• Aucun résultat trouvé

NIEL POSTMAN (1993) defende que a cultura está a ser dominada pela tecnologia, o que, à semelhança da lenda do rei Tamuz e do seu encontro com o deus das invenções Thoth, dos diálogos de Sócrates descritos por Platão em Fedro, não é necessariamente bom para a “verdadeira” cultura humana.

Recuando à antiguidade clássica e bebendo um pouco da sua sabedoria, podemos mostrar que o dilema provocado hoje pela tecnologia não é de agora: de facto, questionar os benefícios ou os malefícios da tecnologia é já actividade antiga. Conta a lenda que um dia um rei (rei Tamuz) recebeu o deus inventor , de nome Thoth. Este inventara, entre muitas outras coisas, a escrita. Segundo ele, cada uma das suas invenções, em especial a escrita, tornaria o rei indispensável para o seu povo. Este, contudo, quis primeiro saber qual a utilidade de cada uma das invenções antes de as adoptar na sua comunidade. Começando com a escrita, Thoth considerava-a a maior proeza de todas, aquela que iria melhorar tanto a sabedoria como a memória do povo. Ouvindo, o rei comentou que o inventor de uma arte não pode ser o melhor a ajuizar sobre o bem ou mal que esta provocará aos que a aplicarem, pois muitas vezes, em vez do bem que se anuncia é o mal que chega. Tomando conhecimento do que para servia esta invenção, Tamuz considerou que estava perante um exemplo disso mesmo, na medida em que aqueles que a utilizarem deixarão de exercitar a memória e tornar-se-ão esquecidos, porque passam a confiar que a escrita os relembrará dos seus compromissos. Esta confiança nos sinais gráficos fá-los perder a confiança nos seus próprios recursos. A escrita serve, portanto, para rememorar e não para desenvolver a memória. Conclui, assim, que é ilusória a sabedoria que se espera da invenção do deus Thoth. Os que a aprenderem terão fama de possuírem sabedoria, “mas isso não corresponderá á verdade, pois receberão uma quantidade de informação sem a instrução adequada. Considerar-se-ão muito conhecedores mas serão bastante ignorantes. Estão cheios do conceito de sabedoria mas não de verdadeira sabedoria”(TEÓFILO, 1998).

Com o relato desta lenda, pretende-se mostrar como a tecnologia que se anuncia como benéfica, pode também prejudicar. Tal como na Antiguidade, esta perspectiva de análise aponta para uma crítica da influência da tecnologia sobre as culturas onde são recebidas. Desta forma, ao contrário

de deus Thoth, não parece ser correcto considerar-se que as inovações tecnológicas e a NTIC têm um efeito unívoco – positivo - sobre a cultura, na medida em que podem simultaneamente ser benéficas e adversas. Na opinião de POSTMAN (1993), são mais adversas que benéficas, na medida em que a cultura se subjugou à tecnologia, condicionando a forma como cada um de nós vê, vive e lê o mundo. Esta subjugação assenta, por exemplo, no facto de a tecnologia tender a eliminar qualquer alternativa a si mesma, redefinindo o entendimento que POSTMAN considerava dever haver sobre religião, arte, família, política, história, verdade, privacidade, enfim, sobre cultura.

POSTMAN (1993) defende que quando a cultura fica, desta forma, subserviente à tecnologia e controlada por ela, deixando esta de estar ao serviço das necessidades da humanidade, a sociedade entra numa dimensão a que designa por tecnopolia, “a system in which technology of every kind is cheerfully granted sovereignty over social institutions and national life, and becomes self- justifying, self-perpetuating, and omnipresent”. Nesta fase, a espiritualidade dá lugar à fé na racionalidade.

Antes de chegar a esta fase, porém, o relacionamento que a sociedade mantém com a tecnologia caracteriza-se por esta estar ao serviço da cultura. As ferramentas eram inventadas para resolver problemas específicos - como por exemplo, o moinho, o arado ou a roda dentada - ou para servir o mundo simbólico na arte, no mito, no ritual. As ferramentas não atacavam a integridade da cultura onde eram introduzidas. Isto não significa, no entanto, que este tipo de culturas fossem tecnologicamente pobres; a técnica que existia é que era suficiente para as suas necessidades. A tecnologia não alterava, portanto, a cosmovisão já existente, pelo contrário, adaptava-se. A esta tipo de relacionamento entre tecnologia e cultura, POSTMAN designou de “culturas ferramentistas”, e, segundo ele, para encontrarmos o melhor desta cultura, teríamos de recuar até à Idade Média na Europa.

A partir do momento em que o social e o simbólico são secundarizados a favor do avanço da tecnologia, entra-se na fase da Tecnocracia. Esta fase nasceu ainda no período medieval, com o surgimento de tecnologias como o relógio mecânico (que trouxe uma nova concepção do tempo), os caracteres móveis de Gutenberg (que precipitaram o fim da tradição oral) e o telescópio (que destruiu proposições da teologia judaico-cristã que eram então fundamentais para a sociedade). Estes avanços tecnológicos fizeram quebrar os elos que a sociedade mantinha com a tradição. Contudo, apesar desta erosão com a tradição, que fez com que a tecnologia iniciasse o seu percurso de domínio sobre o social e o simbólico, não há, nesta fase, uma subjugação total da tecnologia sobre a cultura.

De acordo com a teoria de POSTMAN, “technology comes irresistibly to redefine what we mean by religion, by art, by family, by politics, by history, by truth, by privacy, and by intelligence, so that the new definitions fit the requirements of the technological thought-world. As a consequence, alternative ways of living and believing become invisible and irrelevant, and the possibilities of other narratives that might serve to organize national purpose are driven out of consciousness”. À semelhança do rei Tamus, POSTMAN (1993) admite que a tecnologia “is a friend ..., but mostly it is a dangerous enemy … that intrudes into a culture changing everything, while destroying the vital sources of our humanity”. Esta visão pessimista do impacto da tecnologia sobre a cultura é, de resto, partilhada pelo sociólogo alemão Georg Simmel, quando, em finais do século XIX, inícios do século XX, escreve sobre “A tragédia da Cultura”. Em sentido contrário, e apesar de considerar a tecnologia como culturalmente problemática, na medida que, apesar de útil, cria desejos e necessidades artificiais, o intelectual Henri Bergson defende que a supremacia da técnica alterna-se com a da cultura, considerando que a relação entre os dois evolui num movimento pendular, na medida em que a satisfação que a tecnologia nos proporciona é efémera, extinguindo-se a si própria. Assim, segundo ele, a solução para que a cultura domine durante mais tempo a tecnologia passa por impulsionar o movimento pendular a favor da cultura, de forma a colocarmos a tecnologia ao serviço das necessidades da humanidade.

Documents relatifs