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11. Maison numéro 29
Nossas discussões, até agora, nos possibilitam o entendimento que “as noções de homem e mulher, masculino e feminino são ativamente produzidas em uma determinada cultura, de acordo com o tempo histórico e com outros marcadores como raça e classe, de um modo e não de outro” (ANDRADE, 2009, p. 60). Importa pensar agora que, como “tais construções se dão discursivamente na cultura [...] podem, em função disso, modificar-se ao longo do tempo, agregando, lentamente, novos valores, novos modos de ver, pensar e viver a relação entre homens e mulheres nos contextos sociais” (ANDRADE, 2009, p. 60).
Isso é possível, tendo em vista que consideramos todas essas construções sociais dispostas em um jogo de poder. Para Foucault, o poder não se configura em algo que exista por si, “algo que se adquira, arrebate ou compartilhe, algo que se guarde ou deixe escapar” (FOUCAULT, 2006, p.104). O poder não é conquistado ou perdido, mas exercido com maior ou menor força, fazendo-se presente em qualquer relação como os “processos econômicos, relações de conhecimento, relações sexuais” (FOUCAULT, 2006, p.104). “O exercício do poder seria uma maneira para alguns de estruturar o campo de ação possível dos outros” (FOUCAULT, 1993a, p.245). As relações de gênero, classe e raça são também relações de poder.
Ainda pensando com Foucault, o poder não está vinculado a uma única direção – a do dominante em direção ao dominado – ou em meio às relações de uma instituição maior, como o Estado que poderia controlar e governar tudo e todos/as. As relações de poder são “os efeitos imediatos das partilhas, desigualdade e desequilíbrios [e] condições internas destas diferenciações” (FOUCAULT, 2006, p.104). A luta contra as desigualdades, a busca de partilhas mais justas e de reconhecimentos, a tentativa de conquista de outros lugares, outras posições sociais, o confronto com instituições que nos determinam diminuindo nossas potencialidades, a agregação de novos valores que possibilitem outros olhares e novas formas
de viver as relações entre mulheres e homens, ricos/as e pobres, negras/os e brancas/os, a tentativa de desconstruir essas dicotomias que ainda persistem nas relações, constituem-se em “pontos de resistência móveis e transitórios” (FOUCAULT, 2006, p.107). Na concepção foucaultiana, a resistência não tem necessariamente que se configurar em uma grande resistência ou uma revolução.
Em meio às relações de poder, os pontos de resistência, de confronto, aparecem e podem gerar um novo poder quando saem como estratégia vencedora. Não importam a classe, etnia, títulos... qualquer agrupamento, e mesmo qualquer indivíduo pode, em suas relações diversas, ora estar assujeitado, ora estar no exercício do poder. (RITTI, 2010, p.39)
A liberdade aparece, então, como ponto crucial nas relações de poder a partir da perspectiva foucaultiana. “O poder só se exerce sobre „sujeitos livres‟, enquanto „livres‟ – entendendo-se por isso sujeitos individuais ou coletivos que têm diante de si um campo de possibilidades onde diversas condutas, diversas reações e diversos modos de comportamento podem acontecer” (FOUCAULT, 1993a, p.244). No dia da ida à pizzaria, na volta para casa, gravei o seguinte diálogo após a pergunta “Vocês sentiram que tem discriminação?” que fiz a elas no carro:
– Januária:” Não, hoje não [...]tava com vocês! Mas eu te garanto que todo mundo que tava
ali tava pensando: o que será que essas mulheres tão fazendo aqui?”
– Vânia: “Pensa, pensa mesmo!”
– Ana: “Nossa! Teve uma vez que eu dei uma risada lá e todo mundo olhou!” [...]
– Januária: “[...] É muito bom a gente tá num lugar assim... descontraído... a gente não pensa
em nada! Eu me senti grande, importante ali! É bom, né?”
– Vânia: “Ah, quando eu entro num lugar desse eu me vejo igual (*). Eu não tenho esse
negócio não! Se eu tiver que rir eu rio...”
– Ana: “[...]Eu tô pagando, eu consumo as coisas boas, eu gosto de comer coisa boa!” – Vânia: “Se eu achar que a comida tá ruim eu reclamo, mando trocar meu prato...”
De certa forma, elas sentiam que aquele lugar não se abre muito para elas no cotidiano de suas vidas. Sentiam que
“
todo mundo que tava ali tava pensando: o que será que essas mulheres tão fazendo aqui?”. Mas elas estavam ali, resistindo a essa ordem. Mesmo que a minha presença e a da Ana Paula fossem, naquele momento, a chave para que elas abrissem a porta daquele lugar, na condição de serem servidas, se sentindo “grande e importante”, podemos dizer que pelo sentido dado por elas, elas estavam desafiando aqueles e aquelas que pudessem olhar reprovando suas gargalhadas. Mostram ainda resistência quando se sentem na possibilidade de pedirem para trocar o prato quando acharem que a comida está ruim, de poderem rir quando sentem vontade, de exigirem a carta de vinhos quando o garçom oferece ovinho em promoção, atitudes que as deslocam da condição de subalternidade e inferioridade em que muitas vezes possam se sentir ou serem colocadas.
E voltamos às questões: Em que circunstâncias essas mulheres constroem seus espaços de resistência? Como os constroem? Que sentidos dão a esses espaços? Entendemos, junto às leituras feitas de Foucault, que, “a partir do momento em que há uma relação de poder, há uma possibilidade de resistência. Jamais somos aprisionados pelo poder: podemos sempre modificar sua dominação em condições determinadas e segundo uma estratégia precisa” (FOUCAULT, 2009c, p.241). Como essas mulheres se produzem em seus espaços de liberdade, entendendo que a liberdade “pode se rebelar, ser insubmissa, enfrentar, provocar, lutar, vencer, mas também, podemos dizer, aderir, acordar, concordar, se aliar” (RITTI, 2010, p.39)?
Pensando assim, penso na importância da problematização dessas produções culturais, nas discussões, na busca de outros caminhos e outras construções. O desafio é “tentarmos encontrar algumas respostas para a famosa questão nietzschiana – que estão (os
outros) e o que estamos (nós) fazendo de nós mesmos?” (VEIGA-NETO, 2007, p.11 –
destaque do autor). A partir daí quem sabe não dá para, seguindo a sugestão foucaultiana (FOUCAULT, 1993a, p.239), inventar novas formas de subjetividades?
Percebe-se neste texto a identificação das mulheres com quem pesquiso com a condição de negras e pobres. Essa identificação as coloca em posições de sujeito bastante específicas e possibilitam que diferenças sejam também percebidas. Identificando-se como negras e pobres inserem-se em discursos e representações que, através de suas próprias falas, as situam em condições de muitas limitações e dificuldades com relação à vida social. Quer seja na escola, no trabalho, no lazer essas limitações e dificuldades são enfrentadas. Entendem que existem lugares que lhes são próprios, enquanto outros lhes são quase proibidos. E os lugares que lhes cabem são aqueles que sofrem o preconceito e a discriminação: as favelas, os presídios, as periferias. E assim, nos atravessamentos de gênero, raça e classe, muitas vezes capturadas, outras resistentes vão-se constituindo essas subjetividades que tomo como interesse nas minhas investigações.
Elas, porém, não se limitam às identidades de mulheres, negras e pobres, moradoras na periferia. Suas capturas e resistências, assim como as rupturas com processos de subjetivação que tentam constituí-las, passam por outra condição que também lhes confere uma identidade: a maternidade. Sinto que seja importante pensarmos um pouquinho sobre isso também, esgotando, assim, as palavras que compõem a questão desta pesquisa, portanto...
... E agora, as mães!
Ela é a dona de tudo Ela é a rainha do lar Ela vale mais para mim Que o céu, que a terra, que o mar Ela é a palavra mais linda Que um dia o poeta escreveu Ela é o tesouro que o pobre Das mãos do Senhor recebeu Mamãe, mamãe, mamãe Tu és a razão dos meus dias Tu és feita de amor e de esperança Ai, ai, ai, mamãe, Eu cresci, o caminho perdi, Volto a ti e me sinto criança Mamãe, mamãe, mamãe Eu te lembro o chinelo na mão O avental todo sujo de ovo Se eu pudesse eu queria outra vez, mamãe Começar tudo, tudo, de novo.
(Herivelto Martins/David Nasser/Washington Harline)
Cresci ouvindo minha mãe cantar essa música. Até achava que era um pouco a imagem dela, mas nem tanto. Agora sou mãe e já me esforcei muito para ser tudo isso, mas não consegui porque também sou esposa, profissional, filha, irmã... Outras mulheres habitam em mim além da mãe que já pretendeu ser extremamente zelosa e perfeita. Em maio, na escola dos meus filhos e filha, sempre houve comemorações em homenagem às mães. Saía das festinhas pensativa e com a sensação de não ser merecedora daquelas homenagens, daquelas músicas, daquela imagem romântica de mãe quase santa. Os discursos se repetiam sem muita variação em canções e poesias diversas que eu ouvia da boca das crianças. Esses discursos tentavam me constituir. Sentia-me capturada, muito capturada, mas sentia, também, que não conseguia cumprir todos os seus enunciados. E não era por resistência ou tentativa de romper com eles, mas por incapacidade de obedecê-los. E isso me frustrava. Quantas mães não devem se frustrar? Por que algo que é tão natural é tão difícil de se concretizar? Ou será que não é tão natural assim?
A letra da música traz uma concepção de mãe. Carinhosa, responsável pela educação dos/as filhos/as, cuidadora, rainha cujo lugar é o lar. Mãe, tesouro valioso, razão da vida dos/as filhos/as que também são a razão de sua vida. Mãe, amor e esperança, a que indica os caminhos que, na sua ausência, podem se perder. Mãe, musa dos poetas, presente de Deus. Mãe, uma palavra pequenina carregada de obrigações, renúncias, compromissos, abnegação...
alegria, doação, emoções... sofrimento e paraíso... paradoxo. Estamos diante de um discurso que, inserido em nossas vidas nos situa numa posição de sujeito em que quase se torna única em nós a identidade materna.
A entrada naquela periferia, no entanto, me possibilitou a compreensão de que nem toda mulher vê a maternidade do mesmo jeito. As mães dali eram diferentes da mãe que eu tentava aprender a ser. As mães dali sempre me intrigaram, muitas vezes me surpreenderam. E, também entre elas, podia observar várias formas de condução de si com relação aos filhos e filhas. Não havia apenas um tipo de mãe por ali.
Na periferia em que pesquiso, a vida na rua é muito intensa. Mulheres, homens, jovens e crianças fazem da rua seu espaço de lazer, sala de estar, comércio, salão de beleza, quintal... A rua reúne as pessoas para suas atividades rotineiras, além daquela para a qual, penso eu, ela é, na maioria das vezes, significada: a passagem. E é justamente nas minhas passagens de lá para cá, do Centro ao carro estacionado um pouco distante e vice-versa, que também fui parando com uma ou outra pessoa e fui construindo algum entendimento da vida naquela periferia. Nessas idas e vindas, fui observando as mães, sentadas na calçada logo cedo, conversando por todo o tempo em que eu permanecia no Centro... as crianças soltas, correndo de um lado para outro, às vezes com roupas sujas, às vezes chorando... Crianças chegando sozinhas nas atividades no Centro ou indo para a escola e, até mesmo, para o centro da cidade – já encontrei algumas delas por lá. É comum que algumas crianças, ao terminar as atividades do Centro no sábado pela manhã54, já por volta do meio dia, digam que vão ficar por ali mesmo porque a mãe não está em casa, ou porque a mãe está dormindo... Pude perceber, também, que algumas mães têm o hábito de tratar seus/suas filhos/as com adjetivos depreciativos ou com apelidos que trazem conotação de deboche, com referência a alguma condição física da criança, por exemplo, a própria cor negra. Ainda existem as mães dependentes de algum tipo de droga, as que saem para as diversões noturnas, as que deixam seus filhos e filhas recém-nascidos/as nas mãos de irmãs ou irmãos, primas/os ou vizinhos/as ainda muito pequenos/as circulando pelas ruas... Lembro-me que, há pouco tempo, tivemos a notícia de que um de nossos jovens, com apenas quinze anos havia se inserido no tráfico de drogas. Na oportunidade de conversa com sua mãe, uma das minhas companheiras nas atividades espíritas perguntou pelo menino e ela mesma disse que ele estava traficando.
Perguntada sobre como ela estava se sentindo com relação a isso, a mãe respondeu em tom muito tranquilo: Ah! Eu tô normal. É a vida dele...
Capturada pelo discurso da boa mãe, mesmo não conseguindo atendê-lo, embora tentasse, enquadrava aquelas mães numa situação de anormalidade e desvio, não me dando conta de que
As construções sociais e psicológicas de “mães normais”, sinônimo de “boas mães” e “mãe ideal”, são tão excessivos e desadequados das realidades do comum das mulheres, que uma grande maioria, normalmente as que estão em desvantagem social, acaba por ser tomada como desviante e patológica (FIDALGO, 2003, p.18)
Naquele momento, ainda me perguntava como poderiam deixar as crianças assim? Como poderiam se ausentar por tanto tempo, em momentos em que as crianças precisavam delas para o almoço ou o banho? Como poderiam passar a noite longe de seus bebês com o objetivo de se divertirem, atitude que acabava provocando distância também no dia seguinte, pois tinham que tirar o atraso do sono? Como poderiam se enveredar pelo caminho das dependências químicas tendo filhos e filhas para criar? Como poderiam achar normal que o filho traficasse drogas? Enfim, vários eram os meus questionamentos, mas perguntando pelo “como”, já havia em mim a suspeita de que todas aquelas situações eram, de alguma forma, construídas. Ao mesmo tempo, perguntar pelo “como” me fazia pensar em outros modos de se fazer aquelas mães e, nesse momento, pensava no atendimento àqueles discursos normatizadores da mãe perfeita. Eram eles que gritavam em mim, mesmo diante de minhas próprias dificuldades em atendê-los. Discursos que, contudo, nem sempre existiram, como poderemos observar no decorrer desta escrita, que pretende pensar a maternidade, não como algo natural na mulher, mas como algo construído para a condição feminina, marcado por esforços masculinos de governo/domínio das mulheres e que sofreu variações desde a sacralidade, passando pelo apelo ao instinto até a construção do amor materno (BADINTER, 1985; 2011; FIDALGO, 2003).