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la marchandise comme spectacle

Dans le document La Société du Spectacle (Page 22-31)

Seu Carlito nasceu em 1942 na Usina Dom João, antiga usina de açúcar na zona rural de Cachoeira, já próxima à divisa com Santo Amaro da Purificação. Antes de se fixar em Cachoeira, há mais de quarenta anos atrás, seu Carlito viveu e trabalhou em vários povoados da região, como Maracangalha, Aliança, Cinco Rios, Opalma (antiga Cutinga) e Santiago do Iguape. Sua juventude e vivência no samba se passaram, sobretudo, na região de Santiago do Iguape, distrito de Cachoeira. Foi justamente nessa região que seu Carlito se tornou gritador de samba e aprendeu os muitos tipos de samba que os antigos cultivavam, como samba de estivador, samba

de parada, samba de amassar barro, samba de verso e chula, além também das cantigas de esmola.

Por volta dos trinta anos seu Carlito se mudou para a sede do município de Cachoeira e pouco tempo depois se tornou caseiro de uma propriedade colonial no bairro da Pitanga, na entrada da cidade. A propriedade da casa foi mudando de família

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– passando inclusive pela tradicional e abastada família Vaccarezza -, mas seu Carlito permaneceu sempre como caseiro, função que ocupa até hoje. Em Cachoeira, primeiro seu Carlito sambou no grupo de dona Mocinha39 e, depois, na esmola

cantada de seu Vicente, pai-de-santo da cidade que tinha um grupo de esmola no

bairro do Caquende. Sua cunhada – esposa do irmão – era sambadeira do grupo de Dona Dalva e o levou para lá. No Samba de Roda da Suerdieck seu Carlito cantou e tocou ao lado de outros grandes sambadores que viriam a se tornar seus companheiros de samba, como Alcebíades, Avelino, Ferrolho, Jaca Verde e Pedro Galinha Morta. Como nessa época o Suerdieck possuía canto em parelha, seu Carlito fazia parelha com Alcebíades e, depois da saída dele, com Avelino. Com o Suerdieck, seu Carlito participou em tocadas em várias cidades do Recôncavo Baiano e na capital Salvador, além de uma turnê de duas semanas pelo estado de São Paulo.

Em meados da década de 1980 seu Carlito saiu do Suerdieck e ficou alguns anos sem participar de grupo nenhum. Já na segunda metade dos anos 1990 ele foi procurado por Cacai e alguns sambadores para ajudar na organização do Samba de Roda Esmola Cantada da Ladeira da Cadeia, especialmente para ensinar as cantigas

de esmola que haviam sido esquecidas na comunidade após a morte de seu Nonô,

antigo responsável pela esmola cantada do bairro. Com o falecimento dele, a comunidade deixou de fazer as saídas de esmola por quase vinte anos, embora nunca tenha deixado de cultuar a Santa Cruz que fica na sede da AMELC40. A Festa da Santa Cruz – que depende dos donativos em dinheiro e alimentos recolhidos nas

saídas de esmola - havia passado de uma comemoração com vários dias de duração

para uma pequena celebração entre os vizinhos.

Com a retomada das comemorações em grande porte por Cacai e a organização do grupo de samba de roda, era necessário a presença de um puxador que soubesse cantar esmola, no caso, seu Carlito. A partir de então, seu Carlito passou a fazer parte não apenas da esmola cantada do bairro, mas também do grupo de samba de roda organizado por Cacai ao redor dessa celebração religiosa. O grupo herdou o

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A fala de seu Carlito é uma das poucas referências que tenho ao grupo de dona Mocinha. Seu Carlito não lembra do nome do grupo e contou que pouco tempo depois de sua entrada, dona Mocinha faleceu. Segundo Antonio Moraes (Entrevista em 21/03/2018), o grupo de dona Mocinha se chamava Samba de Roda Filhos da Pitanga, em referência ao bairro da Pitanga, onde seu Carlito mora há mais de quarenta anos.

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O cuidado e culto cotidiano à Santa Cruz é responsabilidade de Cabo Alfredo, que, com mais de oitenta anos, ainda acende todos os dias uma vela aos pés da cruz.

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canto em parelha das cantigas de esmola, sendo o único da sede do município que apresenta – atualmente - esse canto masculino em duo41.

No grupo de samba de roda, no entanto, seu Carlito se deparou com a disciplina de ensaios de Clarício, à qual nunca se adaptou. Por outro lado, dado seu reconhecimento como um grande sambador e conhecedor de um vasto repertório de sambas, seu Carlito entendeu que, pelo convite que recebeu, estava ali para ensinar, não para aprender, especialmente aprender com alguém que não era sambador. Seu Carlito ainda ficou por alguns anos no grupo, mas com o crescimento dos atritos com Clarício, terminou por ir embora. A saída do grupo, entretanto, não levou à saída da obrigação religiosa assumida com a esmola cantada. Por isso, mesmo que não faça mais parte do grupo samba de roda, seu Carlito ainda vai nas saídas de esmola e canta ao lado de Clarício. Seu Carlito também faz parte da esmola cantada do Engenho da Ponte, comunidade quilombola próxima ao distrito de Santiago do Iguape.

Desde então seu Carlito nunca mais fez parte de nenhum grupo de samba de roda e se tornou um crítico dessa forma de organização que, segundo ele, fez com que hoje em dia se cante apenas o samba corrido em Cachoeira, levando ao esquecimento de muitos outros tipos de samba. Ainda que não seja difícil encontrar seu Carlito nas

saídas de esmola, na feira com o seu facão a tiracolo ou em algum caruru na sua

vizinhança, nunca me deparei com ele em tocadas de grupos de samba de roda ao longo de minha pesquisa de campo.

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