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A teoria das representações sociais foi elaborada por Moscovici, na década de 1960, quando as pesquisas na Psicologia Social se concentravam, principalmente, nos Estados Unidos, no levantamento de atitudes, opiniões e crenças dos indivíduos em relação a diversas áreas do conhecimento. Consideradas como meramente cognitivas e individualistas, a atitude e a opinião não poderiam dar conta dos processos sociais envolvidos na elaboração dos comportamentos. Assim, surgiram as críticas às pesquisas na área da Psicologia Social sobre os pressupostos teóricos e metodológicos, fundamentadas no modelo individualista da Psicologia Cognitiva, tendo como princípios os modelos da Teoria Comportamental e as técnicas experimentais de levantamento de dados.

Moscovici (1961/1976/1978) não apresentou um conceito pronto e acabado na sua obra seminal sobre as representações sociais de 1961, denominada La Psycanalyse: sua image et son public, cuja versão que estamos utilizando neste texto é A Representação Social da Psicanálise, que foi traduzida da segunda edição francesa, de 1976. Nesse livro o autor apresenta diversas definições da noção de Representação Social (RS), conforme foi descrito por Almeida; Santos e Trindade (2011) no livro organizado por elas em comemoração aos 50 anos da Teoria das Representações Sociais (TRS). Estas autoras comentam que Moscovici considerou esta noção provisória e inacabada, porém, pode-se “[...] constatar claramente o esforço de articulação desses conceitos usados pela psicologia social em um conceito mais amplo, complexo, um conceito guarda-chuva capaz de englobar aqueles estudados por meio de modelos pautados nas microteorias [...]”. Assim, as mesmas apresentam alguns dos componentes da definição da noção de RS:

Vê-se então do que ele se trata: da formação de outro tipo de conhecimento adaptado a outras necessidades, obedecendo a outros critérios. [...] Ele não reproduz um saber [...], mas retrabalha a sua conveniência, segundo os meios, os materiais encontrados (pp. 24-25).

Toda representação é composta de figuras e de expressões socializadas. Conjuntamente, uma representação social é organizada de imagens e linguagem, porque ele decompõe e simboliza atos e situações que não são ou o que se tornam comuns para nós (pp. 25-26).

A representação social é uma modalidade de conhecimento particular, tendo por função a elaboração dos comportamentos e da comunicação entre os indivíduos (p. 26).

Elas têm uma função constitutiva da realidade, a única realidade que nós experimentamos e na qual a maior parte de nós se move (pp. 26-27). Uma representação é sempre uma representação de alguém tanto quanto é uma representação de alguma coisa (p. 27).

[...] a representação social é um corpus organizado de conhecimento e uma das atividades psíquicas graças às quais os homens tornam a realidade física e social inteligível, inserem-se em um grupo ou em uma relação cotidiana de trocas, liberam os poderes de sua imaginação (pp. 27-28).

A respeito da noção de imagem Almeida; Santos e Trindade (2011, pp. 105-106) tecem algumas considerações sobre a adoção dessa noção por Moscovici (1961/1976), que foi refutada por ele enquanto “[...] um reflexo interno de uma realidade externa, cópia conforme no espírito do que se encontra fora do espírito (p. 45), para aproximá-la da noção de RS sob outra perspectiva epistemológica”.

Neste sentido, podemos acrescentar as explicações de Moscovici (1978) sobre a analogia que ele atribuiu entre as representações sociais e a imagem, em que faz a distinção entre uma fotografia captada e alojada no cérebro. Ainda que fascinante, ela é encarada de um modo passivo, sendo apreendida a título de reflexo. Já a delicadeza de uma representação foi comparada ao grau de definição e nitidez ótica de uma imagem, explicando que era nesse sentido que, frequentemente, faz-se referência à representação (imagem) do espaço, da cidade, da mulher, da criança, da ciência, do cientista, e assim por diante. Complementando que:

[...] A bem dizer, devemos encará-la de um modo ativo, pois seu papel consiste em modelar o que é dado do exterior, na medida em que os indivíduos e os grupos se relacionam de preferência com os objetos, os atos e as situações constituídos por (e no decurso) de miríades de interações sociais. Ela reproduz, é certo. Mas essa reprodução implica um remanejamento das estruturas, uma remodelação dos elementos, uma verdadeira reconstrução do dado no contexto dos valores, das noções e das regras de que ele se torna doravante solidário [...] Em poucas palavras, a representação social é uma modalidade de conhecimento particular que

tem por função a elaboração de comportamentos e comunicação entre indivíduos (MOSCOVICI, 1978, P. 26, grifos do autor).

As autoras, acima mencionadas, afirmaram que da mesma forma que Moscovici (1961/1976) refutou a noção de imagem, meramente como reflexo, ele também refutou os conceitos de opinião e de atitudes tais como vinham sendo formulados,

Ou seja, apenas como noções que expressam avaliações ou julgamentos dos sujeitos sobre um objeto, anunciando uma ação que está por vir. E, como sabemos, as pesquisas apoiadas sobre tais conceitos e pressupostos tiveram dificuldade em demonstrar empiricamente o caráter preditivo das atitudes e das opiniões sobre o comportamento. A divergência epistemológica de Moscovici o leva a recusar a adoção do pressuposto de uma relação direta entre estímulo e resposta e entre o mundo interno e externo do sujeito, como ele mesmo afirma, “consideramos que não há uma ruptura dada entre o universo exterior e o universo interior do indivíduo (ou do grupo), que o sujeito e o objeto são fundamentalmente heterogêneos em seu campo comum” (p. 46, grifos do autor) (ALMEIDA; SANTOS; TRINDADE, 2011, p. 106).

Outro autor que faz referência sobre a elaboração da Teoria das Representações Sociais (TRS) a partir do conceito de Representações Sociais (RS) é Sá (2004, p. 33 grifos do autor), ao comentar que possivelmente, o primeiro passo para tal fato teria sido a estrutura de dupla natureza – conceptual e figurativa – atribuída por Moscovici desde o início, “[...] Tratava-se de atender à exigência do conhecimento propriamente psicossociológico [...] de compreender „como a representação se atualiza em uma organização psicológica particular‟”.

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