Barbara Hermann no prefácio de Te practice of moral judgment aponta algumas difculdades na ética kantiana, que são motivo de ataque pelos críticos. Entre outras coisas, parece difícil entender a ação feita a partir do dever. Como ela afrma, essa é a primeira coisa aprendida acerca da moral em Kant e também aquela que imediatamente dá motivo a questões críticas, do tipo “é possível agir
a partir do dever, e se for qual a melhor maneira?”, “não seria melhor em alguns casos agir a partir do amor, simpatia, paixão por justiça?” (HERMAN, 1993, p.viii).
Hermann chama a atenção para aquilo para o qual a noção de motivo de de- ver é a resposta a uma questão flosófca. Um agente moral deve possuir uma capacidade para ser movido por um princípio ou concepção do bem (HERMAN, 1993, p.viii) No prefácio, Herman mostra também a existência de uma interpre- tação caricatural do Imperativo categórico, que difculta a correta compreensão do que Kant propôs. Corrigindo essa falha, ela mostra que:
É muito melhor ver o Imperativo Categórico e seus testes como um aspecto do julgamento moral [...] Como o Imperativo Categórico opera não pode ser entendido a parte de uma visão fundamentada do tipo de resultados que é capaz de gerar e de seu lugar no complexo campo de resposta e deliberação do agente moral. [...] O julgamento moral kantiano depende da disponibilidade de uma concepção articulada de valor - em particular, do valor da pessoa completamente encarnada (HERMAN, 1993, p.ix., grifos meus).
É justamente esse valor da pessoa vista na plenitude de um corpo que também está presente na ética budista. A racionalidade desempenha um fator fundamental no budismo a partir do ponto focal de um individuo encarnado. Advindas de universos culturais diversos e com linguagens diferentes, esses dois modelos de ética preconizam uma universalidade que justamente por isso só podem ter seu fundamento na razão. Razão, justamente, que é um fator de unidade do gênero humano em sua manifesta diversidade de culturas, costumes, tradições e povos. A partir desses pontos se cristalizou, tomou forma o propósito de aproximar esses dois universos de sentido. Se advém alguma possibilidade legislativa para a razão é justamente disso, dela ser universal e poder em alguns casos e para algumas coisas, demandar que a elas seja chancelado a marca do ‘necessário’. A motivação de Kant, que realiza um ideal do Iluminismo, o de uma moral pura, não tendo por base nem a religião, nem a metafísica, parece encontrar um paralelo interessante na moral budista, que embora seja uma religião, não recorre nem a uma noção de Deus, nem tampouco a um princípio
transcendente que poderia ocupar o lugar do Bem nas nossas metafísicas ocidentais. Isso porque ao invés de postular um princípio substancialista como substrato, o budismo se funda sobre uma ética das relações, uma vez que o princípio é a própria interdependência de tudo aquilo que é observado.
Em Cachorros de palha, John Gray procura por abaixo a arrogância do humanismo, através de uma leitura limitada do taoísmo e do budismo, ao interpretar essas doutrinas como se estabelecessem uma equivalência primária entre o homem e os outros animais. Mas, o que nos interessa aqui é como ele coloca abaixo a flosofa kantiana.
Kant tentou proteger nossas mais caras noções – acima de tudo, nossas ideias de identidade pessoal, livre-arbítrio e autonomia moral – da ação corrosiva do ceticismo. Colocando-as sob o ácido teste da experiência real, Schopenhauer mostrou que se dissolviam. Ao fazer isso, destruiu a flosofa de Kant e, com ela, a ideia de sujeito humano que sustenta tanto o cristianismo quanto o humanismo (GRAY, 2006, p.61).
Contra essa utilização simplista e equivocada de Gray, penso que justamente o budismo com sua ética pode ajudar a visualisar a intenção de Kant. O que Kant procura é exprimir a transcendência dos valores morais. Isso, que pode ser lido como dizendo respeito a manter e honrar em sua pessoa a dignidade da humanidade, é algo presente na ética budista. Embora nem sempre ou na maior parte do tempo tenhamos plena consciência de nosso valor em si pelo simples fato de sermos homens, assim como seu correspondente, o valor de cada ser humano em si mesmo, é a essa dimensão que se reportam tanto Kant quanto a ética budista. A dignidade da humanidade, da qual todos somos partes. Nosso valor vale mais que nossa existência, eventualmente. Sem a moral, tanto no budismo quanto em Kant não podemos cumprir aquilo que diz respeito a nossa própria especifcidade e singularidade, nossa destinação, a percepção da beleza moral.
A ética kantiana se apresenta como algo à altura do que a modernidade exigia. Reduzi-la tão somente a deveres é perder o que ela tem de mais importante, que é seu compromisso com a liberdade. Qando o taoismo diz que
o Céu trata a todos os seres como cães de palha, o homem referido aí é o comum, que não trabalhou sobre si mesmo. A ética exige um trabalho sobre si, um trabalho de contenção. Lembremos que justamente o taoismo nos fala em Homem Perfeito, que não é o Homem comum, mas sim aquele que realizou um árduo esforço sobre si.
Por que, então, parece tão “repressor” (seria esse o termo?) quando alguém fala em dever, como Kant e tão mais palatável quando com outra linguagem se esteja a tocar na mesma questão? Afnal de contas, quando agimos no mundo, agimos moralmente. Nossas ações são constitutivamente ações morais. Como salienta Barbara Herman:
O padrão de correção para disposições nos direciona para nos preocuparmos e cuidar da dignidade e bem-estar racional de pes- soas à medida que conduzimos nossos afazeres com elas e entre elas. Se isso é certo, a exigência aparentemente implausível que haja um fm, um princípio, para todas as nossas escolhas e vonta- des pode não ser tão implausível ao fnal de contas. É apenas a exigência de que ajamos moralmente quando agimos (HERMAN, 2007, p.253, grifos meu).
A obra de Kant é centrada na autonomia da razão, que está presente de outra maneira e com a sua linguagem na ética budista.
Antes de Kant, a origem da moralidade foi buscada na ordem da natureza ou da comunidade, na aspiração à felicidade, na vontade de Deus ou no sentimento moral. Kant mostra que desse modo a pretensão da moralidade à validade objetiva não pode ser pensada. Assim como no campo teórico, também no campo prático a objetividade somente é possível através do próprio sujeito; a origem da moral encontra-se na autonomia, na autolegislação da vontade. Visto que a autonomia é equivalente à liberdade, o conceito-chave da época moderna, a liberdade, obtém através de Kant um fundamento flosófco (HÖFFE, 2005, p.183- 184).
Qando Kant nos lembra do “mistério da moralidade dentro de mim”, ele formula algo que não é do âmbito do teórico, mas sim algo que está disponível à
vivência do próprio sujeito. De certa maneira, a ética budista se enraíza nessa mesma percepção. O sentido de racionalidade é fundamental aqui. Fins morais são de uma ordem superior. A consciência de demandas morais implica saber que estas não estão no mesmo nível que as outras demandas, sejam estas desejos ordinários, objetivos práticos da vida ligados a metas pessoais, ou escolhas casuais que todos tenhamos que fazer. Demandas morais têm uma ordem superior de status.
Agora, o que poderia ser a fonte deste status mais elevado? O que poderia impor respeito dessa maneira? Em particular, o que poderia colocar tais exigências de respeito em um agente racional? Para Kant, a resposta a esta questão só pode ser: a sua própria racionalidade.
Em primeiro lugar, Kant afrma que a racionalidade coloca tais demandas. Isto é porque a racionalidade é algo único no mundo. Ela transcende a natureza. ‘Tudo na natureza funciona de acordo com leis. Somente um ser racional tem a capacidade de agir de acordo com a concepção de lei, ou seja, de acordo com princípios.’ Poderíamos colocar isso na forma de que tudo mais na natureza está em conformidade com a lei cegamente. Somente as criaturas racionais conformam-se a leis que elas mesmas formulam. Isso é algo incomparavelmente superior. Segue-se que um agente racional deve determinar sua própria ação dessa maneira. Se ele escapa a isso, se ele se torna simplesmente um outro ser meramente em conformidade com a lei natural, então ele está vivendo abaixo de seu status, ele está agindo de uma forma que não é digna do que ele é como agente racional. [...] É apenas quando nossas ações são racionalmente determinadas, quando agimos a partir de princípios, que estamos a viver a partir do nosso verdadeiro status (TAYLOR, 1985, p.323-324).
A citação é longa, em virtude do mérito de Taylor em ser efusivamente claro ao explicitar o que está envolvido na formulação kantiana. Claridade, no entanto, não parece ser sufciente para que o argumento seja pacífco. Em “Moral deliberation and the derivation of duties”, Barbara Herman esclarece
esse sentido de racionalidade apontado por Taylor, em sua relação com a boa vontade e a razão dos imperativos categóricos.
Kant faz uso de um procedimento de universalização porque a boa vontade - a condição de toda a ação e escolha justifcada - é encontrada somente em máximas que têm a forma de uma lei que se dá de forma universal. Uma máxima não é uma possível máxima da boa vontade, e é, portanto, inadmissível, se a sua bondade (a condição de sua validade de escolha subjetiva) depende da sua não-universalidade. Esta é uma exigência da racionalidade prática, e isso defne o argumento do procedimento do IC. [...] O argumento do procedimento do IC invoca agência racional como um valor constringente: o valor da agência racional é expresso no compromisso de se abster de adotar princípios que não são possíveis para todos os outros agentes do tipo (racional). Positivamente, cada um deve ver suas máximas como candidatas a princípios que podem constituir uma comunidade de pessoas livres e iguais. Essa é a razão pela qual a universalização importa (HERMAN, 1993, p.154).
Se Barbara Herman fala em contrição, podemos ver que no caso do budismo o Dalai Lama fala explicitamente em ética como uma disciplina de contenção. No caso de Kant, parece que a associação de agente racional e o substantivo contenção tende a provocar interpretações de que a racionalidade é algo que em seu funcionamento vem a limitar ou diminuir o agente em seu self, seu eu. Algo como se nessa passagem do universal ao particular, que é o próprio agente moral em um contexto e situação particular, isso diminuísse a dimensão existencial desse agente.
Como Herman salienta, moralidade não é uma coisa entre outras, na qual, eventualmente, podemos ter interesse. E, mais que isso, mais que simplesmente uma ação feita pelo motivo moral que conduz a uma ação de dever, essa ação expressa liberdade. De acordo com Herman o imperativo categórico não é uma regra abstrata e geral, mas um princípio deliberativo de ordem superior. "Em vez de incluir descrições muito gerais de ações sob as quais o particular deve ser subsumido, ele fornece um procedimento para estruturar o particular de uma forma moral” (HERMAN, 1993, p.44).
Provavelmente a difculdade em compreender a amplitude do imperativo categórico como um princípio e não como uma regra tem relação com o que diz Herman sobre o julgamento moral kantiano depender de uma concepção articulada de valor. Como ela disse, “do valor da pessoa plenamente encarnada”. Vale lembrar que Kant em uma fase de seu trabalho visualizou Rousseau como uma espécie de Newton da natureza humana. Rousseau ao fundar a moral sobre a piedade, como uma inclinação da nossa natureza capaz de mobilizar a vontade, isso parecia algo novo e livre de problemas. Apesar do altruísmo incluído a princípio na noção de amor desinteressado, o fato é que a moral acabava sendo presa da ambiguidade das motivações subjacentes ao sentimento. Como adverte François Jullien, contrastando Rousseau e Kant:
Ao vir fundar a moral sobre a razão (a lei moral), ou seja, ao considerá-la como uma obrigação a priori, Kant a livra logo de início de tudo o que pudesse prejudicar a sua moralidade; mas fracassa, em contrapartida, em mostrar como ela pode nos mobilizar. De um lado, a moral permanecia ‘misturada’; de outro, ela é pura, mas não nos afeta mais. Ao mesmo tempo que seu conteúdo, ela perdeu seu motor. Ao partir da inclinação, Rousseau não conseguia provar o seu desinteresse; ao partir do dever, Kant não consegue mais justifcar seu interesse (JULLIEN, 2001, p.42).
Como Jullien explicita, ao tirar a moral da experiência, ao fundá-la em um a priori, o risco é cortar os laços com a própria dimensão que exige a moral, nossa facticidade de seres encarnados. O imperativo da moral não pode ser interessado, ou não seria moral, mas assim, a pergunta que surge é o que faz com que eu possa ter interesse nela, lei moral? Nesse sentido, o trabalho de Hermann mostra de que forma estamos ligados à lei moral de uma forma efetiva e profunda, através da racionalidade enquanto sujeitos encarnados. Ela desfaz as críticas que se apoiam nessa visão disjuntiva simples, de que por ser desinteressada, a lei moral não ofereceria uma ligação efetiva do sujeito consigo mesmo.