matar uma pessoa. Temos ainda a força das águas, da terra, do raio, do vento (também potencialmente perigosa).
A í fo i que ele descobriu o cipó. D aí pra frente seguiu a tradição do cipó. Foi ela falando com ele que ela fazia parte, muitas vezes de um bom exemplo, muitas vezes na mesma época um mau exemplo. Tem pessoa que usa o cipó com bom exemplo. Tem pessoa, tipo uma oração, num tem pessoa que segue uma oração com bom exemplo, tem pessoa que segue pra fazer coisa ruim. Essa é a história do cipô’ (Genivaldo).
Creio que vale a pena realçar algumas semelhanças entre os dois mitos acima. A principal delas, que mais me saltou os olhos, foi a comparação do uso de substâncias inebriantes, no primeiro caso a caiçúma, e no segundo o próprio cipó, com orações, com atitudes religiosas brancas. A grade maioria dos Manchineri que conheci tinham sido batizados na Igreja Católica. Quando não também nas protestantes, pois por muitos anos o Jatobá abrigou uma missão evangélica. Disto emerge a conclusão um tanto óbvia da presença das práticas das religiões ocidentais, assimiladas pelos Manchineri e incorporadas nas suas narrativas. Isso se mistura à noção uma tão presente entre povos ameríndios, quando os mundos de outros seres estão em contato íntimo e mais, interpenetram o mundo humano. Espíritos e o próprio cipó se comunicam livremente com os pajés.
A seguir temos duas iniciações. Ambas conferidas por parentes-animais. No primeiro mito um ser ctônico transporta o humano para um outro universo, onde ele é preparado, transformado num caçador. Como contei no capítulo anterior, o período de iniciação dos jovens, seja para se tomarem bons caçadores, seja para se tomarem pajés, eram um processo gradual de aprendizagem que durava bastante tempo. O Lauro fala de algo em torno de um ano. Genivaldo outro tanto. E, principalmente no caso da formação dos grandes caçadores, era o avô que cuidava do neto. E estes itens se repetem: o sujeito panema permanece um ano em companhia de seu avô tatu.
O encontro dos dois se dá de forma casual, quando em uma caçada infrutífera, encontra o tatu, cavando. O homem agarra-se no rabo do tatu e é levado até o mundo subterrâneo dele, onde outras aves cantam de forma distinta da que ele está acostumado, era um mundo diferente enfim. Após um ano andando por este outro mundo - o que em um dado momento é dito claramente ao aprendiz - o tatu avisa ao homem que ele havia morrido, mas que agora havia acabado o tempo da viajem, que ele deveria retomar para sua família. Ao voltar contudo o homem agora vem
transformado, havia morrido e renascido. Apenas o pajé local o reconhece. A partir deste ponto o homem toma-se um bom caçador.
Os mitos sugerem ainda um período de afastamento do convívio social, algo que, ao que pude perceber, não ocorre atualmente, seja por falta de tempo, seja por falta de recursos. O neófito era afastado de seus parentes, de sua casa, e depois retomava transformado, a ponto de se tomar ‘irreconhecível’ para os seus, uma vez que ele não era mais o mesmo, havia morrido anteriormente e estava sujeito a morrer de novo caso revelasse o que se passou durante seu tempo no outro mundo. Um pacto de silêncio para que toda uma mística em tomo da preparação pudesse ser mantida.
“Essa história é de um índio que era desprezado pelos outros. Ele caçava mas não conseguia matar nada. Então chegando o tempo pra ele, ele fo i caçar até que encontrou um tatu canastra. Ele tava cavando e ele já vinha de volta da caçada. A í ele pensou com ele mesmo: ‘quem sabe eu não vou m e agarrar no rabo deste tatu pra ver se eu vou acompanhar ele A í o tatu voltou pra jogar a terra pra fora do buraco. A í ele agarrou no rabo do tatu, a í o tatu também num fe z caso, aí ele saiu puxando ele chão adentro, aí quando chegou onde ele tava cavando ele se virou, se virou e perguntou o que era aquilo que ele tava fazendo. A í ele respondeu pro tatu que ele tinha resolvido acompanhar ele. Então o tatu se virou e disse ‘você quer andar mais eu?’ Ele disse que queria. O tatu passou a mão no sovaco e mandou ele fechar os olhos e fe z ele cheirar. A í quando ele abriu os olhos na mente dele clareou tudo. A í ele disse ‘aqui é meu caminho pra ir pro outro mundo. A í era um caminho pra ele andar. Aonde eu vou, só eu conheço, outra pessoa não conhece. A í ele saiu com ele, quando chegou no ponto que o tatu tava destinado a ir, aí ele achou tão importante lá que viu os bichos cantando, ele achou muito bonito mas ele achou diferente, diferente, por que até os cantos dos bichos era diferente. Então ele passou um ano mais ele andando. Quando chegou o tempo aí o tatu disse ‘olha m eti neto, a tua família tá preocupada, sente saudade, pra eles você não existe mais, você já morreu, então eu vou te deixar. A í quando chegou o dia ele fo i e voltou mais ele, pelo mesmo caminho, para ele era um caminho, mas no caso era um
buraco. A í quando ele chegou aonde ele tinha juntado com o tatu ele disse ‘é aqui, daqui você vai pra tua casa, mas quando chegar lá você num vai contar como fo i que você passou durante esse tempo, durante o ano, se não você vai morrer’. Como aconteceu, quando ele chegou, ele chegou mesmo virado tatu- canastra. Quando fo i o dia pra ele chegar tinha um pajé que disse pra família dele ‘olha, teu marido vai chegar, ele vai voltar, ele não tá morto, ele não morreu ’. Quando chegou o dito dia ele chegou mesmo, mas ele vinha virado um tatu-canastra. Quando ele chegou e a mulher dele gritou e os meninos também, e diziam ‘olha lá vem o tatu!’ A í os outros homens iam matar ele e o pajé que sabia de tudo disse pra não matar, que ele era o índio, que ele não era mais como quando ele saiu dali, que ele já vinha preparado. Ele chegou acabou a moleza, agora ele já não dava mais caçada perdida” (Raimundo).
No segundo caso contudo a iniciação foi precoce, o que ocasionou um ‘trauma’ no menino, que não mais desejava caçar. A caça de espera é muito utilizada pelos Manchineri. O homem sai de casa a tardinha, caminha até o ponto de espera, arma sua rede e simplesmente aguarda que os bichos cheguem. Em geral isto se dá sob árvores com frutos ou na beira de igarapés. O mito serve então de advertência a jovens inexperientes que desejam desenvolver este tipo de atividade antes do tempo certo, antes de dominarem o medo da mata, da escuridão, antes de estar preparado, como na primeira história.
“ Um menino disse que era gente, mas num era gente não, era anta. D isse que ele fo i pro mato. A í um menino disse ‘eu vou pra mato mais tu, vai mata nambú, eu vou mais tu ’. A í disse que o menino besta coitado, saiu mais ele.
Quando chegou mais ali na frente virou uma anta. A í a anta andou a noite todinha e o menino sofrendo. A í quando ele pegou chorar a anta disse ‘va’mbora, o dia tá claro! Num tá vendo o sol tá quente’. ‘Não, tá escuro, eu num tô vendo nada!’ ‘Bem que eu num queria que tu vinha m ais eu. Eu ando só assim de noite, o dia tá claro!’ A í disse que ele pegava só assim jabuti, disse ‘aí o jabuti aí no balseiro, vai buscar’ ‘aonde?’ ‘aí, num tá vendo aí não?’ ‘num tô vendo jabuti não’ ‘tá aí no balseiro m enino!’ Disse que ele mesmo fo i buscar.
‘Agora vai buscar cipó pra amarrar o ja b u ti’. ‘Aonde eu acho de noite?’ ‘A i tem um, m e dá o terçado ’. Amarrou o jabuti. Era anta de noite que anda. M ais era gente quando chegava na casa dele. Chegava com porquinho, veado, jabuti. Quando chegava disse que botava ali pra mulher tratar, e ele ia deitar, passava o dia dormindo. Quando era seis horas aí disse ‘agora vou de novo ’. A í o menino disse ‘vou nada! Agora vou mais não!’ A í disse que a mãe do menino disse ‘você num vai mais ele não?’ ‘Vou não, é de noite que ele anda’ M as ele enxergava porque a vida dele é assiní'' (Dona Celestina).