ET LE CLIMAT DE POLLUTION
MASSIF VOSGIEN
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Diz-se que o frasquinho é igual na medida em que sua diferença reside apenas na cor (um é branco e o outro é azul), mas o formato e o tamanho deles são os mesmos.
Nesse episódio, um frasco igual ao da brincadeira anterior é utilizado de maneira diferente: ele é virado não sobre a mão, mas sobre a boca da boneca. Novamente, a interpretação sobre o que significa esse gesto só é possível mediante a análise do contexto, isto é, da cena de atenção conjunta na qual se encontram as crianças.
A cena de atenção conjunta desse episódio possui mais elementos verbais do que o episódio anterior. Antes da ação realizada por Nina, Lucila, ao deixar o frasquinho, a tampa da garrafa e o pente em cima da mesa, afirma: “toma o mingau dela, Nina”. Essa fala explicita claramente uma temática, indicando que aqueles objetos podem ser utilizados para brincar do tema proposto. Nesse caso, parece haver uma influência do objeto na medida em que Nina escolhe aquele que mais se assemelha a um recipiente (o frasquinho), ou seja, o objeto que parece mais adequado para conter um mingau.
O seu gesto de virar o frasquinho na boca da boneca pode ser interpretado como uma simulação de que a criança está dando mingau à filha tanto pela fala anterior de Lucila, como pela própria fala de Nina que afirma: “toma, filhotinha”. Isto é, o gesto ganha sentido dentro de uma cena de atenção conjunta. Além disso, ele, associado à linguagem de Nina, indica que ela compartilha a temática de brincadeira proposta pela parceira.
Assim, esses dois episódios indicam que nas brincadeiras de faz-de-conta não é o objeto em si que carrega o significado, mas os gestos em torno deles que, dentro de uma cena de atenção conjunta, representam uma situação. O frasquinho pode ser perfume e pode ser mingau de acordo com os gestos executados e, no segundo caso, também de acordo com as palavras enunciadas.
Essa discussão reforça a idéia de que o movimento possui uma dimensão expressiva e representativa na medida em que presentifica algo que se encontra ausente. A análise também aponta indícios do que foi discutido nos episódios em que as interações não faziam uso de objetos: as crianças nessa idade parecem precisar do corpo para expressar e comunicar o pensamento, mesmo quando já são capazes de fazer uso da linguagem verbal. O episódio a seguir permite endossar essa afirmação.
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Episódio: Meu bebê!
Situação de observação: brincadeira livre entre coetâneos (Trios) Trio observado: Cora (45m), Gelma ( 55m) e Everson (45m) Data da sessão: 29/11/06
Crianças envolvidas no episódio: Cora (45m) e Gelma (55m)
Síntese do episódio: durante cerca de dez minutos, Cora e Gelma brincam de cuidar do bebê (boneca). Elas brincam de passar batom, fazer o remédio do bebê, passar perfume nele e pentear seu cabelo. A seguir será descrito o trecho em que Cora faz-de-conta que passa perfume na boneca.
Cora (que está com uma boneca no colo) pega um frasquinho e diz: “olha o perfume dela”. Gelma fala algo que não se compreende. Cora parece fazer algo com o frasquinho, mas como ela está de costas não é possível ver sua ação. Depois ela vira o corpo na direção da câmera e é possível perceber que ela está tentando abrir o frasco. Com não obtém sucesso em sua ação, ela vê um frasquinho aberto sobre a mesa e o pega. Ao pegar o novo “perfume”, ela repete: “ó o perfume dela”. Ela então “derrama” o frasquinho sobre a boneca e depois emite uma gargalhada, derrubando no chão o frasquinho que estava na sua mão. Nesse momento, Gelma está na cadeira que está no centro da mesa e também passa a manipular alguns frasquinhos. Cora pega outro frasquinho que está aberto sobre a mesa e “derrama” sobre a boneca. Ela fala algo que não se compreende e fica balançando a boneca como se estivesse ninando um bebê.
Essa seqüência interacional evidencia como mesmo utilizando objetos e fazendo uso da fala a criança ainda precisa do corpo para expressar seu pensamento. Cora anuncia verbalmente sua intenção de fazer do frasquinho um perfume. Ela pega o objeto e comunica: “olha o perfume
dela”. Todavia, logo em seguida, ela tenta, sem sucesso, abrir o frasco. Quando ela avista um
frasco aberto, ela repete a frase mencionada anteriormente e realiza um gesto que simula derramar algo do frasquinho na cabeça da boneca.
Dentro do referencial teórico aqui utilizado, e considerando os dados empíricos discutidos até então, essa cena sugere como a criança precisa do movimento para concretizar uma intenção. Ao trocar o frasco fechado pelo aberto, a criança demonstra que quer realizar a ação que simula que ela derrama o perfume na boneca. Tem-se a impressão que até o fato de ela repetir a frase
“olha o perfume dela”, depois de ter pego o frasco aberto, indica que ela está reiniciando a
brincadeira. E, para brincar, ela precisa ir além de dizer que o perfume é da boneca, ela precisa corporificar essa idéia.
Por fim, será analisado mais um episódio referente a esse subitem que mostra um faz-de- conta envolvendo uma seqüência mais longa de movimentos. Ademais, permite ilustrar mais uma
vez o caráter expressivo do gesto no momento em que a criança usa um objeto com uma função diferente daquela permitida por suas potencialidades físicas.
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Episódio: Tomando banho
Situação de observação: brincadeira livre entre coetâneos (Trios) Trio observado: Olavo (52m), Lucila (53m) e Nina (56m)
Data da sessão: 12/12/06
Crianças envolvidas no episódio: Olavo (52m) e Lucila (53m)
Síntese do episódio: a brincadeira, que dura cerca de um minuto, gira em torno de fazer de conta que se toma banho. Primeiro é Lucila quem começa a passar o sabonete pelo seu corpo realizando gestos e vocalizações que indicam que ela está tomando banho. Olavo depois faz a mesma coisa que a colega.
Lucila diz: “vou botar perfume em mim”. Ela começa a fazer de conta que derrama algo do frasquinho para sua mão e passa no corpo. Ela entãopega um outro frasquinho e fala: “agora vou botar o perfume da neném”. Novamente ela faz de conta que derrama algo na mão e passa no corpo. Depois ela pergunta para o colega: “Olavo, quer botar perfume?”. Nesse momento, ela pega o sabonete.
Esse trecho do episódio permite reforçar a idéia sobre como a criança utiliza diferentes recursos para construir uma brincadeira de faz-de-conta. Nessa primeira parte, Lucila representa uma situação de passar perfume pelo corpo que envolve a utilização de um objeto e uma frase que deixa explícito o seu propósito.
Por meio da fala, a criança deixa claro o enredo da sua brincadeira. Por meio dela é possível saber o que Lucila passa no corpo, um perfume. A linguagem oral fornece até mesmo a informação de que há um frasquinho específico que é o “perfume da neném”.
Embora a utilização da linguagem verbal seja a fonte mais fiel para se conhecer as especificidades da ação da criança, é pelo corpo e pelos gestos com o objeto que Lucila torna presente a cena de “passar perfume”. Ao dizer “vou passar perfume”, ela comunica uma intenção e uma idéia que são em seguida expressas pelo movimento. Nesse caso, o movimento ideomotivo, ou seja, aquele que expressa uma idéia, faz uso de um objeto para corporificar uma imagem.
(…)
Lucila diz: “vou tomar banho”. Ela fica em pé um pouco afastada da mesa e começa a passar o sabonete no corpo. Enquanto se ensaboa ela faz uma vocalização que parece indicar barulho de água caindo: “xiiii, xiiii”. Olavo fica observando a colega e comenta: “eu vou tomar banho”. Lucila pára de se ensaboar e deixa o sabonete em cima da mesa. Ela diz: “pronto. Já lavei”, e novamente faz a vocalização: “xiii”. (...) Olavo pega o sabonete deixado pela menina e se levanta. (...) Ele então vai até a parede, encosta sua mão nela e faz um giro, emitindo uma vocalização: “xiii”, como se abrisse um chuveiro. Em seguida, fica passando o sabonete na cabeça e pulando. Lucila observa a ação do colega e sorri. Olavo também sorri, agora passando o sabonete pelo resto do corpo. Ele então levanta o braço e faz uma vocalização: “tchon”, voltando para o seu lugar. Tem-se a impressão que o gesto e a vocalização parecem indicar que ele desligou o chuveiro. Chegando no seu lugar, ele pega um carrinho e balança o objeto em cima da sua cabeça fazendo um barulho: “tchi, tchi”. Depois faz a mesma coisa com o outro carrinho e diz: “perfume”.