Chapitre II : MATERIEL ET METHODES D’ETUDE
II- 1 Matériel d’étude
A noção do perfil conceitual complexo parte do pressuposto que perfis conceituais se influenciam e que estes são compostos por outros perfis em diversas escalas hierárquicas (VIGGIANO e MATTOS, 2007). O que esta na base dessa definição, é a complexidade das relações humanas, da própria atividade humana, a complexidade do mundo e da forma como aprendemos e o representamos. Do nosso ponto de vista, da necessidade de compreender essa necessidade emergem alguns aspectos e questões que se constituem como bases teóricas que compõem as discussões sobre o perfil conceitual complexo. Entre esses principais aspectos, destacamos, em primeiro lugar, a necessidade de compreender o que é o conceito dentro dos limites da teoria do perfil.
De acordo com Mattos (2014) para compreender a complexidade do perfil conceitual é necessário, mesmo superficialmente, recordar as principais teorias que definem conceito e circunscrevem seu status em relação a elas. Com base nos trabalhos de Heit 1997, Laurence e Margolis, 1999, Lomônaco et al., 2004, o autor discute quatro visões básicas em relação a conceitos do campo da psicologia cognitiva: clássica, prototípica, exemplar e teórica.
A visão clássica, prototípica e exemplar são baseadas na noção de similaridade (HAHN e CHATER, 1997) e apresentam fragilidades quanto às especificidades de alguns conceitos e as relações muitas vezes abstrata que estabelecem entre si. Na primeira, a visão clássica, os conceitos são definidos a partir das semelhanças nos atributos de seus elementos, sem considerar diferenças entre eles. Alguns autores (MEDIN e SMITH, 1981) apontam muitos problemas com essa visão clássica, como falhas quanto às especificidades de alguns elementos que definiriam propriedades e limites de algumas categorias. Na segunda, visão prototípica, os conceitos são considerados a partir dos seus atributos comuns, e mesmo quando se altera um atributo, um conceito não perde sua definição anterior. A definição, nesse sentido assume um status muito mais poderoso do que o processo de conceituação. Nessa perspectiva, um conceito é construído a partir da seleção do que são supostamente os atributos mais importantes. Então um protótipo é definido e usado como base para identificar - a partir da semelhança - quais elementos pertencem ao conceito (HAHN e CHATER, 1997). Na terceira, a visão exemplar, pressupõe um sujeito que, ao longo do tempo,
constrói um conjunto de exemplares que são tomados como o próprio conceito. O principal critério na identificação de conceitos é a coesão conceitual, que se refere às características que podem ser consideradas para construir o conjunto de exemplares (LOMÔNACO et al., 2001). Usando a semelhança com os exemplares, um objeto pode ser classificado ou não como uma instância do conceito. O principal problema com esta visão é uma enorme proliferação desnecessária de conceitos e exemplos.
Já a visão teórica, pressupõe uma visão alternativa também conhecida como visão de rede, onde conceitos não são vistos como elementos isolados, mas como partes de uma rede interconectada de conceitos que constituem uma teoria. Para Keil, (1989) nenhum conceito pode ser entendido isoladamente, sem uma compreensão de como é ligado a outros conceitos. Nessa direção os conceitos são construídos como intrinsecamente relacionados, ao invés de isolados. É na perspectiva de pensar o conceito no âmbito dessa visão de rede que o perfil conceitual complexo está ancorado. De acordo com Mattos (2014, p. 285):
Propomos o perfil conceitual complexo que pode ser entendido não como uma rede conceitual, mas como uma rede de perfil conceitual, onde cada nó tem uma estrutura interna que representa uma zona de perfil conceitual, que está conectada a outras zonas de perfil conceitual. A complexidade dessa estrutura reflete a internalização da complexidade do mundo, que apresenta vários níveis hierárquicos que pode ser entendida como uma ecologia contextual. (MATTOS, 2014, p. 285, Tradução Nossa).
Nessa perspectiva, o autor argumenta que na noção de perfil conceitual complexo, a noção de aprendizagem denominada pelo autor como a dinâmica do perfil conceitual - também é modificada. O processo de aprendizagem em jogo não considera como aprendizagem apenas a inclusão de novas zonas de perfil conceitual, mas também a modificação das zonas preexistentes, a re-coordenação entre zonas de diferentes perfis conceituais, bem como a conscientização das zonas (MATTOS e RODRIGUES 2007, RODRIGUES e MATTOS 2010). Para o autor, a evolução do perfil conceitual pode ser entendida como o desdobramento de zonas do perfil conceitual, correspondentes à diferenciação do uso de cada zona de perfil conceitual em hierarquias específicas de acordo com os contextos de seu uso. Para Dalri Mattos (2010):
Com a aprendizagem e o desenvolvimento psicológico os perfis conceituais evoluem à medida que zonas de perfis são internalizadas pelos sujeitos na interação social (MORTIMER, 1995; 2000). Além de serem agregadas novas zonas aos perfis nessa dinâmica de evolução, relações entre os conceitos vão se estabelecendo, já que muitos conceitos são definidos por outros conceitos, ou seja, só adquirem sentido em função de outros perfis conceituais. Temos assim conceitos (de processos e atividades, por exemplo)
compostos por outros conceitos organizados com um sentido. (DALRI e MATTOS, 2010, p. 83).
Para compreender melhor essa definição de perfil complexo, tomaremos o conceito de Força, na física, utilizado por Dalri e Mattos (2010) como exemplo, para explicar a complexidade desse conceito, bem como de sua representação. Segundo os autores, assim como outros conceitos, o conceito de força (F) poderia ser representado por um perfil conceitual, com zonas mais ou menos definidas. De acordo com Dalri e Mattos (2010):
Quando em uma aula de física o aluno trabalha com a expressão F = m∙a, ele irá acessar uma das zonas do perfil de força de acordo com o contexto no qual está inserido. Se ele possui o conceito de força newtoniano bem definido, provavelmente será esta zona do conceito que ele ira acessar. Porém, se ele não possuir essa zona do perfil de força bem definida, ele irá acessar a que julgar mais adequada para o contexto, como por exemplo, utilizar força como esforço físico, etc. (DALRI e MATTOS, 2010, p. 57).
Para os autores à medida que o estudante vai interagindo com diferentes contextos e aplicando conceitos, as suas zonas são aprendidas e vai se alterando, ficando cada vez melhor definidas. Considerando essa relação entre a emergência de determinadas zonas do perfil conceitual em contextos específicos, quanto tratamos sobre a complexidade do perfil conceitual estamos considerando que os perfis conceituais estão em constante relação entre si. Como os perfis conceituais estão em constante relação entre si, ao acessar uma determinada zona do perfil conceitual conforme o contexto, imediatamente outras zonas de outros perfis também são acessadas em ressonância com o contexto.
Rodrigues e Mattos (2007) propõem a “hipótese da ressonância”, na qual se supõe que ao fazermos um enunciado em um dado um contexto, a zona de perfil que será utilizada é aquela cujo sentido é proposto, pelo sujeito, como significado naquele contexto. Essa ressonância depende do reconhecimento das marcas de contexto que revelam ao sujeito um sentido preferencial dos eventos no contexto em que está.
Assim, retomando o exemplo quanto ao conceito de Força, Rodrigues e Mattos (2007) argumentam que ao acessar uma determinada zona do perfil de força de acordo com determinado contexto, imediatamente outras zonas do perfil poderão emergir em ressonância ao contexto no qual o conceito está sendo tratado. Nesse exemplo específico, em que F = m∙a, zonas do perfil de igualdade (=), massa (m), multiplicação (∙), aceleração (a) entre outras como proporcionalidade, etc.
As inter-relações entre os perfis conceituais não ocorrem de forma aleatória. Os perfis e suas relações com as zonas de perfis conceituais não são acessadas de forma fragmentada no tempo como se uma associação casual pudesse ser feita a cada instante. A relação entre os perfis e suas zonas está circunscrita na complexidade do mundo, do conceito tratado e de sua representação de acordo com a demanda contextual. Dalri e Mattos (2010) defendem que ao acompanhar a complexidade do mundo, o acesso às zonas do perfil corresponde a milhares de conexões simultâneas, que se organizam e reorganizam, estão ou não presentes à consciência a cada instante conforme a demanda contextual.
Nessa direção, a tomada de consciência do perfil conceitual pelo próprio sujeito (MORTIMER, 1995; 2000; 2014) continua tendo sua importância, tanto para o uso adequado das zonas do perfil em contextos específicos, quanto para a autonomia do sujeito na escolha de determinadas zonas do perfil que possuem maior valor pragmático em detrimento de outras zonas em um contexto específico. Assim como são importantes, o contexto e sua interdependência com o a emergência de zonas do perfil conceitual de acordo com o valor pragmático assumido em determinados contextos. Em síntese, no âmbito da complexificação do perfil conceitual, os principais aspectos que compõem essa proposta são:
• O mundo é complexo (MATTOS, 2014) e a realidade é tomada como sistema complexo (GARCIA, 1998).
• Os conceitos são considerados dentro de uma visão teórica, também chamada de visão em rede (LOMÂNACO et al, 2004) para abarcar essa complexidade do mundo.
• O Contexto é tomado como um objeto complexo (MATTOS, 2014).
• Os perfis conceituais nos permitem representar a aprendizagem em contexto, com a complexidade das dimensões culturais e históricas das representações usadas em nossa vida diária (MATTOS, 2014).
• Utilizamos o contexto como um elemento constituinte e constituído pela dinâmica das interações sociais, um complexo campo de dêixis negociado na vivencia das interações sociais. Nesse sentido, essa noção de contexto e Perfil conceitual complexo são duas faces da mesma moeda, unidas pela linguagem. As estruturas cognitivas dos sujeitos são constituídas e intermediadas pela linguagem (MATTOS, 2014).
• A complexidade estrutural das estruturas cognitivas dos sujeitos que poderiam ser expressos por um perfil conceitual complexo nos permite representar, em contextos específicos, não apenas dimensões epistemológicas e ontológicas, mas, também sua dimensão axiológica (MATTOS, 2014). Assim, cada zona do perfil e os contextos são constituídos a partir das dimensões epistemológicas (BACHELARD, 1984), Ontológicas (CHI, 1992; MORTIMER, 1995) e axiológicas (RODRIGUES e MATTOS, 2006 e posteriormente DALRI e MATTOS, 2010).
Em relação à realidade ser tomada como um sistema complexo, Mattos (2014) aponta a teoria de sistemas complexos como um paradigma relativamente novo para a compreensão do comportamento dos sistemas. Originalmente desenvolvida nos campos da física e da matemática. Entretanto, foi também amplamente proposta como um importante modo para olhar as ciências biológicas, sociais e cognitivas. Na visão do autor, sistemas complexos são definidos como sistemas compostos de um grande número de elementos altamente conectados que interagem entre si. Há muitos exemplos de sistemas complexos, relacionados a diferentes fenômenos, como as células, spin, diferenciação celular, dinâmica entre predador-presa, redes neurais, etc. ainda, aponta outras seções transversais na complexa estrutura do mundo, pensando sobre níveis hierárquicos dimensionais tais como os dos quarks, partículas subatômicas, átomos, moléculas, células, seres unicelulares e multicelulares, sociedades e Gaia. Partindo desse ponto de vista, o autor defende que podemos pensar no mundo como um Sistema complexo dinâmico adaptativo, com muitos padrões hierárquicos emergentes, construídos a partir da auto-organização dinâmica de suas partes em todos os níveis do sistema.
Nesse contexto, a ideia de perfis conceituais complexos se apoia no trabalho de Garcia (1998) sobre pensamento complexo no âmbito conceitual (sistemas conceituais complexos) (DALRI e MATTOS, 2010) e se baseia nos argumentos da teoria dos sistemas complexos para justificar tal complexidade. Garcia (1998) traz os sistemas complexos como uma teoria alternativa para pensar os conteúdos escolares.
Segundo Garcia (1998), a realidade é um sistema complexo, na qual, os elementos interagem reciprocamente, se definindo mutuamente e as relações a todo o momento se auto organizam e reorganizam conforme a diversidade desses elementos (contexto, intersubjetividade, significados e sentidos, interação dialógica, linguagem, etc.) e suas relações.
Dalri (2010), considerando as ideias de Garcia (1998) sobre os sistemas complexos argumenta que podemos pensar a representação da realidade como uma arquitetura de sistemas (conceituais, contextuais e sócio-histórico-culturais) que apresenta recursividade e organização pautadas pelas interações de seus elementos ou sistemas. A questão é que raramente podemos representar um sistema complexo em toda sua complexidade (MATTOS, 2014). É necessário reduzi-lo, não apenas separando níveis hierárquicos, mas à procura de uma unidade de análise que possa manter a representação das relações entre os níveis hierárquicos, a fim de evitar a perda da complexidade do fenômeno. O perfil complexo assume que tanto a teoria da atividade (LEONTIEV, 1978) pode ser considerada como uma unidade de análise quanto à linguagem. E, é com base nesta última que desenvolveremos nosso estudo. Segundo Mattos (2014), o perfil conceitual pode ser complexificado considerando a linguagem como um sistema dinâmico, como dinâmica de coordenação entre sujeitos e sua situação de vida.