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Dans le document Office of the Auditor General (Page 27-47)

A presente pesquisa tem como objetivo geral investigar o desenvolvimento da leitura e da escrita no português do Brasil em fases iniciais de aquisição. A partir dos resultados aportados por pesquisas brasileiras e por pesquisas em ortografias transparentes, a presente pesquisa admite que pode haver um período crítico na fase inicial de alfabetização em que algumas capacidades requeridas para essa aprendizagem devem se desenvolver. Uma das capacidades fundamentais para a aprendizagem da leitura e da escrita é a consciência fonológica. A literatura examinada indica que nas ortografias transparentes a contribuição dessa capacidade para a aquisição da leitura e da escrita pode ser diferente, dependendo do grau de consistência ortográfica. Os diferentes níveis de consciência fonológica se relacionam de maneira distinta a cada das habilidades de leitura e escrita, apesar de a consciência fonêmica figurar como o mais forte fator preditivo de sucesso dessas habilidades. O português do Brasil, enquanto ortografia transparente, apresenta maior grau de consistência ortográfica para a leitura do que para a escrita, o que deverá implicar em contribuições distintas da consciência fonológica sobre essas aprendizagens. Um dos objetivos específicos, portanto, da presente pesquisa é investigar a influência de diferentes níveis de consciência fonológica sobre a aprendizagem inicial da leitura e da escrita no PB. Além disso, espera-se investigar qual nível de consciência fonológica pode prever desempenhos futuros.

A literatura examinada indicou também que o método de ensino pode influenciar o desenvolvimento da consciência fonológica. O método fônico parece possibilitar o desenvolvimento mais acentuado de habilidades no nível fonêmico. A presente pesquisa procura, assim, contrastar um método de alfabetização em que o ensino das correspondências grafofonológicas seja objetivado como ferramenta para a apropriação da linguagem escrita (método fônico) em oposição a um método em que a principal ferramenta seja a atividade de inferência contextual feita pelas crianças (método global).

Além dos efeitos do método de ensino sobre as capacidades fonológicas, objetiva-se também na presente pesquisa investigar se o método de ensino determina desenvolvimentos diferentes em relação à aprendizagem da leitura e da escrita. De forma complementar, sob o enfoque do modelo de dupla-via, objetiva-se investigar se o método de ensino determina desenvolvimentos diferentes com relação às estratégias de processamento da leitura e da escrita entre os dois grupos estudados.

Outra questão a ser investigada decorre das considerações relativas à aprendizagem de uma ortografia transparente e aos efeitos do método de ensino somadas às hipóteses de Share (1995). Segundo Share, através do procedimento fonológico a criança é capaz de desenvolver, de forma independente e autônoma, tanto a via fonológica como a via lexical. Além disso, através do exercício de decodificação fonológica, a criança é capaz de desenvolver a via lexical baseada em pistas contextuais grafêmicas e morfêmicas, ou seja, baseando-se não apenas em memorização das palavras, mas em um processamento sub-lexical. É possível que essa hipótese de Share apresente um efeito cascata quando consideradas as características de consistência ortográfica da língua a ser aprendida e o método de ensino ao qual as crianças estão expostas. Assim, com relação à leitura no PB, em função do maior grau de regularidade ortográfica, a criança poderia facilmente desenvolver o que Share denomina de mecanismo de “auto-aprendizagem”, e suas habilidades de decodificação poderiam ser observadas precocemente. Uma questão que se coloca na presente pesquisa é saber se o método de ensino poderia influenciar o desenvolvimento desse mecanismo. Assim, o método fônico, por enfocar as correspondências grafofonológicas, poderia potencializar o desenvolvimento do mecanismo de decodificação, mesmo em uma ortografia em que a consistência ortográfica já facilitasse esse desenvolvimento. Nesse sentido, é provável que crianças expostas ao método fônico alcancem mais rápida e eficientemente o domínio dos processos de decodificação do que crianças expostas ao método global. De forma paralela, com relação à escrita, o método fônico, ao enfocar as correspondências fonológico-grafêmicas, poderia facilitar a aquisição dos processos de codificação baseados em regras.

Adicionalmente, segundo Share (1995), o desenvolvimento da via lexical representa um instrumento para a leitura e a escrita de palavras irregulares, mas também para a leitura e a escrita de palavras de alta freqüência. Admitindo-se que o método fônico possa favorecer o desenvolvimento do procedimento de decodificação, as crianças sob esse método desenvolveriam a via lexical de forma mais eficiente do que as crianças do método global. O método global, supostamente, incentivaria o desenvolvimento da via lexical baseado no armazenamento de representações ortográficas a partir de memorização, uma vez que não focaliza as correspondências grafofonológicas. Conseqüentemente, o efeito do método de ensino poderia ser observado na leitura e na escrita de palavras de alta freqüência e na leitura e escrita de palavras irregulares que exigem o uso do processamento lexical.

Em suma, apesar de inúmeras habilidades estarem envolvidas no completo domínio da linguagem escrita, duas capacidades parecem essenciais para aprender a ler e a escrever em uma ortografia transparente: a consciência fonológica e o desenvolvimento do mecanismo de

decodificação. Estas duas capacidades devem se desenvolver em um período muito curto, ao início da alfabetização.

As considerações acima discutidas podem ser expressas através das seguintes perguntas de pesquisa:

1. Qual a influência da consciência fonológica sobre a aprendizagem da leitura e da escrita no PB?

9 A influência da consciência fonológica sobre a aprendizagem da leitura e da escrita pode diferir em função das diferenças entre transparência e opacidade. Com relação à leitura, em função do maior grau de transparência, a influência da consciência fonológica pode estar restrita a um curto período de tempo no início da alfabetização. Com relação à escrita, em função da maior opacidade, a influência da consciência fonológica pode se estender por um período maior de tempo.

2. Que nível de consciência fonológica é mais importante e capaz de explicar e predizer o sucesso em leitura e em escrita?

9 Espera-se que o nível fonêmico de consciência fonológica seja o mais forte fator preditivo de sucesso tanto para a leitura como para a escrita.

3. Em que medida o método de alfabetização influencia o desenvolvimento da consciência fonológica?

9 Dado o estreito relacionamento entre consciência fonológica e aprendizagem da leitura e da escrita, é possível que um método de ensino que enfatize as correspondências grafofonológicas explicitamente, o método fônico, produza melhores desempenhos em consciência fonológica e, conseqüentemente, em leitura e em escrita.

4. Em que medida o método de ensino influencia o desenvolvimento da leitura e da escrita?

9 Considerando que o PB é uma ortografia transparente na qual a consistência ortográfica, por si mesma, pode facilitar a aquisição dos processos de decodificação, o método de ensino poderá potencializar essa aquisição e mostrar diferenças nos desempenhos em leitura e escrita entre os dois métodos. Espera-se que o método fônico apresente vantagens. Além disso, espera-se observar desenvolvimento mais rápido dos processos de leitura do que de escrita, em conformidade com estudos em ortografias transparentes.

5. Em que medida o método de ensino influencia o desenvolvimento das estratégias de processamento para a leitura e para a escrita?

9 É possível que o método fônico potencialize o funcionamento da rota fonológica e, por conseqüência, conduza as crianças a utilizarem mais eficientemente a rota lexical. A maior eficiência da rota fonológica poderá ser constatada pela superioridade em leitura e em escrita de pseudopalavras, enquanto a maior eficiência da rota lexical poderá ser constatada pela superioridade em leitura e em escrita de palavras de alta freqüência e palavras irregulares. Espera-se, entretanto, confirmar os resultados de pesquisas brasileiras, evidenciando o uso concomitante da estratégia fonológica e lexical para a leitura e para a escrita desde as fases iniciais de aprendizagem.

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