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ECOLE NATIONALE

MARGARITA, MEXICAINE DE 30 ANS

Em um primeiro momento, antes de nos adentrarmos na questão levantada anteriormente a respeito da influência das tradições na vida dos jovens rurais, devemos nos preocupar com os estudos sobre a temática e, do mesmo modo, com a definição do conceito que levanta debates e novos questionamentos quando relacionado com o meio rural. Esta dificuldade amplia-se, também, pois os debates acerca da definição do que seja rural hoje entrelaça-se com a temática da juventude, apresentando novos desencadeamentos e novas preocupações com esta abordagem temática. Dito isso, antes de nos preocuparmos com os estudos acerca do jovem rural é preciso debatermos acerca do que seja o rural e, principalmente, do que seja o rural hoje, na atual sociedade em que vivemos, ou seja, uma sociedade informatizada e perpassada por novas tecnologias que invadem também este mundo rural, como mencionado anteriormente.

De acordo com Maria José Carneiro, o rural ainda hoje encontra-se definido em oposição ao mundo urbano, “associado às idéias de atraso, escassez ou de falta, o que normalmente evoca uma avaliação negativa e de inferioridade” quando comparado às grandes cidades (CARNEIRO, 2007, p. 55). Segundo Wanderley, esta significação do que seja rural é

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reforçada ainda pela classificação do IBGE que delimita as áreas rurais de acordo com critérios que envolvem natureza, população e isolamento territorial:

Considerando as distinções oficialmente adotadas pelo IBGE, entre o meio urbano e o meio rural, este apresenta três características fundamentais: o hábitat disperso, a dependência em relação à sede municipal ou outra cidade próxima e a precariedade do acesso a bens e serviços socialmente necessários, inclusive o acesso a ocupações não agrícolas (WANDERLEY, 2007, p. 23).

Dentro desta perspectiva, Carneiro enfatiza que a classificação definida pelo IBGE cria outra dualidade no que diz respeito à definição de rural em oposição ao mundo urbano, igualando o meio rural ao natural e o mundo urbano à cultura, à civilização. Essa inferência, de acordo com a autora, cria a idéia de que o mundo rural, equivalente à natureza, é ausente de civilização, definindo o rural “com base em um critério de ausência de pressão antrópica”, ou seja, “como um espaço menos afetado pela artificialização dos ecossistemas em uma escala que iria do mais natural ao mais artificializado” (CARNEIRO, 2007, p. 55/56). Torna- se preciso, desta forma, segundo a autora, desconsiderar estas idéias demasiadamente simplistas e analisar o mundo rural a partir de suas particularidades, admitindo que a sobreposição do natural existe e encontra formas de vida e sociabilidade diferenciadas do mundo urbano que por isso mesmo precisam ser analisadas também em sua singularidade. Entretanto, isto não deve ser feito em oposição a ele, mas sim em complementariedade (CARNEIRO, 2005).

Dito isso, esta idéia de rural que prevalece em torno da sua oposição ao mundo urbano reflete, por sua vez, a necessidade, segundo Carneiro, “de ampliar a definição do rural para além do setor agrícola”, com base no entendimento que “este rural ampliado inclui um número cada vez mais diversificado de ocupações” o que lhe concedeu “o rótulo de novo rural”. Segundo a autora, esta nova definição “é resultado de processos recentes que tem transformado o mundo rural em um espaço cada vez mais heterogêneo e diversificado”, considerando, claro, que este fenômeno encontra-se em processo e não atende a todo o país e nem sempre significa melhoria na qualidade de vida da população rural, mas entende que a sua classificação precisa ser revista (CARNEIRO, 2005, p. 245).

Assim, tal como Wanderley,

Consideramos o meio rural como um espaço físico diferenciado, que é um lugar de vida, isto é, lugar onde se vive (particularidades do modo de vida e

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referência identitária) e lugar de onde se vê e se vive o mundo (a cidadania do homem rural e sua inserção na sociedade nacional) (WANDERLEY, 2007, p. 21).

Dentro deste contexto, as pequenas cidades com até 20.000 habitantes, como Estrela do Indaiá, também aparecem como constituintes desse mundo rural e são definidas, segundo Wanderley (2007) como “cidades rurais”. Elas correspondem, de acordo com a autora, em espaços frequentemente marcados “pela particular vinculação com a natureza e pelas relações sociais de interconhecimento”, exercendo “as funções de organização, gestão e representação de sua área de influência”, constituindo, dessa forma, num dos “elos de integração do mundo rural com o sistema mais geral de cidades” (WANDERLEY, 2007, p. 22).

A este respeito, é importante não minimizar o significado destas pequenas cidades, enquanto expressão de um “ethos urbano” (Harris apud Wanderley), que precisamente, organiza, administra e integra a sociedade local, rural e urbana. Mas, por outro lado, parece evidente que estas cidades, pela sua própria dimensão, impõe limites a uma verdadeira experiência da vida urbana (WANDERLEY, 2007, p. 22).

Neste sentido, a autora mostra as dificuldades em se classificar o rural e o urbano, evidenciando que as pequenas cidades, apesar de oficialmente serem consideradas urbanas, guardam semelhança com o modo de vida rural mais tradicional formando um universo em que estas duas formas de vida se encontram e se complementam. 26

Da mesma forma, Carneiro evidencia que “esses pequenos municípios estariam, pois, na interseção de dois códigos de relações sociais”, por um lado, mantendo “uma sociabilidade diferenciada, marcada pelas relações de interconhecimento” assim como de vinculação com a natureza própria das áreas rurais, e por outro, pela função de intermediação exercida entre as grandes cidades e as localidades rurais, o que os definem como modo de vida específico, diferentes tanto dos grandes centros como dos pequenos recantos rurais. A partir dessa perspectiva, as cidades rurais vistas, muitas vezes, como urbanas pelos moradores das zonas rurais e como rurais pelos habitantes das grandes cidades, servem, assim, como elo entre essas

26 De a o do o o de eto-lei de 1938, ainda em vigor, toda sede de município ou de distrito é considerada cidade (categoria que se confunde com o urbano), independentemente do número de seus habitantes, condições de infra-estrutura ou serviços. Vários autores têm apontado para a fragilidade desta definição, que acaba por criar uma imagem distorcida das dimensões (extremamente reduzidas do Brasil rural, que não hega ia a a iga % da populaç o asilei a, segu do o e so de og fi o de Ca ei o, , p. 246).

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duas localidades, possibilitando e facilitando os contatos entre as pessoas, permitindo e contribuindo para mobilidades físicas e sociais (CARNEIRO, 2007, p. 57).

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