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Un manuel d’envergure internationale : Buts, objectifs et modes d'emploi

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Chapitre 1. Introduction

1.3 Un manuel d’envergure internationale : Buts, objectifs et modes d'emploi

O que vem sido analisado por pesquisadores de diferentes áreas das ciências humanas é que a autoridade, que antes estava centralizada em poucas instituições, como a escola e a família, atualmente está

disseminada no papel dos especialistas, denominados na atualidade como autoridades conselheiras.

Conforme Michel Foucault (2006), a entrada dos especialistas no mercado teve início no século XIX, quando a família passou por mudanças durante o período de industrialização, sendo preciso que a sociedade fosse composta por pessoas que servissem a nova ordem social, sujeitos que fossem produtivos, disciplinados e politicamente econômicos. Ficava a cargo da família então que cumprisse o seu papel na formação dos filhos, em articulação com os interesses políticos e econômicos vigentes na sociedade. Para o reforço da tarefa familiar, as instituições “auxiliariam” no disciplinamento dos que não serviriam para a sociedade, como é o caso dos asilos, presídios, instituições psiquiátricas, etc. (FOUCAULT, 2006). Ocorre a partir daí a proliferação das profissões de psicólogos, psicanalistas, criminologistas, entre outras, num cenário onde os especialistas ganham poder e preenchem o espaço de autoridade sobre a família. Para o autor, a função-psi nasce inicialmente para o disciplinamento dos indivíduos dentro da família e se estende, aos poucos, aos outros sistemas disciplinares, como a escola, exército e a fábrica.

Cada vez que um indivíduo era incapaz de seguir a disciplina escolar ou a disciplina da oficina, ou a do exército, no limite a disciplina da prisão, a função-psi intervinha. E intervinha com um discurso no qual ela atribuía à lacuna, ao enfraquecimento da família, o caráter indisciplinável do indivíduo (FOUCAULT, 2006, p. 106).

Assim, o que a família não conseguia fazer em relação ao disciplinamento de seus filhos, ficou a cargo das funções-psi que, ao produzirem explicações e justificativas sobre como educar os filhos, contribuíram para o enfraquecimento da autoridade familiar. Para o autor, no século XX “a função-psi tornou-se ao mesmo tempo o discurso e o controle de todos os sistemas disciplinares” (Ibid., p. 106).

Com origem na psiquiatria, essa função se expandiu para as demais instituições, levantando a bandeira de companheira da família “incapaz” de disciplinar os indivíduos, sendo papel do especialista

discipliná-los dentro de um modelo de sociedade. Como observa Luiza Pereira Monteiro, “a função-psi vai atuar exatamente na vaga deixada pelo vazio de autoridade da família” (MONTEIRO, 2008, p. 105).

As funções-psi e seus discursos atravessaram o século XX e chegaram ao século XXI se disseminando e se constituindo enquanto verdade nas diferentes instituições, dentre elas, os meios de comunicação. “Ela [a função psi] desconsidera as regras da ciência para popularizar-se, tornar-se acessível aos mais diferentes quocientes de inteligência e às variadas capacidades de consumo e, com isso, a função- psi torna-se saber popular” (MONTEIRO, 2008, p. 106). Para a autora, indiferente da forma de psicoterapia em que atua o profissional psi, a família continua sendo o foco de produção de discursos e atuação desses profissionais, que tornaram-se “em primeira e última instância, instrumento da disciplina contemporânea” (p. 106). Como observa Monteiro

O lucro da função psi não é produzir uma ruptura com a família, mas apenas deslocar sua autoridade, para que essa família recorra ao mercado de conselheiros e pague, para que eles reconduzam seus filhos aos padrões de normalização e funcionamento da própria família, segundo Foucault (MONTEIRO, 2008, p. 105). Para compreender melhor a produção do discurso da crise da autoridade e como essa crise foi sendo construída na contemporaneidade, Monteiro (2008) desenvolveu uma tese sobre o tema, a partir da literatura de auto-ajuda. Fundamentada na concepção de discurso de Foucault, ela observa que o discurso sobre a crise da autoridade atua de duas maneiras: serve como produtor de instabilidades e desloca a autoridade familiar para autoridades difusas, como é o caso dos especialistas fundamentados em um discurso pseudocientífico, como o de psicoterapias e psiquiatrias. Esse esvaziamento da autoridade familiar, para a autora, é preenchido pelas “(...) novas tecnologias de normalização e educação: educação da emoção, por meio de prescrições técnicas de saber e poder que restituiriam aos pais e mães a autoridade perdida, a harmonia familiar e produziriam, como efeito, sujeitos responsáveis, bem sucedidos e felizes” (MONTEIRO, 2008, p. 8).

A produção de sujeitos no mundo contemporâneo passa pelo deslocamento de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de controle através “das técnicas de poder e controle que combinam o controle das emoções pelas racionalidades, com o reforço da constituição de indivíduos voltados para a vida íntima e privada” (Ibid., 2008, p. 8).

Para Aquino (2011), a produção desses discursos ocorre, dentre outras razões, porque quando se trata de educação de crianças as pessoas gostam de aderir aos lugares-comuns, entre eles os discursos dos especialistas de que existe uma crise generalizada na autoridade e na educação das crianças. Esse parece ser um discurso que permeia as famílias e a escola, instituições responsáveis pela educação das crianças. Frente à angústia de não mais saber o que fazer com os mais novos, tanto famílias como escolas recorrem aos especialistas, denominados pelo autor de “especuladores”. Conforme Aquino, a inserção desses profissionais no cotidiano das instituições desautorizou e fragilizou os adultos responsáveis pela educação das crianças, movimentando todo um nicho de mercado.

Fundamentadas também em Michel Foucault, as pesquisadoras Ohlweiler e Fischer (2011) investigaram as percepções das crianças das Séries Iniciais do Ensino Fundamental sobre o discurso recorrente da crise da autoridade e na educação8 e consideraram que, na própria fala das crianças, notou-se uma deslegitimação da autoridade. “Mas o fato é que a autoridade – que independe da violência – sofreu certa deslegitimação, ainda mais quando tal perda é justificada unicamente pela ausência do poder disciplinar e quando novas formas de legitimá-la deixam de ser exercidas” (FISCHER e OHLWEILER, 2011, p. 8). Para as autoras o discurso sobre a crise na educação também está disseminado entre as crianças, que identificaram em seus discursos que a autoridade está mais suave do que as referências de autoridade das gerações anteriores.

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A pesquisa foi realizada com 76 crianças, entre oito e onze anos de idade, da terceira e quarta série do Ensino Fundamental de uma escola federal. Para saber mais detalhes sobre a pesquisa:

http://www.anped.org.br/app/webroot/34reuniao/images/trabalhos/ GT13/GT13-827%20int.pdf. Ultimo acesso em Outubro de 2012.

Sabemos – e as crianças deixaram claro isso em suas falas – que as técnicas disciplinares eram mais visíveis, estavam cotidianamente presentes na vida das famílias e escolas, com o recurso até a artefatos por vezes fisicamente bastante violentos (como o recurso à palmatória, dentre tantas outras humilhações e agressões) (FISCHER, OHLWEILER, 2011, p. 8)

Outro aspecto das novas técnicas de disciplinamento no âmbito do sistema capitalista foi ressaltado na pesquisa coordenada por Cárdia (1999 apud MONTEIRO, 2008, p. 184), que mostra que os índices de pais que utilizam a violência física diminuiram consideravelmente, ao mesmo tempo em que mais pais também discordam do uso de violência física na educação. Quando perguntados sobre o que fariam caso soubessem que seus filhos tivessem feito algo considerado inadequado, como pichar um muro, receber reclamações da escola, entre outras coisas, a maioria deles, 79,6%, respondeu que conversariam com os filhos e, em seguida, 6,2% buscariam ajuda de um profissional. Para Monteiro (2008), a compreensão tradicional de punição e disciplinamento passou a ser considerada violência e agressão, deixando de ser usada pela maioria das famílias brasileiras, demonstrando mudanças nas práticas disciplinares. No entanto, em algumas de nossas entrevistas, realizadas na cidade de Florianópolis com cinco mulheres e mães de contextos socioculturais distintos, ouvimos um discurso contrário a esse, como veremos adiante.

CAPÍTULO 2

O PROGRAMA SUPERNANNY E REFERÊNCIAS PARA

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