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A partir dos resultados quantitativos obtidos com amostras de língua falada da segunda metade do século XX, temos uma base empírica forte para afirmar que o objeto indireto está sendo reanalisado no PB, no sentido de se apresentar preferencialmente como um sintagma preposicionado, introduzido por para. Além disso, os resultados relativos aos dados de língua escrita, para o mesmo período, revelam que o processo de substituição da preposição a por para, já consolidado na fala, também se encontra bastante avançado no uso escrito.

Ao contrário, os resultados quantitativos referentes aos séculos XVIII e XIX mostram ainda a predominância da preposição a com os complementos dos verbos ditransitivos e o uso dos clíticos dativos de 3a pessoa. Como interpretar tais resultados? Que validade lhes poderia ser atribuída? A hipótese que nos ocorre é a de que a gramática dos autores dos textos históricos examinados evidencia que ainda não estariam em andamento as reanálises gramaticais que hoje identificam a variante brasileira do português. Esta não é a única hipótese, porém. Mais provável é que os dados históricos estejam revelando a dependência da língua escrita aos padrões lusitanos por seu valor sociolingüístico. Ou seja, os resultados quantitativos obtidos não evidenciam obrigatoriamente que as reanálises gramaticais na manifestação do complemento dativo já não fizessem parte da competência lingüística dos falantes, nos dois períodos em estudo. É bem possível que já estivessem se manifestando na oralidade, mesmo entre os indivíduos com um certo grau de escolaridade. Seguindo a teoria da coexistência de gramáticas, formulada por Kroch (1994), podemos supor que durante os séculos XVIII e XIX, os falantes cultos internalizam gramáticas em competição: uma delas, de prestígio,

reflete os usos cultos lusitanos, e se manifesta na língua escrita; a outra, é expressiva do vernáculo. Seria necessário, porém, que buscássemos no corpus estudado outros aspectos gramaticais do PB que dessem sustentação a essa hipótese.

No PB atual, os estudos quantitativos que contemplam a língua falada em diferentes faixas etárias e níveis de escolaridade mostram que a competição entre as formas a e para e a competição entre os clíticos anafóricos e formas pronominais fortes apresentam um percurso que se resolve pela predominância das formas inovadoras. O caso particular da modalidade escrita e, nesta, a diferença entre os textos mais formais e menos formais, pode caracterizar ainda, como dissemos, uma situação de diglossia, ou seja, a internalização de gramáticas distintas, com um estatuto sociolingüístico particular.42

Por outro lado, a visão laboviana de regra variável nos permite considerar que, embora com todos os aspectos avaliados a distribuição das preposições se mantenha próxima dos índices gerais, o cálculo de peso relativo identifica para os séculos XVIII e XIX alguns contextos que se associam mais fortemente ao uso da preposição a ou de sua concorrente. Estes é que seriam considerados os pontos frágeis da estrutura por onde a substituição teria começado. Um primeiro caso é o de verbos que podem ser construídos ou com um complemento [+humano] / [+animado] ou com um complemento [+locativo] que, na tipologia que adotamos, são chamados de verbos de transferência material e de movimento físico, como remeter, enviar, levar, trazer.

Notou-se, na análise, que a preposição a predomina quando o complemento inclui um referente humano. Quando, porém, o referente indica um lugar, as chances de termos a preposição para encabeçando o complemento aumentam expressivamente, como podemos ver na tabela 3, que apresenta resultados dos dados do século XIX:

Tabela 3 42 Para uma discussão relacionada ao tópico, cf. Torres-Morais (2002).

Preposição

A

PARA

Natureza do referente

%

PR

%

PR

Humano

99%

0.60

1%

0.40

Locativo

92%

0.08

8%

0.92

Os dois exemplos abaixo ilustram essa associação:

(23) a. ... Foi remettido a um senhor Negociante desta Cidade um caxóte de livros... (O Farol Paulistano, 11 de março de 1830)

b. Remette-se para qualquer ponto de Estrada de ferro. Cal, cimento, telhas. (O Farol Paulistano, 11 de março de 1830)

Há muita variação, porém, com o argumento locativo. Um caso interessante é o do exemplo (24), encontrado nos anúncios, que revela a co-ocorrência dos usos locativo e dativo da preposição a, com o verbo de movimento físico levar:

(24) Quem o prender e levar a Taubaté á Antonio Joaquim da Silva ou á João Evangelista da Costa Marcondes, será generosamente gratificado. Taubaté, 6 de Outubro de 1879. Antonio Joaquim da Silva. (A Constituinte, 08 de outubro de 1879)

Em outros casos, embora o locativo co-ocorra com o dativo, é introduzido pela preposição em:

(25) Fugiu no dia 1o de Abril, ao abaixo assignado, o escravo de nome Pio... Quem o aprehender e levar a seu senhor em sua fazenda, perto da estação dos Vallinhos será bem gratificado. Pedro Americo G. Andrade. (Gazeta de Campinas, 28 de abril de 1872) A correlação entre, por um lado, o traço [humano] e a preposição a, e, por outro, o traço [locativo] e a preposição para continua válida nos dados escritos da segunda metade do século XX; no entanto, o processo de gradual substituição de a por para fica evidente na medida em que esta preposição passa a ter um emprego bastante mais significativo com complementos com referente humano entre os dados do final do século, como ilustram a figura 3 e os exemplos em (26).

Figura 3

Freqüência depara, segundo a natureza do referente, na 2a. metade do séc. XX

47% 76% 22% 55% 0% 20% 40% 60% 80% Anos 60-70 Anos 95-2000 locativo humano

(26) a. A tecnologia japonesa traz para você sua última imagem: fujichrome Cromo para profissionais, com granulação excepcionalmente fina.(Revista ÍrisFoto, jan/ fev., 1995)

b. Meu irmão manda todas as edições de Viva Mais! para mim, aqui em Angola. A revista é ótima. (Viva Mais!,15/9/2000)

c. Na edição especial CAPRICHO/Férias, seção passatempo nós pedimos para as meninas montarem um retrato falado. Foi a maior curtição e resolvemos mostrar alguns para vocês. (Capricho, 04/1995)

Em relação aos exemplos do século XVIII, no caso de (16a) (“conduziam a prata para as suas aldeias”), não temos um objeto indireto, mas um complemento oblíquo locativo. No entanto, a co-existência com construções como (17a-b) (“escrever para a frota” e “disera para os q’ vinhao na cometiva”) sugere que podem ter sido esses verbos com mais de uma possibilidade de construção que tenham sido os primeiros as serem afetados pela mudança que levou ao uso de para na expressão dos dativos de modo predominante no PB atual.

Esse tipo de ocorrência também leva a uma outra reflexão. A interpretação [+ humano/+animado] dos complementos indiretos dos predicados ditransitivos pode, embora não necessariamente, ser interpretado acessoriamente como um beneficiário. Ao remeter, levar ou trazer algo para alguém, pode estar implícita tal interpretação. Ora, esse valor semântico já podia ser marcado pela preposição para, como atestam os exemplos abaixo, do período arcaico (27a) e período moderno – teatro do século XIX (27b). (27) a. Ho avarento faz tesouro, e nom ssabe pera quem o guarda. (Fabul.,fab.,42)

b. (...) Não ha como as viúvas! Foi para mim que ela anichou estes versos dentro da mimosa luva! (Simões Lopes, A Viúva Pitorra,1896)

Assim, a interpretação beneficiário, característica dos constituintes introduzidos pela preposição para, pode ter representado uma condição favorável à substituição de a por para com certos verbos de movimento que selecionam um argumento meta/recipiente.

Posteriormente, esse processo acaba por atingir objetos indiretos que não poderiam receber a interpretação [locativo], mas que são sempre [+humano], como os complementos de verbos de transferência verbal ou perceptual. É o que se observa na análise dos dados de língua escrita da segunda metade do século XX: entre os dados

dos anos 60-70, 91% dos casos ocorrem introduzidos pela preposição a; já nos dados dos anos 95-2000, o emprego de a corresponde a apenas 55% das ocorrências. Se a preposição para ainda não predomina nesse contexto na língua escrita, ela já entra “em condições de igualdade” na construção do complemento (cf. 28).

(28) a. Que tal anunciar o seu produto para uma torcida de 15 milhões de ouvintes fanáticos por consumo? (Capricho, 03/1996)

b. A Capricho perguntou para trinta meninos, de 14 a 18 anos, se eles são ou não influ- enciados pelos amigos. O resultado foi 10% sim x 90% não. (Capricho, 02/1996) c. Coisas para você fazer: dizer para ele que está completamente apaixonada. (Capricho, 03/1996)

O segundo aspecto que se destacou na análise foi a oposição entre o caráter concreto ou abstrato da situação descrita. Quando a construção descreve uma situação entendida como ‘abstrata’, observou-se uma grande probabilidade de ocorrência da preposição a, nos dados do século XIX (peso relativo de 0.89). Esse índice cai para 0.31 quando a situação descrita se caracteriza como ‘concreta’. Embora o contraste entre os índices não seja tão acentuado nos dados de língua escrita da segunda metade do século XX, as correlações se mantêm: a preposição a apresenta uma possibilidade de ocorrência entre 0.6 e 0.7, quando a situação é identificada como ‘abstrata’, e entre 0.35 e 0.4 quando temos uma situação ‘concreta’. Os exemplos (29a-c) ilustram as construções identificadas como ‘abstratas’:

(29) a. “levar ao conhecimento das autoridades” b. “oferecer vantagens a seus possuidores”

c. “confiar a educação dos seus filhos a moços bem procedidos”

O sentido mais concreto ou mais abstrato de uma construção depende da natureza dos elementos que a compõem, do modo como, nessa composição, um elemento atua sobre a natureza semântica do outro. Nos complementos preposicionados analisados, o N, como núcleo do NP que compõe o objeto indireto, é em boa parte responsável pela definição desse sentido, mas também contam a natureza do sujeito, agentivo ou não, e do objeto direto (quando presente), como mostram (29b-c).

A forte associação entre ‘situação abstrata’ e a preposição a não impede a ocorrência da preposição para nesse contexto. Mesmo nesse espaço há variação (30a-b) e ela é extremamente significativa. Considerando o papel preponderante da preposição para

no PB atual, o fato de encontrarmos o seu emprego em textos do século XIX não só em construções que descrevem situações concretas, mas também para marcar um dativo em uma situação abstrata é indício do encaminhamento que o processo de substituição deve ter tomado.

(30) a. “proporciona ao fazendeiro uma grande economia de tempo.” b. “já proporcionou para o fazendeiro uma economia.”

(Correio Paulistano, 27 de fevereiro de 1889)

Ilustrativo dessa tendência e dessas relações é o resultado da análise de objetos indiretos complementos de verbos de transferência material (dar, remeter) nos dados de língua escrita da segunda metade do século XX. Correlacionando a variação da preposição introdutora da função com a natureza [± concreta] do objeto direto, observamos que casos como (31b) se tornarão bem mais freqüentes, mesmo no uso escrito (cf. tabela 4 e exemplos (31)).

Tabela 4: Freqüência de para com OIs de verbos de transferência material, segundo a concretude do OD. (31) a. O Kumon dá um belo apoio para nós, orientadoras, o material é programado e

de excelente qualidade e estamos sempre nos reciclando.(Cláudia, 02/1997) b. O SCI é o maior banco de dados de informações comerciais da América Latina. Não é à toa que fornece informações atualizadas sobre o perfil de pessoas e empresas em qualquer lugar do Brasil, para mais de 25.000 empresas filiadas. (Veja, 8/10/1997)

Preposição OD concreto OD não-concreto

Período Anos 60-70 33% (12/36) 15% (5/34) Anos 95-2000 86% (25/29) 39% (9/23)

c. Milleto é uma linha de puro óleo e creme vegetal que oferece para você o melhor do milho com qualidade e sabor para uma alimentação leve e equilibrada. (Criativa,03/1995) Por outro lado, fica caracterizado qual é o ‘nicho’ de manutenção da preposição a, que ainda apresenta percentuais significativos de uso em enunciados com um sentido geral, que podemos tentativamente caracterizar como meta/recipiente, tal como ilustram os exemplos (32).

(32) a. A NEC está sempre desenvolvendo novos computadores mais rápidos e versáteis, preparados, inclusive, para oferecer muito mais recursos às telecomuni- cações. (Veja, 8/10/1999)

b. Acho a história de meu avô muito triste. Sonho em dar a ele a alegria de reen- contrar os irmãos. (Viva Mais!, 3/11/2000)

c. Para ser líder mundial neste segmento, a Tupperware pensou em tudo. Só ela dá 10 anos de garantia aos produtos que fabrica, o que a torna incomparável. (Cláudia, 13/03/1998)

4. “Alternância dativa” no português

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