Neste momento, objetiva-se fazer uma análise exploratória do documento de Pluralidade Cultural dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), identificando o conceito de tolerância no documento, bem como à quais matrizes teóricas o conceito está vinculado.
O documento de pluralidade cultural inicia com uma breve apresentação sobre a temática. Nesta apresentação descreve-se que o documento preocupa-se em apresentar o Brasil como um país plural e rico em diversidade e, ao mesmo tempo, seu histórico de preconceito, discriminação e exclusão social, a fim de contribuir para um processo de formação educativa que esteja comprometida com a superação dessa discriminação e exclusão. Salientou-se a importância da flexibilização dos educadores em relação aos currículos, projetos e conteúdos, de acordo com suas realidades educativas locais.
Na introdução do documento, explica-se que a temática da Pluralidade Cultural está relacionada ao conhecimento e valorização das características étnicas e culturais da composição de diferentes grupos. Espera-se que os alunos compreendam o país através de uma concepção de sociedade brasileira pautada na
diversidade étnica e cultural, e marcada pela desigualdade socioeconômica e pelas relações discriminatórias e excludentes. Destaca-se que a valorização das diferenças étnicas e culturais não é sinônimo de adesão ao modo de vida do outro, é respeitar a expressão da diversidade, respeito que é direito de cada ser humano, por sua intrínseca dignidade. Ainda na introdução, difere-se diversidade cultural de desigualdade social, destaca-se a coexistência da ampla diversidade étnica, linguística, religiosa e os desdobramentos da subjetividade que possibilitam a ampliação do plural que está potencialmente em cada um, A introdução termina dizendo que problematizar os mecanismos de exclusão é um imperativo do trabalho educativo voltado para a cidadania.
Há ainda uma parte do documento destinada à justificativa da importância do tema pluralidade cultural. Dentre as justificativas estão: O desconhecimento do Brasil em relação a sua própria história, o prevalecimento de estereótipos regionais e raciais, a dificuldade de trabalhar com a temática do preconceito e discriminação racial/étnica, o mito do Brasil homogêneo, o mito da democracia racial, as manifestações de preconceitos e discriminações que estão presentes nas escolas, a história de resistência e luta dos movimentos sociais, a legislação antidiscriminatória na Constituição, mecanismos de proteção e promoção de identidades étnicas, valorização e difusão das manifestações culturais, a luta e a garantia de direitos dos povos indígenas, a liberdade de organização escolar e processos pedagógicos próprios dos indígenas, a necessidade de um processo educacional voltado ao campo ético e às atitudes e valores voltados para a formação de novos comportamentos, a necessidade de se estabelecer conexões entre o que se aprende na escola e a vida da população brasileira, mudar mentalidades, superar o preconceito, combater atitudes discriminatórias, lidar com valores de reconhecimento e respeito mútuo, formação de professores no tema da pluralidade cultural, práticas de respeito para com os portadores de deficiência física e mental, necessidade de problematizar as questões de gênero e história de injustiça para com as mulheres, a transformação de atitudes e não a repetição de slogans.
Há uma parte do documento em que se apresentada o estado atual dos trabalhos com a temática, destacando-se o caráter pioneiro da elaboração de propostas de trabalho pedagógico em relação à temática da pluralidade cultural. Foi
indicada a influência da ONU e suas agências na elaboração do documento, através do incentivo ao desenvolvimento de uma "cultura de paz" no âmbito da escola através de trabalhos sobre tolerância, que foi um conceito adotado pela ONU como marco referencial no processo de construção do entendimento, do respeito mútuo e da solidariedade. Assim, o estado atual dos trabalhos com a temática aponta a produção do documento como um dos resultados dos compromissos internacionais de desenvolver políticas educacionais em prol da tolerância, da cultural de paz, e da diversidade.
Embora na época da elaboração dos parâmetros curriculares iniciavam-se os estudos acerca da educação indígena e da situação dos afrodescendentes em escolas, pouco discutia-se sobre uma proposta de reflexão acerca do Brasil como um todo, sua complexidade cultural, e sua identidade nacional. O próprio documento aponta-se como um complexo trabalho ao enfatizar-se como um encontro de estudos teóricos, movimentos sociais e forças socioculturais, destacando a necessidade do intercâmbio entre escolas, movimentos sociais, universidades e imprensa para a constante atualização das peculiaridades do tema.
Em relação à caracterização do tema, considera-se que a pluralidade cultural no Brasil é consequência de um longo processo histórico, que envolve aspectos políticos e econômicos, no plano nacional e internacional. A vida social brasileira é marcada pela diversidade, quer seja de diferenças regionais, de diferentes manifestações de cosmologias, de diferentes formas de organização social, diferentes grupos, de multiplicidade de modos de relação com a natureza e de vivência do sagrado . O campo é diferente da cidade, com culturas, ritmos de vida, ensinamentos e valores distintos. Os processos migratórios é um outro exemplo de contato de grupos sociais com diferenças de fala, de costumes, de valores, de projetos de vida. Entretanto, toda essa diversidade da vida brasileira é constantemente ignorada e descaracterizada, especificamente pelos processos de globalização, pela voracidade do capitalismo, pelos processos de industrialização de bens culturais. A escola não foge dessa situação. Apesar de ser um local onde essas diversidades se apresentam fortemente naqueles que a constituem, a escola tem ignorado, silenciado ou minimizado a pluralidade cultural.
As contribuições para o estudo da pluralidade cultural no âmbito da escola, estão concentradas em uma proposta interdisciplinar de estudos teóricos, que envolvem a fundamentação ética, o entendimento de preceitos jurídicos, conhecimentos da história e da geografia, noções e conceitos da antropologia, da linguística, da sociologia, da psicologia. A contribuição dessas diferentes áreas integram o objetivo especificamente pedagógico de trabalhar a pluralidade cultural através de conhecimentos cientificamente produzidos, sem desconsiderar o rico e profundo saber produzido pelos movimentos sociais acerca de si mesmos. Assim, a escola tem a possibilidade de reflexões que articulam teoria e prática, reflexão e ação.