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The major constraints to critical analysis and action for transformation will come from those at home and abroad who feel their power threatened by

— Ah, Virgínia, Virgínia... Quando é que vai deixar de fazer perguntas? Desde criança você não para de fazer perguntas, perguntas. [...]

— Pois farei seu retrato assim mesmo, uma tela preta com um pontinho vermelho no centro. Vai se chamar A Pergunta. Hum? Não é uma ideia? (CP, p.183-191)

Visto que para a compreensão do Bildungsroman se faz necessário termos em mente a “noção de processo”, que conforme Maas (2000, p. 27), “é a sucessão de etapas, que compõe o aperfeiçoamento do indivíduo em direção à harmonia e ao conhecimento de si e do mundo”, em Ciranda de Pedra o processo de formação da protagonista é densamente marcado pelo sentimento de inadequação familiar, social e pessoal. Na busca por uma adaptação ao mundo exterior, Virgínia tem como inimigo interno, em quase toda a sua jornada, o espectro da exclusão.

Sendo assim, a primeira fase de aprendizagem da personagem pode ser categorizada como a de menina rejeitada. Nesta etapa de sua formação, Virgínia convive com o drama da separação dos pais e a angústia de ter que habitar entre duas casas, sentindo-se deslocada em ambas. Separada também das irmãs mais velhas, Bruna e Otávia, que moram com o pai Natércio, a heroína não aceita o fato de sua mãe Laura ter escolhido o jovem médico Daniel e a precária vida que ele pode oferecer às duas. Virgínia deseja a farta vida das irmãs e sonha em ter o carinho incondicional do pai: “Na casa do meu pai tem prato de ouro. Um dia minha mãe e eu ainda vamos morar lá” (CP, p. 29).

A menina vai construindo seu aprendizado por meio da amargura e do descontentamento por não ter as mesmas oportunidades que as irmãs: Bruna e

Otávia tinham uma mentora alemã que as ensinavam a se comportarem como verdadeiras damas, estudavam em colégio caro, tinham o conforto e o dinheiro do pai à disposição. Enquanto isso, Virgínia era educada pelo mau humor de Luciana, empregada que amava incondicionalmente seu patrão e por causa dele tolerava a filha da sua rival; a garota não tinha luxos: estudava em uma escola comum, suas roupas eram velhas e reaproveitadas da mãe, assim como a sua mobília que fora doada pela irmã primogênita. Neste momento de formação, a protagonista é tomada pelo sentimento de inferioridade e também de inveja por não conseguir ser semelhante às irmãs, as quais ela tanto venerava. Adoração, aliás, que se destinava a tudo que envolvesse a casa paterna.

Que casa! Você precisa ver essa nova casa com um jeito assim bem antigo, lá no fundo de um gramado que não acaba mais. Tem um caramanchão cheio de plantas e perto do caramanchão uma fonte no meio de uma roda de cinco anõezinhos de pedra, você precisa ver que lindo os anõezinhos de mãos dadas! É bom beber aquela água, tão geladinha! A semana passada ele trocou o automóvel por um novo, todo preto, com almofada vermelha, uma beleza de automóvel. Bruna e Otávia parecem duas princesas (CP, p. 25).

Todo o deslumbramento daquele mundo, aparentemente tão distante para “a rejeitada no fundo da sala” (CP, p. 59) vai aos poucos perdendo o fascínio, pois a inserção de Virgínia no grupo familiar transformar-se-á, segundo Santiago (2009, p. 210), na “forma mais terrível de aniquilamento de sua personalidade em formação”. Isso ocorre a priori porque a protagonista se deixa corromper pelas ideias preconceituosas e conservadoras da irmã mais velha: Bruna é para ela o modelo de sabedoria e, portanto, sua principal mentora. Em razão disso, a heroína passa a sentir raiva de Daniel, por pensar que ele era o grande culpado pela destruição de sua família: “se não fosse ele, a estas horas minha mãe ainda estaria com meu pai e minhas irmãs, nós todos juntos” (CP, p. 21). Entretanto, o sentimento negativo que a protagonista nutre pelo “padrasto” é ambíguo: “Mas eu gosto de você, tio Daniel! Não devo gostar, Bruna proibiu, mas apesar de tudo, eu gosto!” (CP, p. 66). Da mesma forma, existe ambiguidade em todo o seu modo de agir: quando está na casa de Natércio vemos uma Virgínia sempre tímida, assustada e inibida; quando retorna a casa de Daniel surge outra Virgínia, mais livre, inteligente e até perversa.

Essa mutabilidade – comum aos heróis dos romances de formação e que Bakhtin (1997) titulou de grandeza variável – é recorrente no comportamento da

protagonista, algumas vezes surpreendendo tanto as demais personagens como também ao leitor. Conforme podemos observar na cena em que ao sentir-se sufocada pela rejeição das irmãs e dos amigos íntimos, Virgínia, pela primeira vez, reage, de maneira inesperada, contra a atitude do grupo:

“Mas eu detesto jogar”, murmurou ela, cruzando os braços. Sentira o alívio com que aceitaram essa desculpa. E a partida começou em meio de zombarias e risos. A princípio ela afetara uma calma absoluta, o olhar vagando distraidamente por entre as pedrinhas coloridas que se cruzavam no tabuleiro. Mas ninguém tomou conhecimento da sua indiferença. Sentindo-se então completamente esquecida, resolveu vingar-se através de uma violência. E acontecera aquilo: de um salto, aproximou-se da mesa, agarrou o tabuleiro e sacudiu-o brutalmente. As pedrinhas rolaram pelo tapete. Então ela recuou. Em meio da nuvem que lhe turvara a visão, pôde distinguir apenas dois rostos, o de Bruna, pálido, rijo, e o rosto de Conrado, mais pesaroso do que interrogativo. Pusera-se, então, a rir, a rir aparvalhadamente. E recuando a rir ainda, fugiu correndo pelas escadas, perseguida pelo próprio riso que ecoava inumano na quietude do casarão (CP, p. 80).

A personalidade impulsiva de Virgínia que sempre era demonstrada na casa de Daniel, especialmente quando a menina replicava as afrontas de Luciana, manteve-se contida na casa paterna até esse momento. Essa transformação repentina, que antes era sufocada pelo desejo incontrolável de ser aceita, aponta para a perda da inocência da protagonista que ocorre quando ela começa a tomar consciência de que a imagem a qual ela idealizara daquele grupo não correspondia à realidade. Logo, a vingança, praticada por Virgínia no trecho acima e que também acontece em outras passagens na sua etapa de menina rejeitada, é uma resposta do eu em formação da personagem que para sobreviver às adversidades enfrentadas nas duas casas – de um lado a loucura da mãe e do outro o círculo de pedra, formado pela família e amigos – agride, quer seja com palavras ou com ações.

Pôs-se a folhear afobadamente o volume, procurando uma palavra qualquer que servisse de pretexto para sua presença ali. E de repente lançou a Daniel um olhar malicioso. Começa com e... A palavra é enxovalhar, enxovalhar... Está aqui! E leu triunfante: —

Sujar, manchar, enodoar (CP, p. 60).

A ênfase dada ao verbo enxovalhar, que fora insinuado por Bruna, resume todo o conhecimento que Virgínia possui da suposta desonra da sua família,

causada por Daniel. Algo que somente vai sendo desconstruído quando a protagonista passa a morar na mansão, lugar onde ela sai da categoria de rejeitada para a de bastarda. De acordo com Santiago (2009, p. 208), após a morte de Laura e Daniel, a heroína é então lançada à condição de órfã: a menina descobre que “ela era o agente da separação na família e do distanciamento na discórdia”. Revelada a sua verdadeira origem, Virgínia ver-se então como uma “intrusa” naquele grupo de seres reservados em suas individualidades.

A orfandade, mais uma das características do Bildungsroman clássico (FERREIRA PINTO, 1990, p. 123), vem acentuar a solidão da heroína que, cada vez mais distante das outras personagens, mais recolhida em si, “é mais bicho do que humana”, porque o “fardo da vida é pesado” (SANTIAGO, 2009, p. 211). O vazio no interior da protagonista, ocasionado pela perda, abala a alteridade da menina que passa a ver no outro (família) o seu inimigo. Nesse momento de luto e de incertezas, sua única arma é provocar o opositor por meio da desobediência: “não sei mesmo o que está acontecendo com você. Temos feito tudo para que se acomode, para que se sinta bem mas tenho a impressão de que você piora cada dia que passa. Só quer ficar aí pelos cantos, roendo as unhas, despenteada feito bicho...” (CP, p. 93).

O sentimento de desamparo de Virgínia refletido em sua aparência física mostra também a confusão interior em que se encontra a menina bastarda. No entanto, nesse momento de crise existencial a protagonista também é estimulada a crescer sentimentalmente e pela primeira vez ela consegue dominar-se e igualmente guardar seus segredos e, a partir dessa etapa, ela começa a construir-se independente de sua família: “Virgínia quis então dizer-lhe que sabia da morte de Daniel, que sabia tudo, ‘Ele era meu pai!’. Conteve-se. Pela primeira vez aprendia a se calar” (CP, p. 94). Em contrapartida, a heroína também aprende a fingir e a dissimular, semelhante aos demais integrantes da ciranda de pedra. Nesse momento da narrativa, a protagonista almejando afastar-se da mansão e da lembrança insistente de sua condição, decide isolar-se em um colégio interno. Em busca de uma nova identidade, onde ninguém soubesse de sua história, onde ela pudesse recomeçar sua trajetória de vida, a personagem fecha mais um ciclo de sua formação.

Virgínia debruçou-se na janela e ofereceu o rosto à chuva. Ele sabia, Luciana sabia, decerto todos os outros também sabiam. Só as freiras não saberiam nunca. Ia viver num lugar onde ninguém sabia de

nada, não sabiam do quarto azul onde a mãe via plantas crescendo entre os dedos, “Arranca, Daniel!”. Não sabiam do pai, “Um dia virá um príncipe de um reino vizinho perguntando pela donzela Virgínia...”. Não sabiam de Luciana, “A bala entrou por um ouvido e saiu pelo outro”. Lá ninguém sabia de nada (CP, p. 95).

Os anos de isolamento de Virgínia no internato são narrados em apenas um capítulo, logo no início da segunda parte do romance. Por meio de lembranças suscitadas pela releitura das cartas, cartões e bilhetes advindos da família, que ficara ao longe – “Principalmente longe” (CP, p. 104) –, a protagonista vai atualizando o leitor sobre o destino de cada uma das personagens secundárias. As divagações da heroína nesse momento da narrativa também são de grande relevância para compreendermos como foi a sua terceira fase de formação, isto é, a sua adolescência, sua etapa como aluna interna.

O crítico Mazzari (2010), ao analisar as obras O Ateneu e As atribulações do pupilo Törless, explica que o período no qual o adolescente é coagido a passar no internato é de grandes transformações para o seu eu em formação, por isso, os dramas causados pelas desventuras desse ambiente fechado em suas regras e tradições é um grande atrativo para os romancistas. Assim sendo, Mazzari mapeia algumas particularidades que existem no Bildungsroman que usa como tema o colégio interno e os infortúnios dos alunos. São elas:

1. Perda da proteção familiar e ingresso num cotidiano de lutas e desafios acirrados;

2. Contato com amplo espectro de tipos humanos, que vai do tirano mais implacável ao inevitável “bode expiatório”;

3. Intensificação da crise da puberdade num meio que impossibilita uma orientação mais segura;

4. Relação conflituosa da sensibilidade artística e consciência crítica emergentes com formas autoritárias de transmissão do saber (MAZZARI, 2010, p. 167)11.

Apesar de Lygia Fagundes Telles não empregar densamente essa “constelação temática” em Ciranda de Pedra, uma vez que o momento escolar de Virgínia é contemplado em uma pequena parte da narrativa, essas categorias são essenciais para nortear nossa análise sobre essa fase da heroína. Portanto, o “trauma inicial” da personagem ante o mundo que existia entre os muros do internato

11 No decorrer da sua análise, Mazzari resume essas características ou “constelação temática” da

seguinte maneira: 1) Trauma inicial; 2) Arena do colégio; 3) A crise da puberdade; 4) A pedagogia do autoritarismo. De igual modo, elencaremos a formação escolar de Virgínia seguindo essa sequência.

se dá especialmente pelo sentimento de desamparo e solidão que ainda a prende ao mundo exterior, cheia de mágoas, o começo de Virginia naquele lugar é de pranto: “Não tenho mais ninguém no mundo, estou sozinha!” (CP, p. 105). O novo cotidiano também desperta na protagonista o ódio por tudo que envolve aquele ambiente: as freiras, a alimentação, as imagens dos santos, o espaço físico da escola e até o ar – “até o ar eu odiei com aquele cheiro característico, mistura de flores murchas e incenso” (CP, p. 106).

Se em um primeiro momento Virginia é dominada pelo vazio e pelo rancor, na “arena do colégio” seu interior vai tornando-se ainda mais negro. Isso acontece porque como nos mostra Mazzari (2010, p. 170), a integração do adolescente “à vida do colégio interno significa, pois, submeter-se a leis implacáveis de um microcosmo em que ‘a razão da maior força é a dialética geral’”. Em Ciranda de Pedra, o mais forte na relação social se delineia na pessoa da irmã Flora, com o “perfil agudo como lâmina de faca” (CP, p. 109), ela é a principal perseguidora de Virgínia e a responsável por aniquilar os poucos momentos de felicidade da protagonista ao lado da amiga Ofélia.

Por meio das reminiscências de Virgínia, tomamos ciência de que Ofélia fora sua primeira colega de quarto e também sua primeira e única amizade no internato. Contudo, pelo jeito “diabrete” (CP, p. 107) da menina e pela cumplicidade das adolescentes, irmã Flora trama a separação das duas, ocasionando até a proibição de manterem contato, ainda que distante: “Ofélia fora transferida para outra ala, quase nem podiam mais se ver, até que um dia, meio vagamente, soubera que os pais a tinham levado para outro colégio” (CP, p. 107).

A razão de todas as desconfianças e artimanhas da irmã Flora se dera porque para ela a época da adolescência era uma fase de muito perigo e por isso era “preciso estar vigilante” (CP, 109). Essas insinuações da freira, assim como a ambiguidade provocada pelas atitudes e palavras de Ofélia e de Virgínia apontam para a “crise da puberdade” da heroína da qual nos fala Santiago (2009, p. 211) ao dizer que no internato “a preferência sexual de Virgínia perde o alvo singular – Conrado”. Isso ocorre porque entre a protagonista e a amiga “os afetos se dissimulam e se agigantam à luz da imaginação”, logo, diz o crítico, fica para o leitor a incumbência da interpretação dos fatos.

O comportamento da irmã Flora e das demais freiras do colégio, que também seguiam o mesmo parâmetro de moral cristã, mostram o tipo de educação

que era dada às meninas internas, a saber, “a pedagogia do autoritarismo”. Ali, as alunas eram submetidas a rígidas regras, e as que ousavam transgredi-las sofriam longos castigos. Cada passo era controlado pelas educadoras, desde as cartas que recebiam até as leituras que faziam, além disso, eram obrigadas a seguirem uma conduta religiosa que, para muitas, ia contra suas próprias convicções, e assim participavam dos ritos católicos “com o coração vazio de fé” (CP, p. 105). Porém, também havia as exceções, principalmente quando se tratava de famílias abastadas; a razão disso, conforme explica Santiago (2009, p. 211), é porque a escola era “tão hipócrita quanto a família”. Eis o motivo de Virgínia ter sido “aceita como uma exceção, um caso especial” (CP, p. 106), já que sua condição de filha de pais separados era uma desordem à paz daquele ambiente santificado.

Apesar de todas as desventuras sofridas na fase de aluna interna, Virgínia cresceu não apenas fisicamente, mas principalmente em maturidade. As amargas experiências sofridas naquele “mundo, feito para a criança tornar-se adulto” (BOSI, 2003, p. 76) a transformam em uma jovem mais corajosa e mais segura de si, mesmo em meio aos preconceitos que sempre a acompanharam. O ódio, que no início dessa etapa a consumia, deu lugar a apatia: “Indiferença por aquelas imagens – barro de mau gosto patético – indiferença por aquela comida neutra, por aquelas hóstias neutras, por aquelas mulheres neutras, que pareciam antigas mortas esquecidas de partir” (CP, p. 106). De apática, a heroína torna-se branda, e a menina agressiva que chegara àquele colégio desiludida e desamparada, sai com a certeza: “Libertei-me” (CP, p. 108). De acordo com Santiago (2009, p. 212), “Virgínia deixa o colégio reafirmando a verdadeira identidade familiar – ela sai ‘na ponta dos pés’”.

O regresso da protagonista à casa daqueles que tanto a oprimiram e a fizeram sentir-se excluída marca o início de Virgínia à sua fase adulta. Certa de que tinha se libertado de todos os laços que a prendia ao grupo, a protagonista sente sua segurança abalar-se à medida que vai se aproximando do casarão e da nova trajetória que a espera. Naquele lugar, nada mais era como antes: “Eis aí, até a casa está mudada” (CP, p. 113), embora a ciranda dos cinco anões de pedra do jardim continuasse intacta, assim como os cinco amigos: Bruna, Otávia, Letícia, Conrado e Afonso. No entanto, a maior mudança estava em Virgínia, principalmente em seu exterior: a menina despenteada, desarrumada e feia se transformara em uma moça elegante e muito bela – “Que intrigante! Está visto que eu não podia mesmo

acreditar em tamanha transformação, afinal, ela era uma menina esquisita, de cabelos espetados, unhas roídas” (CP, p. 116). É essa nova Virgínia que, nas palavras de Mabel Knust Pedra (2010, p. 59), vai induzir a “transformação ao grupo, impondo mudanças no seu cotidiano pelo questionamento que representa a introdução de sua figura, marcada pela diferença e vinda de um espaço externo, naquele círculo abrigado”. Isso acontece porque a menina rejeitada transforma-se, nessa nova etapa, na mulher desejada.

O aprendizado da protagonista que até então fora instigado especialmente pela perda e pela amargura da exclusão, nessa fase é movido principalmente pela vingança. Ao perceber que era possível entrar na roda, daqueles seres tão dissimulados, Virgínia descobre-se como uma fascinante manipuladora; suas atitudes dão a guinada na narrativa, ela “torna-se curinga” (SANTIAGO, p. 213), agora é ela o cerne do desejo de todos, que a disputam como gladiadores em uma arena: “Virgínia, Virgínia, a verdade é que, no fundo, todos nós estamos posando para impressioná-la” (CP, p. 116). Segundo Ferreira Pinto (1999, p. 124), nessa fase do enredo, o sexo é a principal arma para a “dominação do Outro”, assim, um a um vai tombando na arena vingativa da heroína, todos movidos pelo desejo por ela.

A primeira a ceder e a “oferecer um lugar na roda” (CP, p. 122) para a protagonista é Letícia, personagem que vai descobrindo sua sexualidade no transcorrer da história até assumir sua “caricatura de rapaz” (CP, p. 147). O contato entre as duas, que vai se estreitando porque Virgínia é visita constante no apartamento da moça, culmina no relacionamento íntimo.

Virgínia deteve o olhar mortiço na face árida da amiga. Os cabelos cinzentos eram de Conrado. Os cabelos e os olhos de cantos tristemente caídos. Baixou as pálpebras pesadas. “Faz de conta que é ele. É ele”, repetiu num atordoamento. Afrouxou os músculos e relaxou a posição tensa no momento em que sentiu a boca de Letícia roçar-lhe pelo pescoço e subir lenta até alcançar-lhe os lábios. Entregou-se passiva ao beijo demorado. Fechou os olhos. “Conrado, Conrado...” Sentia agora a boca ávida roçar pelo seu queixo e morder-lhe de leve o lóbulo da orelha, puxando-a para baixo numa sucção úmida e quente. “A âncora”, lembrou-se. Respirou com esforço. A âncora a arrastava para o fundo de um mar verde e denso. Ah! nunca mais viria à tona. “Nunca mais!”, gemeu ao sentir o peso da cabeça prateada resvalar por entre seus seios (CP, p. 153).

Virgínia desvenda o segredo de Letícia, e, a ela se entrega mais por indiferença a fingida moralidade dos outros amigos, que tentaram persuadi-la a

afastar-se da moça de jeito masculino, do que por desejo. O prazer da heroína estava em contrariar as expectativas de todos, por essa razão, envolve-se também com Afonso, marido de Bruna, com a única intenção de ferir a irmã, de desconcertar o seu sagrado lar, supostamente tão perfeito. Porém, quanto mais a protagonista vai penetrando na ciranda mais vai descobrindo as máscaras, as faces obscuras de seus integrantes. A terceira a se desestabilizar na roda é Bruna, mas não por causa do seu esposo, sua fraqueza era Rogério, seu amante e também um alvo de Virgínia no acirrado jogo de seduções, falsidades e mentiras: “Ela desviou-se e tomou Rogério pelo braço. — Você tem a cabeça de um gladiador romano. Lutará na arena por mim?” (CP, p. 162).

Entre intrigas, conquistas e relações sexuais, Virgínia consegue tirar o equilíbrio do grupo, mas ao mesmo tempo ela perde o equilíbrio de si própria. Sua

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