A partir da década de 60, com a mudança do foco nos estudos de linguagem do sistema para o uso da linguagem, surgem os primeiros estudos sobre os fatores responsáveis pela textualidade. Para Beaugrande e Dressler (1981), a textualidade depende do cumprimento de sete critérios: coesão, coerência, situcionalidade, intextualidade, informatividade, aceitabilidade e intencionalidade, caracterizados por propriedades sintáticas, semânticas, pragmáticas e cognitivas. Entre esses sete fatores de textualidade, a coesão e a coerência constituem fatores de textualidade centrados no texto. Para esses autores, a coesão é o fator que contribui para a continuidade textual e consiste na conexão
10 Fraser (1999: 932) cita, por exemplo, algumas das várias nomenclaturas: “cue phrases (Knott and Dale,
1994), discourse connectives (Blakemore, 1987, 1992), discourse operators (Redeker, 1990, 1991), discourse particles (Schroup, 1985), discourse signalling devices (Polanyi and Scha, 1983), phatic connectives (Bazanella, 1990), pragmatic connectives (van Dijk, 1979; Stubbs, 1983), pragmatic expressions (Erman, 1992), pragmatic formatives (Fraser, 1987), pragmatic markers (Fraser, 1988, 1990; Schiffrin, 1987), pragmatic operators (Ariel, 1994), pragmatic particles (Ostman, 1995), semantic conjuncts (Quirk et al., 1985), sentence connectives (Halliday and Hasan, 1976)”.
através de relações gramaticais dos componentes da superfície do texto, ou seja, todos os processos que marcam relações entre elementos na superfície de um texto.
Em uma perspectiva semântica, Halliday & Hasan (1976: 2) chamam de textura11 as propriedades que definem um texto. Segundo eles, um texto possui uma textura externa e uma textura interna, onde a externa abarca fatores externos que influenciam nas escolhas linguísticas do falante ou escritor de acordo com a audiência, o meio e a função comunicativa, enquanto a textura interna está ligada à organização sequencial do texto, manifestando-se nos níveis frásico, interfrásico ou superfrásico. A esta última textura recai a principal atenção desses linguistas, que veem o texto como uma unidade semântica: “a unit not of form but of meaning”, onde as relações de sentido se baseiam na coesão (Halliday e Hasan, 1976: 20).
Para Halliday e Hasan (1976: 4), a coesão é uma relação semântica e “occurs where the INTERPRETATION of some element in the discourse is dependent on that of another”. Em outras palavras, há coesão sempre que um elemento num determinado discurso está semanticamente ligado a outros, ou seja, quando a interpretação de um elemento depende de outro. Os autores diferenciam o que eles chamam de coesão gramatical e coesão lexical12, sendo que essa distinção depende da natureza das unidades linguísticas na realização da coesão textual. Na coesão gramatical está a referência (pessoal, demonstrativa e comparativa), a substituição, a elipse e a conjunção (aditiva, alternativa, adversativa, causal, temporal), enquanto que na coesão lexical estão as diversas formas de retoma de itens lexicais, como a sinonímia, a reiteração e a colocação.
Duarte (2003: 89) define como instrumentos de coesão “todos os processos de sequencialização que asseguram (ou tornam recuperável) uma ligação linguística significativa entre os elementos que ocorrem na superfície textual”. A autora apresenta também a divisão entre coesão gramatical e lexical, mas dá maior destaque à coesão gramatical (subdividida em coesão frásica, interfrásica, temporal, paralelismo estrutural e referencial) e sobretudo a coesão interfrásica. Segundo a autora, a coesão interfrásica ocorre com processos de interdependência semântica entre as frases na superfície textual, sobretudo através de Marcadores Discursivos. De acordo com o tipo de unidades linguísticas conectadas e o tipo de unidade resultante dessa conexão, Duarte divide a coesão interfrásica em dois tipos: a parataxe (coordenação) e a hipotaxe (subordinação).
11 “The concepto of TEXTURE is enterily appropriate to Express the property of ‘being a text’” (Halliday &
Hasan, 1976: 2).
12 “Cohesion is expressed partly through the grammar and partly through the vocabulary. We can refer
Também para Koch (2013: 18), coesão são “todos os processos de sequencialização que asseguram (ou tornam recuperável) uma ligação linguística significativa entre os elementos que ocorrem na superfície textual”. Sob esse prisma, a coesão seria a expressão linguística, por meio de elos coesivos, das relações de coerência. A autora propõe a distinção de dois tipos de coesão: coesão referencial e coesão sequencial. O primeiro tipo é aquele em que um componente da superfície do texto se refere a outro(s) elemento(s) nela presentes ou inferível (Koch, 2013: 31), e é constituído por formas remissivas gramaticais presas, livres e remissivas lexicais13. Por sua vez, a coesão sequencial “diz respeito aos procedimentos linguísticos por meio dos quais se estabelecem, entre segmentos do texto (enunciados, parágrafos e sequências textuais), diversos tipos de relações semânticas e/ou pragmáticas à medida que se faz o texto progredir” (Koch, 2013: 53). Ela subdivide-se em parafrástica (recorrência de termos, de estruturas, de conteúdos, de recursos fonológicos, de tempo e aspecto verbal) e frásica (cujos mecanismos possibilitam a manutenção temática através do uso de um mesmo campo lexical e os encadeamentos que podem ocorrer por justaposição ou por conexão).
Por sua vez, Lopes e Carapinha (2013: 31) defendem que a coesão está relacionada ao modo em que a sequência dos elementos textuais são dispostas, configurando, assim a “ossatura” que sustém o texto. As autoras apresentam os seguintes procedimentos léxico- gramaticais como geradores de coesão: coesão lexical, coesão referencial, coesão interoracional e interfrásica, e coesão temporal. Entre esses tipos de coesão, na coesão interoracional “a sinalização explícita dos nexos de sentido que interligam orações ou enunciados é feita através de conectores”14
(Lopes e Carapinha, 2013: 71). Segundo as autoras, os conectores, na coesão textual, “codificam instruções sobre como sequencializar de forma coerente os enunciados que interligam. Neste sentido, funcionam como guias para a interpretação textual” (Lopes e Carapinha, 2013: 89).
Como vimos nesse esboço sobre as propostas de classificação da coesão por alguns autores, os conectores são mecanismos coesivos que, de uma forma geral, interligam enunciados fazendo o texto progredir. Nos tópicos seguintes, focamos nossa atenção para esse fenômeno linguístico, nomeadamente os Marcadores Discursivos.
13
Sob o rótulo da coesão referencial, Koch ajunta os mecanismos de referência, substituição, elipse e coesão lexical elencados por Halliday e Hasan (1976).
14 As autoras usam o termo “conectores” como hiperônimo, designando as conjunções de coordenação e
subordinação adverbial, e também expressões de base adverbial, preprosicional ou verbal que tenha função conectiva (Lopes e Carapinha, 2013: 71).