Acompanhar, observar e relatar os acontecimentos de uma aldeia assistencial para crianças e adolescentes vítimas de direitos violados que se propõem a reproduzir o modelo familiar na instituição nos faz refletir ainda mais sobre as condições das instituições de acolhimento para crianças e adolescentes. A proposição do modelo de reprodução familiar se estabelece a partir da implantação da mãe social, esta seria aquela responsável pela família.
Apesar das dificuldades, que, em seguida, iremos apresentar, observam-se as dissemetrias institucionais e de comportamento das crianças e adolescentes.
A partir das conversas com uma das mães sociais, recém-ingressa, ainda em período de treinamento, ela disse-nos: “aqui é muito diferente”. Essa mãe social é natural de uma cidade pequena próxima de Juiz de Fora. Neste município, ela trabalhava em um abrigo, o qual , segundo ela, é uma instituição particular somente para meninos. O que difere a Aldeia dos demais abrigos seria o fato de as crianças serem muito inteligentes e conscientes dos seus direitos. Ela também ressaltou a disciplina, a ordem e a segregação por cronologia que vigoravam no outro município, onde residia anteriormente. Cada grupo de crianças tinha suas atividades organizadas por grupos de idade. Ressaltou ainda que o gestor do abrigo onde trabalha elaborava por si mesmo as regras da instituição – constituindo, em última instância, ele próprio a regra –, decidindo, portanto, sobre todos os aspectos e regras daquela instituição – suas normas e as premiações.
Vale lembrar que o que nos importa aqui é observar as percepções de uma mãe social que acaba de chegar à instituição. Perguntamos à Tânia se estaria assustada por estar ali naquela casa-lar, pois a única expressão que se observava em seu rosto era a de assombro. Ela confirmou e disse: “ainda estou em treinamento, por isso tenho o apoio das outras mães. Estou assustada, mas também receosa, pois não sei como irei fazer para ficar sozinha com eles em casa. Para me sentir mais segura precisava do histórico de cada uma. Caso elas tenham uma crise, um surto ou fiquem nervosos não saberei como lidar com eles. Não conheço a história de cada um e por isso não sei lidar com eles”. Questionamos quando ela entraria em uma das casas sozinha e ela nos disse: “Estou assustada, mas mais que isso preocupada, eu entrarei nas casas sozinha daqui a quinze dias, pois vou cobrir as folgas das outras mães”. Interrogamos sobre aonde ela dormia, Tânia respondeu: “temos uma casa, das tias, aquela ali no meio das outras, a casa é como as outras, mas é só para as tias, estou dormindo lá, enquanto estou em treinamento”.
Sobre a dinâmica da casa das “tias”, ela nos explicou que “quando uma tia está de folga, mas não vai viajar, não tem para aonde ir, então a tia fica lá descansando na casa, vê televisão e fica lá”.
Conversamos longamente e a questionamos se a casa das “tias” era um ambiente dentro da instituição para descansar e ela nos confirmou que “sim, um lugar para descansar a cabeça”. Ao mesmo tempo em que conversávamos com uma mãe recém-ingressa, começamos a conversar com uma das mães mais antigas e em processo de desligamento. Ela dizia: “vou
sair, não aguento mais, não temos vida social, o perfil das crianças começou a mudar muito. Antes recebíamos crianças mais tranquilas, hoje o perfil mudou”.
É importante esclarecer e relatar que o nosso primeiro contato como pesquisadora com as mães sociais se deu em função da própria gestão da instituição. Antes de obtermos o Alvará Judicial, tentamos ingressar com a pesquisa na instituição e, em conversa com o antigo gestor, ele nos vetou a possibilidade de estudos acerca das crianças e adolescentes nesta instituição. No segundo momento de aproximação, e em outro contexto da pesquisa, munidos do Alvará Judicial a gestão e o novo gestor receberam a pesquisa de modo gentil.
Apresentamo-nos ao gestor da instituição e lhe entregamos o Alvará Judicial, ele nos recebeu e nos solicitou o projeto de doutorado. Informamos que considerávamos mais apropriado pesquisar a partir da permissão dada pelo Alvará Judicial.Ele requisitou, portanto, uma carta apresentando os objetivos da pesquisa, e foi assim que entramos em comum acordo, entregando-lhe a carta, posteriormente.
O gestor nos apresentou a instituição, visitamos a área coletiva, a quadra de esportes e os arredores das casas. Não considerou conveniente entrarmos em uma das casas justamente para não causar o constrangimento de parecer uma invasão a uma das casas, invadindo a intimidade das famílias. Concordamos e garantimos que faríamos as observações na área coletiva, em um primeiro momento, e, posteriormente, caso fossemos convidados, entraríamos nas casas.
Na segunda visita à instituição, chegamos com a carta e estivemos na instituição por dias alternados, sem aviso prévio, e ao encontrarmos o gestor, ele nos disse: “teremos reunião com as tias hoje e gostaria de te apresentar”. Pedimos a ele que, caso fosse possível, gostaríamos de assistir a toda a reunião e ele, respondeu: “hoje é dia de lavar roupa suja e roupa suja a gente só lava com os de casa”. Concordamos, e enquanto a reunião se iniciava, fomos dar uma volta pela instituição para retornarmos à sede administrativa no horário marcado com o gestor da instituição para a reunião.
É importante destacar a beleza do lugar, de espaço amplo, cercado por uma mata, uma área coletiva com uma quadra ao centro e as casas ao redor. É um ambiente bucólico, ao som dos passarinhos e, em tempos de verão, há áreas com sombras frescas.
Ao adentrar a área coletiva, imediatamente dois adolescentes nos chamaram para conversar com eles. Conversamos sobre tecnologia e um deles nos informou do seu desejo de ser Engenheiro Mecatrônico. O outro adolescente, por sua vez, disse ter preferência pelo Direito. Impressionou-nos a desenvoltura dos adolescentes, conversamos sobre filmes e nos
explicaram as “negociações” que ocorriam no abrigo para que pudessem assistir aos filmes. Como em um ambiente familiar, as discussões se dão com as tias (as Mães Sociais raramente são assim designadas, tanto pela gestão ou as próprias mães quanto pelas crianças e adolescentes, comumente são chamadas de Tias).
As negociações estabelecem-se nos horários, quando as crianças pequenas estão dormindo. Deste modo, os mais velhos podem assistir aos filmes em um volume mais baixo; segundo os adolescentes, eles próprios preferem assim, pois há mais silêncio na casa. Conforme dito anteriormente, conversamos sobre filmes, desde os mais recentes aos mais antigos, e também sobre mitologia grega. Ao indagarmos o motivo de estarem naquele local especificamente, ele nos disseram que estudavam para a prova de Ciências e nos contaram:
Agora estou no nono ano. Tava fazendo muita bagunça e fiquei parado na quinta série, mas há um tempo resolvi estudar, levar mais a sério, agora gosto dos professores, converso com eles e tiro boas notas. Essa semana vou começar a trabalhar no Burguer King como atendente. Mas o que eu quero mesmo é construir robôs. Imagina, tia, a gente sentado aqui em casa e um robô trazendo as coisas para a gente, cuidar do jardim. Mas também penso que se tivermos robôs para fazer tudo algumas pessoas vão ficar sem trabalho (ADOLESCENTE ACOLHIDO EM UMA CASA-LAR).
Interrogado se o trabalho dele não iria prejudicar na escola garantiu: “não, trabalharei de 08h às 15h de segunda a sexta e até às 13h nos sábados e domingos, chego em casa, descanso e vou para a escola”. Neste momento, um dos adolescentes saiu, e aquele que nos havia dito que desejava ser engenheiro continuou: “somos muito amigos, gosto muito dele e ano que vem ele sai daqui da casa, já estou preocupado, pois não iremos nos ver mais tanto, minha amizade vai fazer muita falta, conversamos todos os dias quase toda hora, mas vai ser bom também”.
Em seguida nos despedimos para a apresentação na reunião com as mães sociais. Fomos convidados a participar de toda a reunião, na qual foram realizadas duas dinâmicas das quais participamos como integrante.
Durante a reunião, o que mais se evidenciou foi a participação democrática das mães sociais, garantidas por espaços de falas para todas. A reunião foi pautada em algumas implicações importantes para a vida na instituição. Uma delas foi a decisão de quem trabalharia nas casas durante as festas de Natal e Ano Novo. Cada mãe se posicionou e escolheu sua folga. O gestor ressaltou que elas poderiam pedir as folgas desejadas e posteriormente as decisões seriam tomadas pela gestão.
Outro ponto de pauta foi uma viagem dos internos, um passeio ao Rio de Janeiro, com os escoteiros. A gestão afirmou que esta seria uma visita cara para os padrões da instituição e que todas as crianças que quisessem poderiam ir, mas em regime de mérito. Somente para as crianças e adolescentes que, de fato, merecessem. As mães ponderaram acerca desse parâmetro de escolha, dizendo que posteriormente iriam repensar, caso a caso, os que realmente mereciam.
É interessante observar que, durante a reunião, o gestor afirmou que uma mãe social estava folgando durante os finais de semana, e que, consequentemente, o retorno estava atrapalhando o tempo da folga. Dessa forma, demonstrou sua reprovação, insistindo que não gostaria que tal comportamento permanecesse. Disse ainda que muitas mães saíam sem deixar dinheiro, mantimentos ou medicamentos para aquela que cobriria a folga. Durante a reunião, há a presença das mães sociais, do gestor, de duas assistentes sociais e de uma psicóloga. A psicóloga atualiza as atividades que as crianças e adolescentes realizam, bem como as agendas das crianças e adolescentes. E é conveniente observar que quando é pronunciado o nome de uma das crianças e adolescentes, a tia logo se adianta e responde: “esse é meu ou essa é minha”. Observamos, portanto, que há uma sensação de pertencimento tanto das mães quanto das crianças. Notamos esse pertencimento, ora menor ora mais expressivo, dependendo da mãe social. Não há entre elas um sistema de competição, ao contrário, há uma rede de colaboração e solidariedade. E, curiosamente, a mãe social que relatou a sua saída da instituição é a mesma que folga nos finais de semana e demonstra maior distanciamento em relação à instituição.
A mãe social, Mara, que está se organizando para deixar a instituição, passa atualmente por um processo de adoção de duas meninas que moravam com ela na casa que é de sua responsabilidade. Segundo relato de Tânia, elas tinham muitas afinidades, principalmente Mara e a menina mais nova, Mariana, mas como esta tinha uma irmã que não fora adotada, Mara, por fim, adotou as duas. De acordo com Tânia, a menina adotada por Mara já o havia sido anteriormente, mas se recusava a ficar nas casas dos pais adotivos, preferindo sempre voltar à instituição para a companhia de sua “mãe social”.
As mães sociais, ao final da reunião e ao longo das visitas ao campo, já nos reconheciam como alguém que elas podiam conversar. Uma delas nos disse o seguinte: “todas as estagiárias ficam lá dentro, no administrativo, por que você está aqui conosco?”. Dissemos a ela que nosso trabalho naquela instituição era especificamente com elas, as crianças, com o intuito de ouvi-las. Começamos a conversar e ela nos convidou a ir até sua casa. Dora nos
disse que já tinha sido uma mãe social por oito anos, mas atualmente é uma “tia” que cobre as folgas das mães. Ao longo do diálogo, ela nos contou que, atualmente, a vida da instituição está muito diferente. Para ela, que já vivera por ali durante oito anos, e que agora, após quatro anos fora da instituição, finalmente retornava, as principais diferenças e problemas eram devidos, primeiramente, ao uso de entorpecentes.
Segundo Dora, a grande maioria das crianças e adolescentes ou a quase totalidade deles estavam ali pelo uso de drogas por seus pais. Se antes, o que prevalecia era a pobreza, atualmente, as drogas se tornaram a principal causa da estada na instituição. Dora também fez observações sobre a economia da instituição, explicando que, em outros tempos, a instituição era financiada por recursos estrangeiros, fato que lhe fazia sentir uma maior valorização, afinal, ela recebia em dólar. Nos dias atuais, a maioria das demandas é atendida pela prefeitura municipal; assim, segundo ela: “houve tempos de vaca gorda, mas agora, não há mais”. Por fim, ela nos relatou sobre sua saída da instituição, e, ao perguntamos a razão, ela confessou: “não temos vida, passamos a viver pelas crianças, e eu não sou mãe, nossas folgas são poucas e tem que dormir aqui. Essa é a parte mais difícil, ter que dormir aqui”. Questionamos sobre a saída, arguindo sobre como foi esse processo: “tive que fazer terapia para me desligar deles, é difícil, temos que cuidar de tudo, por isso quando voltei agora não quis mais ser tia, preferi cobrir as folgas. A vida aqui te toma muito, tenho um namorado, uma casa e penso em ir embora, por isso vou juntar o dinheiro aqui”.
Neste dia, Dora estava cobrindo a folga de uma das mães e estava em uma das casas, em nossa conversa ela nos contou muito sobre a dificuldade da convivência, sobre as dificuldades de lidar com as crianças e adolescentes. De uma maneira geral, as mães sociais têm dificuldades de disciplinar, de dialogar com as crianças e adolescentes, pois eles, por vezes, são rebeldes.
Contudo, o que se observa, diferentemente das outras instituições de acolhimento no município de Juiz de Fora, é exatamente a alegria daqueles que foram ali acolhidos. Curiosamente, encontramo-nos com algumas crianças que estavam abrigadas em outra instituição que fora visitada anteriormente, e que, atualmente, se encontram na casa-lar. Carolina é uma delas, tem dez anos de idade, é negra e muito esperta. Havia relatos sobre ela e de outras crianças e adolescentes de outra instituição de acolhimento (o abrigo anterior), sobretudo a respeito de seu comportamento inapropriado.
No relato, compreendia-se que Carolina comportava-se de maneira tal que expressava sua sexualidade precocemente exacerbada. No momento em que nos vimos, fomos
chamá-la, ao que ela indagou: “vai trabalhar aqui agora?”. Em seguida, nos informou que havia sido acolhida juntamente com seus irmãos. Por uma medida judicial, a Juíza da Vara da Infância e da Juventude considerou que deveria aproximar toda a família; sendo assim, seus membros estão reunidos na Aldeia. Ouvimos relatos de algumas tias que a casa que recebeu as crianças e adolescentes do outro abrigo está muito agitada, por que as regras são diferentes. Segundo Dora, “aqui as crianças e adolescentes colaboram, nos abrigos, elas não fazem nada, então temos que ensinar, pois elas não entendem que podem nos ajudar”. Há um processo de adaptação as regras da instituição. Mas consideramos que a principal diferença é a de tranquilidade das crianças e adolescentes.
Há um tempo, na antiga instituição, Carolina ficava correndo agitada, cobrando sua atenção através do dinheiro. Diferentemente do que ocorre agora, pois, ao nos encontrarmos nesta instituição, ela não dá mais atenção, pois está ocupada em suas tarefas, e, por isso mesmo, não pede dinheiro. Ela tem as irmãs, as outras meninas da casa, e é com elas que se encontra, para conversar com ela, tem que chamar e quem vêm conversar é a irmã mais velha dela, pois Carolina, praticamente não se aproxima mais. Ela tem um irmão de sete anos de idade que, na instituição anterior, ficava sempre por perto; nesta instituição, contudo, ele está sempre correndo com os outros meninos da sua idade. As crianças brincaram o tempo todo em que estivemos por lá, uma brincadeira saudável, uma vez que estão sempre “territorializadas”, seja perto das casas seja perto das suas próprias “tias”. A mudança notável é a referência que elas passam a ter, sendo notória a sensação de pertencimento.
Dora nos disse que muitos deles sabem onde estão os pais, que alguns fogem para visitá-los, que outros, por sua vez, passam a vida ali, dizendo que os pais irão buscá-los e há ainda aqueles que recebem telefonemas dos pais com certa regularidade. Para a pesquisadora, a principal diferença desta instituição estabelece-se na alegria que as crianças e adolescentes têm, mesmo nos momentos de extrema bagunça, para quem olhar – eles sabem a que buscar como referência: sua “tia”, sua mãe social; e, caso ela não esteja lá, as outras mães sociais colaboram e auxiliam as crianças. Além disso, a rede de irmãos que se reestabelece é muito importante para se criar esses pontos de apoio.
Nesta instituição, percebemos que não há o sentimento de que a vida ali seja provisória, ao contrário, desenvolvem-se comportamentos e perspectivas que os atrelam a instituição.
Eles se constituem como pequenos grupos e têm suas referências entre si, isto é, entre irmãos. Constantemente, escutamos: “ela é minha irmã” ou “ele é meu irmão”. Com isso
vemos que as redes estão muito mais solidificadas e a territorialidade dos corpos se espacializa naquele ambiente. A desterritorialização é inseparável das reterritorializações correlativas. É que a desterritorialização nunca é simples, mas sempre múltipla e composta: não apenas porque participa a um só tempo por formas diversas, mas porque faz convergirem velocidades e movimentos distintos, segundo aos quais se assinala a tal ou qual momento um “desterritorializado” e um “desterritorializante” (DELEUZE; GUATTARI, 2002, p.224).
Esses espaços implicam uma mobilidade que provocam a “perda do território” gerando decisões relativas ao deslocamento, às situações de “deslocalização”, que implicam perdas de amigos, de relações, de “lugares” etc. Por outro lado, quando eles se compreendem como pertencentes daquele novo lugar ocorre o processo de re-territorialização, no “território da chegada”, “da morada nova”, das novas relações, do encontro e do desencontro. Ao mesmo tempo em que se manifesta como um dos elementos centrais do processo desterritorializador, é no campo simbólico ou das representações que o migrante (no nosso caso a criança ou o adolescente interno da instituição de acolhimento) pode melhor se “segurar” a fim de manter um mínimo da territorialidade perdida no decorrer do seu deslocamento espacial. Sobram sempre “geografias imaginárias” que, juntamente com outros elementos constituidores de sua cultura, podem ser revividos/rememorados, reconstituindo assim a identidade do migrante enquanto grupo (HAESBAERT, 2005, p. 40).
A re-territorialização do indivíduo e/ou grupo social se vincula ao sentimento de pertencimento (identidade territorial) a uma coletividade e/ou grupos (e estes a um espaço de referência), e de mediação das relações sociais. No processo de reterritorialização, as redes sociais desempenham importante papel no momento em que ocorre a sua reconstituição (re- significação de outro espaço), a fim de marcar uma “territorialidade” (mesmo que funcional), ou até mesmo, em certos casos, da (re)criação de uma identidade territorial (HAESBAERT, 2005).
Podemos compreender em processo a presença de uma des-territorialização como o movimento pelo qual se abandona o território ou se é extirpado da família sanguínea. Deste modo, há “a operação da linha de fuga”, e a re-territorialização se estabelece como um movimento de construção do território dentro da instituição de acolhimento, com um sentimento de pertencimento, mesmo que provisório na expectativa do retorno familiar. Para Haesbaert, “a vida é um constante movimento de desterritorialização e reterritorialização, ou seja, estamos sempre passando de um território para outro, abandonando territórios, fundando novos. A escala espacial e a temporalidade é que são distintas” (2006, p.138). Nesse sentido,
o território – e por ligação a desterritorialização – estaria impregnado, mais do que nunca, de diversas formas de mobilidade, sendo construídos, abandonados e destruídos pela e na mobilidade.
Desterritorializadas de seus ambientes familiares às crianças e adolescentes fragilizam-se nas instituições de acolhimento, sentem-se sozinhas, abandonadas e muitas vezes, a violência é a primeira manifestação da comunicação. Mas mesmo diante de processos muito dolorosos elas se reterritorializam-se nas instituições de acolhimento.
No caso específico das aldeias o processo de reterritorialização se estabelece nos laços de confiança que a instituição passa a perdurar. Baseados na observação, na confiança, as crianças e adolescentes que ali estão passam a compreender as regras da instituição e se tornam mais seguras, se permitem, inclusive, viverem a sua idade cronológica, isto é, observei crianças muito “adultizadas” ou mesmo muito erotizadas, retornarem a sua condição infantil. O caso de Caroline é muito expressivo e merece ser elucidado. Durante alguns meses a observamos em outra instituição de acolhimento e ela nos confessou uma pretensa vida sexual