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Les manifestations de la solidarité dans les relations d’échanges

3. Éléments d’analyses

3.3. Les manifestations de la solidarité dans les relations d’échanges

A Festa dos Pretos Velhos do ano de 2012 teve uma simbologia especial. O dia 13 de maio representa em todas as religiões com alguma matriz negra-africana uma data bastante representativa e largamente festejada. Em nosso terreiro não ocorre de forma diferente, sendo o dia de homenagear aos Pretos Velhos, orar por evolução espiritual e curar as enfermidades.

A linha de Preto Velho na umbanda caracteriza-se por ser uma das mais desapegadas das coisas materiais, daí as entidades da referida linha raramente ingerirem bebidas alcoólicas. O mais comum é que bebam café ou chá e fumem cachimbos, ocasionalmente ingerindo vinho tinto ou cachaça, podendo estes ser misturados ao café ou chá.

Diz-se que eles só bebem no caso de estar sendo realizado algum trabalho tido como mais pesado, como uma quebra de demanda. Estas entidades são as que vem na linha do feitiço, Codó ou Maranhão, identificando-se em seus pontos:

Preta Mandinga

Ela bebe marafa Ela fuma tabaca Ela leva a demanda lá pro Maranhão É a Preta Mandinga

Chegou no salão Areia areia areia A velha do mar chegou Com sua panela de barro Cheinha de vatapá Farinha de mandioca

O tempero é urucum

São sete vela acesa E um sapo cucuru Aqui chegou Preta Mandinga

Vai abrir os teus caminhos Quebra a mandinga pro lado de lá A Preta Mandinga é quem vai levantar

Mãe Maria

Aqui chegou a Mãe Maria Com sua força na mão É uma velha feiticeira É do Codó do Maranhão

No ano de 2012, a festa de Preto foi especial por nela ter sido realizada a consagração do Pai de Santo, pois ele completara “quarenta anos de caboclo” (sic) e teve sua lavagem de cabeça reconfirmada. Como seu primeiro Pai de Santo é já falecido, um irmão de linha pela qual ele nutre grande admiração – embora esta seja constantemente abalada, como é recorrente nas relações inter-terreiros – foi convidado para ser seu novo Pai de Santo.

Assim, neste dia a festa foi não só para os Pretos, mas também comemorativa ao novo status do zelador da casa, pois houve uma breve solenidade com entrega de diploma da Federação de Umbanda, palavras de encorajamento, admiração e parabéns.

Vários médiuns de terreiro foram convidados para trabalhar neste dia, incorporando entidades das Sete Linhas de umbanda para que estas passassem a força ao Pai de Santo nesta nova etapa.

Figura 5: Mesa arriada para Preto Velho

É comum, seguindo os estudos de Nogueira (1996), que o povo de terreiro atribua grande importância aos ensinamentos dos guias e mentores espirituais, ficando sua própria vontade e conhecimentos em segundo plano frente às orientações dos caboclos. Desta forma, não basta um diploma da Federação, uma festa com mesa arriada ou a presença de um Pai de Santo convidado – o ritual só é efetivado com a presença dos Orixás, que confirmam e atestam o momento. Sem eles, é como se toda a burocracia envolvida perdesse o valor.

No dia anterior à festa, quase todos os filhos de santo estavam presentes para a preparação do momento especial. O Pai de Santo estava com as atividades limitadas, pois como sua coroa ia ser confirmada ele estava em confinamento para receber as instruções dos guias. Quem estava à frente dos preparos, portanto, eram Pai e Mãe Pequena da casa, além do Pai de Santo convidado – tudo sob supervisão e permissão do zelador oficial do centro.

A casa foi devidamente limpa, os cordões de guias de todos os filhos de santo refeitos, muitas comidas preparadas e, ao fim do trabalho, na noite anterior à festa, foi realizado um pequeno ritual como que preparatório ao dia que chegava. Orações foram realizadas mentalizando bênçãos, curas e elevação espiritual ao Pai de Santo, bem como a todos os filhos da casa e ao novo dono do local, o Pai de Santo convidado.

Ocorreu que, neste momento, alguns contratempos houveram: o Pai de Santo convidado levou uma queda enquanto incorporado, algumas guias quebraram e o Pai de Santo que estava recolhido afirmou, depois, ter sentido muita vibração negativa no momento de sua levantada.

Este discurso é comum e nem sempre é revelada a fonte de negatividade, embora muitas vezes ela fique implícita de forma clara. Geralmente as pessoas a que são atribuídas as traições afastam-se do terreiro após algum tempo, quando se esclarece – através dos guias e poucas vezes pelo pai de santo – os motivos de seu afastamento.

É assim uma dupla forma de atestar a eficácia das entidades em seus manejos rituais: os trabalhos feitos para afastar os maus pensamentos concretizam-se quando da saída de um médium, ao mesmo tempo que, se aquela pessoa em vez de se afastar for considerada tratada a ponto de não mais causar transtornos, também foi devido aos trabalhos de elevação por todos realizados.

Os motivos mais comuns de queixas são as fofocas envolvendo o Pai de Santo, sejam em âmbito espiritual – acusações de mistificação – ou em sua vida particular, sendo estas especialmente mais graves. São piores porque, para ele, sua vida íntima não é da conta de ninguém, o que parece razoável e dentro de seus direitos enquanto qualquer cidadão. Espiritualmente, não considera tão grave pelo fato de estar seguro com suas entidades, de forma que quem duvida um dia terá suas respostas ou viverá eternamente sem fé, sem crenças, sendo isso por si só considerada como uma forma de castigo, pois tal caminho, em sua opinião, não conduz a uma espiritualidade elevada.

Contratempos à parte, o dia da Festa chegou e ela correu sem maiores complicações, de forma simples e bela. Ao estereótipo dos Pretos correspondem valores como a humildade, a simplicidade, a paciência e a benevolência. Em geral são guias mansos, de fala macia e sábios conselhos. Algumas vezes aparecem como um pouco rabugentos, mas nunca grosseiros. Suas zangas parecem intentar mais à fazer graças do que a de fato passar um carão em alguém.

Certa vez, para citar um exemplo pessoal, eu demorei a entregar o cachimbo a uma Preta que chegou em terra. Ela sentou, resmungando, e quando fui entregar o cachimbo ela falou, de modo não muito carinhoso: “Deus te dê juízo quando tiver um filho, porque se continuar lesa assim eu tenho é pena da criança”. Respondi com um sorriso, pois acatei de muito bom grado o desejo dela, ao que ela continuou com a implicância: “Nossa Senhora, fica aí só mostrando os dentes e esquece de ajudar a Preta”. Todos rimos.

Os Pretos Velhos são, em geral, espíritos de ex-escravos que viveram nas senzalas até idade avançada para a época, sempre muito desgastados pelo trabalho pesado e condições precárias de vida, marcados pela exploração e humilhação. Chegam nos terreiros arqueados, como que com dores nas costas, apoiam-se em bengalas e sentam-se em banquinhos baixos. Por vezes há relatos de seus cotidianos nas senzalas, mesclando em seus discursos fatos históricos e relatos pertencentes ao imaginário popular.

Um Preto Velho que é conhecido por ser ex-escravo e detentor de poderes mágicos é Pai Benedito, que canta em uma de suas corimbas “Eu sou do cativeiro, eu sou Pai Benedito, eu sou mirongueiro”. Ele não costuma sentar, prefere mostrar-se ativo e dançar pelo terreiro. Esta postura é adotada mais comumente por Pretas Velhas, que quando recebem a oferta de um banquinho ou bengala, queixam-se que “isso é coisa de velho”, em tom de brincadeira, e saem sapateando na eira.

Uma imagem comum em terreiros de umbanda é a de uma negra usando uma máscara de flandres, evidenciando torturas e sofrimentos do cativeiro. Esta imagem situa-se no local do terreiro destinado aos Pretos Velhos e trata-se da Escrava Anastácia, figura da qual não há documentação que comprove a existência mas é alvo de devoção em muitos locais, em especial no Rio de Janeiro, tendo muitos milagres de fiéis associados ao seu poder de mulher negra, martirizada, bela e virgem (AUGRAS, 2009). O mentor espiritual da casa, no terreno dos Pretos Velhos, é o Pai José, preto velho ex-escravo que incorpora sempre no Pai de Santo e é o responsável pela maior parte das curas e orientações no Centro. É ele quem anuncia a gravidez de mulheres – incrivelmente sempre certo – passa a maioria dos banhos, chás e dietas para problemas de saúde e, quando o problema não é de cunho espiritual ou trata-se de alguma enfermidade mais grave, aconselha a ida a um médico da terra, chamado de “homem de anel”.

Há diversos relatos de curas obtidas mediante suas intervenções, algumas podendo ser consideradas verdadeiros milagres. Os Pretos e a missão de cura fazem parte do processo de moralização da umbanda, tão importantes no processo de seu reconhecimento enquanto religião. Trazem fortes elementos do espiritismo kardecista, ocorrendo ocasionalmente o relato de influência de figuras de médicos como Dr. Fritz ou Bezerra de Menezes.

O posicionamento do Pai de Santo em relação a esses espíritos é, em geral, favorável, com ressalvas apenas às cirurgias espirituais. Não concorda com a realização de cortes, considera arriscado e anti-higiênico, porém não tira o mérito dos tratamentos que obtiveram sucesso. Sempre coloca, porém, as curas realizadas pelos caboclos com as ervas no terreiro como sendo mais eficazes e menos agressivas que as realizadas nos centros kardecistas.

Há alguns filhos de santo, antigos e atuais, que vieram da mesa branca. De lá saíram por motivos diversos, mas convergentes quase sempre em um ponto: a incompatibilidade de correntes mediúnicas ou o despreparo das entidades de lá na lida com os problemas daquele filho. Por serem os espíritos do kardecismo tidos como mais evoluídos, como que não precisassem de um processo de “doutrinação”, pois já vem sem beber, sem fumar, é comum o relato dessas pessoas de que suas entidades não eram bem recebidas no espiritismo, o que evidencia que todos os esforços do movimento federativo no sentido de aproximar ao máximo as duas doutrinas ainda não alcançaram o efeito desejado.