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A principal preocupação de Pêcheux, neste momento da obra SD, é que diante de uma língua lógica e sistêmica, o sujeito só irrompe subordinado à verdade de seu discurso, e no decorrer da história da filosofia da linguagem, ele passa contraditoriamente a ser fonte e objeto de determinação do discurso, um nó de necessidades que ata e freia o desenvolvimento da semântica, do discurso e da própria noção de sujeito.

Uma das variações desta ficção linguística se manifesta sob a alcunha da subjetividade, uma reelaboração das noções Aristotélicas de contingência e necessidade, passando por Kant e seus seguidores e culminando na ciência da semântica do início do século XX. Tal conceito desponta como possível forma de desatar o nó de necessidades que impedia a entrada da semântica e do sujeito na relação que até então se restringia à lógica e à retórica. Tal acesso parecia ser possível mediante a concepção kantiana de inerência do predicado no sujeito, a noção que fundamenta o juízo analítico e o juízo sintético na Crítica da Razão Pura (KANT, 2001), o que se enuncia da seguinte forma:

a) Se o predicado pertence ao sujeito, ou seja, se está em relação de inerência necessária, impossível de se dar de outra forma, trata-se de um Juízo Analítico. Neste caso, o juízo emerge apenas na forma de constatação, de análise, pois o predicado está inscrito essencialmente no sujeito. Logo, esta é uma verdade de natureza universal, essencial e redutível, por cálculos lógicos, a uma identidade simples e determinada. Ex.: João é mortal.

b) Se o predicado não está em relação de pertencimento inerente ao sujeito tal relação é fruto de um encontro contingente, cujo oposto é possível. Trata-se, portanto, de um Juízo Sintético, ou seja, é através de uma síntese entre dois diferentes, de forma ativa, que tal juízo pode ser enunciado. Neste caso, afirma Kant, trata-se de um ato do sujeito que liga o conceito a algo fora dele, fazendo com que todos os juízos de experiência se tornem Juízos Sintéticos. Ex.: João é professor.

Pêcheux lança luz sobre o fato de que, novamente, quando o imprevisto contingente aparece, ele surge como defeito a ser corrigido, e desta vez o caminho é o da subjetividade do Juízo Sintético, um ato do sujeito que impede a reintegração da língua completa. É conhecido o fato de que o projeto de Kant era salvar a ciência do ceticismo que a assolava no século XVII (EVANS, 1984). Este projeto se deu, em grande medida, através da instituição de uma

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linguagem científica que fosse capaz de enunciar verdades universais e essenciais. Assim, a noção de Juízo Analítico permitiria à ciência emitir juízos lógicos, resguardando-a dos erros através de seu par antinômico, o Juízo Sintético, que por ser um ato do sujeito, estaria passível de relações imprecisas, falsas, equivocadas etc. Diante deste argumento, se a ciência se circunscrever a emitir apenas Juízos Analíticos, ela estará salva da subjetividade do sujeito e dos erros que dele derivam (PÊCHEUX, 2009, p. 48).

Tal noção de subjetividade como ato do sujeito, inaugurada por Kant, tornou-se base comum para diversos teóricos que tentaram viabilizar um método lógico e seguro, localizando fontes de erros e afastando-os. Gottlob Frege, por exemplo, famoso matemático e filósofo alemão do final do século XIX e início do século XX, distingue propriedades essenciais e inessenciais a partir desta mesma separação, ou seja, entre o enunciado lógico e universal (essencial) contraposto ao enunciado emitido por um dado sujeito (inessencial). Edmund Husserl, filósofo checo contemporâneo de Frege, é autor de uma teoria muito divergente da elaborada pelo alemão, menos neste ponto: o necessário e universal independe do sujeito, da história e das condições de produção de um enunciado, ao passo que o contingente e factual é datado, limitado, e passível de erros justamente por que depende do sujeito que o enuncia (PÊCHEUX, 2009, p. 49).

Todavia em Husserl esse percurso teórico ganha novas propriedades. A clássica oposição entre contingência e necessidade é superposta por uma nova oposição, a saber, a que opõe objetividade e subjetividade. Assim, para o pensador checo uma expressão objetiva é aquela cuja significação depende simplesmente de sua realidade fônica, ou seja, pode ser compreendida sem que se tenha que levar em consideração o enunciador nem as circunstâncias da enunciação. Tais expressões objetivas podem ser exemplificadas através de juízos matemáticos, teoremas, demonstrações científicas etc. Já a expressão subjetiva, ao contrário, é ocasional e institui, no momento da fala, uma unidade conceitual que será atualizada e localizada pelo sujeito em um determinado contexto de enunciação (PÊCHEUX, 2009). Husserl argumenta que não se compreende o enunciado “há pedaços de bolos” da mesma forma que se compreende a proposição matemática “há corpos regulares”, ou seja, para ele existe uma separação entre o que se enuncia a partir do vivido historicamente e o que se enuncia a partir de essências atemporais. Esta separação, conclui, evita as armadilhas do relativismo cético nas ciências e na matemática (PÊCHEUX, 2009, p. 50).

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Mas se Husserl e Frege compartilham das noções de objetividade e subjetividade, eles se opõem quando suas teorias se aproximam das relações que os sujeitos estabelecem com suas representações. Na fenomenologia de Husserl a consciência é uma singularidade: o si e o mundo são uma só coisa, o que conduz assumir que a consciência é o ponto zero de significação das representações. Já em Frege as representações estão meramente ligadas ao sujeito, o que torna o sujeito não mais um criador das próprias representações, mas apenas portador de representações que estão no mundo a despeito do sujeito (PÊCHEUX, 2009, p. 52). Pêcheux aponta que a ideia de Husserl predomina desde Kant, a saber, esta que coloca no sujeito a origem do discurso e das ideias. Tal noção perpassou toda estética romântica, quando se afirmava a prioridade do sujeito criador, o “eu” único que se exprime, a subjetividade que fala a outras subjetividades. Uma consequência já é possível ser vislumbrada: se a subjetividade é causa da contingência, tanto em Kant quanto em Husserl a contingência aparece como necessidade à subjetividade. Em outras palavras, a contingência se torna a necessidade da subjetividade, ou seja, uma causa da sua própria causa, uma nova versão do efeito contraditório de dissimulação das origens, meios e fins (PÊCHEUX, 2009, p. 53).

Assim, o par antinômico objetividade/subjetividade aparece como uma nova roupagem para a velha operação asséptica que separa experiência vivida de conceitos. Nesta versão da separação, o subjetivo aparece como lócus exonerado para as expressões ocasionais, subjetivas, contingentes, imprecisas. Já a subjetividade é o modo de ser de uma consciência que contamina o enunciado com suas próprias impressões e vivências datadas, limitadas e não-objetivas. O erro, portanto, pode ser afastado simplesmente afastando o sujeito: mais uma vez a ciência e sua língua lógica estariam supostamente salvas dos antagonismos justamente por que o antagonismo separa a língua necessária (lógica matemática) da língua contingente (sujeitos históricos).

Mas até onde se estende o horizonte que permite entrever este modelo de assepsia da língua? Pêcheux aponta para alguns indícios de que tal sistema mobiliza a linguística contemporânea em grande medida. Ainda no século XX a espinha dorsal da linguística é a separação entre aquilo que é lógico e estável daquilo que é contingente e imprevisível. Em Saussure, por exemplo, o corte estabelecido entre língua e linguagem, separando língua de fala, determina paradoxalmente um reforço das ilusões que fundamentam a divisão entre objetividade e subjetividade. No domínio da semântica isso se dá através de outro par

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antinômico: criatividade/sistema (PÊCHEUX, 2009, p. 55). Assim, na linguística saussuriana tal oposição aparece na forma de subjetividade criadora da fala em contraposição à objetividade sistemática da língua. A criatividade subjetiva pressupõe um sistema lógico a ser extrapolado - uma sobrecarga do sistema pela fala - ainda que o sistema de um dado momento seja fruto de uma força criativa anterior. Logo, o sistema e a criatividade se complementam de forma necessária no sistema língua/fala (PÊCHEUX, 2009, p. 56).

Não nos demoraremos em demonstrar de forma minuciosa de que forma tal oposição aparece também como ponto comum entre semântica estrutural e semântica gerativa: em ambos os casos é supostamente possível aceder a cálculos que permitam determinar o sentido de um enunciado (PÊCHEUX, 2009, p. 57). Mais do que isso, tanto em Harris (1952) quanto em Chomsky e Mcgilvray (2012), o sujeito falante surge como uma entidade competente a acessar os cálculos do sentido no momento da enunciação. Ou seja, a lógica e a enunciação, embora se separem, podem ser reabsorvidas no momento da fala pelas vias de um cálculo direcionador da boa fala.

Assim, identifica-se na linguística contemporânea o mesmo percurso inaugurado por Aristóteles, a saber, o que trata de separar o campo da linguagem científica (um sistema instrumentalizado, objetivo e logicamente estabilizado, além de necessariamente universal), daquela linguagem da conversação cotidiana (datada, subjetiva, contingente e passível de erros), separação esta, aliás, conveniente àqueles que sobrevivem de reparar a língua. A dupla ferramenta de correção aparece através do par lógica/retórica, um recobrimento da fratura que emerge como extremos de uma continuidade, como se lógica e retórica fossem pontas diferentes do mesmo fio condutor (PÊCHEUX, 2009, p. 59). Dito de outra forma, a história da filosofia da linguagem e, mais contemporaneamente da linguística, embora apresentem em seu bojo pressupostos distintos, se sustentam em um ponto de apoio comum: a oposição asséptica que separa a língua do erro (contingente) da língua do acerto (necessária).

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