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Mapping User-Space Buffers and Raw I/O

Dans le document MMAP AND DMA (Page 28-32)

Por último, queremos mostrar como algumas mulheres protestantes de Cali, apesar do desejo da instituição em regular a vida, afirmam discursos totalmente contrários ao imaginário religioso tradicional, propondo, entre outras coisas, uma sexualidade livre das imposições eclesiásticas. Uma pastora metodista quando questionada sobre a maneira em que lida com o tema da sexualidade na sua comunidade local, afirma:

Cuando me da el tema de la sexualidad, siempre lo manejo con mucho respecto por el cuerpo y por la autodeterminación, la decisión personal, tanto de hombres como mujeres, a disfrutar la sexualidad y el placer sexual […]

Bueno, con las señoras de mi iglesia hemos trabajado el tema del pecado y el tema de lo sexual, que no es equivalente, porque algunas piensan que el pecado original fue el sexo entre Adán y Eva, entonces eso lo hemos trabajado con ellas y se han desconstruido muchas cosas. Con otras que son más jóvenes de la comunidad, hemos hablado el tema de que ellas tienen derecho al placer, de que es su cuerpo, de que la biblia fue escrita en una época, con unas costumbres, de que todo lo que está en la biblia no se puede interpretar literalmente […]

Yo lo manejo desde mis perspectivas y desde mi reflexión. Trato de ser muy respetuosa en el lenguaje y muy prudente porque son personas mayores, de no ir a resultar escandalosa, con mis amigas si hablo de otras formas, pero en la congregación, pues por el tipo de cargo que yo desempeño y las personas que están bajo mi cuidado, entonces trato de ser muy respetuosa en el lenguaje, pero muy directa y muy clara, y confrontando cosas (Marisol Trujillo, metodista 34 anos).

Há muitos elementos mencionados pela entrevistada que nos oferecem pistas para compreender as formas heterogêneas de lidar, re-pensar, interpretar e viver os discursos impostos da religião. Ela, na sua função de pastora e formada em teologia, contrariamente ao que se pode esperar, apresenta um discurso bastante ‘progressista’ na sua prática pastoral. A sexualidade, tema sobre o qual discorre com tranquilidade e abertura, é para ela um tema importante para ser tratado no interior da igreja, embora reconheça que deve fazer-se com prudência, ainda que sendo muito direta. Enquanto

explica para as mulheres adultas como desconstruir as representações negativas sobre o corpo feminino e outros elementos do discurso religioso, encoraja as jovens a assumir a própria sexualidade como um direito, desvinculando o desejo e a prática sexual das proibições e limites impostos pelas normas eclesiais.

Por outra parte, mas também caminhando para a re-elaboração e até o rechaço dos discursos opressores, uma mulher metodista conta-nos como se sente em relação ao seu corpo e sua sexualidade:

“Plena, super plena, muy contenta, muy satisfecha con lo que soy, con lo que tengo; estaba acostumbrada a unos kilitos de más y me hacen mucha falta, si, me hacen mucha falta, pero, pues todo es cuestión de costumbre no? de acostumbrarse, entonces ahora un poquitico más delgado, entonces miremos cómo se comporta el cuerpo, qué quiero decir, cómo lo quiero vestir, cómo me quiero sentir… no tengo dificultades con mi cuerpo, con exhibirlo en bikini o en un traje de baño completo, en jeans o en falda, completamente cubierto, cabello corto, largo, calva, mona, pelinegra, super maquillada, super desaliñada, (risas) si, soy feliz con mi cuerpo, soy feliz con su historia, porque pienso que mi piel es pura historia, que lo que yo soy, que lo que yo siento, que cada arruga, cada peca, cada cana, cada detalle es un reflejo de lo que hay adentro de mi ser, de lo que he tenido que vivir durante estos 31 años y eso yo lo valoro y lo respeto y lo cuido, muchísimo […]

[…]Y respecto a mi sexualidad “venid y comed todos de él” (jajaja) para mí la sexualidad es un privilegio, es un privilegio y es un ejercicio de poderse una ver en el cuerpo de otra persona, de poder sentirse querida, consentida, sensual, erótica, mujer eh, juguetona, simple… que se yo… es dependiendo de cómo el cuerpo se comporta con el otro, y las pieles no reaccionan igual ante cuerpos diferentes, entonces a veces eso es curioso, ver como el cuerpo de una se comporta estando con un amante a diferencia de otro, de uno conocido a uno desconocido, entonces eso me parece algo bonito […]poder compartir tu sexualidad con diferentes personas y poder reconocerte en diferentes personas […] a pesar de que culturalmente haya todo un tabú en torno a lo sexual y hay un mito tan grande de que la virginidad es algo sagrado y que tus partes intimas es algo que tu le debes dar pero al hombre de tu vida, para mí eso son cuentos de hadas, o sea, la sexualidad está hecha para gozarse y disfrutarse […] (Rocío Pérez, metodista 30 anos)

Liberdade, autonomia, prazer são alguns dos elementos que ela ressalta ao se referir a forma particular de viver, sentir e definir sua experiência corpórea. Na primeira parte do seu depoimento, ela manifesta a não incorporação do ideal contemporâneo de beleza

que supervaloriza a magreza, quando, por exemplo, exprime a ‘saudade’ do seu corpo com “unos kilitos de más”. Contrário ao pensamento negativo e culpabilizador que caracteriza a tradição cristã sobre o corpo feminino, ela exalta seu corpo e valoriza a experiência que sua realidade corpórea lhe permite viver, refere-se a ele como contador de histórias, como corpo em relação, corpo estético e corpo sexual. Nas suas palavras: “venid y comed todos de él”, jocosamente ela utiliza uma frase bíblica (‘palavras de Jesus’) como metáfora da sua forma totalmente ‘transgressora’ (?) de assumir sua sexualidade. Não existem modelos de virgem, pura, recatada, muitos menos de corpo controlado que possam barrar seus desejos de fazer, e fazer com muitos, segundo seu próprio depoimento.

Rocío, uma mulher branca de classe média-baixa nem sempre teve tanta ‘liberdade’. Segundo ela mesma afirma, sentiu em sua própria carne o discurso regulador do cristianismo numa igreja neo-pentecostal. Segundo seu relato, a igreja lhe proibia o corte de cabelo, a depilação, aplicar tintura nos cabelos e usar calças, e em questão de sexualidade, tentava lhe aplicar uma rígida observância de pureza e castidade. Ela declara com tristeza não ter assumido mais nova uma vida sexual ativa. Diante do severo controle e da violência simbólica sofrida no anterior grupo religioso, sua posição totalmente contrária aos discursos repressivos da religião se torna mais clara. De qualquer maneira ela continua a se afirmar como religiosa, ela encontrou um lugar em que segundo ela, pode pensar livremente. Para Marga Stroher, “a busca por outros espaços de vivência religiosa torna a mulher exigente e está vinculada à condição de não ser conduzida por um discurso em favor da submissão das mulheres” (2009:115).

De forma geral, as duas mulheres referidas, parecem apelar para formas plurais de entender a própria sexualidade como mulheres que se afirmam crentes, sendo que uma delas é inclusive liderança da igreja. Estas mulheres reivindicam lugares diferentes dos comumente estipulados pela sociedade e a religião patriarcal. Elas reclamam autonomia e se afirmam donas da sua corporeidade, o qual necessariamente passa pelo controle da sua própria sexualidade. Contar as histórias particulares, para entender seus movimentos, sua ‘lógica’, significa reconhecer a importância das experiências particulares como reveladoras de verdades cotidianas e concretas, é uma forma de dirigir nosso olhar para “as astúcias táticas das práticas ordinárias” (Michel de CERTEAU, 2003).

Deste modo, concluímos este capítulo afirmando que, os múltiplos discursos concentrados no corpo tendem a criar tensões nas mulheres que são, desta maneira, forçadas a vivenciar o dia-a-dia como ‘coisa’ olhada, classificada e julgada a partir de determinados padrões externos. Estas tensões, no caso das caleñas, estão relacionadas, por vezes, à denominação religiosa à qual pertencem, assim como ao seu nível econômico e de escolaridade. Afirmamos, entretanto, que o cotidiano como espaço concreto de vivência, transcende os limites impostos entre teoria e prática. No cotidiano, o corpo parece ser capaz de se impor. Além dos conflitos, das dicotomias, das exigências, o corpo surge com seu próprio ritmo, seus limites, sua história. A tensão aparece aqui como um elemento ambivalente que, de acordo a situação particular, pode ser negativo e constrangedor, mas também positivo enquanto capaz de gerar oportunidades de ação, hermenêutica e transformação.

CONCLUSÃO

“O corpo é a grande razão” 122 O pensamento de Friedrich Nietzsche contribuiria na desestabilização do paradigma metafísico baseado na dicotomia corpo-mente (Adolphe GESCHÉ e Paul SCOLAS, 2009: 20), colocando em questão o racionalismo moderno iniciado com o cogito cartesiano “penso logo existo”. A frase do filosofo, apesar de ser curta, resulta-nos significativa primeiro pelo seu evidente movimento epistemológico de quebra do paradigma racional-ocidental, ao ressaltar a importância fundamental do corpo. Para nós, em segundo lugar, a frase consegue ilustrar o âmago da pesquisa: o corpo é, de fato, a grande razão, quando se trata de pensar o histórico e problemático relacionamento entre cristianismo e mulheres: Eis a questão, eis o conflito, eis o medo. Por outro lado, a frase elucida a nossa perspectiva analítica: muito apesar das imposições, das violências, do controle, o corpo se erige como o limite, marcando e definindo suas próprias possibilidades e desejos, o corpo se revela assim como a grande razão.

Deparamo-nos atualmente com uma crescente preocupação acadêmica por compreender a relação dos sujeitos com a instituição religiosa à qual se afirmam vinculados. Os estudos da religião, nos últimos anos, graças em grande medida aos efeitos da secularização, e da levada a serio deste paradigma, tem dirigido seu olhar sobre a prática dos sujeitos para encontrar neles os resquícios de uma religião que parece perder cada vez mais poder sobre a cultura e a vida social. Porém, as pesquisas neste sentido tendem a diminuir no que diz respeito à mulher como sujeito religioso específico. Geralmente, as mulheres são incluídas no contingente de indivíduos que se declaram religiosos, sem se questionar pelas diferenças que o gênero, como construção cultural das diferenças sexuais, efetiva neles afetando inclusive sua ligação com a religião.

É um fato que, a grande maioria dos estudos na área das ciências da religião não levam a sério as implicações que a compreensão diferenciada dos corpos tem para a análise da

realidade social, do fenômeno religioso e de modo geral, para a produção do conhecimento. Ora, a construção e hierarquização dos corpos afeta não só a recepção das diretrizes religiosas, mas a formulação das mesmas. Neste sentido, entendemos que uma primeira contribuição seja nossa opção por assumir ‘mulheres’, mesmo um pequeno segmento, como sujeitos e participantes ativos na busca por compreender o fenômeno religioso nas formas em que se faz presente numa determinada cultura. As mulheres protestantes de Cali, interpeladas na sua corporeidade por diferentes discursos, foram os sujeitos sobre os quais nos debruçamos com o intuito de apreender a lógica, os conflitos e as possibilidades dessa relação entre cristianismo e mulheres no momento atual. O corpo foi o elemento central da análise. A razão desta escolha teve a ver com entendermos o corpo como o ponto de encontro, e principalmente de conflito entre a igreja cristã – no caso, o protestantismo – e as mulheres.

Indicamos desde o inicio do texto que, a forma de acessar aos sujeitos religiosos é através de seus discursos e/ou suas práticas. Porém, a questão é mais complexa se pensarmos que o discurso é já uma prática, e que existem múltiplas interações entre estas duas formas de comunicação e ação. É importante ter acesso ao que se diz e ao que se faz, mas também ao que se diz sobre o que se faz, ao que não é dito, mas é feito, e a relação entre o dito e o feito. Desta maneira, tentamos evidenciar discursos e práticas dos sujeitos religiosos, entendendo que não há entre eles uma relação de causalidade, isto é, nem sempre há uma adequação das práticas aos discursos - próprios e/ou institucionais. Parece-nos, pois, muito obvio afirmar conclusivamente a distancia que haveria entre discursos e práticas. Tal afirmação só pode estar fundamentado numa suposta conseqüência lógica entre o discurso, “coisa pronunciada ou escrita” (Michel FOUCAULT, 2000:8) e as práticas dos sujeitos. Parece então, como se o/a pesquisador/a buscasse no seu objeto e no campo, uma ‘obediência’ aos discursos ou uma “coerência” entre o que se afirma, se crê e se faz. Descobrimos no decorrer de nossa análise que esta relação discurso-prática, é muito mais complexa e nuançada do que se possa imaginar.

Historicamente a religião cristã contribuiu para a construção, legitimação e manutenção dos papéis e representações sociais de mulheres e homes na sociedade, e mesmo diante da perda da sua força reguladora, a religião ainda exerce certa influência, diferenciada por gênero, na vida dos indivíduos. No que diz respeito ao corpo, o universo católico, e

posteriormente o universo religioso protestante compartilham o pensamento dualista e androcêntrico sobre a mulher. As bases filosóficas e teológicas dos primeiros séculos foram fundamentais para sustentar discursos que através da historia mantiveram as mulheres em lugares de subordinação, lhes impedindo o exercício do sacerdócio, a igualdade de direitos e de modo geral cooptando e culpabilizando seus corpos.

No primeiro capítulo mostramos a lógica por trás dos posicionamentos teológico- doutrinais a respeito da mulher. Resultou muito clara a obsessão dos homes da Igreja com o corpo feminino e seus ‘perigos’. Esta obsessão e medo efetivaram-se na domesticação das mulheres, principalmente da sua sexualidade. Também foi possível constatar o predomínio de uma particular hermenêutica dos textos bíblicos, sustentada num paradigma “revelatório-doutrinal” (Elizabeth SCHUSSLER FIORENZA, 2008:53) que perpassa a historia do cristianismo e é elemento fundamental (legitimador) para a manutenção do poder masculino. No protestantismo, também como em toda a tradição teológica da qual é herdeiro, a heterossexualidade e a inferioridade feminina são as normas que sustentam a ideologia da família, a qual tem como principal função manter os corpos sob controle.

Diante de um discurso que define o corpo feminino de maneira absoluta, outorgando-lhe lugares fixos na sociedade e na igreja, aparecem as tensões, os ruídos e os conflitos decorrentes da vida plural e heterogênea das mulheres de Cali. Ao buscar as formas concretas em que o poder do discurso sacralizado se faz presente nas mulheres, encontramos as seguintes tendências:

1. Muitas mulheres protestantes fazem uso de discursos que se ajustam às diretrizes da instituição no que diz respeito à corporeidade. Em algumas destas mulheres encontramos que, a adequação ao discurso não significa adequação na prática, como no caso das mulheres que apesar de estarem em situações de ‘desobediência’ à norma continuam afirmando e validando o discurso institucional que ‘condena’ sua própria situação. O segmento religioso que mais apresenta esta disposição é o presbiterianismo. Tornou-se claro no decorrer da análise dos questionários e das entrevistas, que as mulheres presbiterianas manifestam um posicionamento mais condizente com o ideal protestante da mulher, também observamos que tal posicionamento esteve, na maioria das vezes, atrelado à condição econômica das mulheres, seu grau de instrução e

também, no caso específico de um grupo de presbiterianas, à localização geográfica da igreja na cidade.

De modo geral, a maioria das mulheres dos três segmentos religiosos reflete nas suas respostas a influência do imaginário religioso cristão sobre a forma adequada de viver a corporeidade, apontando para ideias de auto cuidado, valoração do corpo enquanto criado por Deus, e ‘templo do Espírito’, prevalecendo também a importância do controle: o uso recatado das roupas, e de modo geral a posição contrária à intervenção corporal com fins estéticos.

Por outro lado, deparamo-nos com mulheres cuja adequação rígida aos discursos religiosos implica em práticas que efetivamente são influenciadas por esse discurso. O poder-saber do protestantismo torna-se eficaz na vida das mulheres caleñas, por exemplo, quando o discurso que as informa limita ou promove sua ação. É o caso, por exemplo, da presbiteriana Carolina Sánchez, de 21 anos, cujos processos biológicos (uma possível gravidez ectópica) estavam indo diretamente contra os princípios em que ela acredita firmemente (ela iria precisar de um aborto terapêutico). Ela representa muito bem a força dos discursos que atingem negativamente a vida das mulheres, negando-lhes a capacidade ética para decidir sobre suas possibilidades de procriação (Mary HUNT, 2001:12). Seu caso particular nos mostrou também o poder repressivo da imagem social do aborto como crime, assassinato, pecado, assim como a cumplicidade do discurso médico (o pai da entrevistada) no reforço de imaginários negativos sobre tal prática. Diante do anterior, o corpo da mulher aparece estando preso a discursos que a concebem quase que exclusivamente na sua função reprodutiva, isto é, condenada as suas possibilidades biológicas.

2. Outras mulheres, entretanto, se mostram confusas em relação à concepção dos discursos. Desta maneira, as fronteiras discursivas da instituição não se apresentam para elas muito demarcadas, seja porque não são claras, seja porque não fazem muito sentido no pensamento nem na prática. Em alguns casos, ao responder o questionário, estas mulheres optaram por respostas contraditórias, ou pelo menos, opções que implicavam em duas visões de mundo diferente. Diante das perguntas, elas se mostraram inseguras, atitude que atribuímos precisamente à incorporação de um discurso religioso exigente, e ao confronto com novos discursos e/ou possibilidades.

Lembremos da entrevistada que reconhecia a dificuldade de assumir uma posição diante do aborto, já que dois sistemas de sentido, por um lado, sua tradição religiosa, e por outro, sua formação universitária, conduziam-na por diferentes caminhos.

3. Também nos deparamos no campo com mulheres que abertamente se apropriam de um discurso contrário ao ensinamento da igreja. Isto foi claro para nós, de forma particular, na pergunta sobre o sexo antes do casamento. Apesar de reconhecer a norma institucional, isto é, o valor da pureza sexual e a legitimidade do sexo exclusivamente dentro do casamento (Rubem ALVES; 2005: 213), muitas mulheres parecem não se sentir muito pressionadas pela norma. Encontramos que o um número significativo de mulheres que referiu o amor e o compromisso como elementos suficientes para as relações sexuais (opção d) esteve entre as solteiras (7). Também, entre as que optaram pela relativização da norma bíblica em favor de considerar a situação particular (opção b), 7 estavam separadas e eram de diferentes faixas etárias. Do anterior podemos deduzir que a situação de fronteira na qual elas se encontram, pela não-adequação ao modelo hegemônico, as coloca num lugar onde as possibilidades de viver práticas sexuais ‘legítimas’, desde o ponto de vista religioso, são nulas. Desta maneira, posições pessoais não muito acordes com os princípios, ajudam a reavaliar os discursos da instituição. Elas precisam legitimar uma prática que lhes é comum e que, seja em seu pensamento, seja em sua prática, não está mais condicionada pelas exigências religiosas. Geralmente a ‘transgressão’ acontece nas margens, nos lugares em que o poder é obstruído nos sujeitos. Comprovamos assim, que além da heterodoxia comprovada nas práticas, esta também se aplica aos discursos que legitimam essas práticas, e que muitas mulheres fazem convergir o discurso da sua igreja ou tradição religiosa com seus desejos de fazer.

Seguindo a estrutura do nosso trabalho, no segundo capítulo mostramos os discursos que as mulheres protestantes, no contexto de Cali, enfrentam no dia-a-dia. A influência do narcotráfico, o estereótipo nacional de beleza caleña, assim como a proliferação de modelos midiáticos com o crescimento do mercado da estética, contribuíram na criação de um discurso de beleza padronizada que alimenta cada vez mais o imaginário cultural de Cali. Descobrimos, a partir do anterior, que a circulação de modelos hegemônicos de corpo também tende a gerar tensões nas mulheres protestantes de Cali: Primeiro uma tensão decorrente da distancia entre a própria corporeidade, tal como ela se apresenta –

com gordura, com rugas, com manchas, por vezes com doenças que geram deformações ou, simplesmente, o corpo natural, sem maquiagem, sem depilação, sem hidromassagem ou cabeleireiro, etc,. – e o corpo ideal, exaltado, inatingível. Esta tensão não afeta, exclusivamente às mulheres cristãs, e sim, as caleñas que independente da religião estão expostas aos apelos da mídia em todas suas formas. Por

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