Nascido na Bélgica, Bernardet é proveniente de uma família francesa. Aos treze anos se mudou para o Brasil, onde consolidou sua carreira no campo jornalístico e cinematográfico. Iniciou sua trajetória no cine-clubismo, através de sua amizade com o então crítico Paulo Emílio Salles Gomes. De acordo com entrevista ao CPDOC, a aproximação com os críticos e cineastas da época ocorreu por meio de um curso que frequentou no cineclube onde Paulo Emílio era um dos ministrantes. No início da década de 1960 passou a escrever para o suplemento literário do Estado de São Paulo, publicando resenhas de filmes. Já em 1964, foi um dos fundadores do primeiro curso de cinema do país, na UnB, fechado no ano seguinte pelos militares. As análises realizadas por Bernardet, portanto, são permeada pelas relações entre arte e sociedade, entre estética e política143.
Em relação aos cinejornais, sua postura sempre foi muito crítica. Em 1975, publicou uma matéria sobre o tema no jornal "O Movimento", onde intitula: "Semeando para o futuro. Nos pequenos filmes coloridos que antecedem os jornais, as imagens são fugazes e envolventes: o quê está por trás delas?"144. Crítico aberto ao cinejornalismo e às políticas protecionistas do país, Bernardet era contrário à exploração do cinema como espaço de matéria paga, que ocorria apesar da legislação proibitiva. Nessa coluna, o autor também propôs a análise de uma produção fictícia, descrevendo o roteiro comum e já padronizado. Para tanto, denomina as duas edições que seriam analisadas na sua crítica como ―Filme A‖ e ―Filme B‖, assim, afirmou: ―São duas produções da assessoria do governo, ou seja, propaganda. (...) Não há letreiro dizendo ‗propaganda oficial‘, ou que se trata de uma
143 JEAN-CLAUDE Bernardet. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa1401/jean-claude-bernardet>.
Acesso em: 12 de Jan. 2020. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7. Acesso em: 15 jan. 2020. 144 O Movimento, 25 ago. 1975, p.21.
produção do Estado‖145
. Logo, ainda que se tratasse de um cinejornal ou documentário, a função propagandística era inerente e subintendida.
Avançando na descrição do roteiro desses filmes fictícios – fictícios, pois foram criados coma finalidade de ilustrar seu argumento – Bernardet atentou justamente para as informações implícitas no discurso do narrador: ―Temos que procurar a verdade real por trás do inseticida levando em conta que, apesar destes filmes chamarem a atenção para um problema específico (a racionalização da agricultura) divulgam frequentemente imagens, conceitos e impressões genéricas‖146
. Por conseguinte, o autor deu a entender que as produções da ditadura, por trás das variedades informadas, tentavam incluir suas diretrizes independentemente do assunto que estava em pauta. Além disso, outro ponto central que o jornalista destacou foi a representação sempre positiva do que era mostrado: a eficácia da tecnologia, os avanços da ciência moderna e o quanto os nossos profissionais eram atores importantes nestes fatos. Segundo ele, a falta de informações e dados específicos nas notícias não era despretensiosa: ―O que se pede é uma adesão a eles. Não uma adesão racional, pois não há nada para entender, mas uma crença no seu poder de resolver problemas, uma mística‖147
.
O significado dessa citação permeia toda a análise realizada a respeito da autorrepresentação da ditadura: não havia espaço para contestação ou grandes questionamentos. A função final dos cinejornais era despertar o consenso do público e a crença de que os grandes responsáveis pelo milagre econômico e outros progressos eram as Forças Armadas. Quando assistimos a uma edição dedicada ao Projeto de Integração Nacional, por exemplo, não há sinais da violência e violações contra as populações locais. Ao mesmo tempo que a Amazônia ainda era um território a ser descoberto, tratado como exótico, em uma conjuntura na qual a censura atuava ativamente e não havia espaço para descenso ou versões distintas da oficial.
Outro aspecto ressaltado por Jean-Claude Bernardet foram os grupos escolhidos para comporem estas imagens. Intitulados por ele como ―belos e eficientes‖, em seu roteiro fictício os cientistas que demonstravam a importância do uso de inseticidas para a agricultura se enquadravam nas normas de estilo e comportamento: ―O técnico é um jovem bem nutrido, roupa classe média, cabelo um tanto cumprido. Cabelo curto é para quadrados; muito longo já é marginal; meio cumprido é para uma pessoa ao mesmo tempo jovem, bem-comportada,
145
Idem. 146 Idem. 147 Idem.
atualizada e eficiente‖148
. Ou seja, as formas de comportamento, principalmente as que fossem direcionadas à juventude não eram itens que apareciam na narração, mas compunham a mensagem velada, exposta nas imagens. Ademais, destaca para outro aspecto determinante: apenas os cientistas eram filmados com os rostos em evidência. Os operários, que não eram os ―personagens‖ centrais, apareciam como vultos. A força de trabalho estava presente, mas neste caso o que devia ser exaltado era o intelecto dos jovens cientistas.
O último ponto que compõe esta coluna do grande especialista francês, dedicou-se à função dos espectadores nesse jogo de informação e propaganda oficial: ―Para que estes filmes funcionem é necessário que os espectadores não mobilizem uma atividade decididamente reflexiva, o que implica em uma série de efeitos, onde se destacam a montagem fluente, a voz clara e grave do narrador e a curta duração das imagens‖149
. Portanto, não bastava que o pesquisador que analisa estas fontes pormenorize apenas o conteúdo narrado, havia uma preocupação a priori com o resultado que englobava o ordenamento das imagens, a trilha sonora e a duração. Tudo isso influenciava na maneira como estes dispositivos influenciavam no cotidiano e na recepção das pessoas.
Finalmente, dentro destes jogos de câmera que caracteriza como uma valsa, Bernardet destacou que também era pré-determinados: ―O resultado dessa valsa é um espaço desestruturado que envolve o espectador. Este não tem tempo de tomar conhecimento do eu está vendo, muito menos de se situar concreta e criticamente‖150
. Mais dado estatístico que engrandece ainda mais este documento, é em relação ao público alvo: ―Outros indícios confirmam ser o público urbano (em particular o público jovem) o destinatário destes filmes‖151
. Esta afirmação vai de encontro com os índices apontados pela historiografia (SCHNEIDER, 2018). No caso de seus roteiros criados para a reportagem tratarem sobre o tema da população, salientou que era um assunto que alcança os mais diversos grupos – urbano e rural, jovens e mais velhos, homens e mulheres -, estratégia muito comum utilizada pelas reportagens da AN. Neste sentido, afirmou: ―Tudo que se espera do filme é a adesão emotiva a uma imagem de bem estar e à sensação e que, se os problemas se resolvem tecnicamente, é possível renunciar a uma compreensão mais dinâmica da luta contra a poluição‖. Notemos que o tema poluição poderia ser outro diverso que fosse considerado prejudicial à sociedade da época.
148 Idem. 149 Idem. 150 Idem. 151 Idem.
Com base nessa análise primorosa de Bernardet, considerando toda sua trajetória profissional e as suas obras publicadas nessa mesma época, destacamos o quanto a propaganda, referida por muitos como a principal inimiga do campo cinematográfico, aparecia sob diferentes facetas. Não era necessária, assim como não era o objetivo da ditadura, uma propaganda aberta com slogans e músicas de campanha (como ―90 milhões em ação‖, por exemplo). Sua pedagogia estava na maneira pela qual os diferentes setores da sociedade eram representados dentro das suas normatividades.