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7. Marketing et communication – collaborer et diffuser pour acquérir
De acordo com dados da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, dos 32 distritos da cidade de São Paulo apenas dez atingem o mínimo, sendo que nenhum deles faz parte da região central e do centro expandido da capital. No distrito do Parque Ibirapuera, Vila Mariana, é de 5,14m2, mas chega-se a limites como 0,62m2 na Cidade Ademar, ou 0,35 na Mooca, de acordo com
os indicadores de 2011, por exemplo [SÃO PAULO, 2011].
11 “Não era a antiga Piratininga o alvo de nosso trabalho, mas a cidade brasileira, perscrutada através daquela” [MARX, 1989, p.10].
peito do processo de construção do parque, ou da incompletude de seu conjunto arquitetônico com a ausência do auditório por mais de 50 anos, muito pouco foi debatido a respeito da finalidade funcional de seus pavilhões e, menos ainda, da considerável diminuição da área de seu entorno – mas sobretudo da ausência de planejamento mais amplo e integrado, que poderia ter dotado o Ibirapuera com capacidade de centralização cultural e ambiental, em escala local, regional, nacional, internacional.
O objetivo geral desta pesquisa é, portanto, delinear uma análise dos proces- sos de ocupação do Parque Ibirapuera, suas tensões e contramarchas, entre 1954 e 2017. Para a realização desse objetivo, busca-se compreender a relação entre ideias, modelos e planos elaborados para o parque com as diferentes contempo- raneidades em que tais expectativas surgiram. Nesse sentido, analisam-se a frag- mentação de seu território e a trajetória funcional de seus edifícios nas últimas sete décadas, investigando os sujeitos concretos que protagonizaram essa histó- ria de apropriações, visando compreender esse parque como um campo de dispu- tas entre agentes públicos e privados.
Como bem definiu Raul Juste Lores [2017, p.24], “O Ibirapuera representou a consagração da arquitetura moderna (e de Niemeyer) na Pauliceia, em uma obra pública supervisionada por empresários”. Localizados no rico setor sudoeste da cidade, o parque e seu entorno passaram por inúmeras transformações devido à sobrecarga na infraestrutura urbana que exigia cada vez mais novos investi- mentos, como avenidas, vias expressas, túneis e viadutos. Sem um planejamento mais abrangente – no espaço, no tempo – essas intervenções pontuais e circuns- tanciais acabaram por fragmentar o território do parque e favorecer o controle privado sobre sua destinação, em detrimento de sua função e do interesse públi- co. Transformado num verdadeiro campo de batalha, sua história reflete o modo como, em nossa “coisa pública”, o caráter particularista é devastador.
Tais dimensões não são exatamente distintas ou estanques segundo autores que problematizaram essas esferas como conceito e também como prática no Brasil. No anos 60, Jurgen Habermas [2014] inaugurou a reflexão contemporânea sobre a esfera pública, entendendo-a como o âmbito pelo qual a sociedade civil se informa e debate, formando opinião pública e chegando a consensos em tor- no de assuntos de interesse geral. O pensador alemão, focando na vida pública e política dos séculos XVII e XVIII até meados do século XX na Inglaterra, França e Alemanha, analisou processos e circunstâncias em que se constituiu uma esfera não estatal, com a participação civil em assuntos antes considerados exclusiva- mente de interesse do Estado. As reflexões de Habermas influenciaram − e para eles contribuíram − o debate e a formação de todo um pensamento em torno das relações entre Estado e sociedade civil democrática. Levando-se em conta a com- plexidade do conceito elaborado por Habermas, seria possível compreender o Ibi-
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rapuera não como algo que sugere apenas uma limitação espacial, mas sim como um elemento norteador a partir do qual essa discussão em torno da esfera pública pode ser travada, pois, como enfatiza o autor, a esfera pública jamais deve ser con- fundida com uma organização ou constituir um espaço com fronteiras.
Sérgio Buarque de Holanda [1995, p.82], no fundamental Raízes do Brasil, torna-se assim uma referência central neste trabalho, ao tratar a questão dos particular-patri- monial-personalismos arraigados na sociedade brasileira, “uma invasão do público pelo privado, do Estado pela família”:
O Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo. Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição. (...) Só pela transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples indivíduo se faz cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, ante as leis da Cidade. Há nesse fato um triunfo do geral sobre o particular, do intelectual sobre o material, do abstrato sobre o corpóreo (...) [HOLANDA, 1995, p.141].
Hannah Arendt [2007, p.33] aproxima-se da reflexão de Holanda quando remonta à sociedade grega: “o surgimento da cidade-estado significava que o homem recebera, além da sua vida privada, uma espécie de segunda vida, o seu bios politikos”. Assim, “a capacidade humana de organização política não apenas difere mas é diretamente
oposta a essa associação natural cujo centro é constituído pela casa (oikia) e pela famí- lia”. A autora destaca a impossível continuidade do “domínio absoluto e inconteste” dos poderes dos chefes de família na esfera política, pelo fato de eles serem “mutuamente exclusivos”: “Agora cada cidadão pertence a duas ordens de existência; e há uma grande diferença em sua vida entre aquilo que lhe é próprio (idion) e o que é comum (koinon)”. Essa grande diferença, contudo, jamais se aplicou à vida no Brasil, onde se mantêm apegos a valores caducos que perpetuam a “desigualdade social histórica, notável e per- sistente”, evocando a fala certeira de Ermínia Maricato [2013, p.4 e 6]:
O poder social, econômico e político sempre esteve associado à detenção de patri- mônio seja sob a forma de escravos (até 1850) seja sob a forma de terras ou imóveis (de 1850 em diante). Essa marca – patrimonialismo – se refere também à privati- zação do aparelho de Estado tratado como coisa pessoal. O patrimonialismo está ligado à desigualdade social histórica, notável e persistente que marca cada poro da vida no Brasil. (...)
A universalização do favor, o clientelismo, a privatização da esfera pública medeiam as relações sociais e se aplicam inclusive nas relações entre o executivo, o legislativo e o judiciário. Essa “flexibilização se combina, contraditoriamente, a
uma notável burocratização resultante de procedimentos exagerados e legisla- ção detalhista. Elaborar planos é fácil. O difícil é implementá-los nesse contexto.
Ao traçar uma história social do famoso parque projetado por Olmstead e Vaux até a década de 1990, os historiadores Roy Rosenzweig e Elizabeth Blackmar [1992] levantam questões como o próprio significado de “público” nas sociedades democráticas, algo que pautou as disputas em torno desse parque nova-yorkino ao longo do século XX. Analisando um período de 150 anos, os autores investiga- ram as influências políticas e de mercado na história do Central Park, em paralelo ao desenvolvimento da cidade de Nova York, apontando que, como também se processou no Ibirapuera, o termo “público” (como em parque público), ainda que certamente envolva dimensões que o entrelaçam aos campos da política, cultura, espaço e propriedade, é definido, sobretudo, pelos padrões de uso.
Isso nos permite pensar que o desafio de se fazer de um parque um espaço público consiste em criar um território aberto – para todos – numa cidade capi- talista dividida socialmente. De modo que algumas questões emergem: quem se beneficia ou tem a possibilidade de usufruir desse espaço público? Quem decide sobre ele? Pode esse espaço acomodar pessoas de diferentes sociabilidades e back-
grounds culturais? Afinal, quão ‘pública’ se constitui a nossa dimensão pública? O
estudo desse parque nos indica algumas possibilidades para tais questões, como sugere Galen Cranz [1982, p.XII]:
Para entender a sociedade, eles [os parques] são um exemplo excelente de como as forças sociais moldam e são moldadas pelo mundo físico. Processos sociais, econômicos, políticos e psicológicos influenciam localização, tamanho, forma, composição, equipamentos e paisagismo dos parques. Quando esses cri- térios são estabelecidos, podem tanto limitar quanto estimular as possibilida- des de interação humana.12
As investigações de Françoise Choay [2001] são duplamente importantes nesta pesquisa, pois fornecem chaves primordiais para a questão da patrimonialização e preservação do Ibirapuera em face das demandas que a ele se impõem, sobretu- do durante o processo de seu tombamento pelo órgão estadual de defesa do patri- mônio, o Condephaat, que será abordado no capítulo três. Seguindo as reflexões da autora, podemos pensar o Parque Ibirapuera, ao longo dos 63 anos aqui anali- sados, como monumento tanto “transformado em produto cultural” quanto des- tinado “a fins econômicos que se beneficiam simbolicamente de seu status histó- rico e patrimonial”, mas que a ele “não se subordinam”.