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Manejo de los hábitats

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Textos Fundación Oso Pardo · Fotografías Andoni Canela

MINISTERIO DE MEDIO AMBIENTE

5. LINEAS BÁSICAS DE ACTUACIÓN

5.2. Manejo de los hábitats

“Assim como Romero atualizou os primeiros zumbis [...] que tocaram nos medos das gerações anteriores, o gênero se adaptou a novas racionalizações [...] que se ajustam às situações de mudança de suas audiências” (PAFFENROTH, 2006, p. 134).

Sabemos que em A Noite... a causa do despertar dos mortos não é explicada, é apenas sugerida sob forma da “radiação misteriosa” de uma sonda espacial que retornou de Vênus, o que é perfeitamente compreensível no contexto da Guerra Fria. Em Zombie – O Despertar

dos Mortos e sua refilmagem, Madrugada dos Mortos, a hipótese para o problema refere-se a

um julgamento divino. Hoje, no entanto, o retorno dos mortos tem sido comumente explicado nos termos de algum tipo de vírus ou doença, argumento explícito na série Resident Evil e na franquia Extermínio; ou alguma arma biológica que foge ao controle, como é o caso de

Apocalise Z, best-seller do escritor espanhol Manel Loureiro.

Esta última racionalização de uma arma biológica pode ser o sintoma de um mundo pós-11 de Setembro, ansioso com as possibilidades do bioterrorismo, da mesma maneira que a geração anterior viveu constantemente nas sombras de uma guerra nuclear, e os zombies eram então retratados como resultado da radiação. Tanto o

zombie nuclear como o zombie do bioterrorismo são símbolos de nossas insanas

ânsias em destruir a nós mesmos, e o assustador portento de que talvez tenhamos sucesso (PAFFENROTH, 2006, p. 2-3).

Sean Purdy (2007, p. 271) sustenta que as novas tecnologias e as tendências conservadoras na política e na sociedade influenciaram fortemente a produção cultural do fim do século XX. “A mídia, seja nas formas convencionais rádio e televisão, seja na internet, se

consolidou em enormes conglomerados, frequentemente em combinação com corporações de outros setores”. Contudo, o autor salienta que houve exceções às tendências conservadoras dos meios de comunicação de massa.

A mídia alternativa sobreviveu e até se expandiu com a internet. Empresas independentes lançaram produtos cada vez mais sofisticados e frequentemente alternativos. Mesmo as gravadoras gigantescas produziram opções alternativas e inovadoras, como os trabalhos de Bruce Springsteen, Rage Against the Machine, Green Day, Annie DiFranco, Pearl Jam e Nirvana, que chamaram a atenção de muitos americanos com seus temas de rebeldia, desespero e crítica social. Música rap e cultura hip hop desenvolveram discursos sobre pobreza, racismo e brutalidade da polícia muito contrários ao status quo. Diretores inovadores como David Lynch e John Sayles também tiveram espaço para romper com as fórmulas vulgares de Hollywood. Numa série de documentários de sucesso de público, Michael Moore criticou, a seu modo peculiar, a concentração de riqueza, a hipocrisia política e o militarismo da sociedade americana [...] (PURDY, 2007, p. 272-3).

No interior desse contexto de produção alternativa, também consideramos a nova trilogia de Romero uma forte crítica à sociedade, com destaque para o quarto filme de zombie do cineasta. Em Terra dos Mortos (Land of the Dead, 2005), bem como em outros filmes recentes já mencionados, as ameaças de terrorismo, antraz e da AIDS têm sido incorporadas à representação da ameaça zombie. Paffenroth (2006, p. 134) reafirma que a explicação preferencial para os mortos-vivos, nos dias de hoje, tem sido a doença infecciosa, ou a arma biológica que escapa ao controle, seguida da impiedosa execução dos “infectados” em nome da autodefesa. Jamie Russel concorda (2010, p. 228), e sugere que a recepção favorável dos espectadores com relação aos zombies, nos últimos anos, deve-se justamente ao espectro das inquietações milenares que paira sobre esses filmes, da SARS ao terrorismo.

Russel sugere que o foco de Terra dos Mortos (Land of the Dead, 2005) esteja na política de Guerra ao Terror. Esse filme seria um indicador das questões que abasteceram a reemergência do gênero nos primeiros anos do século XXI, trazendo o tropo denominado zombie já amadurecido o bastante para voltar a funcionar como alegoria social. Para o crítico

Degiglio-Bellemare (apud PAFFENROTH, 2006, p. 124) “é incompreensível que esse filme tenha sido lançado como uma grande estréia de verão, pois talvez seja um dos mais contestatórios filmes de estúdio [...] realizados em muitos anos”. Trata-se de um filme “sobre quebrar as barricadas, cercas e muros que oferecem falsa segurança aos poderosos”.

Terra retoma a denúncia contundente acerca do materialismo e do consumismo na

América moderna, aspecto presente em Zombie – O Despertar dos Mortos, e inclui o tema da estratificação das classes enquanto um mal intimamente relacionado. Segundo Paffenroth, Romero corporifica o mais sombrio de todos os vilões na figura de Kaufman (Dennis Hopper), “um personagem que parece ser a combinação do barão capitalista com o imperador romano louco e o rei do crime organizado”. Seu nome, explica o autor, significa “comerciante”, e esta seria a sua essência. Dessa maneira, tendo na figura do comerciante o novo líder da sociedade humana remanescente, o cineasta sugere que a forma mais elevada de poder da velha estrutura social seja o comércio. Nessa óptica cínica e desconfortavelmente realista, o exercício real do poder não advém dos militares, do governo ou da igreja, e sim dos ricos, que fazem uso de suas instituições como fronts de suas maquinações egoístas “De acordo com Romero, a Casa Branca, o Pentágono e o Vaticano não governam o mundo — a Wall Street o faz” (2006, p. 125).

Neste momento, os zombies mostram-se também capazes da não-violência e mesmo de algo semelhante à virtude e à bondade. Tendo conquistado o mundo, não mais saem em busca de presas até serem provocados pelos tolos e gananciosos humanos. [...] vivem na significativamente denominada Uniontown, um nome quase tão rico simbolicamente quanto Romero poderia pretender. [O cineasta] determinou a cidade zombie em irônica oposição à sociedade criada por Kaufman, que criminosamente procura manter seus inimigos desorganizados e fraturados entre si mesmos, tornando o Fiddler’s Green o derradeiro símbolo da desunião e da desarmonia. Há também o sentido de “união” como um labor organizado, e como nome do Norte na Guerra Civil Americana, moldando Kaufman enquanto uma continuação da [...] América corporativa e do escravismo do Sul, o estado de guerra entre classes, e a contenda racial (PAFFENROTH, 2006, p. 130-1).

No panorama da sociedade capitalista pós-industrial, o zombie encontra um ambiente fértil para reviver. De acordo com Russel (2010, p. 228), “é evidente que o renascimento do gênero coincidiu com um momento histórico em que o zumbi parecia mais apropriado do que vampiros, lobisomens, assassinos seriais ou qualquer dos outros monstros habituais do terror”. O autor continua a argumentação, explicando que o medo de desastres naturais e ataques

terroristas, as preocupações com relação a armas de destruição em massa — principalmente depois das ameaças com antraz49 — e o medo de que uma “bomba suja” seja lançada em um

grande centro metropolitano, parecem ter encontrado nos filmes de zombies uma válvula de escape pertinente, dentro da cultura pop.

Como para provar esse argumento, dois meses depois do lançamento de Terra dos

Mortos nos Estados Unidos, os canais de notícias mundiais foram subitamente

dominados pelas terríveis imagens de Nova Orleans no despertar do furacão Katrina. Na CNN, vimos cenas da cidade devastada que podiam ter sido cenas de fundo de um filme de Romero: residentes confusos e assustados vagando pelas ruas alagadas; saques e ilegalidades; a incompetência dos órgãos governamentais. Os mortos não estavam caminhando, mas tudo soou muito familiar (RUSSEL, 2010, p. 229).

Russel prossegue. “Vivemos em tempos preocupantes e incertos nos quais — por qualquer razão — nossa fé na coesão da ordem social foi profundamente abalada” (2010, p. 229). Nesse sentido, o mito do zombie, que evoluiu ao longo do tempo para se tornar menos sobre raça ou magia e mais sobre o próprio apocalipse, parece ter se tornado a perfeita expressão desses medos. Simon Pegg, de Todo Mundo Quase Morto, relaciona todos esses medos à súbita erupção de filmes de zumbis dos últimos anos:

É o medo uns dos outros. É sobre o medo de outros seres humanos, e o medo de nós mesmos. Estranhamente, num paralelo [com Todo Mundo Quase Morto], tudo se resume a não perceber a ameaça a sua volta. E agora aqui estamos nós em situação em que aparentemente podemos ser explodidos a qualquer momento por causa do terrorismo, e é uma ameaça que nós não percebemos surgir ao nosso redor. É muito atual, essa coisa toda: paranóia viral, medo dos estrangeiros, xenofobia, esses terroristas bichos-papões que estão por aí (PEGG apud RUSSEL, 2010, p. 228-9).

Pegg fala em “paranóia viral”, o que nos remete ao argumento central da série

Resident Evil: a “aura negativa” do vírus e o medo de que os laboratórios possam disseminar

49 O carbúnculo ou antraz (anthrax, em inglês), é uma doença infecciosa aguda provocada pelo Bacillus

anthracis, uma bactéria que forma esporos. Uma bactéria é um organismo muito pequeno constituído de uma

única célula. Muitas bactérias podem causar doenças. Um esporo é uma célula em estado inativo (dormente), que pode reviver em condições certas. O antraz também pode ser usado como arma. Isso aconteceu nos Estados Unidos em 2001, quando a bactéria foi disseminada deliberadamente pelo sistema postal, através de cartas que continham pó contaminado. O ataque resultou em 22 casos de infecção por inalação, e cerca da metade das vítimas faleceu. Dados de acordo com: http://emergency.cdc.gov/agent/anthrax/needtoknow.asp. Acesso em 5 out. 2011.

uma pandemia. Ao longo dos tópicos anteriores, percebemos que o argumento da série trata de um vírus que causa a morte e a reanimação do corpo, que se coloca agressivamente no encalço de carne humana. Esse corpo reanimado é o zombie, que para Lauro e Embry (2008, p. 93) também parece uma figura pessimista e, ainda assim, apropriada para o momento em que vivemos, especialmente para os EUA no interior de uma economia global, alienada de sua

própria humanidade, que se alimenta dos produtos do resto do planeta e segue em frente aos tropeços, tateando em busca da imortalidade enquanto nos decompomos.

Para Marx, a eficiência da industrialização em grande escala baseia-se na divisão do trabalho. “A Indústria Moderna possui um organismo produtivo que é puramente objetivo, no qual os trabalhadores tornam-se meros apêndices de uma condição de produção material pré- existente” (1909, p. 421). “Na fábrica, temos um mecanismo sem vida independente do operário, que se torna seu mero apêndice vivo” (1909, p. 461-2). Dessa maneira, explicam Lauro e Embry, reificado como parte do processo de produção, o sujeito já foi drenado para dentro do objeto: já habitamos a zona intermediária do zombie — portanto, essa profecia do pós-humano é mais provável de se concretizar. As autoras estendem o papel do zombie no sentido de uma analogia da humanidade como a qual existe hoje, e, simultaneamente, de presságio de um “futuro monstruoso” (2008, p. 95).

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