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As instruções desse capítulo giram em torno do ensino de estratégias que provocam expectativas no leitor e abordam os estereótipos. Na primeira instrução desse capítulo, na página 129, o estudante deve criar um parágrafo que narre o desfecho do conto Entrevista, de Rubens Fonseca, publicado em 1975. Na instrução seguinte, os comandos pedem que o estudante esclareça o efeito de sentido no uso das letras H e M para a identificação dos personagens no conto e que nele busque uma definição de conto, apontando os recursos utilizados pelo autor. O tema do conto é a violência, aspecto que pode promover a reflexão
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crítica. Entretanto, a instrução não propõe uma discussão sobre esse tema, silenciando sobre os eventos dessa natureza e que fazem parte do cotidiano dos estudantes. Por essa razão, ela não desenvolve a formação crítica dos estudantes. Nesse viés, a instrução também não explora a obra do autor. Tal como discutido anteriormente, ao contextualizar a produção do texto, os alunos ampliam seu conhecimento de mundo, além de fazerem conexões com sua realidade e com as ideologias que fundamentam os textos. As perguntas subsequentes abordam os recursos que o autor utilizou para manter o suspense do conto, tal como o uso das letras H e M para identificar os personagens. A próxima questão pede uma definição do gênero conto e do efeito do uso das reticências. Para se conhecer um gênero, não basta encontrar uma definição. É preciso conhecer o gênero em sua constituição e isso requer ensino, tal como a proposta das sequências didáticas (DOLZ; SCHNEUWLY, 1998). Do mesmo modo, os recursos estilísticos do conto são estratégias que precisam ser ensinadas aos estudantes, tal como o discurso direto, o foco narrativo e a verossimilhança, para mostrar como os recursos linguísticos são usados nos diferentes gêneros textuais. Por essa razão, essa instrução também não favorece o letramento crítico dos estudantes.
Na página 129, a instrução trabalha com as expectativas do leitor em relação à trama do poema de Antônio Gedeão, Lição sobre a água. O poema mistura ciência e poesia. Nas duas primeiras estrofes, como se fosse uma aula de ciências, o autor descreve as características da água e as suas funções. O aluno deve justificar a escolha do título e escrever a estrofe final do poema, com quatro versos. Essa instrução também quer saber o que o título e as primeiras estrofes geram no leitor, i.e., que expectativas ele tem em relação ao uso da água. Pede-se, logo a seguir, que eles identifiquem por meio do vocabulário, os conceitos e a ciência que as duas primeiras estrofes abordam. A seguir, na página 130, a última pergunta pede que os estudantes mostrem nesse conto as exceções que aparecem no segundo verso. Essa instrução busca a compreensão do texto e mostra como o autor quebra as expectativas no conto para mudar o foco do poema. Esse tipo de instrução, apesar de mostrar como os sentidos dos textos podem variar para gerar expectativas no leitor, não propõe a abordagem de um tema voltado para os problemas sociais que geram discussões e sobre os quais o estudante precisa se posicionar a respeito e, por isso, não desenvolve a formação crítica dos estudantes.
Na página 130, no conto Procurando firme, de Ruth Rocha, outras estratégias de quebra de expectativa são utilizadas. O início do conto representa os contos de fada, sobre príncipes e princesas, porém, no desenrolar da história, há uma quebra de expectativa na qual o autor introduz um diálogo direto e passa a utilizar um vocabulário de efeitos cômicos. O estudante precisa identificar essas características e dizer o que torna o conto diferente dos
tradicionais contos de fadas. Ela também explora o tempo verbal do passado, característico dos contos de fada. Por último, pede que os interlocutores sejam identificados e chama a atenção para as quebras de expectativa, como exposto na figura abaixo.
Figura 64 – Instrução sobre o conto Procurando Firme Fonte: LDLP: Ensino Médio, 2007, p. 132.
Essa instrução chama a atenção para o uso do tempo verbal empregado nos contos e para os interlocutores, aspectos que, se colocados em evidencia nas práticas de leitura, ensinam os estudantes a fazerem uma leitura crítica.
Somente na instrução sobre o conto História de passarinho, de Stanislaw Ponte Preta, o livro deixa claro o objetivo da quebra de expectativa, isto é, que serve para prender e provocar o leitor. Esta é uma instrução oral, realizada em grupos, na qual compara-se os contos publicados no livro com os contos de fadas, como mostra a próxima figura.
Figura 65 – Instrução sobre o conto História de passarinho Fonte: LDLP: Ensino Médio, 2007, p. 132.
A apresentação dos diferentes desfechos do conto é uma prática oral criativa, que mostra como as interpretações podem variar de acordo com o conhecimento de mundo de cada estudante. A intertextualidade é outro aspecto linguístico mencionado nessa instrução, cujas manifestações e objetivos não foram esclarecidos, o que contribuiria para a formação crítica dos estudantes. Por exemplo, se ela se manifesta de forma direta ou indireta; o que se quer representar com essa intertextualidade; quais os aspectos do contexto e do estilo nos
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quais os textos foram produzidos; quais as ideologias que perpassam os textos e como elas estão contextualizadas no novo discurso (FAIRCLOUGH, 2001).
O quinto comando dessa instrução muda o tema inicial do capítulo, i.e., as quebras de expectativas nos textos e seus objetivos. O livro passa a abordar os estereótipos femininos no texto adaptado Preconceito e Evolução, cujo tema são as diferenças e as expectativas sociais entre homens e mulheres. Esse texto traz à tona o comportamento feminino com base em pesquisas científicas e sociais. Esse tema também faz parte dos três contos anteriores, e que são resgatados comparando-se os estereótipos presentes em cada um deles, como mostra a instrução abaixo.
Figura 66 – Instrução sobre o texto Preconceito e evolução Fonte: LDLP: Ensino Médio, 2007, p. 134-135.
O tema estereótipo é relevante para a formação crítica, pois é polêmico e costuma apresentar um discurso tendencioso. Assim, essa também é uma instrução focada na perspectiva crítica. Além disso, ela aborda os argumentos utilizados pela autora e o estereótipo sobre o sexo feminino e masculino. Entretanto, não há exercícios que mostrem como a autora constrói o seu argumento, i.e., por meio das suas escolhas lexicais, aspecto que deixa de ensinar como o estudante pode se posicionar nos diferentes contextos sociais por meio da linguagem. Por isso, embora mostre os argumentos, essa instrução não apresenta uma prática de escrita que estimule o desenvolvimento da percepção crítica e que faz parte do letramento crítico.
Para ampliar os sentidos e aproximar o tema da realidade dos estudantes, essa proposta sugere a análise de programas de televisão que criam estereótipos em relação ao comportamento feminino e masculino. Para a análise, os pontos em destaque são as estratégias usadas para prender a atenção do leitor, as quebras de expectativa, os recursos para gerar suspense, a intertextualidade. Ao encerrar o capítulo, a proposta é um trabalho em grupos em que os estudantes devem ler e apresentar (em forma de seminário) a análise de
contos previamente selecionados. Nesse capítulo, não há instruções gramaticais que ensinem o estudante a analisar o texto para perceber como o autor expõe seus argumentos a respeito do comportamento feminino e masculino, deixando lacunas na formação crítica dos estudantes.