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5.3 Neutrino free-streaming and isotropization

5.3.2 Massive neutrinos

Os movimentos sociais têm sido crescentemente estudados. Ferreira (1999b: 35) informa que dois vieses são predominantes: o estruturalista, privilegiando mudanças institucionais, sociais e econômicas, e o culturalista, debruçando-se sobre as mudanças de valores e estilos de vida. Esta pesquisa, sem negar a importância do primeiro caso – já que elas têm maior poder instituído –, concentrou-se sobre o segundo: os sujeitos interatuantes no processo político com suas especificidades e cotidiano, suas idéias, desejos, dificuldades e condições disponíveis.

As mudanças sociais ocorrem dialeticamente. Partidos políticos, corporações econômicas, religiões, Estados, meios de comunicação, buscam imprimir uma dinâmica social que satisfaça os interesses e idéias daqueles que lhes comandam, idéias e interesses esses que são recebidos da tradição – nesse sentido os atores sociais e agentes políticos cumprem um papel social –, mas que se transformam constantemente no embate e na cooperação social. Os indivíduos sob a influência dessas instituições reproduzem, em grande medida, a dinâmica social imprimida por eles, mas sempre há contestação, tanto escamoteada, pois as normas e valores sempre são transgredidas – o funcionário que rouba uma caneta do trabalho, o motorista que fura o sinal fechado, o empresário que sonega impostos –, quanto explícita, o que confere à ação um sentido político, contestações essas que retroagem sobre as instituições e seus mandatários influenciando as suas transformações.

Os indivíduos que contestam explicitamente a ordem que se pretende perene exibem uma tendência a se agruparem em torno do tema que consideram mais importante para a mudança, ou pelo menos uma simpatia pelos que o fazem. Em cada campo de contestação ocorrem ainda divergências sobre a amplitude, profundidade e âmbitos da transformação, além daquelas oriundas de entendimento da realidade. No movimento ambientalista stricto sensu também ocorre isso, como foi possível notar pela apresentação da literatura e das opiniões de militantes ambientalistas da cidade de Florianópolis.

Os movimentos sociais são inerentemente complexos: na sua história, constituição local, vínculos com outras entidades, movimentos e setores sociais – não apenas o ambientalismo possui vertentes em outros setores sociais –, multiplicidade de objetivos, relação interna entre os militantes, objetivos, metodologias de atuação, etc. O movimento ambientalista, defendeu-se aqui, apresenta uma complexidade maior que os demais movimentos por partir de pressupostos assumidamente complexos – muito embora também haja divergências a nível micro, uma

inspeção a nível macro apresenta um quadro de história e de idéias principais onde aparecem alguns temas predominantes que se convertem em princípios orientadores das reflexões, diálogos, deliberações e ações dos seus militantes.

Esses princípios possuem em comum a propriedade de serem inter-relacionais (interacionais, articulados, cambiáveis) e dinâmicos (processuais, em movimento e transformação), unindo em reciprocidade contínua a natureza e a cultura, o indivíduo e a sociedade, o micro e o macro, os seres vivos e os não vivos, o passado e o futuro, o local e o global, o que nos faz reconhecer o princípio da ontologia ecossistêmica (ou processual- relacional) como organizador dos demais: respeito a todas as formas de vida, multiculturalismo, respeito às gerações futuras, justiça social, democracia participativa, compromisso de transformação, revisão do estilo de vida, agir localmente e pensar globalmente, pensar localmente e agir globalmente, responsabilidade individual, interdisciplinaridade.

Derivam daí três implicações básicas para os militantes da área do ambientalismo, todas elas complexas. Várias agressões são impingidas ao ambiente natural, e nem todas elas diretamente; compreendendo o mundo como uma relação em processo, o militante tende a relacionar diversas atividades humanas – inclusive aquelas travestidas de “ecológicas” – com a degradação do ambiente natural. Dois exemplos: a forma predominante de deslocamento humano – senão efetivamente, pelo menos em ideal das sociedades modernas – é o automóvel particular, que demanda energia, metais, água, trabalho humano, etc., e dispensa gases, resíduos líquidos, sucata. Também tentam nos convencer que a alimentação industrializada, conduzida semi-artificialmente em campos e granjas de frankensteins – novamente: energia, água, transporte, gases, resíduos, metais, etc. – é a saída para a fome dos povos.

Há de se interromper as poluições hídricas, sonoras, luminosas, atmosféricas; barrar a erosão dos solos, a derrubada das matas, a matança dos bichos da terra, da água e do ar, os estilos de vida extravagantes e competitivos, entre outros processos em curso, além daqueles que se estão se consolidando, como a nanotecnologia e a nanobiologia99 (Aquino, 2003), e

99 Informa o ETC Group (Erosion, Technology and Conservation) que experimentos com a nanotecnologia («O

nanômetro, a milionésima parte de um milímetro, é uma escala onde as leis da Física Quântica são utilizadas») já estão sendo utilizados para fabricar hambúrguers átomo por átomo e que «“teremos nanomáquinas autoreplicantes em cerca de 20 anos”». O mercado da nanotecnologia, que estima-se que terá um valor aproximado de US$ 1 trilhão em 2015, envolve projetos inclusive de «usar nanopartículas [infiltradas] para aumentar a cognição, melhorando o desempenho do cérebro através da terceirização de processos de pensamento». As conseqüências são, como as das demais agressões ambientais, imprevisíveis, mas estudos já em andamento confirmam que «“nanopartículas podem atravessar vidro, por exemplo, e serem absorvidas pela pele. [...] Nanopartículas tendem a se agrupar e em um experimento foi observado que se concentraram no estômago de uma cobaia humana podendo causar-lhe câncer”» (Aquino, 2003). As citações internas são de Pat Mooney, representante do ETC que veio ao último Fórum Social Mundial.

certamente os que estão por vir. E ao mesmo tempo, já que a problemática ambiental é resultado de desarranjos na forma de organização social, garantir a alimentação necessária – porém suficiente –, o direito das mulheres, dos indígenas e populações tradicionais, a tolerância religiosa, a educação não bestializante, os meios saudáveis de curar as enfermidades, a habitação adequada, a justiça social e econômica, o trabalho dignificante e prazeroso para todas as pessoas que quiserem se alinhar à cultura moderna e deixar as demais em paz. Tem muito serviço, como falou Pedrão.

Mesmo fazendo parte de uma ONG, digamos, que preserva um mangue, a sua preservação depende de que a dinâmica da cultura em crise não avance sobre ele. O militante encontra elementos no ambientalismo para se preocupar com toda a cultura humana, seus produtos e seus produtores, e mesmo sem condições de ir além do mangue, sente-se solidário com os militantes que enfrentam as outras facetas da irresponsabilidade ecológica. Essa hiper- pauta é uma característica do ambientalismo que lhe confere uma complexidade sem paralelo – pelo menos os demais movimentos sociais, novos ou antigos, não encontram nos seus fundamentos teórico-metodológicos (nos seus princípios) elementos que os impilam a alastrar-se em prática sobre os demais setores da sociedade.

Uma outra implicação dos princípios ambientalistas é que não existe um foco de atuação predominante que possa dispensar os demais. Fazer pressão ou lobby sobre o empresariado ou sobre o Estado, atuar na organização política e/ou educacional comunitária e modificar os próprios hábitos pessoais no cotidiano são necessariamente intercomplementares. O Estado omisso ou corrupto, por implantar políticas públicas não ambientalmente sustentáveis, é atacado pelas ONGs ambientalistas, o mesmo valendo para as empresas irresponsáveis e degradadoras. E como aqueles setores instigam um estilo de vida esbanjador, a formação das mentalidades para a reprodução dessas atitudes depredatórias é também um problema ambiental que conecta os indivíduos com a estrutura social, ou seja, faz do indivíduo um problema ambiental que, portanto, deve ser solucionado.

O modo como os seres humanos concebem a natureza e como se portam nela – o modo de ser dos seres humanos – passou a ser um problema para a natureza, independentemente de essa destruição retroagir sobre a própria humanidade ou não. Reconhecer esse tipo de formação e empreender modificações em si próprio – para deixar de ser um indivíduo que depreda – é a terceira implicação principal dos princípios integradores do ambientalismo. Isso se constitui num problema para aqueles que se tornam orientados por uma mentalidade ambientalista; torna-se um conflito constante, na medida em que, entre outros motivos, a sua vida continua processando-se num ambiente social que está ainda, pelo menos em termos

macroestruturais, aprofundando o mesmo etos e não lhe oferece condições de agir diferente. Opor-se às ações depredatórias promovidas por indivíduos e instituições – o que compõe a agenda da maioria dos ativistas ambientalistas – gera constantemente sentimentos com estresse, ansiedade e rancor nos mesmos – e também, é claro, nos oponentes, cujas respostas e contra- ataques tendem a agravar esse quadro no militante. Então, o que se passa emocionalmente com os militantes é também um problema ambiental (no sentido de inadequação ou dificuldade de dar resposta àquilo que temos chamado de problemática ambiental) – de outro modo, são problemas ambientais aqueles que os ambientalistas enfrentam para soluciona-los.

Estando a reversão dos problemas ambientais na condição de uma reversão das orientações civilizacionais, esse movimento trará a constituição de um indivíduo com outra mentalidade, embora não se saiba como será ele (Grün, 1994: 189). Em outras palavras, a formação social dos indivíduos será outra, e o indivíduo “resultante” desse processo será outro. Retira-se daí que os ambientalistas constituem-se, atualmente, no elo entre esse “velho” indivíduo e o “novo” indivíduo. É um ser, ele próprio, em transição, que está profundamente envolvido com a transição do ser social. O ambientalista, entre aquilo que não morreu e aquilo que não nasceu, é, então, uma crise:

Falamos de "crise" em relação a uma vida ou uma forma de vida, a um sistema ou uma "esfera" de ação. As crises decidem se uma coisa perdura ou não. O caso paradigmático de crise é a crise de vida, na qual, se levadas ao extremo, está se tratando de uma questão de vida ou morte. Em toda crise os envolvidos confrontam-se com a questão hamletiana: ser ou não ser. As crises em geral têm causas objetivas, mas devem também poder ser

vivenciadas como crises pelos sujeitos ou entidades sociais envolvidos. Elas

também sempre afetam a autocompreensão e a autodefinição de agentes, sistemas ou esferas, uma vez que sempre afetam sua identidade e, isto é, uma vida ou a situação de vida como um todo. (Brunkhorst, in Outhwaite e Bottomore, 1996: 156-157)

Aspectos dessa crise foram identificados nas entrevistas. Foram freqüentes as referências às dificuldades enfrentadas nas suas atividades militantes e as implicações destas para a sua vida pessoal, com suas interações sociais e convivência familiar. Sabendo que sua contribuição não se encerra nas suas reuniões e outras atividades, esforçam-se por aplicar cotidianamente os princípios que julgam ser os mais corretos politicamente – mas esbarram na falta de correspondência das instituições e demais atores sociais e agentes políticos com esses princípios. Tendem a sentir-se, assim, como “estranhos no ninho”, o que é confirmado pelas manifestações estigmafóbicas que enfrentam constantemente.

A pesquisa não quis saber dos entrevistados em que aspectos eles sentem-se incongruentes com o que o ambientalismo defende – o que eles fazem no seu dia-a-dia, quais suas ofensas práticas aos princípios, a constância de suas ações discrepantes, etc. Foram

recolhidos referenciais teóricos para demonstrar a pertinência da associação entre as ações dirigidas para as estruturas sociais e aquelas aplicadas na própria vida – o que pode ser denominado de autotransformação individual – porque a consulta à bibliografia ambientalista não permite deixa-la de fora, e as declarações espontâneas dos entrevistados confirmaram que fazem parte do horizonte de preocupações do movimento ambientalista stricto sensu. Isso demonstra a relevância de uma pesquisa que se concentre exatamente aí, nas ditas incoerências dos militantes, com o fito de clarear mais as crises vivenciadas pelos agentes políticos e, principalmente, sociologicamente falando, explorar mais as relações entre estas crises e o poder de interferência político-social do movimento ambientalista. Deve-se deixar claro, contudo – e o pesquisador fala neste momento também como um participante do movimento ambientalista

stricto sensu consciente de suas próprias incoerências –, que isso não significa culpabilizar os

militantes – denunciar suas fraquezas, equipara-los aos políticos sem escrúpulos, demonstrar a ineficácia dos movimentos sociais –, antes contribuir com compreensão da complexidade da crise sócio-natural, do movimento ambientalista e de si próprios como agentes políticos em