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En matière de connaissance des infrastructures et des réseaux

3. Les réponses à ces besoins : l’organisation du système d’informations

4.1 En matière de connaissance des infrastructures et des réseaux

Observando em conjunto as características majoritariamente atribuídas ao governo venezuelano pelas estruturas discursivas precedentes – a agressividade, a violação de direitos, a ilegalidade, a concentração de poderes e o autoritarismo – torna-se possível depreender que, neste discurso, tais dimensões são sempre associadas a uma outra categoria: o caráter anti- liberal. Cada uma delas evoca a idéia de um descompromisso com liberdades básicas (mesmo que seja possível discutir se necessária e efetivamente o são), servindo como pano de fundo para acusar Chávez de autocrático.

A unificação desses atributos em torno de uma única idéia remete a uma construção simbólica coerente: a representação identitária anti-liberal. Construção essa engendrada em um processo relacional no qual o anti-liberalismo assume o caráter de uma entidade desviante - sempre associada, nesta matriz discursiva, ao “atraso” -, que se opõe aos caminhos de uma suposta norma comportamental política, representada pelo liberalismo (e caracterizada como o “progresso”).

Por conseguinte, o noticiário de El Universal assenta-se sobre um discurso que, partindo da perspectiva liberal, associa atributos imbuídos de valores axiologicamente negativos ao governo Hugo Chávez, caracterizando sua tendência anti-liberal como um desvio

do padrão político hegemônico, que conduziria o país e o continente a uma aproximação dos modelos tidos como “avançados”.

Mais do que uma crítica sistemática aos rumos assumidos pelo governo venezuelano, contudo, essa construção simbólica reproduz, de forma subliminar, uma representação identitária mais abrangente: o discurso estereotípico do “atraso”, apresentado como uma caraterística essencial da identidade política latino-americana e, em um nível mais amplo, da identidade do próprio povo da região – como se, atavicamente, o continente estivesse condenado à escolha de governos que defendem fórmulas obsoletas.

Tal relação torna-se explícita quando se observa a comunhão existente entre o discurso subjacente ao noticiário de El Universal e os discursos associados a outro momento político latino-americano de cunho anti-liberal: o populismo. De acordo com a explanação empreendida no primeiro capítulo, a mesma perspectiva que rege a cobertura do jornal venezuelano encontra-se no cerne das teorias latino-americanas que procuram interpretar as particularidades da inserção das massas no sistema político regional.

Nestas, a emergência de um Estado que arroga para si o papel de árbitro do jogo político, em detrimento de uma configuração institucional submetida à pressão social possibilitada pelas liberdades civis e políticas, é tida como um caminho “anormal” de ampliação da democracia. O caráter anti-liberal da democratização promovida pelos líderes populistas é visto como fruto das “irracionalidades” e do “atraso” do continente em relação a um padrão supostamente objetivo seguido pelas nações européias e pelos Estados Unidos.

Na esteira dessa visão, as ações realizadas pelo Estado com a finalidade de possibilitar uma maior participação popular no meio social também são classificadas como métodos tributários de uma situação política atrasada. Nesse rumo argumentativo, supõe-se que a liderança do Estado provocaria o esvaziamento do poder civil, a partir da concentração das atribuições de entidades intermediárias, como os sindicatos. Acusa-se este modelo de

representar um retrocesso nos processos de empoderamento – mesmo que parcial - dos cidadãos e de equilíbrio dos poderes estatais promovidos na região pelo liberalismo- oligárquico.

Tal perspectiva, de matriz europeizante, foi parcialmente17 apropriada pelas elites latino-americanas. Como visto no primeiro capítulo, estas consideravam a adesão ao liberalismo como o meio de superar o suposto “atraso” da região e compartilhar a situação de Progresso vivenciada pelas nações centrais.

A aceitação desse modelo político foi acompanhada pela adesão a concepções culturais e mesmo étnicas, que filiaram as elites crioulas a sentidos que (re)construíam uma representação essencialista e naturalizada (e pessimista) sobre a latinoamericanidade. Baseando-se nos padrões de civilização europeus, elas reiteraram a visão do homem e da cultura latino-americanos como entes “barbáros”, engendrada no período colonial pelos dominadores.

Ao vislumbrarem o anti-liberalismo populista como decorrência dessa situação de “atraso” do povo da região, os grupos oligárquicos do continente reverberavam politicamente, de forma subliminar, o discurso essencialista que adotavam para caracterizar o híbrido ser latino-americano. E, por conseguinte, impregnavam com a mesma idéia de “incivilidade” o modelo democrático-popular peculiar à região.

Por derivar de uma suposta característica essencial do povo latino-americano, a “atraso” político da região desponta, nessa concepção, como um atributo atávico, indelével do próprio destino do continente. Neste quadro interpretativo, o governo Hugo Chávez emergiria como um herdeiro do populismo e do discurso estereotípico do “atraso”. Os contornos anti- liberais assumidos por sua administração seriam vistos como fruto de uma causa natural.

17 Ao empregar o termo “parcial”, pretende-se lembrar que apenas os aspectos liberais dessa teoria interessavam

às elites latino-americanas. Isto porque, conforme mencionado anteriormente nesse trabalho, a democratização efetiva da sociedade não era foco de sua atenção.

Na medida em que constrói uma visão anti-liberal do governo Hugo Chávez, o noticiário de El Universal é vislumbrado nesse trabalho como uma aparato simbólico que contribui para a materialização de tais sentidos. Defende-se aqui a tese de que ele reitera subliminarmente o discurso da “incivilidade política” populista, tributário do estereótipo do “atraso” latino-americano, por se assentar sobre valores ideológicos liberais.

A sustentação de tal argumento, portanto, só se faz possível a partir do momento em que se desvele a presença da ideologia liberal nas construções engendradas por El Universal. Por esta razão, após a análise do discurso do jornal O Globo efetuada logo a seguir, realiza-se no capítulo seis uma explanação que procura evidenciar como as marcas discursivas ora coligidas associam-se aos argumentos centrais do liberalismo.

5 A REPRESENTAÇÃO DO GOVERNO HUGO CHÁVEZ NO JORNAL O GLOBO: