Faz-se mister dirimir uma dúvida crucial, a saber, qual o estatuto das obras do período antropológico, visto o peso maior dado pela tradição às obras do que concebemos ser o primeiro projeto crítico transcendental; mais precisamente, as obras do período antropológico possuem o mesmo peso das três críticas? Queremos colher aqui como resultado uma resposta positiva, apesar da diferença de tratamento de cada projeto. É interessante notar que os principais cursos de Kant concedidos na universidade tornaram-se as principais obras de caráter antropológico. Estamos falando, precisamente, da Log, da PhG, da Päd e, principalmente, da Anth, que, diferentemente destas anteriores, o próprio Kant compilou seu manual e anotações de alunos em um livro de extrema importância e pouco estudado no século XX tal como nos atesta Reinhardt Brandt, que estabeleceu o texto das Lições de Antropologia no volume XXV das obras completas de Kant na Akademie Ausgabe: “Anth não levou a nenhuma discussão entre apoiadores e opositores, e até hoje
não há nenhum reputado estudo dedicado ao livro de 1798. O trabalho não provocou nenhuma reação; é um livro de referência que procura informar, não propõe uma teoria militantemente oposta a outras teorias, ou mesmo um giro na metafísica, como outras antropologias fizeram.”173
Ora, esta total desconsideração para com o caráter antropológico do último projeto de filosofia de Kant reflete a maneira como a interpretação kantiana foi legada ao século XX, formalista e epistemologicista, e, em decorrência disso, também por conta de um viés preconceituoso dos intérpretes de Kant para com tudo que é empírico e pragmático em sua filosofia, considerando este tipo de abordagem como mero acidente. A nossa hipótese auxiliar aqui é a de que Kant não jogou fora a empiria para privilegiar a teoria. Em um primeiro momento, assim, é necessário estabelecermos critérios de importância dos textos cunhados por Kant e abordados por nós. Para tal, a fim de sermos completamente concernentes com nossa tese, estabelecemos haver dois grandes projetos com o mesmo objetivo, mas com conteúdos diferentes; devido a isto devemos estabelecer critérios diferentes segundo cada conteúdo.
Assim, o primeiro projeto, da passagem da metafísica para a filosofia transcendental (de 1781 a 1792), possui um estatuto próprio: ele estabelece os princípios a priori de conhecimento e ação moral no mundo. Este período supõe o erigir tanto de uma filosofia crítica quanto dos critérios para que a crítica coloque tudo diante do tribunal da razão. Daí as três críticas serem as obras principais
173 “Die Anthropologie in pragmatischer Hinsicht hat zu keiner Auseinandersetzung zwischen Anhängern und Gegnern geführt, und es gibt bis heute keine namhafte Studie, die dem Buch von 1798 gewidmet ist. Das Werk provoziert keine Stellungnahme; es ist ein Sachbuch, das informieren will, es bringt keine Theorie, die sich militant gegen andere Theorien oder gar die Metaphysik wendet, wie es andere Anthropologien taten.” BRANDT, R. Kritischer Kommentar zu Kants Anthropologie in pragmatischer Hinsicht. Hamburg: Felix Meiner, 1999. s 7.
deste período. O segundo período (de 1793 a 1803), nomeado por nós como o projeto antropológico possui como obra principal a Anth e com um estatuto menor, mas, completamente, ligadas aquela, a Rel e o inacabado OP; também precisamos ter em conta o estatuto híbrido da MS, que é uma promessa do antigo projeto adaptada ao novo. O critério para tal diz respeito ao desenvolvimento da filosofia kantiana neste período, a qual se reproduz como uma teoria de aplicação do a priori segundo pesquisas pragmáticas. É, de fato, o perpétuo teste para saber se a filosofia crítica continua válida, enquanto tal, ao ter de enfrentar situações empíricas nas quais toda a sua carga conceitual a priori necessita dar conta (em vez de apenas ter de poder dar conta) dos conteúdos do mundo.
Tanto o primeiro quanto o segundo projeto possuem estatutos independentes, mas interligados. Com isso, o projeto crítico-transcendental tem sua continuidade lógica no projeto antropológico; ambos são articulados, por meio do conceito de filosofia cosmopolita, enquanto forma do sistema, uma doutrina da sabedoria, a qual o seu conteúdo interessa a todos os humanos. Mais precisamente, não é por conta de os dois projetos terem estatutos independentes que eles não fazem parte de um só programa filosófico. A mudança para um conteúdo antropológico não invalidou a crítica, mas sim a potencializou.
A articulação sistemática de responsabilidade da coerência lógica do conceito de filosofia cosmopolita reforça que não é válido julgar obras de diferentes períodos e projetos na filosofia kantiana, por meio de um só critério. Obviamente, no entanto, pensamos que a KrV é a principal obra de Kant em toda a sua reflexão pois inaugura o gérmen de todo o desenvolvimento do sistema e se põe como um divisor de águas da filosofia moderna; no entanto, se tomarmos a totalidade do projeto do último Kant, a KrV têm de trabalhar em função da Anth. Isto não significa que a KrV diminuiu seu status, mas somente colocou seus serviços a disposição de uma função determinada, a saber, fornecer elementos a priori para pesquisar a natureza humana de maneira pragmática.
Isto significa que não podemos julgar o conteúdo transcendental por meio de critérios antropológicos (senão, se algo desse não se adéqua ali) ou, ao contrário, também não podemos entender a KrV por meio de um critério que a estabeleça como uma antropologia em si mesma (como pensam teóricos de uma antropologia transcendental, tal como Patrick Frierson).174 A flexão
antropológica, mostrada anteriormente, é o que permite, junto ao conceito de filosofia cosmopolita, haver a articulação entre os dois projetos.
Com isso, faz-se mister aqui mostrar: A – o estatuto das três Críticas (KrV, KpV e KU) e B – os motivos pelos quais a Anth é a principal obra e de maior estatuto do período antropológico, seguida em importância pela Rel e pelo OP. Também pretendemos abordar o curioso caso da MS, que, tal qual Benjamin Button, personagem de Scott Fitzgerald, nasceu velho, descontextualizado,
mas que possui um grande poder unificador da sistemática da filosofia kantiana. Desenvolvamos. 4.1) O Estatuto das Obras do Primeiro Projeto
Pensamos, primeiramente, que a KrV possui primazia no primeiro projeto kantiano de filosofia. Ora, a lógica transcendental, apesar de ter a origem dos seus conceitos de modo a priori, está voltada ao mundo, ao empírico, a fim de comprovar que as formas conceituais de sua filosofia são suficientes para julgar os conteúdos fornecidos empiricamente pelo mundo. Vale ressaltar que estar voltada ao empírico não é o mesmo que atingir o nível empírico. Assim, na primeira introdução à edição de 1781 da KrV, Kant afirma que “agora se vê, o que é muito importante, que mesmo às nossas experiências se misturam conhecimentos que devem ter uma origem a priori e que talvez apenas sirvam para fornecer ligação às nossas representações sensíveis” (A 2).
O estatuto da KrV em sua primeira edição é de obra magna para as bases do pensamento, cujo o resultado seria um sistema completo da filosofia em que o transcendental e o empírico estivessem em harmonia, mas capitaneados pelo transcendental. Esta maneira de pensar desenvolveu o seu projeto crítico, tanto que Kant tinha a pretensão ainda na década de 1770 de expor a filosofia teórica e a filosofia prática dentro da crítica da razão pura, dividindo-a em nestas duas partes, tal como nos atesta uma carta enviada por ele a Markus Herz.175
Kant demoraria, no entanto, quase dez anos para publicar as bases sistemáticas na KrV e mais dezesseis para apresentar a filosofia prática. Apesar de na edição A da KrV Kant ter trazido à tona as bases da filosofia transcendental, tal como nos atesta sua letra,176 foi em 1787 que ele fortaleceu a
ideia de que a crítica é a base para o pensamento e tem de ser posta como tal, uma vez que reorganiza a lógica formal em termos modernos:
Não resta dúvida de que todo o nosso conhecimento começa pela experiência […] Assim, na ordem do tempo, nenhum conhecimento precede em nós a experiência e é com esta que todo o conhecimento tem o seu início. Se, porém, todo o conhecimento se inicia com a experiência, isso não prova que todo ele derive da experiência. Pois bem poderia o nosso próprio conhecimento por experiência ser um composto do que recebemos através das impressões sensíveis e daquilo que a nossa própria capacidade de conhecer (apenas posta em ação por impressões sensíveis) produz por si mesma, acréscimo esse que não distinguimos dessa
175 “Sem me alongar por ora na explicação da série inteira de uma investigação que avançou até seu fim último, posso dizer que alcancei o essencial do meu objetivo, estando agora em condição de apresentar uma crítica da razão pura23, que contém a natureza do conhecimento teórico assim como do conhecimento prático na medida em que é meramente intelectual. Inicialmente vou elaborar a primeira parte dessa crítica, que contém as fontes da metafísica, seu método e limites, para em seguida elaborar os princípios puros da moralidade; no que diz respeito à primeira parte, irei publicá-la dentro de mais ou menos três meses.” A carta em questão é de 21/02/1772 e pode ser encontrada em: Br, AA X: 129-135. A tradução pode ser encontrada em:KANT, I. Carta de I. Kant a Marcus Herz (tradução de Paulo Licht dos Santos). In: Revista O que nos faz pensar, nº32, dezembro de 2012. p 46.
176 “A questão fundamental reside sempre em saber o que podem e até onde podem o conhecimento e a razão conhecer, independentemente da experiência, e não como é possível a própria faculdade de pensar” (A XVII).
matéria-prima, enquanto a nossa atenção não despertar por um longo exercício que nos torne aptos a separá-los. (B 1 – 2)
Ora, esta passagem de 1787 já nos revela um Kant bem mais maduro acerca do estatuto e da importância da KrV, uma vez que já havia publicado sua primeira obra acerca da filosofia prática, a GMS, uma obra de caráter analítico sobre a filosofia transcendental teórica, os Prol, e, finalmente, também um acerca das bases para uma filosofia da natureza fundamentada no trabalho da física newtoniana os MAN (AA, IV). Todo este arcabouço teórico permitiu a Kant reforçar a ideia de que a KrV estabelece as bases do pensar em geral e, por conta de seu grande trabalho de revisão da obra para uma nova edição, podemos afirmar que Kant ratificou tal arcabouço, pontuando a obra como um primeiro passo para atingir um sistema. Não é fortuito, como já havíamos exposto, que o conceito de filosofia cosmopolita permaneça intacto nas duas edições e também ao longo de toda a sua trajetória de pensamento.
Para podemos entender o estatuto da KrV em 1787 como uma propedêutica, que ainda não encontrou a sua sistemática, uma vez que o trabalho sistemático do conceito de filosofia havia estabelecido um procedimento interno, tanto em um sentido judicativo quanto em um sentido doutrinário, para entender tal estatuto desta maneira, precisamos compreender que Kant quer atingir em cheio o coração da metafísica dogmática com uma bala de prata e fundar o novo em filosofia. Por conta disso:
A tarefa desta crítica da razão especulativa consiste neste ensaio de alterar o método que a metafísica até agora seguiu, operando assim nela uma revolução completa, segundo o exemplo dos geômetras e dos físicos. É um tratado acerca do método, não um sistema da própria ciência; porém, circunscreve-a totalmente, não só descrevendo o contorno dos seus limites, mas também toda a sua estrutura interna. (B XXII - XXIII)
Kant dar-se-á conta, posteriormente, que o sistema da ciência precisa de um arcabouço sistemático que não encerre o sistema em uma redoma, mas sim de um ponto de coerência lógica, já estabelecido no conceito de filosofia cosmopolita, o qual ganha reforço no projeto antropológico; desse modo, a KrV estabelece em sua apresentação doutrinária do método, a propagação necessária para a perpétua presença da crítica como princípio de ação intelectual. Até 1787, Kant ainda não estava seguro de ter encontrado na antropologia uma função que coubesse dentro da sistemática e que não fosse apenas o negativo da crítica.
Isto é verdade na medida em que no prefácio de 1787 da KrV, Kant inclui a antropologia no contexto pré-crítico de modo que tratar de temas antropológicos sem uma apreciação crítica leva a uma série de preconceitos infundados. Seria isso uma espécie de gérmen da flexão antropológica, mas relativizado por conta de outras ciências também terem uma apreciação de viés pré-crítico sem
um trabalho de fundamentação feito pela lógica transcendental, em detrimento da lógica formal aristotélica.
Pode reconhecer-se que a lógica, desde remotos tempos, seguiu a via segura, pelo fato de, desde Aristóteles, não ter dado um passo atrás, a não ser que se leve à conta de aperfeiçoamento a abolição de algumas subtilezas desnecessárias ou a determinação mais nítida do seu conteúdo, coisa que mais diz respeito à elegância que à certeza da ciência. Também é digno de nota que não tenha até hoje progredido, parecendo, por conseguinte, acabada e perfeita, tanto quanto se nos pode afigurar. Na verdade, se alguns modernos pensaram alargá-la, nela inserindo capítulos, quer de psicologia, referentes às diferentes faculdades de conhecimento (a imaginação, o espírito), quer metafísicos, respeitantes à origem dos conhecimentos ou às diversas espécies de evidência, consoante a diversidade dos objetos (idealismo, cepticismo, etc.), quer antropológicos, relativos aos preconceitos (suas causas e remédios), provém isso do seu desconhecimento da natureza peculiar desta ciência. Não há acréscimo, mas desfiguração das ciências, quando se confundem os seus limites; porém, os limites da lógica estão rigorosamente determinados por se tratar de uma ciência que apenas expõe minuciosamente e demonstra rigorosamente as regras formais de todo o pensamento (quer seja a priori ou empírico, qualquer que seja a sua origem ou objeto, quer encontre no nosso espírito obstáculos naturais ou acidentais). (B VIII- IX)
A novidade da lógica transcendental em relação à lógica formal permitiu a filosofia transcendental retraçar todos os contornos e ressignificar as ciências que orbitavam em torno daquela lógica. Um bom exemplo é a própria antropologia que, se na lógica formal sua inserção dizia respeito ao que Kant chama de preconceitos, na própria KrV Kant a trata como a parte empírica em que a moralidade deve fundamentar a ação, contudo sem ser por ela fundamentada, visto que “a metafísica dos costumes é, propriamente, a moral pura, onde não se toma por fundamento nenhuma antropologia (nenhuma condição empírica)” (A 841 / B 869).
E, de fato, mesmo no seio do projeto antropológico Kant não concede nenhuma parte empírica à moral, uma vez que seu estatuto de ciência a priori não a permite. Não é fortuito, com isso, que Kant tenha podido começar suas aulas de antropologia tendo como base a psicologia empírica, diferenciando-as, posteriormente, e renegando esta última a quase inexistência dentro do sistema, quando do advento do projeto antropológico.177
O empírico é aquilo para o qual deve ser direcionada a filosofia transcendental, sendo, pois, esta última o estatuto principal da KrV e seu viés sempre de fundamentação mor do pensamento. No entanto, a filosofia neste último sentido possui peculiaridades tão próprias que não há como compará-las com aquelas que as ciências empíricas possuem. Isto fica mais claro quando Kant estabelece que no uso prático da razão, e na ponte teleológica entre este uso prático e o teórico, tem- se uma teoria das condições de possibilidade de fundamentar o tratamento acerca do mundo, e não o
177 Ora isto pode ser claramente visto nas suas lições de antropologia, principalmente, a diferença entre a primeira lição (Collins, 1772-3) e a última (Busolt 1788-9).
mundo em si mesmo.
Portanto, a KrV possui o estatuto de obra principal da filosofia kantiana como um todo e, por conta de inaugurar uma nova forma de fazer filosofia, fundamentando toda a reflexão posterior. Contudo, dentro das bases do desenvolvimento de seu pensamento, ela possui um estatuto transcendental que a coloca na parte formal da sua filosofia e, neste sentido, representa o primeiro projeto de filosofia em sua pureza. Faz-se mister entender o estatuto da KpV e da KU neste contexto.
Ambas as obras são continuações do projeto crítico-transcendental e se portam como estabelecedoras dos fundamentos a priori para suas funções, a saber, o uso prático da razão no caso da KpV e do uso teleológico da razão no caso da KU. Também podemos notar, ao analisarmos as suas respectivas funções, que o autor estava bem mais preocupado em fundamentar um sistema de filosofia a priori do que estabelecer quais elementos empíricos concretos os juízos correspondentes a cada função devem mirar. Com isso, para entendermos o estatuto das outras duas críticas no primeiro projeto kantiano, não devemos descuidar que estava em marcha uma série de críticas à filosofia kantiana, das quais o próprio Kant não descuidou.178
A KpV recai sob o mesmo estatuto conceitual da KrV, a saber, fundamento de um projeto crítico-transcendental, mas com as diferenças de, primeiro, ser uma obra que visa mostrar o funcionamento do uso prático da razão e, segundo, por deixar dúvidas se seria uma obra já previamente pensada ou teria surgido para fortalecer o projeto crítico. Ora, teria Kant concentrado o projeto crítico em seu início apenas na KrV, tratando o que viesse a seguir como fundamento propedêutico as duas prometidas metafísicas, dos costumes e da natureza? Responder esta pergunta nos permitirá cravar o verdadeiro estatuto da KpV. Kant envia em 21/02/1772 (AA X, s 129) a, já citada, carta a Marcus Herz, na qual mostra um plano para escrever em um único sistema o que tornaram-se as Críticas:
Depois de sua partida de Königsberg, examinei mais uma vez, nos intervalos entre o trabalho e o descanso de que tanto necessito, o projeto das considerações que tínhamos discutido, tanto para adequá-lo à filosofia como um todo e a outros conhecimentos, quanto para compreender a extensão e os limites desse projeto. Em relação à distinção entre sensível e intelectual na moral e aos princípios daí decorrentes, eu já tinha ido, antes, razoavelmente longe. Também há muito já tinha esboçado, para minha razoável satisfação, os princípios do sentimento, do gosto e do poder de julgar, com os seus efeitos, o agradável, o belo e o bem, e planejava então uma obra que poderia ter por título algo como: Os limites da sensibilidade e
178 Parece um contrassenso exigir tal coisa de uma filosofia a priori, entretanto a formalidade das Críticas sugeriam aos olhos dos críticos uma filosofia sem mundo, tal como em Hamann, no que diz respeito a falta de historicidade, e Jacobi no que concerne a aporia do conceito de coisa-em-si, expoente máximo do formalismo. Cf. HAMANN, J, G. Metacrítica do purismo da razão. In: JUSTO, J. M. (org.). Ergon ou energuéia (tradução de J. M. Justo). Lisboa: Apáginastantas, 1986. E também Cf. JACOBI, F H. Über das Unternehmen des Kritizismus, die Vernunft zu Verstande zu bringen und der Philosophie überhaupt eine neue Absicht zu geben. Hamburg: Meiner, 1998. Werke, vol. III.
da razão. Eu a concebia dividida em duas partes: uma teórica, outra prática. A primeira parte teria duas seções: 1. A fenomenologia em geral; 2. A metafísica, mas apenas segundo sua natureza e método. A segunda parte teria igualmente duas seções: 1. Os princípios gerais do sentimento do gosto e do desejo sensível; 2. Os primeiros fundamentos da moralidade.179
Como podemos notar, o plano de Kant de incluir o uso prático da razão no programa crítico estava há muito tempo pensado. Obviamente, a extensão e a fundamentação da KrV tornou inviável a consecução do plano exposto acima na carta em pouco tempo. A KpV possui um estatuto de fundamento da razão prática na filosofia crítica, entretanto Kant expõe acima as temáticas, as quais ele vai desenvolver e, como sabemos, a GMS apareceu anteriormente à KpV e, por conseguinte, expôs os conteúdos concernentes à filosofia prática como propedêutica à metafísica dos costumes. Seria a KpV um acidente de percurso, visto a GMS apresentar um problema de fundamentação à ação e caso isso seja verdadeiro, tal caráter acidental diminuiria o status da KpV como pilar da filosofia kantiana?
Primeiramente, vimos que Kant possui um pensamento em constante atualização e, desse modo, faltava à GMS a demonstração de que a moralidade era real, e não um mero postulado, uma