General introduction
1.5 Measles Virus
A primeira parte da presente pesquisa consistiu em uma fase exploratória por meio da aplicação de um questionário17 socioeconômico com os objetivos de: 1) conhecer o perfil das turmas que estavam no final do processo de aprendizagem, turmas escolhidas pelo fato de os aprendizes já terem passado por quase todas as experiências de aprendizagem (teóricas e práticas) e, consequentemente, já possuírem uma visão mais detalhada e crítica sobre o processo de aprendizagem profissional; e 2) selecionar os jovens a serem entrevistados, através dos critérios que apresentarei a seguir nesse tópico.
O campo de pesquisa que selecionei foram as instituições formadoras SENAI18-PE e CIEE19-PE, devido a ambas possuírem reconhecida experiência no que diz respeito ao ensino profissional e terem uma abrangência nacional.
Os sujeitos da pesquisa foram os(as) jovens beneficiários(as) dos Programas de Aprendizagem das instituições supracitadas, por serem os atores sociais que possuíam uma vinculação mais significativa para o problema a ser investigado.
No total, apliquei 121 questionários, distribuídos em cinco turmas do CIEE – sendo três do curso de ocupações Administrativas e duas de comércio e Varejo – e em três turmas do SENAI – todas do curso de técnico em mecânica industrial –, as quais eram as únicas que se encontravam em seu final nas respectivas instituições. Em seguida, fiz uma análise
17
O modelo de questionário está no Apêndice A.
18
Segundo o site da instituição, ―O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) é um dos cinco maiores complexos de educação profissional do mundo e o maior da América Latina. Seus cursos formam profissionais para 28 áreas da indústria brasileira, desde a iniciação profissional até a graduação e pós-graduação tecnológica‖, formando milhões de trabalhadores em todo território nacional, desde 1942.
19
É uma instituição filantrópica, fundada em 1964, mantida pelo empresariado nacional, com o objetivo de encontrar, para os estudantes de nível médio, técnico e superior uma oportunidade de estágio que os auxiliem a colocar em prática tudo o que aprenderam na teoria.
predominantemente quantitativa20 com o intuito de construir um perfil socioeconômico dos jovens atendidos pelos Programas. Elementos como sexo, idade, origem étnica ou social do entrevistado também determinam fortemente o seu tipo de discurso, daí a importância do questionário com perfil socioeconômico.
A partir dos dados construídos, selecionei 15 jovens, com os quais realizei uma entrevista biográfica21, a qual ―[...] pode visar a um aspecto específico, temporal e relacionado a algum tópico da biografia do informante‖ (FLICK, 2009, p. 165). No caso da minha pesquisa, como já indiquei, o foco se dá em aspectos das grandes matrizes socializadoras ou grandes universos de socialização (esfera de atividade ou um domínio de práticas), quais sejam: a família (infância, vida conjugal e paterna), a escola (toda a carreira escolar) e o universo de trabalho (todo o percurso profissional).
Isso porque esses universos de socialização contribuem significativamente para a formação de disposições que podem se manifestar de maneira constituída (renúncia de si diante de exigências/influências externas) ou requisitadas (voluntárias, espontâneas). A influência dos pais (nível de escolaridade, profissão, incentivo educacional, por exemplo), ou diante das necessidades financeiras (―ajuda em casa‖) podem ser elementos significativos.
Diante disso, os critérios para a escolha dos entrevistados foram baseados em rupturas em suas trajetórias familiar, escolar e profissional e/ou diversos deslocamentos sociais:
Quadro 8 – Critérios para seleção dos entrevistados
Universo de socialização Critérios
Família
Jovem que mora com os pais e/ou familiares; Jovem já casado22;
Ajuda financeiramente em casa; Escolha pela profissão dos pais;
Indicou muita influência dos pais em fazer o curso de aprendizagem.
Escola
Jovem que ainda estuda (níveis fundamental, médio ou superior); Matriculado em escola da rede pública;
Passou por várias escolas ao longo da trajetória escolar; Faz/fez parte de grupos, entidades ou associações;
Trabalho
Tinha experiências anteriores de trabalho (formal ou informal); Tinha realizado trabalho voluntário;
Definiu a profissão que quer seguir;
Fez outro(s) curso(s) (qualificação, técnico, aprendizagem) além do de aprendizagem atual;
Possui outra(s) fonte(s) de renda, além do salário como aprendiz. Fonte: Elaboração própria
20
Os resultados dessa análise estão no capítulo IV desta Tese.
21
Os guias de entrevistas correspondem aos Apêndices B e C.
22
Utilizei como critérios tanto morar com pais e/ou familiares quanto ser casado, pois, em alguns casos, as duas características estavam presentes. Alguns aprendizes viviam em união estável e moravam com o(a) companheiro(a) na casa dos pais.
Num segundo momento, a pesquisa foi realizada a partir de duas entrevistas de caráter biográfico, pois o problema da natureza e organização do patrimônio individual das disposições precisa, também, ser estudado através do trabalho empírico:
[...] uma disposição só se revela por meio da interpretação de múltiplos traços, mais ou menos coerentes ou contraditórios, da atividade do indivíduo estudado, sejam eles produto da observação direta dos comportamentos, do recurso ao arquivo, ao questionário ou à entrevista sociológica (LAHIRE, 2004, p. 22).
Nesse sentido, as entrevistas biográficas são formas de questionar os modelos de personalidade coerente e estável, associados a modelos de decisão sem incertezas. A investigação empírica é fundamental para a validação ou não dos conceitos disposicionalistas. Além disso, as entrevistas biográficas são importantes, pois a escolha final dos indivíduos resulta da interação entre a pluralidade das ―influências‖ externas e as competências, apetências e disposições internas (LAHIRE, 2004).
Os critérios escolhidos para as entrevistas foram baseados no grau de extensão e heterogeneidade dos universos, grupos ou indivíduos frequentados pelo pesquisado, isto é, conforme Lahire (2004), é preciso identificar se o pesquisado sofreu alguma exposição a contextos socializadores ou a indivíduos com princípios de socialização diferentes.
Estas entrevistas podem captar essas pluralidades das ―influências‖ e das competências. É possível dar palavra aos momentos de ―rupturas biográficas‖, ou seja, mudanças ou modificações nas trajetórias ou carreiras, pois nestes momentos as disposições podem entrar em crise ou ser reativadas e sair do estado de vigília. Por meio da entrevista biográfica pude identificar a relevância da experiência de aprendizagem nas escolhas e projetos futuros profissionais dos aprendizes.
A apreensão da pluralidade dos princípios de socialização entre os membros significativos do meio social dos aprendizes é fundamental, pois as influências externas têm papel importante. Conforme Lahire (2004, p. 38), por meio desse procedimento é possível ―[...] analisar com maior precisão do que a usual as microtensões, as pequenas diferenças que o ‗meio‘ podia exercer sobre a pessoa durante sua infância, adolescência e vida adulta (o pesquisado podia expressar as diferenças de atitude e comportamento de seu pai e sua mãe, por exemplo)‖.
Dentro dos critérios que já expus, baseado nas rupturas significativas nas trajetórias familiar, escolar e profissional ou de deslocamentos sociais por que passaram os jovens aprendizes, fiz uma primeira seleção de potenciais entrevistados(as). Essa seleção prelimitar possuía 40 jovens, o que se constituía como um número bastante elevado para minhas
pretensões e possibilidades. Diante disso, procurei restringir ainda mais a amostra, a qual sempre foi intencional. Selecionei os aprendizes que possuíam o maior número de características correspondentes aos meus critérios e subdividi o grupo em dois: 1) o grupo principal, contendo os aprendizes que atendiam ao maior número de critérios selecionados; e 2) o grupo secundário, constituído pelos demais aprendizes pré-selecionados. Os jovens desse segundo grupo seriam acionados caso houvesse um número significativo de recusas ou impossibilidades de participar da entrevista por parte dos aprendizes do grupo principal.
Fui antecipadamente às instituições formadoras e falei diretamente com os selecionados a fim de saber se poderiam conceder a entrevista e informá-los das datas.
O grupo principal, em um primeiro momento, era composto por 15 aprendizes, sendo oito do CIEE-PE e sete do SENAI-PE. Entretanto, entre o dia que falei com uma jovem aprendiz do CIEE-PE sobre a realização da entrevista e a semana de sua realização, essa jovem foi convocada para assumir uma vaga em um concurso público no qual havia sido classificada e, por isso, não estava presente na instituição no dia marcado por haver desistido do curso.
Em seu lugar selecionei um aprendiz do SENAI, o qual fazia parte do grupo secundário, permanecendo assim, o número de 15 entrevistados, sendo sete do CIEE e oito do SENAI. Os quadros 17 e 18 nos apêndices D e E apresentam os aprendizes selecionados e os critérios que atendiam.
Quanto à análise dos dados construídos, principalmente em relação às questões abertas contidas no questionário e às duas entrevistas, optei pelo uso da técnica de análise de conteúdo, a qual é bastante aplicada, seja de modo exclusivo ou em combinação com outras técnicas. Segundo Amado (2014, p. 300), a análise de conteúdo é:
[...] uma técnica que aposta claramente na possibilidade de fazer inferências interpretativas a partir dos conteúdos expressos, uma vez desmembrados em ―categorias‖, tendo em conta as ―condições de produção‖ desses mesmos conteúdos, com vista à explicação e compreensão dos mesmos.
Minha opção se deu pelo fato de que o método é principalmente utilizado para a análise de pontos de vista subjetivos coletados em entrevistas, isto é, a análise de conteúdo é relevante na tradução de ―[...] visões subjetivas do mundo, de modo a que o investigador possa ‗assumir o papel do ator e ver o mundo do lugar dele‘‖ (BLUMER, 1982, p. 35, grifo do autor).
O aspecto mais importante da análise de conteúdo, conforme Amado; Costa; Crusoé (2014, p. 304-305), ―[...] é o fato de ela permitir, além duma rigorosa e objetiva representação dos conteúdos das mensagens, o avanço fecundo, à custa de inferências interpretativas
derivadas dos quadros de referência teóricos do investigador, por zonas menos evidentes que constituem o referido ‗contexto de produção‘‖.
Sob essa perspectiva, o primeiro objetivo é realizar uma descrição objetiva, sistemática e até quantitativa. Tal descrição pretende ir além e alcançar as condições de produção das comunicações em análise (BERELSON, 1954). Essa primeira etapa foi realizada, principalmente, com as questões abertas do questionário, que será exposta no capítulo seguinte.
Aqui é possível destacar o caráter ―artesanal‖ do trabalho sociológico ressaltado por Lahire (1997), considerando-o como um processo de constante reflexão, idas e vindas, avanços e retrocessos, dinâmica essa que faz parte do processo de pesquisa científica e, especificamente, sociológica, indo além da interpretação final.
De acordo com a análise de conteúdo, o estudo pode ser de natureza: 1) estrutural (análise das ocorrências, evidenciando a regularidade dos fenômenos e/ou de suas características); 2) diferencial (saber em que medida o fator x influencia o fenômeno y, por exemplo); ou 3) funcional (estudo comparativo das narrativas) (AMADO, 2000). Minha perspectiva está baseada em um estudo diferencial, pois pretendo relacionar a experiência de aprendizagem com a construção da identidade profissional dos aprendizes entrevistados e também é um estudo funcional, pelo fato de realizar uma comparação entre as narrativas dos aprendizes.
Segui os passos da categorização e codificação explicitados por Amado (2000, p. 55), quais sejam: 1) Definição de objetivos do trabalho; 2) Explicitação de um quadro de referência teórico; 3) Constituição de um ―corpus‖ documental; 4) Leituras atentas e ativas; 5) Formulação de hipóteses; e 6) Codificação.
A codificação consiste em ―[...] um processo de esquartejamento do texto e do seu sentido imediato, visível, com o objetivo de se descortinarem outros sentidos‖ (AMADO, 2000, p. 55-56). Um ponto de vista próximo é o de Pais (1993, p. 86), quando este afirma que ―[...] é o estilhaçar dessa unidade encadeada; é um desvendar de sentido mas ao mesmo tempo um despedaçar desse mesmo sentido; é uma sequência de fragmentos cortados, o esquartejamento de uma unidade de sentido que dá lugar, sub-repticiamente, a outros sentidos (interpretativos)‖.
De acordo com Flick (2009), os documentos podem ser ―naturais‖ (pré-existentes à análise) ou ―provocados‖ (resultado do processo de investigação). No caso da minha pesquisa, os documentos utilizados são ―provocados‖, pois são decorrentes da investigação, como o questionário e a transcrição das entrevistas.
Algumas categorias que construí a partir da análise dos questionários e entrevistas estarão presentes nos capítulos IV e V da Tese, como: O desenvolvimento pessoal e profissional; Adquirir experiências; A questão financeira/salarial, O reconhecimento; O peso da família; A ausência da experiência; Entre o sonho e a realidade; Uma experiência negativa; Uma experiência positiva; entre outras. Ressalto que tais categorias foram criadas e utilizadas para agregar os perfis sociológicos que apresentavam elementos e características mais próximas, embora alguns pontos perpassem por mais de uma categoria.
Lahire (2004) ressalta que um dos erros epistemológicos mais comuns nas ciências sociais é o de generalizar casos ou contextos particulares. Nesse sentido, é necessário focar na análise empírica de práticas singulares e só permitir generalizações prudentes e limitadas e, por isso, a presente pesquisa não busca ser representativa. É possível que o pesquisador, por meio de uma sociologia da experiência, descubra dimensões e aspectos de pesquisas que não se manifestam nas situações sociais comuns.