O processo de conquista da independência do Alto Peru levou dezesseis anos para se concretizar de fato (1809 a 1825). Esses difíceis anos iriam determinar se o território comandado pela Audiência de Charcas se tornaria parte da República do Peru ou parte da República da Argentina, ou ainda uma República independente. Havia, também, a possibilidade almejada por Bolívar de o Alto Peru fazer parte da Grã-Colômbia.
Numa primeira onda de revoltas pela independência no Alto Peru, lideradas pelo patriota Pedro Domingo Murillo, as tropas rebeldes seqüestraram o governador e bispo da cidade de La Paz e instauraram ali um governo local. Rapidamente, veio o contragolpe das tropas reais, em número cinco vezes maior, enviadas pelo vice-rei de Lima sob o comando de Goyneche, o que pôs fim ao recém-instaurado governo local e, como recado aos rebeldes, determinou-se a execução dos líderes da revolta. Não obstante, as revoltas pela independência do Alto Peru não cessaram e junto delas um ambiente político repleto de interesses ambíguos48 tomaria feição.
Depois de declarada a independência da Argentina em 1810, mediante o Congresso de Tucamán, determinou-se também, através deste, o envio de tropas portenhas para o “auxílio” à independência de Charcas (Alto Peru), e as revoltas tomaram novo fôlego e assumiram um caráter de certa reciprocidade entre os que queriam a independência em toda a América Latina. As tropas argentinas enviadas ao Alto Peru realizaram a conquista de algumas regiões importantes sob domínio real, como as cidades de Potosí, Oruro e La Paz. A deflagração da independência por estas tropas acabou, no entanto, por ficar duvidosamente em segundo plano. Os portenhos no pouco tempo que detiveram o domínio sob os poderes reais (1811) não instauraram “uma República independente, tampouco promoveram os interesses do Alto Peru” (KLEIN, 2004, p.64).
Há, mais uma vez, uma inflexão na concretização da independência do Alto Peru, e os vice-reis, tanto do Baixo Peru quando da Argentina, que não estavam totalmente dominados no exercício de seu poder, expulsaram o exército portenho das terras alto-peruanas, além de
48As ambigüidades políticas no processo de independência do Alto Peru se expressam inclusive entre os indígenas. “Los indios estaban divididos, pues mientras una buena parte luchava con los patriotas, otra luchava dentro de las fuerzas realistas, en tanto que un tercer grupo conservaba un caráter autonomista y revindicatorio que, en algunos casos, interntó la reconstitución del Incario”. (MESA GISBERT, 1999, p. 302.)
enviarem tropas para o norte da Argentina na tentativa de derrubarem a recém-consolidada independência.
O processo entrou em uma fase extremamente caótica e os distúrbios sociais se aprofundaram ainda mais. Havia líderes indígenas (Kurakas) que, por terem recebido certo prestígio dos vice-reis no intuito de não se revoltarem, apoiavam esses monarcas; havia outros extremamente antimonarquistas, o que não significava que concordavam com os independentistas; ao contrário, queriam o retorno das estruturas pré-colombianas que regiam a civilização incaica. Dentro da própria monarquia, existia uma divisão entre monarquistas absolutistas e monarquistas liberais, e, entre os independentistas, havia interesses em comum, mas que, nos momentos decisivos das revoltas, voltaram-se, por vezes, contra o processo de independência.
Foram, no total, quatro as investidas das tropas argentinas ao Alto Peru. A última no ano de 1817, liderada pelo coronel Gregório Araoz de la Madrid, que, como as outras investidas, não passou de esforços inúteis que serviram apenas para aprofundar ainda mais a crise econômica devido aos constantes saqueios da Casa da Moeda localizada em Potosí. É perceptível, ao longo dessas investidas do exército argentino, seu interesse mais que evidente em conquistar principalmente as cidades mineras de Potosí e Oruro, obviamente muito mais pela cobiça da prata e muito menos para somar forças rumo à independência do Alto Peru.
Não vamos nos alongar muito nesses oito anos seguintes que passariam por seguidos avanços e retrocessos até a conquista definitiva da independência. O que é importante enfatizar, para os fins que nos interessam e que começam a ficar cada vez mais evidentes, é que a conquista da independência do Alto Peru teria que ser, em boa medida, resultado de
mobilizações endógenas ao seu território, forças autônomas que empiricamente queriam sua
autodeterminação.
Importa salientarmos, para esclarecer a necessidade dessas mobilizações endógenas, que havia uma economia urbana no Alto Peru que se desenvolvia em torno das minas de prata, e uma economia rural centrada nas pequenas propriedades e nos grandes fazendas (latifúndios), dominadas pelas altas classes crioulas. A maioria da população estava na zona rural, onde estavam também instauradas centenas de guerrilhas rebeldes dotadas de plena autonomia política e territorial. Eram, contudo, carentes de um núcleo que pudesse liderar o processo de autodeterminação político/territorial e causar um processo independentista. Referimo-nos às famosas republiquetas, às quais René Zavaleta atribui um duplo caráter que será de suma importância na conquista da independência alto-peruana, e permanecerá, para
Zavaleta, vivo como um “caráter da nação49” nos momentos cruciais da vida republicana,
tanto para o bem quanto para o mal. (ZAVALETA, 1988).
As republiquetas instauradas nas zonas rurais do Alto Peru trazem consigo, sem dúvida, um inerente sentido de independência, reforçado pelas ambigüidades das ações dos exércitos auxiliares argentinos e da clara orientação realista das tropas do Baixo Peru. Mesmo com essas forças autônomas, os esforços de conquista de independência ficariam, no entanto, inertes por mais algum tempo em virtude da dificuldade de essas forças se organizarem de forma coesa, ou seja, como relatamos, anteriormente, apoiando-nos em Zavaleta: as
republiquetas possuíam uma forte capacidade de resistência às imposições reais, porém
uma fraca organização consensual na busca da independência.
O Alto Peru, por essa razão, continuaria oficialmente sob o comando político espanhol até 1824, tendo como chefe da burocracia real Pedro Olañeta que, contudo, nessa data, em decorrência de todos os processos de independência já concretizados, dá mostra de certa tendência em não respeitar os mandos senhorias vindos da Espanha. Alguns historiadores dizem que esse distanciamento de Pedro Olañeta dos quereres da Coroa teve forte influência de Casemiro Olañeta, seu sobrinho, influenciado fortemente pelos ideais da Revolução Francesa.
A sintetizada e concisa citação de Herbert Klein resume esse último ano que, em seu término, daria ao Alto Pero por definitivo sua independência, mas que legaria sérios distúrbios sociais à nova República. Podemos dizer que a declaração da independência não pôs fim a uma permanente luta de interesses extremamente provincianos característicos dos localismos oligárquicos crioulos instalados nas pequenas partes urbanas, o que impediria, como veremos, um harmônico desenvolvimento nacional. Assim, a parte rural do Alto Peru (composta por indígenas camponeses), que será o sustentáculo econômico da parte urbana (composta pelas oligarquias crioulas), permanecerá isolada e confinada à miséria mesmo com a independência. (VELARD, 1981). É importante, ainda, frisarmos que,
De janeiro de 1824 a janeiro de 1825, o Alto Peru, embora sob domínio oficialmente espanhol, não defendeu o poder da Coroa. Isso enfraqueceu seriamente o exército monarquista no Baixo Peru. Em dezembro de 1824, o destino da região foi selado quando o exército monarquista foi destruído por Sucre na batalha de Ayacucho, provocando a rendição de todas as tropas reais. Embora o tratado de capitulação contempla-se algumas de suas reivindicações, Olañeta recusou-se a assiná-lo por não
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“Isso se herdará na republica e tornar-se-á uma espécie de caráter de nação. Será um país com uma grande
capacidade militar em suas massas, invencível sempre no que Tamayo chamará seu home central, mas também, reproduzindo algumas das limitações do poder político incaico, um Estado incapaz de empreender guerras exitosas fora de tal hábitat. Será por outro lado, herança da facção, dos hábitos democráticos instalados nas massas, a pátria do que Arguedas denominará ‘caudilhos bárbaros’ e a ‘plebe em ação’”. (ZAVALETA, 1988, p.18, grifos nossos).
aceitar Bolívar. Sucre foi então obrigado a conduzir um exército ao Alto Peru para encorajar as tropas de Olañeta a desertarem. Em janeiro de 1825 o velho general foi morto por suas próprias tropas num motim. Após quase dezesseis anos de
angustiante guerra civil, de um grande número de perdas humanas e de graves desarranjos econômicos e sociais, a morte de Olañeta trouxe independencia ao Alto Peru”. Neste mesmo ano a nova república tinha uma população estimada de 200 000 brancos, 100 000 cholos e aproximadamente 800 000 camponeses índios. A Bolívia constituiu-se assim na mais indígenas das novas repúblicas da América espanhola; república na qual a língua dos conquistadores permaneceu uma língua de minoria até o século XX. Dessa forma, as prósperas colônias mineiras de antigamente emergiam em sua nova existencia republicana, como uma sociedade extremamente pobre, composta na esmagadora maioria por índios camponeses. (KLEIN, 2004, p. 69-73, grifos nossos).
A conquista da independência e a fundação do Estado nacional – como procuramos elucidar a partir de agora – demonstram que os conflitos de interesses no seio dessa
protonação permanecem, desse modo, postos num ambiente interpenetrado por graves
distúrbios sociais decorrentes, principalmente, da visão de mundo provinciana das oligarquias crioulas que procurariam preservar as estruturas do colonialismo de forma a impedir o desenvolvimento de novas bases autodeterminates, isto é, de uma “nação moderna” que pudesse caminhar com suas próprias forças. Em outros termos, podemos dizer que formação do Estado nacional estava a caminho de conclusão, mas que a formação da nação boliviana não estava, de forma alguma, concluída com a independência; não estava, nem mesmo no horizonte de pensamento dessas oligarquias.
3.2 O PROVINCIANISMO OLIGÁRQUICO EM CONTRASTE COM O PAN-