Luhmann (1995) ao afirmar que a comunicação coordena a seletividade dos sistemas, trabalha com a hipótese de que o que possibilita a autopoiesis nos sistemas são derivações do processo comunicativo.
Esteves (1993) destaca que a própria comunicação desencadeia novas seleções, buscando reduzir a complexidade das possibilidades. Porém, comunicação, na teoria sistêmica de Luhmann, não pode ser entendida como uma simples transmissão de informação, pois esta só pode ser gerada pelo próprio sistema, tendo em vista que ele é auto- referente, ou seja, irá depender de sua contingência (sentido).
Por isso para Luhmann (1995) comunicação se traduz em: “um processo que sintetiza informação, comunicação e compreensão” (NEVES, 1997, p. 16).
Rodríguez e Arnold (1991) além de citarem estes três mecanismos do processo comunicativo, destacam outro, a incompreensão.
Será vista a seguir que esta incompreensão é a fonte para a autopoesis, tendo em vista que ela pode ser percebida como uma “irritação” gerada da interação entre sistema e ambiente/entorno.
Esteves (1993), por sua vez, alerta que esta auto-referencialidade não deve ser entendida como fechamento, pois o processo comunicativo deve preservar certo grau de abertura, para que possa garantir a regulação da comunicação. Ou como, coloca Kunzler (2004), possuir certa abertura para possibilitar a observação ou recebimento de “mensagens” do ambiente.
Pois, o sistema é aberto e fechado ao mesmo tempo.
Aberto para receber a mensagem e fechado para sua auto- reprodução, derivada a partir das mensagens recebidas do seu ambiente/entorno.
Viu-se que há processos comunicativos nos sistemas e eles operacionalizam a seleção e em muitas vezes promovem a autopoiesis,
porém cabe uma pergunta: como isso ocorre na relação sistema/ambiente?
Antes de se mostrar como ocorre o processo comunicativo dos sistemas, cabe contextualizar alguns itens que fazem parte deste processo e com isso melhorar o entendimento do mesmo.
− Sentido – é o referencial do sistema, ou seja, a identidade que o sistema possui. Eles afirmam o que devem ou não fazer parte do sistema.
− Código Binário – para operacionalizar o processo seletivo, os sistemas utilizam de códigos binários que ordenam o processo. Tais códigos podem ser entendidos como: possui/não possui; funciona/não funciona; verdade/não verdade. Cada sistema possui seu código próprio e este, por sua vez é condizente com o sentido do sistema. Os códigos possuem apenas duas variantes, não há uma terceira alternativa.
− Contingência e dupla contingência – a contingência como já foi destacada antes, é referente ao sentido que o sistema possui. A existência desse sentido já reduz o número de possibilidades do ambiente, no momento da observação ou envio de mensagens. Porém, a partir desta pré-seleção, realizada pelo sentido, há uma seleção realizada pelo código binário e nesta segunda seleção, tem-se a segunda contingência ou dupla contingência existente no sistema. Exemplo: a interação entre o sistema econômico e o sistema político é mediada por seus sentidos e códigos binários. Para o sistema econômico seu sentido é referente ao monetário, ou dinheiro; e seu código binário pode ser entendido como lucro/prejuízo. Já o sistema político tem como sentido o poder da regulação social e seus códigos são: regulamenta/ não regulamenta. Diante deste fato tem-se como contingência, os respectivos sentidos, porém, no momento da interação há a dupla contingência que pode ser caracterizada pela política econômica.
− Expectativas – ocorrem quando as comunicações realizadas pelo sistema são passiveis de serem interpretadas pelo seu código binário. São informações já armazenadas em sua memória histórica.
− Ruído ou irritação – ocorre no momento em que aparece uma terceira alternativa para o código binário e por este motivo o mesmo não consegue interpretá-la. Há uma fuga do padrão estabelecido e com isso o código se torna insuficiente para responder a tal mensagem e desta maneira, a mensagem se torna um ruído. Pode ser entendido também como complexidade externa não selecionada. A partir deste ponto inicia-
se uma reconfiguração no sistema que acaba por desencadear a autopoiesis.
− Interpenetração – processo pelo qual ocorre o processo comunicativo. Ou seja, o sistema e seu ambiente/entorno (outro sistema) se interconectam e se influenciam mutuamente, pois na medida em que há irritação do ambiente para o sistema, este ao se re-configurar, por meio de sua autopoiesis, passa a influenciar o ambiente/entorno. Isso ocorre porque o sistema modificado altera sua interpretação do ambiente/entorno, tendo em vista que houve modificações internas no sistema e com isso o entendimento de seu ambiente também muda.
Após a contextualização destes elementos, será demonstrado como se dá o processo comunicativo dos sistemas.
Por meio do acoplamento estrutural existente entre os sistemas e o ambiente/entorno, estabelecem-se contatos entre si (interpenetração).
No momento em que se estabelece este contato, o sistema se abre para observar o seu ambiente/entorno.
Este processo de observação é regido pelo sentido (contingência) do sistema e, conseqüentemente, pelo código binário.
O processo de observação inicia a comunicação que o sistema desenvolve para gerar informações sobre seu ambiente/entorno.
Ao se fazer a interpenetração, o sistema por já possuir seu sentido que seleciona algumas possibilidades no ambiente/entorno, tem expectativas sobre o que irá interpretar do ambiente.
Estas expectativas já são algumas possibilidades selecionadas, dentre estas, algumas serão escolhidas pelo código binário (dupla contingência).
Entretanto, quando o código binário não consegue interpretar ou gerar informação a partir da interpenetração, tem-se um ruído, pois surgem novos fatos que não fazem parte do sentido e com isso essa nova “mensagem” se torna um ruído.
O ruído é interpretado como uma irritação do ambiente sobre o qual o sistema deve se re-configurar por meio da autopoiesis, para fazer frente a esta irritação (KUNZLER, 2004).
Esteves (1993, p. 11) caracteriza o processo de comunicação da seguinte maneira: “O processo comunicativo preserva até seu limite um indispensável grau de abertura, que é, simultaneamente, condição do seu sucesso, mas, também, a eventualidade do fracasso.”
A partir desta afirmativa se pode notar que o fracasso que o autor enfatiza, nasce da incapacidade do sistema em gerar informação sobre a observação realizada ou mensagem recebida.
Mathis (1998) destaca que o processo de comunicação pode se tornar improvável de acontecer por três motivos: a não compreensão por parte do sistema, a improbabilidade de que a mensagem chegue ao destinatário e a não aceitação da comunicação.
As soluções para estas improbabilidades, no exemplo do autor são:
• a língua comum compartilhada para reduzir o problema da compreensão; e
• o fortalecimento dos meios de difusão da informação, facilitando o alcance do destinatário; e os meios de comunicação simbolicamente generalizados, facilitando, desta forma, a aceitação da comunicação.
A improbabilidade comunicativa dificulta a geração de informação por parte do sistema sobre as observações realizadas ou mensagens oriundas do ambiente.
A ocorrência deste fato dificulta o processo evolutivo dinâmico (aumento da complexidade interna) dos sistemas e com isso compromete sua manutenção no ambiente/entorno.
Diante desta exposição, vê-se que o processo de comunicação é o mecanismo pelo qual o sistema observa seu ambiente, como também seleciona as inúmeras possibilidades (complexidade) existentes no ambiente quando o mesmo se encontra irritado.
A partir do entendimento de que a manutenção do modelo põe em risco a sobrevivência humana, desencadearam-se em “mensagens” para vários sistemas, como: o Estado, o mercado e as organizações.
Tais sistemas foram irritados, por estas mensagens, pois seus códigos não conseguiam compreender tais mensagens e gerar informação sobre os fatos.
A partir desta irritação houve reestruturação (autopoieses) nestes sistemas para responder as demandas do ambiente/entorno.
Pode-se ver esse fato como: as legislações ambientais, órgãos de fiscalização ambiental; e as “barreiras verdes”, os selos e normas ambientais.
A irritação desencadeia um processo de reestruturação interna do sistema que para internalizar a complexidade externa, promove-a por meio da autopoiesis.
Com isso os sistemas acabam desenvolvendo um processo evolucionário dinâmico que será discutido a seguir.