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CHAPITRE I MILIEU D’ETUDE

II. MATERIELS ET METHODOLOGIE

Após cultivar morangos, passa-se a preparar tais frutas. Se tratamos da produção – nomeação e invenção –, agora interessa transformá-los em uma natureza de certo tipo. Para entrar na fondue, morangos precisam ser manipulados e passar pelo preparo humano – se é que já não passou até aqui. Morangos precisam ser doces, úteis ao seu produtor, utilizáveis em receitas, obedecer a regras, vontades e interesses daquele que os inventou. O currículo experimental institui o que é natural para, por meio da técnica de naturalização, naturalizar e tornar verdades leis que são criações culturais, são produções discursivas. Isto é, na produção de saberes – aqui, sobre a natureza –, “existe uma administração do saber, uma política do saber, relações de poder que passam pelo saber e que naturalmente, quando se quer descrevê-las, remetem àquelas formas de dominação (FOUCAULT, 2007, p. 90).

Aqui, é ensinado que cada ser vivo tem sua utilidade: “gente, os microrganismos também são fundamentais para mim. Vocês comem pão porque têm eles para fermentar. A mesma coisa é o iogurte, o queijo e a cervejinha” (DC, 01/09/2010, p.19). Porém, não é apenas em alimentos que seres são utilizados. Sua serventia é ampliada: “por que eu posso dizer que anfíbio é um bom indicador de boa qualidade da água?”, pergunta-se para logo se responder: “eles podem me dizer muito. Vocês já ouviram falar de animais que fixam toxinas em seu corpo, concordam? Peixes e moluscos, por exemplo. Então, eles são bons contadores do que acontece ao longo do tempo” (DC, 29/09/2010, p.34).

Com tal saber, esse currículo deseja produzir, por meio da técnica de otimização, a natureza como algo útil. Para tanto, tornar o natural uma fonte de utilidades é, antes de tudo, controlá-la, domá-la ou, ao menos, saber lidar com ela. Esse ensinamento é constantemente reforçado aqui. Um exemplo ocorre quando Ari diz que a inércia é uma

propriedade da natureza e não conseguimos manipulá-la, nem controlá-la. “O que precisamos fazer é conseguir lidar com a inércia”. Ele repete isso várias vezes e depois pergunta quem poderia trazer exemplos disso no automóvel, citando e fazendo os/as alunos/as citarem: o cinto de segurança, o protetor de cabeça e o armazenamento adequado de objetos (DC, 04/11/2010, p.46). Esse modo de relacionar-se com a natureza para domá- la, objetivando-a, foi produzido desde Descartes que fundou o mito do progresso no mundo utilitário (GRÜN, 2007). A partir do “otimismo tecnológico de Descartes”, funda-se a ideia de que a ciência forma “dominadores da natureza” (JAPIASSU, 2007, p. 111).

Como tudo é uma questão de utilidade, há de se ensinar aos/às alunos/as modos eficazes de produção e conservação de alimentos. Ao discutir os resultados obtidos com o experimento do apodrecimento do tomate, diz-se que “quando a gente compra um tomate, ele vem com antifúngico. Se pensarmos do ponto de vista do produtor e do vendedor, eles vão conseguir que o tomate dure mais tempo, vai vender mais e perder menos dinheiro. Então, quando a gente comprar tomate ou fruta, é bom a gente guardar na geladeira do jeitinho que a gente comprou. Só lavar na hora de comer” (DC, 06/10/2010, p.39). Se por algum motivo a produção humana sobre a natureza traz malefícios, é necessário desenvolver alternativas para remediar e não prejudicar a máxima utilização. Por isso, nesse currículo, são destinadas algumas aulas para ensinar aos/às estudantes sobre a importância de se separar o lixo e reciclar materiais, desenvolver “hábitos verdes”, “consciências em favor do planeta”. Afinal, “vocês conseguem pensar a vida de vocês sem o plástico? É difícil né?” (DC, 07/10/2010, p.40), questiona-se ao final de tais aulas.

Natural, verde, favorecimento do planeta são mais algumas produções sobre o que é natureza ou modos de aproximar-se dela operada pela técnica de nomeação. Aqui, ser natural, verde e beneficiar o planeta é comer alimentos com antifúngicos por beneficiar os produtores, é não viver sem o plástico. Quando o natural é entendido como “a justificativa daquilo que uma sociedade aprova ou deseja, decorrente de um entendimento que aponta a natureza como representando tudo aquilo que é bom e é perfeito” (AMARAL, 2000, p. 160) – o próprio discurso religioso acerca do natural produzido no século XVII (GRÜN, 1995), acaba-se por, momentânea e estrategicamente, mais uma vez, desfazer barreiras entre cultural e natural para fazer circular enunciados produzidos pelo discursos econômico, científico e recursista de que a natureza precisa ser administrada em favor do consumo e ditas necessidades humanas. Assim, vê-se que “complexas relações entre cultura e natureza vão sendo continuamente resignificadas” (AMARAL, 2000, p. 170).

No currículo experimental, não é apenas ensinado que seres são úteis, que se deve manipulá-los para produzir e durarem mais, amenizar os males dos usos e lidar com aquilo sobre o qual não se tem controle. Aqui, ensina-se e naturaliza-se a lei de “custo e benefício”. Ao discutir a endossimbiose entre microrganismo ao longo da história evolutiva, pergunta-se: “por que deu certo essa união gente? Por que a natureza trabalha com a lei de máxima utilidade. Como se trata de algo bom evolutivamente, isso permaneceu” (DC, 04/11/2010, p.44). Em outra aula, discutia-se as transformações de energia, quando diz-se que “a ciência gosta do que não perde calor e é mais econômica para o bolso de quem consome” (DC, 08/11/2010, p.49). Quando se perde energia em forma de calor nos aparelhos elétricos, logo é dito por Ari que “a gente acha isso ruim porque é uma energia que não é útil, se soubéssemos usar isso, seria transformado em energia útil” (DC, 22/11/2010, p.53).

Baseada em Foucault, Portocarrero afirma que “um enunciado se produz ao mesmo tempo em que o objeto que o qualifica, e sua produção é instrumentalizada em toda uma série de operações que fazem falar o objeto de conhecimento e o obrigam a reconhecer que ele é, realmente, aquilo que o enunciado diz que ele é” (2009, p. 69). O modo pelo qual se opera e se diz sobre a natureza – bem como acerca de seus fenômenos lidos como eficácia de alianças evolutivas entre organismos ou a perda inútil de energia –, é que a constitui. Isso implica em dizer que a natureza que produzimos, por meio da tecnologia de hibridização, poderia ser definida como um “objeto fronteiriço” (PORTOCARRERO, 2009), um “objeto híbrido” (LATOUR, 2000) por envolver discursos científicos, políticos, econômicos. Porém, alguns cientistas propagam a ideia de que essas coisas não se misturam. Insistem com a afirmação de que somos reféns das leis naturais e, por isso, precisamos fazê-la falar em nossos laboratórios. No entanto, “se você os criticar dizendo que a natureza é um mundo construído pelas mãos dos homens, irão mostrar que é transcendente e que eles não a tocam” (LATOUR, 1994, p. 43).

Uma outra situação em que a lei de custo e benefício é naturalizada, ocorreu quando se discutia o mecanismo de funcionamento das armadilhas de plantas carnívoras. Quando os/as alunos/as constatam que entre “os dentes” da armadilha haviam espaços por onde prezas pequenas podiam escapar, Vânia responde enfaticamente: “gente, uma presa grande não passa ali, só as pequenas. Então, seria interessante digerir algo que não é bom energeticamente?”. Eles/as respondem que não e se dão por satisfeitos/as (DC, 13/06/2011, p.62). Ao mesmo tempo em que se opera a natureza por meio da técnica de objetivação,

esse currículo a subjetiva, atribuindo-lhe leis humanas, conferindo-lhe uma realidade discursiva. Se o currículo assim o faz é porque ele atua com a técnica de naturalização. O que está em jogo não é apenas a humanização, subjetivação, corporificação da natureza, trata-se de atribuir “características reiteradamente invocadas para configurar as relações entre os humanos [...], ao fazer isso, promove-se, ao mesmo tempo, a naturalização e a formatação de muitas condutas sociais humanas” (WORTMANN, 2007, p. 194). Ao investir no dito de que algo é natural, quer-se afirmar que “é assim que o mundo é, não podemos mudá-lo” (KUNZRU, 2009, p. 25).

Além de interessar-se pela natureza útil e que segue a lei de custo e benefício, o currículo experimental estabelece uma natureza boa e uma ruim para humanos. Quando se discute a qualidade da água de rios, pergunta-se: “a qualidade da água ali é boa ou ruim?” (DC, 29/09/2010, p.34). Quando se conclui que é ruim, ignora-se a existência de outros seres vivos nela. O que conta para ser bom ou ruim na natureza é se o que está em questão beneficia ou prejudica o homem. Isso pode ser observado também na seguinte reflexão: “a enchente é bom ou ruim para um ambiente natural. Estou me referindo para o natural, isso é bom ou ruim? Vocês já ouviram que os egípcios faziam festas no tempo das enchentes do rio Nilo? Então, quando o Nilo colocava suas águas para fora, ele fertilizava a terra e os egípcios conseguiam plantar. Mas, aqui na cidade, enchente é problema? É um problema porque rio hoje é rio ou esgoto? Por isso é problema. Deixou de ser algo bom para ser um problema para o ser humano” (DC, 29/09/2010, p.35). Mesmo iniciando com o aviso de que se referia ao natural, usa-se o humano pra respondê-la.

No currículo experimental, ao mesmo tempo em que o discurso ambientalista produz a necessidade de desenvolver consciências verdes e diferentes do antropocentrismo, os discursos científico e econômico colocam a humanidade no centro, dizem que o mundo bom é aquele útil, que não a prejudica e é pensado para atender às suas necessidades. Além disso, esse currículo, como uma produção cultural que é, trata de “nomear e dar sentido ao mundo e às coisas do mundo” (PARAÍSO, 2001, p. 61). Quando estabelece o que é natural pela técnica de nomeação, utiliza-se a ideia de que a natureza é o oposto da cultura e, portanto, uma verdade pura, perfeita e livre das valorações humanas (AMARAL, 2002), para produzir saberes permeados por relações de poder, de interesses, pela técnica de naturalização, colocando “o homem no centro da história” (STENGERS, 2000, p. 163).

Naturaliza-se, portanto, o mundo utilitário, produzido por meio da técnica de otimização, que visa o progresso da produção de alimentos em grande escala pela

disseminação dos antifúngicos e agrotóxicos, que pondera custos e benefícios, que prima pela lei da máxima utilização do natural, do artificial e, por conseguinte, do humano. Com essas ações discursivas, “a palavra natureza perdeu seu sentido etimológico que vêm do latim: natura, relacionada a nasci, podendo ser traduzida por ser nato” (LARA, AZAMBUJA, GUARESCHI, 2009, p. 3). Produz-se, por meio da tecnologia de hibridização, morangos doces: manipulados pela ciência, economia, política, que são híbridos de cultura e de natureza, mesmo quando se quer vê-los apenas como “naturais”.