• Aucun résultat trouvé

A preocupação com a sustentabilidade do ambiente construído abriu uma janela de oportunidade para o desenvolvimento do conceito de reutilização de edifícios.

As várias mudanças ocorridas ao longo do século XX na vivência e nas exigências impostas aos edifícios, que se deveram ao desenvolvimento constante da tecnologia, aumentavam o risco desses edifícios se tornarem obsoletos mais rapidamente, o que culminava na sua desocupação e abandono. Estas mudanças deveram-se, sobretudo, ao nível dos sectores de actividade secundário e terciário – da indústria e serviços, respectivamente – onde a transformação nas suas necessidades funcionais foi maior.

A construção industrial, crescente desde o advento da Revolução Industrial, levou ao nascimento de grandes áreas industriais constituídas por infra-estruturas capazes de responder às necessidades dos operários e tiveram um papel extremamente importante no crescimento e planeamento urbano das cidades. O processo de desindustrialização, ocorrido por volta da década de 80 do século XX, caracterizado pela diminuição de trabalhadores no sector secundário, com a sua passagem para o cada vez mais influente sector terciário. Este processo deu origem a “paisagens de desolação, caduca como os próprios instrumentos técnicos que um dia lhes deram vitalidade” [15]. Segundo Vasco da Silva, “As ruínas industriais permanecem agora descontextualizadas do seu perímetro urbano, esgotadas de função, criam apenas espaços obsoletos na cidade, à espera que um novo uso lhes seja administrado, repondo-lhes a vitalidade de outrora.” [25] Assim, a desocupação das indústrias existentes no centro das cidades deu origem a um parque edificado passível de ser reutilizado, restituindo a valorização do património.

Em Portugal facilmente se encontram projectos de aproveitamento destes edifícios para novos usos, especialmente nas grandes cidades, onde a industrialização foi mais sentida. Em Lisboa, por exemplo, conseguem-se encontrar vários casos de aproveitamento de infra-estruturas industriais com alteração de uso: o empreendimento Lisboa Loft dos arquitectos Raúl Abreu e Miguel Gomes em que a antiga Fábrica de Lâmpadas do Lumiar, na Avenida 24 de Julho foi convertido num edifício de habitação [61]; a Lx Factory que nasceu no espaço da Antiga Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense do século XIX e passou a albergar, após a sua reabilitação, centenas de empresas e espaços comerciais [60]; ou o Museu da Electricidade que antes de ter a presente função cultural, serviu para fornecer energia eléctrica à cidade de Lisboa durante o século XX, ainda com a denominação de Central Tejo [66].

questões que se colocam na cidade actual: a necessidade de criar um futuro para as áreas onde estes edifícios estão implantados, dando-lhes um novo destino que as tire da negligência em que se encontram, a conservação de edifícios que sejam, de algum modo, relevantes para a história da cidade e a implementação de novos programas em zonas (…) centrais, o que, consequentemente, gerará uma regeneração urbana há tanto tempo esperada” [61].

Em meados do século XX, aquando do início da expansão do sector terciário, as empresas começaram a estabelecer-se nas cidades, sobretudo nos países mais desenvolvidos, passando os centros urbanos a concentrar os serviços de apoio às populações e às actividades económicas [37]. Com a evolução das exigências do espaço de trabalho, a necessidade de modernização das instalações, os edifícios foram- se tornando obsoletos. O aparecimento dos pólos empresariais nos subúrbios das cidades desencadeou a migração dos serviços para estes grandes aglomerados de escritórios, o que ajudou na desocupação do centro das cidades. Actualmente, para além do factor de desocupação descrito anteriormente, também a presente crise económica que o mundo atravessa e a consequente falência ou deslocalização das empresas para países com custos de produção mais baixos, contribuem para a desocupação de edifícios. Mais uma vez, utilizando a capital como exemplo, facilmente se encontram situações destas. Recentemente, o Conselho de Administração Executivo do banco Millennium BCP trocou o edifício na Rua Augusta, onde se mantém a Fundação MillenniumBCP e a área museológica, por modernas instalações do Tagus Park, em Oeiras.

Outro potencial caso de oferta a longo prazo resulta do enorme crescimento da construção de centros comerciais e superfícies de retalho que caracterizou a primeira década do século XXI em Portugal. O primeiro espaço de retalho construído especificamente para esse fim data da década de 70 do século XX. Ao aperceber-se da potencialidade deste mercado emergente, a construção destes espaços não mais parou de crescer. Actualmente, das centenas de centros comerciais existentes em Portugal, que perfazem cerca de 2,6 milhões de metros quadrados, cerca de 61% foram construídos entre os anos 2000 e 2009. E, apesar de a actual crise económica e a eminente saturação do mercado que provocou um abrandamento na abertura de novos centros comerciais em 2008, a verdade é que se encontra prevista a inauguração de mais espaços no decorrer dos próximos anos. Esta tendência para a criação de cada vez mais e maiores centros de retalho veio tirar mercado e empurrou os espaços mais antigos e mais inadaptados às características exigidas actualmente a este tipo de espaços tornando-os obsoletos e caindo rapidamente em desuso, especialmente nas cidades mais desenvolvidas onde o número de grandes espaços de retalho é maior, sendo, por isso, maior a concorrência. Esta concorrência, aliada à inadaptação dos espaços mais antigos, levou à mobilização das pessoas de uns centros para outros. Tem-se o exemplo, na capital, do Centro Comercial Fonte Nova cujo negócio se ressentiu com a construção do “vizinho” Centro Comercial Colombo, o maior espaço de retalho da Península Ibérica da altura.

E se num futuro, certamente não muito próximo, os espaços comerciais ideais da população deixarem de ser os megalómanos centros comerciais e evoluírem para outro tipo de espaços? Será necessário

encontrar novas soluções para estas construções de centenas de milhar de metros quadrados para que não se criem vazios e pontos descaracterizados no interior das cidades, senão corre-se o risco de os centros comerciais criarem no século XXI uma situação semelhante à que se vive actualmente com os edifícios industriais abandonados no final do século XX.

Note-se que a sociedade vive em constante desenvolvimento, tanto tecnológico como comportamental. O comportamento das pessoas segue as tendências criadas pelas novas tecnologias e pelos novos mercados que vão surgindo, aspecto que também se aplica aos edifícios. Quando surge uma nova actividade capaz de satisfazer uma necessidade humana até então desconhecida ou considerada desprezável, cria-se um novo mercado que rapidamente é abastecido pela construção de espaços específicos. Nasce uma nova tendência que dispara a procura no mercado e resulta na edificação de inúmeros edifícios. Com o desenvolvimento das necessidades associadas a esses espaços e das tecnologias construtivas da época, surgem novos edifícios mais capazes e adaptados a essas novas exigências. Entretanto os primeiros edifícios, por já não corresponderem às necessidades, vão perdendo a sua utilização até que já não consigam satisfazer o mercado. A seguir ao ponto em que se tornam obsoletos, estes edifícios caem em desuso, resultando muitas vezes no seu abandono. Assim, uma vez que a sociedade e as suas tendências estão em constante desenvolvimento pode-se assumir que no futuro haverá sempre novas ofertas de edifícios desocupados que já não cumpram as funções para as quais foram projectados e construídos.

Documents relatifs