade Federal de Santa Maria; [email protected]
Denise de Souza Saad
Doutora em Engenharia Civil; Universidade Federal de Santa Maria; [email protected]
Resumo: Este trabalho tem por objetivo principal estudar formas de tornar acessíveis os acervos têxteis de instituições culturais que por motivo de conservação não ficam a disposição do público. Este trabalho configura-se como uma pesquisa de caráter investigativo. Pretende-se ampliar a pesquisa na área e despertar estas questões ainda timidamente presentes em nossos espaços museais, levantando questões relevantes sobre a necessidade de preservação dos bens históricos e a importância da acessibilidade de uma instituição. Busca-se destacar a relevância da construção de réplicas táteis, estimulando e ampliando a discussão sobre a acessibilidade em museus, proporcionando que pessoas com necessidades especiais possam ter experiências modificadoras através do tato. A experiência diferenciada de “ver” através do toque, propicia adquirir vivências só obtidas através das réplicas, considerando que grande parte dos museus são espaços marcados por possuírem acervos intocáveis. Como considerações finais, esta investigação identificou que a presença de réplicas em museus, facilita o acesso a informação e contribui para uma experiência diferenciada em relação às peças e a história.
Palavras-chave: Réplicas. Acessibilidade. Museus. Acervos Têxteis. Apresentação
Este estudo iniciou-se na investigação sobre a importância de preservação de acervos têxteis em instituições e a necessidade de serem disponibilizados para pessoas com deficiência visual, ampliando o acesso a ambientes pouco visitados por este público. A proposta de construção de réplicas deste tipo de acervo vem com o intuito de proporcionar que o público tenha uma experiência diferenciada em relação as peças, sendo que através do toque, possam surgir novas descobertas e sensações. Busca-se com a participação mais ativa no museu e a utilização de réplicas táteis, facilitar o acesso ao conhecimento e a cultura, aproximando todos os tipos de públicos, independente de idade ou condição física, para estes locais educativo- culturais.
Esta pesquisa tem o objetivo de estudar formas de tornar acessíveis os acervos têxteis de instituições culturais que por motivo de conservação não ficam a disposição do público. Como objetivos específicos, o estudo pretende discutir a importância da preservação dos acervos
históricos; mostrar a possibilidade de aproximar este público das peças replicadas; desenvolver o assunto em torno do conceito sobre a réplica.
Como problemática este estudo procura investigar a importância da réplica e de todas as experiências através do tato. Contudo, a réplica é uma forma de aproximar o público visitante das peças e história de uma instituição museológica?
Parte-se da hipótese que poucos museus trabalham com peças táteis, onde boa parte utiliza obras originais - que o material permite o toque – ou realizam maquetes e réplica de obras de arte. A proposta que se quer discutir é a réplica de trajes e acessórios de vestuário, destacando a tridimensionalidade das peças e a questão inovadora sobre o tema. Observou-se também que a presença de réplicas em instituições e a forma de tornar acessíveis estas peças, são debates recentes, havendo poucas publicações sobre o tema.
Justifica-se que grande parte dos museus nacionais não possuem espaços acessíveis e disponibilizados para todos os públicos. A necessidade de se criar formas alternativas de expor peças que são consideradas intocáveis, surgiu com a possibilidade de construção de réplicas. Estas peças devem ser expostas de maneira que atendam as necessidades do público especial e até de outros tipos de públicos que tem a curiosidade de tocar em alguns acervos da instituição. A importância da acessibilidade e da conservação dos acervos.
Para este estudo, utiliza-se o conceito sobre réplicas de duas formas diferentes, sendo que a primeira destaca a importância para a acessibilidade de uma instituição e acervo e a segunda, destaca a necessidade de conservação dos bens históricos expostos para o público.
Em relação à importância da acessibilidade, priorizando tornar acessíveis os acervos e não só o prédio que sedia a instituição, busca-se destacar a relevância da construção de réplicas táteis, estimulando que pessoas com necessidades especiais possam ter experiências modificadoras através do tato. A experiência diferenciada de “ver” através do toque, propicia adquirir vivências só obtidas através das réplicas, considerando que grande parte dos museus são espaços marcados por possuírem acervos intocáveis.
Conforme a Lei 11.904 de janeiro de 2009, que institui o Estatuto de Museus, destaca em relação ao acesso, que os museus deverão proporcionar a “acessibilidade universal de diferentes públicos, na forma da legislação vigente.” (Lei 11.904, 2009). Ações educativas realizadas em museus e instituições são formas de reunir uma comunidade em torno de algo, buscando “entender e transformar a realidade que nos cerca” (IPHAN).
A participação da comunidade e o diálogo entre os diferentes agentes da sociedade, é que o museu deve proporcionar, promovendo a formação de públicos diversos e com necessidades específicas.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1% da população mundial apresenta algum tipo de deficiência visual1 (http://www.abcegos.org.br/deficiencia-visual/,
(IBGE), existem mais de 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual, sendo 500 mil cegas e 6 milhões com baixa visão (G1 Brasil – www.g1.globo.com, 2012). A deficiência visual foi a que apresentou a maior ocorrência entre a população brasileira.
Com este elevado número, há a necessidade de inclusão e políticas de acessibilidade, inclusive em ambientes educativo-culturais como museus.
Há alguns anos, projetos expositivos, de revitalização ou criação de museus já agregam, desde a sua concepção, ações de acessibilidade, por meio de audioguias, legendas em braille, seleção de objetos originais ou réplicas de obras disponíveis para o toque, e maquetes ou plantas táteis da exposição ou do edifício sede. Todas essas iniciativas aproximam o público especial do museu e, ao mesmo tempo, proporcionam ao visitante comum novas experiências de convivência e interação (TOJAL, 2010a, p. 08).
Para que se tenha acesso aos acervos expostos em museus, pretende-se com as réplicas possibilitar que as pessoas deficientes visuais possam tocar nas peças, destacando o caráter didático da proposta. Evidencia-se também a importância de áudio descrições das peças e local expositivo, facilitando descrever com mais detalhes todas as questões relevantes de cada objeto e história.
As questões de acessibilidade em museus brasileiros foram iniciadas em meados da década de 1980. O Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP) foi a pioneira em realizar iniciativas que tinham o objetivo de expor esculturas originais de seu acervo para o público com deficiência visual.
A Pinacoteca de São Paulo desenvolve desde 2003 o Programa Educativo para Públicos Especiais (PEPE), “considerado uma referência em acessibilidade e ação educativa inclusiva para públicos especiais no atual cenário museológico brasileiro” (TOJAL, 2010b, p. 12). O programa promove o “acesso de grupos de pessoas com deficiências sensoriais, físicas, intelectuais e transtornos mentais à Pinacoteca, por meio de uma série de abordagens e recursos multissensoriais” (http://www.pinacoteca.org.br/).
Para garantir a visitação do público com deficiência visual foi desenvolvida a Galeria Tátil de Esculturas Brasileiras, onde os visitantes podem interagir com as obras selecionadas. Em geral, as peças são escolhidas antecipadamente, atendendo as práticas de conservação.
As informações e atividades propostas estão baseadas nas ações desenvolvidas pelo Núcleo de Ação Educativa (NAE) da Pinacoteca. Os objetivos do Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca estão voltados a desenvolver ações educativas a partir das obras do acervo, promover a qualidade da experiência do público no contato com as obras, garantir a ampla acessibilidade ao museu, além de incluir aquelas pessoas que habitualmente não são frequentadoras, e incentivá-las à visitação (http://www.pinacoteca.org.br/).
1 De acordo com estudo realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em 2011, a população
estimada com deficiência visual no mundo é de 285 milhões, sendo 39 milhões cegos e 246 milhões com baixa visão (LARAMARA, s/d).
Segundo salienta Danièle Giraudy e Henri Bouilhet, tinha-se a falsa ideia que o museu era uma obrigação cultural tediosa, onde as obras-primas são “cuidadosamente resguardadas por vitrines ou cordões vermelhos, protegidos por molduras douradas, dissimuladas atrás dos reflexos e da poeira” (GIRAUDY; BOUILHET, 1990, p. 11).
Não mais tedioso, o museu atualmente tem o intuito de comunicar, informar e disponibilizar toda a informação, buscando através da educação e da cultura, atender toda a comunidade, proporcionando o acesso ao conhecimento e novas experiências.
A interação do público em um museu, fazendo dele um local atrativo, é um ponto importante que deve ser enfocado. Em relação à conservação preventiva dos objetos, destaca-se a proibição e o contato direto da peça com o público, mas segundo Ceres Storchi (2002), “[...] o tato é uma das maneiras mais eficientes para se conhecer, entender e sentir os objetos, pela sua conservação, esses são mostrados afastados do observador” (STORCHI, 2002, p. 120).
Foi detectado que experiências táteis ou multissensoriais melhoram significativamente a experiência no museu, oferecem mais acessibilidade ao conteúdo expositivo e representam uma parte muito agradável da visita. Para os cegos ou para aqueles que possuem baixa visão, essas experiências representam o principal método de acessar uma exposição. Participantes com essas deficiências aproveitam muito quaisquer oportunidades de tocar objetos (ou réplicas) e sentem que isso faz uma visita ao museu valer a pena (LANDMAN, 2005, p. 40 apud TOJAL, 2010a, p. 14).
A réplica de algumas peças expostas para o público, proporcionaria ao visitante um maior contato com a história e uma maior intimidade com a peça. Para o público com deficiência visual, a réplica propiciaria o contato através do toque e de sistemas de audiodescrições, sendo uma ponte entre o real e o imaginário. Para Juahani Pallasmaa (2011), “O olho é o órgão da distância e da separação, enquanto o tato é o sentido da proximidade, intimidade e afeição. O olho analisa, controla e investiga, ao passo que o toque aproxima e acaricia” (PALLASMAA, 2011).
Ações de inclusão possibilitam que as atividades, inclusive de comunicação do museu, possam ser mais diversificadas, procurando estimular e ampliar a discussão sobre acessibilidade e as réplicas em instituições. Os museus que optarem por possuir peças de acervo replicadas, se diferenciam de outras instituições tradicionais e ampliam os ambientes de visitação de pessoas com necessidades especiais.
“É proibido tocar, [...] é proibido aproximar-se, é proibido fotografar, é proibido rir... [...]” (GIRAUDY; BOUILHET, 1990, p. 13). Estas são atitudes que a cada dia mais, estão sendo repensadas. A conservação de acervos históricos deve estar na base da gestão de acervos em museus, mas sempre buscando equilibrar o tripé entre salvaguardar, pesquisar e comunicar. A questão sobre o “proibido tocar” faz referência à impossibilidade de tocar em grande parte das peças históricas em instituições, sendo que para a conservação preventiva, este tipo de atitude é imprescindível, e somente deve ser realizado por pessoal qualificado para tal função. Muitos autores defendem a necessidade de acesso aos acervos, mas desconhecem os verdadeiros impedimentos em relação ao toque e conservação de algumas das peças. Não se quer colocar em patamares diferentes o público e o acervo, mas descobrir formas de atender, com a mesma
Fausto Viana e Luz Neira (2010), esclarece que a necessidade de preservação tem como principal intuito “possibilitar que gerações futuras usufruam dos mesmos recursos naturais que possuímos” (VIANA; NEIRA, 2010, p. 212). É com este intuito que a réplica ganha cada vez mais força e adeptos em museus locais e nacionais. Segundo os mesmos autores, um manuseio cuidadoso é elemento chave no cuidado com os acervos; “não permitir que pessoas estranhas fiquem manuseando os objetos” (VIANA; NEIRA, 2010, p. 230).
Destaca-se sempre que as coleções de museus, nunca devem ser vestidas: Este tipo de uso nunca se justifica. O dano permanentemente causado, não vale o risco. Sugerem sempre o “uso de réplicas feitas com base no material do acervo” (VIANA; NEIRA, 2010, p. 229). Os trajes utilizados para fins teatrais ou educativos, em cortejos cívicos ou representações, devem ser réplicas (FRENCH; HEIBERGER; BALL, 2005, p. 72).
A Proposta de Réplica do Acervo Têxtil
A réplica de qualquer bem de uma instituição é uma tarefa desafiadora. O objetivo principal, não é substituir uma peça original pela réplica, mas sim, construir uma peça que seja versátil, e que possa ser utilizada para várias finalidades.
A construção de réplicas que possam ficar a disposição do público, aproxima os visitantes das peças e consequentemente do contato com a história, despertando um maior conhecimento, sobre o vestuário, época, sociedade entre outros.
A réplica conta também, com a finalidade de aproximar a história das pessoas que tenham necessidades especiais e que nunca visitaram o museu, sendo uma proposta inovadora. Seria uma peça que ficaria à disposição, para que possa ser tocado e/ou vestida, tornando mais próxima, à história do museu e a realidade dos visitantes.
Mário Chagas (2006), discute o tema inovador, que é a proposta não alcançada do plano de um Museu de Reproduções. Este era um assunto novo para a época, na medida em que rompe com o original e “eleva a réplica (ou reprodução) à condição de objeto museal” (CHAGAS, 2006, p. 77). Para Chagas (2006) “O Museu de Reproduções radicalizava o debate em torno do falso e do verdadeiro, da réplica e do original, da imitação e do autêntico, do valor informativo e do valor aurático enquanto categorias definidoras do acervo museal” (CHAGAS, 2006, p. 77).
Conforme salienta Luz (2002), “a reprodução fiel [...] seria uma medida sensata, preventiva e até louvável” (LUZ, 2002, p. 245). Para ele, a réplica fidedigna, com sentido educativo ou visando preservar o original, é bem-vinda.
A proposta da discussão sobre a réplica de acervos têxteis, foram aprimoradas a partir do Projeto Replicar (USP). Como afirma Teresa Cristina Toledo de Paula, replicar indumentária histórica no Brasil, é uma questão inovadora, mas é uma forma de divulgar esta prática e a discussão sobre a presença de réplicas em instituições.
O assunto sobre réplicas e autenticidade em coleções, é um campo que possui muitos questionamentos, mas um assunto com muitas possibilidades de conhecimento. Em alguns períodos históricos, sempre se ouviu falar sobre este tema, como afirma Brandi (2004): “Não se poderiam excluir da história da falsificação o uso e a produção de cópias, réplicas e imitações” (BRANDI, 2004, p.118).
A questão que se quer discutir não diz respeito à influência do autentico ou não na percepção da obra, mas aproximar as questões referentes aos modos de ver as obras, complementando o entendimento sobre a história e ampliando a forma de compreender certas questões. A proposta de construção de réplicas com a finalidade de servir à acessibilidade tem caráter didático, auxiliando na percepção sobre a história da indumentária, texturas e a aproximação à história.
Considerações Finais
Como considerações finais, observa-se que esta investigação, bem como a proposta de réplicas de algumas peças de vestuário, contribuirá para o aprofundamento do debate sobre a importância da preservação de artefatos históricos em museus, enquanto patrimônio cultural das cidades, mas também pertencente à memória individual e coletiva de uma sociedade. Conclui- se que a interação em um museu, fazendo dele um local atrativo, é um ponto importante que deve ser enfocado. A presença de réplicas em museus facilita o acesso à informação e contribui para uma experiência diferenciada em relação às peças e a história. A réplica de algumas peças expostas para o público proporciona ao visitante um maior contato com a história e uma maior intimidade com a peça.
Os acervos têxteis e acessórios são fontes ricas de informação e cultura, pois possibilitam que através destas peças, possa ser narrada a história e representada à memória de uma sociedade. Os vestuários trazem com eles, muitas questões e indagações, que são carregadas de mistérios, curiosidades e descobertas.
A visitação das pessoas deficientes visuais em ambientes como museus, e a possibilidade de tocar nas peças têxteis, proporciona uma experiência diferenciada, pois aproxima e insere a sociedade nas mais diversas ações educativo-culturais, onde o museu passa a ser um local atrativo, proporcionando aos visitantes uma experiência diversificada e inovadora.
Referências
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