Bourdieu (1989), como vimos, considera o conceito de campo uma construção do objeto que orienta as possibilidades da pesquisa, além de configurar um lugar de saberes específicos. Traquina (2013) sublinha que o saber específico do jornalismo, enquanto campo são as notícias e como elas são produzidas.
Amaral Filho (2016) alega que o campo da comunicação é alimentado por meio de informações oriundas de outros campos, logo, ele perpassa a publicização e alcança a representação. Ou seja, é um campo interdisciplinar por natureza, configurando um campo que necessariamente trabalha junto com outros, mas que possui especificidades legítimas. Pressler (2012) argumenta que no campo da comunicação, a luta simbólica ocorre na concepção do que é notícia e o que pertence à mídia no tangível à indústria da informação.
Traquina (2013) afirma que o campo jornalístico é impulsionado no século XIX, mediante a ascensão do capitalismo, que possibilitou à imprensa a condição de mass media. A partir desse impulsionamento, segundo o autor, o jornalismo transforma-se em um negócio, gerindo profissionais lutando por autonomia e prestígio para melhorar suas condições de trabalho. O autor (2012, p. 20) considera a notícia como “o principal produto do jornalismo
contemporâneo” e argumenta que por não se tratar de algo ficcional, a notícia é notória. Apesar de crescer vertiginosamente no século XIX, o jornalismo consolida-se no século XX através de meios de comunicação como o rádio e a TV, chegando à contemporaneidade com o jornalismo on-line sob um crescimento incessante (TRAQUINA, 2012).
Um dos grandes paradoxos do jornalismo, conforme observado ainda pelo autor, é o embate entre objetividade e subjetividade. No intento de ter credibilidade a qualquer custo, há muita resistência em tratar o jornalismo como narrativa, ou qualquer outro termo que o desvencilhe da realidade nua. Trata-se de uma profissão que tenta legitimar-se o tempo todo. A aura mítica do jornalismo o retrata como um contrapoder. Seria a imagem de David matando Golias, em um comparativo poético. Traquina dá ainda o exemplo da teoria do espelho, que corresponderia a uma visão ocidental do jornalismo, como a de um espelho, uma transmissão da realidade, sendo as notícias, supostamente, determinadas pela realidade. Traquina (2012) considera que a teoria do espelho é frágil e constantemente deslegitimada.
A resistência em tratar o jornalismo como um retrato fiel da realidade, segundo Benetti (2007), provém de uma visão positivista de que o jornalismo seria capaz de refletir a realidade em sua essência.
Conforme visto anteriormente, Foucault (2007) coloca que o discurso jamais é neutro. Benetti (2007) suscita ainda que por ser intersubjetivo, não tem como haver uma verdade absoluta no discurso, sendo este passível de mais de uma interpretação.
No que concerne ao jornalismo regional, Rodrigues (2013) defende que os media possuem papel crucial no que tange aos problemas ambientais, ressaltando que o jornalismo praticado na Amazônia, região que deve ser bastante afetada pelas mudanças climáticas, necessita ter uma postura contundente. O autor considera que necessitamos ter informações concisas a respeito dos problemas ambientais que assolam o território, afinal, eles ameaçam nossa existência e somos vítimas em potencial de tais danos.
Rodrigues (2013) observa que uma população bem informada na Amazônia, pode clamar de forma mais veemente por melhorias e ações mais incisivas para combater tais problemas ambientais. “O jornalismo praticado na Amazônia deve engajar-se na promoção do debate esclarecido junto à sociedade” (RODRIGUES, 2013, p. 271), só assim o diálogo é mais inclusivo e podemos vislumbrar melhores condições para amenizar os impactos trazidos por problemas ambientais.
Uma explicação para o fato de acontecimentos catárticos, como os desastres – ou seriam crimes ambientais – de Mariana e Brumadinho, por exemplo, ganharem destaque maciço na cobertura jornalística, de acordo com Traquina (2013), é a presença da morte. O autor explica
que “onde há morte, há jornalistas” (TRAQUINA, 2013, p. 76), argumentando que a morte é um valor-notícia imprescindível, assim denotando uma aura negativa à prática do jornalismo. Outros valores-notícia apontados por Traquina (2013) são a proximidade, o tempo e a notabilidade. Durante a análise discursiva da cobertura ambiental centrada nas mudanças climáticas dos jornais que estamos trabalhando, pudemos identificar alguns desses valores- notícia.
O fator que permite a um jornal impresso ser lido por meio de um celular ou de um computador, caso do trabalho presente, é a convergência. Segundo Jenkins (2009), a Convergência diz respeito ao fluxo de conteúdos por meio de distintos tipos de mídias, caracterizando uma migração dos públicos de um meio de comunicação para o outro. A dissertação presente é fruto dessa Convergência, uma vez que apesar de tratar de jornais impressos, estes foram acessados por meio do computador, também podendo ser acessado pelo celular, como veremos na parte dos procedimentos metodológicos.
Jenkins (2009) indaga que anteriormente falava-se em revolução digital, alegando que novas mídias iriam suprimir as antigas. Contudo, o autor explica que a realidade é que velhas e novas mídias terão interações cada vez mais complexas. E trata-se – hoje podemos dizer – de uma constatação pertinente.
Atualmente, plataformas de streaming como a Netflix, que com o filme Roma (2018) conseguiu dez indicações ao Oscar 2019, continuam aparecendo de forma crescente. Hoje, assistir grandes lançamentos direto de uma plataforma, assim como acessar um jornal impresso pelo celular ou fazer ligações internacionais de vídeo utilizando dados da internet são indicativos de que a convergência vai se tornando cada vez mais complexa.
Jenkins (2009) afirma ainda que os meios de comunicação não morrem, mas sim as ferramentas de distribuição, como, por exemplo, a fita cassete. O autor explica que os meios e os públicos podem até mudar, mas que, por exemplo, a TV não eliminou o rádio, assim como o cinema não eliminou o teatro. O autor sustenta que os meios de comunicação não estão sendo substituídos, mas que suas funções vão sendo remodeladas com as novas tecnologias.
O pensamento de Jenkins (2009) nos remete novamente ao jornal impresso, nosso objeto. Mesmo com o jornalismo on-line abundante, o veículo impresso ainda tem um público cativo36. Contudo, a ANJ também sustenta que o mercado jornalístico norte-americano tem um expressivo número de assinantes digitais, que corresponderia, pretensamente, ao futuro do
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A ANJ estima que entre 2015 e 2017 houve um decréscimo de cerca de 520 mil exemplares dos principais jornais diários do Brasil. Mais informações em: <https://www.anj.org.br/site/menagenda/97-midia- nacional/5251-tiragem-impressa-dos-maiores-jornais-perde-520-mil-exemplares-em-3-anos.html>. Acesso em: 11 jan. 2019.
jornalismo brasileiro. Porém, isso não configura uma realidade ainda. A mesma ANJ relata que a queda de edições impressas não significa um aumento substancial de assinatura digital e que apenas o conteúdo gratuito tem um número de visualizações realmente impressionante.
Hoje, sites como os de O Globo, do Estadão, da Gazeta do Povo e da própria Folha de
S. Paulo têm visualizações limitadas mensalmente em forma gratuita. Dessa forma, exigindo
um pagamento mensal para quem quiser acessar o conteúdo de forma expandida.