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Maison de la Musique et des Associations

DELIBERATION Le Conseil Municipal,

D) Eclairage public - Annexe du WINDSTEIN

7) Maison de la Musique et des Associations

sexualidade e espécie

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Íris Nery do Carmo

1 Trabalho apresentado durante o II Seminário Internacional Desfazendo Gênero, no simpó- sio intitulado “Monstrofilia bajubá: desfazendo gênero e espécie”.

introdução

Em termos gerais, o tema da presente pesquisa diz respeito aos movimentos sociais contemporâneos e os novos sujeitos políticos no Brasil, tendo como pano de fundo a reverberante multiplicidade de vozes e sujeitos que se reconhecem como feministas. No cenário político atual, os feminismos contemporâneos constituem espaços cada vez mais hifenizados (OLIVEIRA, 2010), em que esses sujeitos se localizam e negociam identidades.

Essa circulação das ativistas entre diversas agendas e bandeiras políticas orientou a elaboração do meu projeto de doutorado, o qual busca compreender o trânsito entre ativismos, o múltiplo pertenci- mento e a chamada “hifenização dos feminismos”. O interesse recai sobre como esses processos constroem novos sujeitos políticos no cotidiano mesmo da militância, a partir de uma rede interestadual de ativistas que tem principalmente entre vinte e trinta anos de ida- de, são do sexo feminino, provindas de camadas urbanas médias.

Nesse sentido, o início dos anos 2000 representa um marco na temporalidade dos feminismos. De acordo com autoras como Julia Zanetti (2011), é no início do século XXI que tem início, no Brasil, um movimento em que jovens passam mais notadamente a lutar pelo reconhecimento de direitos e interesses específicos, como sujeito coletivo. No mesmo sentido, Gonçalves e Pinto (2011) apontam que nos últimos dez anos emergem redes e fóruns pro- tagonizados por jovens, os quais denotam uma recusa a certo tipo de organização política instituída. Aqui é de valia apontar para a valorização do lúdico, do cultural, o uso da internet e de redes so- ciais, e a ênfase no cotidiano presentes em alguns desses grupos,

como é o caso das “minas do rock” (FACCHINI, 2011), bem como as formas horizontais e não institucionais de intervenção política que têm sido objeto de atenção sobretudo a partir das mobilizações que tomaram as grandes capitais do país desde junho de 2013, e que suscitaram inúmeras questões referentes à ausência de lideranças e hierarquias formais.

Mais detidamente, o interesse da pesquisa recai sobre a produ- ção destes chamados “feminismos hifenizados” – isto é, sobre o múl- tiplo pertencimento de ativistas jovens que transitam entre diversas referências (o punk, o anarquismo, o vegetarianismo, o autono- mismo, entre outras), as quais são reapropriadas, forjando relações que tensionam os limites do fazer político em seu entendimento tradicional.

Trata-se de uma pesquisa etnográfica a partir de uma rede inte- restadual de ativistas majoritariamente do sexo feminino, jovens (entre vinte e trinta anos de idade), provindas de camadas médias urbanas, que se reconhecem enquanto feministas e que atuam na interface entre política e cultura, produzindo fanzines,2 bandas de rock e de funk, livros, eventos, blogs, cooperativas de alimentação vegana, coletivos feministas, entre outros. A investigação, atual- mente em exercício, tem indagado: como se dão esses trânsitos en- tre referências? Como essa espécie de bricolagem é encarnada por esses sujeitos? Como lançam mão de estilos corporais e articulam categorias de diferenciação? E o que se entende por política?

Encontramos poucas pesquisas produzidas no país sobre este universo jovem de ativismo. Como exceção, podemos mencio- nar o dossiê Feminismos Jovens, organizado por Facchini e França (2011), que aponta para algumas tendências, as quais buscar-se-á

2 Publicações em papel, geralmente compostas por colagens feitas à mão, de modo que tex- tos ou desenhos são impressos, recortados e colados em folhas de papel que são montadas numa determinada ordem e xerocadas. Esse tipo de formatação manual é uma característi- ca-chave dos zines (ou fanzines). O baixo custo e a facilidade de confeccionar um zine fizeram com que ele se tornasse um dos principais meios de expressão das ideias e da música punk (MAGALHÃES, 1993 apud CAMARGO, 2010) – uma referência musical, política e estética cons- tante no campo. Doravante, o itálico será utilizado como recurso gráfico para marcar catego- rias nativas identificadas no trabalho de campo e estrangeirismos.

investigar como se dão na prática ativista: além da localização na interface entre cultura e política, ressaltam a múltipla inserção das ativistas em movimentos sociais, o questionamento do essencialis- mo da categoria “mulher” como sujeito do feminismo e o aprofun- damento da incorporação do lema feminista “o pessoal é político”.

Para tal intento, considera-se salutar o distanciamento das pres- suposições de um sujeito (“Mulher” ou “Mulheres”) pretendido e apriorístico, estável, permanente, universal e fundado na divisão se- xual, tal qual criticado por Judith Butler (2003). Em outras palavras, parte-se da premissa de que não há algo a priori tal como “interesse” ou “interesses das mulheres”; antes, entende-se que demandas e agendas feministas são processos em constante disputa e negocia- ção por diversos agentes, entre as quais podemos localizar as jovens. Logo, “Mulher” ou “Mulheres” é um termo a ser utilizado na pesquisa etnográfica sob rasura.3 Como veremos no campo, um olhar atento re- vela diversas categorias nativas de identificação de gênero,as quais são utilizadas contextualmente pelas ativistas e conformadas na in- tersecção de gênero, sexualidade e geração, como lésbikas ou lésbi- cas, sapa ou sapatão, grrrls, trans e cis (gênero), sapatrans, giletonas, gordas, bruxas, lobaxs e outras. Por vezes, elas são utilizadas em opo- sição à categoria “Mulher”, assim como encontramos o uso de “x”, “@” ou “ax” na linguagem escrita, no lugar das vogais que marcam a flexão de gênero.4

Nesse universo está situado o recorte da presente pesquisa, a qual pretende contribuir para a compreensão das formas contemporâneas de ativismos no Brasil, em especial os chamados “feminismos jo- vens” e os processos de renovação desse campo discursivo, por meio

3 A perspectiva adotada por Hall (2000) defende que certos conceitos-chaves, quando se mos- tram limitados e não mais “bons para pensar”, podem ser postos “sob rasura”. Isto é, uma vez que não há como substitui-los por conceitos “mais verdadeiros”, a rasura permite que conti- nuemos a pensar com eles, trabalhando, contudo, não mais no paradigma em que foram uma vez gerados. Esse seria o caso do conceito de identidade (ou identificação) ainda necessário – especialmente dada a sua centralidade para questões envolvendo a agência e política. 4 Doravante, utilizarei para a escrita deste ensaio o recurso gráfico do sublinhado a fim

do olhar para a hifenização das identidades políticas na emergência de novos sujeitos.

As indagações que tenho buscado explorar partem, portanto, desse contexto mais amplo, que localizo na contemporaneidade, e que diz respeito a tensões no entendimento sobre o fazer político, o que, no caso do feminismo, tem a sua face mais evidente no uso que certas ativistas fazem do lúdico, da sociabilidade e da interfa- ce entre cultura e política. Refiro-me especificamente a este marco temporal, quando assistimos a uma multiplicação de vozes que se reivindicam como feministas, e à emergência das jovens enquan- to grupo que atua não mais apenas como indivíduos no campo fe- minista, mas como sujeitos políticos, o que aponta para a geração como um eixo de diferenciação social relativo às diversas formas pelas quais a vida é periodizada.

A investigação que deu lugar ao presente artigo e que diz res- peito às questões do simpósio temático supracitado teve início em meu mestrado, a partir do qual comecei a fazer etnografia móvel em determinados eventos feministas, a fim de investigar os sen- tidos atribuídos ao veganismo numa rede de ativistas feministas jovens, organizadas a partir de uma configuração espaço-temporal em rede, na qual, como mostrarei, circula uma variedade de artefa- tos, pessoas, ideias, categorias.

O “veganismo” é uma corruptela diferenciadora de “vegetaria- nismo”, e que consiste numa alimentação composta a partir da in- terdição de alimentos de origem animal, como carnes, ovos, leite, laticínios e seus derivados. Entendo que o que se chama por “vege- tarianismo” ou “veganismo” são significados não estanques, mas contingentes e negociados entre diferentes agentes sociais.

A partir da categoria analítica “gastropolítica” (APPADURAI, 1981), me propus a pensar o veganismo para além de uma inter- dição alimentar (no caso, uma interdição de alimentos de origem animal) e busco pensá-lo em seus aspectos produtivos, isto é: quais são os valores a ele atribuídos? Que tipo de corporalidade e estilos

ele constrói? Que gastropolítica o engendra? Como o veganismo é encarnado nos discursos e práticas ativistas?

Desse modo, buscou-se uma perspectiva distinta do que Avakian e Haber (2005) identificaram como os enfoques feministas tradicio- nais acerca da alimentação, quais sejam:

a. aqueles trabalhos sobre o tema que frequentemente se li- mitam às desordens alimentares, como bulimia e anorexia; b. aqueles estudos sobre o trabalho doméstico que veem o es- paço do lar e da cozinha como marcador da opressão pa- triarcal, de forma essencialista.

Em termos metodológicos, o trabalho de campo tem sido rea- lizado em eventos sediados em diferentes estados brasileiros (até o momento, Rio Grande do Sul, São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro) desde o ano de 2012. Afastou-se, portanto, de um modelo tradicio- nal de pesquisa etnográfica, focada intensivamente no interior de uma localidade específica durante um período contínuo de tempo, em direção ao que vem sendo chamado de “etnografia multissitua- da” (multi-sited ethnography) – uma etnografia móvel que, debru- çada sobre um objeto de estudo multilocalizado, busca “examinar a circulação de significados culturais, objetos, e identidades num tempo-espaço difuso.” (MARCUS, 1995, p. 96) Ademais, a pesquisa também lança mão de análise documental e iconográfica.

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