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As iniciativas de transferência de tecnologia da universidade de Cambridge ganharam fôlego a partir da criação do escritório de transferência de tecnologia em 2006, conforme é possível observar no Gráfico 2.9, que apresenta as quantidades de licenças assinadas por ano no período de 2007 a 2016. Em um período de dez anos a quantidade de tecnologias licenciadas pela universidade mais que dobrou, saltando de 60 para 127. Nesse processo, o papel do escritório de transferência de tecnologia foi muito importante uma vez que não só assumiu e sistematizou a tarefa de licenciar tecnologias, como também disseminou o conceito pela universidade, divulgando casos de sucesso e estimulando mais pesquisadores a buscarem a proteção e transferência de suas tecnologias.

Gráfico 2.9 Quantidade de licenças assinadas por ano em Cambridge (2007-2016)

Fonte: elaboração própria a partir dos relatórios anuais do escritório de transferência de tecnologia. 0 20 40 60 80 100 120 140 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 Q u an ti d ad e d e l ic e n ças as si n ad as

Já no que diz respeito aos contratos de consultoria assinados, observa-se no Gráfico 2.10 que quase triplicaram em quantidade entre 2007 e 2016. A receita total deles obtida32 tem participação considerável na receita total do escritório de transferência de tecnologia: em 2013, quando a receita de consultoria foi de £5.3 milhões, foi o equivalente a 28% da receita total, e no ano menos expressivo, que foi 2006, representou 17%. Ressalte-se que não parece haver correlação positiva entre a quantidade de contratos de consultoria e sua receita total.

Gráfico 2.10 Contratos de consultoria assinados por ano e sua respectiva receita (2007- 2016)

Fonte: elaboração própria a partir dos relatórios anuais do escritório de transferência de tecnologia.

2.2.1.3.4. Iniciativas e características da universidade que fomentam o empreendedorismo acadêmico

Dentre as iniciativas existentes em Cambridge de estímulo ao empreendedorismo acadêmico destacam-se as relacionadas no Quadro 2.6. Elas encontram-se divididas em quatro categorias: infraestrutura, investimento, ensino de empreendedorismo e outros.

32 A universidade não disponibiliza esses valores todos os anos, por isso das lacunas nos dados.

£2 £3.2 £2.7 £2.5 £5.3 0 50 100 150 200 250 300 350 400 £0 £1 £2 £3 £4 £5 £6 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 Q u an ti d ad e d e c on tr at os as si n ad os R e ce it a d os c on tr at os ( m il h õe s)

Quadro 2.6 Iniciativas de estímulo ao empreendedorismo acadêmico na Universidade de

Cambridge

Ano de

criação Nome Descrição

Infraestrutura

1987 St John's Innovation

Centre

Uma das primeiras incubadoras do Reino Unido. Atende empresas nascentes de base tecnológica com

vários programas diferentes, de incubação física e virtual, próprios ou em parceria com outras instituições. Oferece instalações físicas a baixo custo,

aconselhamento e orientação profissional. Hoje é o centro de um pequeno parque científico (St John’s

Innovation Park).

2003 Entrepreneurship

Centre

Surgiu da incorporação do Centre for Entrepreneurial

Learning à escola de negócio da Universidade.

Estimula e apoia a atividade empreendedora na universidade através de uma série de cursos, eventos e

palestras. 2009 IdeaSpace Enterprise

Accelerator

Oferece modelo flexível de aluguel de mesas por pessoa ou por empresa, além de infraestrutura de uso coletivo e salas de reunião. É focada na construção de

comunidade.

2010 Hauser Forum

Abriga o escritório de transferência de tecnologia da universidade, a aceleradora IdeaSpace Enterprise e faz locação de salas comerciais para empresas interessadas

em trabalhar em parceria com pesquisadores da universidade ou comercialização de tecnologia. 2012 Accelerate Cambridge

Aceleradora. Oferece programas de 3 a 18 meses de duração compostos por treinamento em empreendedorismo, mentoria, acesso a espaço de

trabalho compartilhado e a financiamento.

Investimento

1995 Seed Funds

Criado para investir em novas empresas fundadas por colaboradores ou alunos da universidade para viabilizar

o desenvolvimento comercial de pesquisa da universidade. Oferece três faixas de investimento: até

£20.000, até £50.000 e até £500.000.

Cambridge Enterprise Venture Partners

Fórum de investimento do escritório de transferência de tecnologia da universidade (Cambridge Enterprise) que reúne capitalistas de risco e investidores anjo. Promove eventos nos quais companhias oriundas da universidade

se apresentam para potenciais investidores.

Cambridge Innovation Capital

Fundo de investimento ligado à universidade que investe em empresas "ricas em propriedade intelectual"

oriundas da universidade ou da região de Cambridge. Investe preferencialmente nas áreas de saúde e

tecnologia, sobretudo na segunda rodada, mas eventualmente pratica investimento semente também.

Fundo de prova de conceito

Investimento de até £25.000 em prova de conceito realizado através do escritório de transferência de

tecnologia da universidade.

Ensino de empreendedorismo

1999 Enterprise Tuesday

Curso aberto à comunidade acadêmica e da região. Visa apresentar aos participantes questões básicas

acerca do empreendedorismo.

1999 Ignite

Curso de uma semana de duração voltado para aspirantes a empreendedores. Ensina a preparar ideias de negócio para comercialização. É composto por aulas

teóricas e práticas. 2002 Enterprisers

Programa de quatro dias de duração com foco em desenvolvimento de autoconfiança, trabalho em equipe,

criatividade, geração e validação de ideias e apresentação para investidores.

ETECH Projects

Curso oferecido em vários departamentos da universidade para graduação e pós-graduação. Alunos usam tecnologias da universidade para aprender sobre

reconhecimento de oportunidades e realização de estudos de viabilidade.

Postgraduate Diploma in Entrepreneurship

Curso de 12 meses de duração para estudantes de pós- graduação ou pessoas interessadas em empreender ou aprofundar seus conhecimentos em empreendedorismo.

Venture Creation Weekends

Competição de dois dias de duração para permitir a aspirantes a empreendedores verificar a viabilidade de

suas ideias de negócio.

EnterpriseWISE

Programa para doutoras e mulheres em início de carreira nas áreas de ciências, engenharia e tecnologia.

É voltado para o desenvolvimento de habilidades e competências, e criação de uma rede de contato de

mulheres empreendedoras.

Tier 1 Graduate Entrepreneur

Programa para ex-alunos da universidade. Viabiliza visto de 1 ano de duração (renovável) para desenvolver

ideia de negócio no Reino Unido.

Outros

1998 Cambridge Network

Associação que promove a interação entre academia e indústria para compartilhar ideias, estimular parcerias e

projetos colaborativos. É o mais notório grupo de

networking da região.

1999 Cambridge University

Entrepreneurs

Fundada por estudantes, promove competições de modelos de negócio. Oferece prêmios em dinheiro. 2003

Cambridge University Technology and Enterprise Club

Organização de alunos que visa fomentar o empreendedorismo entre alunos e professores da universidade de Cambridge. Promove uma conferência

anual sobre empreendedorismo.

2006 i-Teams Projeto em que turmas multidisciplinares (sobretudo de

fazer a análise de viabilidade comercial de tecnologias da universidade.

2015 Entrepreneurial

Postdocs of Cambridge

Grupo que visa estimular pós-doutorandos a optar pela carreira empreendedora.

Enterprise Champions

Programa do escritório de transferência de tecnologia. Cada departamento tem um ou mais pesquisadores que

atuam como champions, estimulando e fornecendo orientações básicas sobre pesquisa colaborativa, consultoria e exploração comercial dos resultados de

pesquisa.

Cambridge University Enterprise Network

Portal da universidade para membros da comunidade acadêmica interessados em empreendedorismo e

inovação. Reúne informações sobre as diversas iniciativas da universidade nessas áreas.

Start-up Careers Lecture Series

Programa especial sobre start-ups oferecido pelo serviço de orientação de carreira da universidade.

Industry Engagement Forums

Eventos de um dia de duração em que acadêmicos (docentes, pesquisadores ou estudantes de pós- graduação) reúnem-se com representantes da indústria para identificar áreas de interesse comum. Promovidos

pelo escritório de transferência de tecnologia da universidade (Cambridge Enterprise).

Fonte: Elaboração própria.

Nota-se a partir da observação do quadro que há em Cambridge uma grande quantidade de iniciativas de estímulo ao empreendedorismo acadêmico, de modo a atender uma ampla gama de públicos e demandas de complexidade variada.

Há uma série de grupos, palestras e atividades para difundir os conceitos básicos do empreendedorismo tecnológico, há cursos, programas e competições para aprofundar os conhecimentos na área e, além disso, há espaço físico para que as novas empresas se estabeleçam (incubadoras, aceleradoras33, espaços de co-working e parques) e redes de contato para apoiá-las em seu desenvolvimento. Dentre essas iniciativas, há aquelas voltadas para grupos específicos (docentes ou pós-doutores) e também outras abertas ao público em geral. Dessa maneira, a universidade consegue cobrir, de maneira bastante completa, as demandas dos mais variados estágios de maturação do empreendedorismo acadêmico e dos mais variados grupos.

33 Apesar das variações nas definições, de maneira geral as aceleradoras são entidades privadas que tomam uma pequena participação acionária nas empresas aceleradas, e em troca oferecem programas de treinamento e mentoria por curtos períodos (geralmente três a seis meses). Diferentemente das incubadoras, as aceleradoras raramente oferecem espaço físico para as empresas se instalarem (Dalle et al, 2017).

Conforme discutido pela literatura, podemos atribuir especial ênfase a alguns aspectos da infraestrutura interna à universidade para estímulo ao empreendedorismo acadêmico. Em primeiro lugar, destaque-se a qualidade da pesquisa. Contando com apenas 4% dos pesquisadores do mundo, as publicações do Reino Unido representam 6% das publicações mundiais, 12% das citações e 16% dos artigos mais citados do mundo, o que significa que são a segunda nação em quantidade de citações de artigos científicos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos (Dochterty et al, 2012; DBIS, 2014b).

Nesse cenário nacional já positivo, Cambridge se destaca ainda mais: de acordo com a última versão do Research Excellence Framework34 (2014), 47% de sua pesquisa tinha

"qualidade de líder mundial em termos de originalidade, relevância e rigor", enquanto que 40% apresentava "qualidade de excelência internacional em termos de originalidade, relevância e rigor"35. Na classificação geral de universidades do Reino Unido, Cambridge ficou em 3º no levantamento de 2014, e em 2º lugar no levantamento anterior, que data de 2008. A partir de 2015, os resultados desse levantamento passaram a ser usados para determinar a distribuição de financiamento governamental para pesquisa em universidades, beneficiando Cambridge. Em termos quantitativos, nos últimos dez anos a universidade publicou mais de 12 mil artigos por ano em periódicos especializados36.

Em segundo lugar, a capacitação de recursos humanos para exercer atividade empreendedora: a universidade de Cambridge oferece uma gama muita ampla de alternativas de capacitação. Desde palestras avulsas que apresentam conceitos básicos e tem por objetivo despertar curiosidade sobre empreendedorismo até iniciativas com duração de um ano; desde cursos teóricos que apresentam conceitos como reconhecimento de oportunidade e validação de ideias até atividades mais práticas, como competições e preparação para se apresentar a investidores, a universidade fornece à sua comunidade uma grande quantidade de possibilidades para instigar a curiosidade e preparar futuros empreendedores.

No quesito de investimento a universidade de Cambridge também se destaca. Além dos oito fundos de capital de risco (venture capital) e seis de investidores anjo externos apresentados no item 2.1.3.4, a universidade conta também com quatro iniciativas de

34 Levantamento do governo, realizado por pares, que avalia a qualidade da pesquisa em as universidades do Reino Unido.

35

Fonte http://results.ref.ac.uk/Results/ByHei/112

36

investimento geridas pelo escritório de transferência de tecnologia. Juntas, elas cobrem diversas etapas de desenvolvimento de novos empreendimentos: desde a primeira, que é a prova de conceito, passando pelo investimento semente até alcançar a segunda rodada de investimento. Observe-se ainda que, apesar de serem fundos da universidade, não estão restritos à sua comunidade, e podem investir também em empresas da região sem relação com a universidade.

Já no que diz respeito a incubação e aceleração, a universidade dispõe de quatro opções: uma incubadora com mais de 30 anos de experiência aberta a empreendimentos de todas as áreas, uma incubadora exclusiva para pesquisa biomédica, e duas aceleradoras com modelos mais flexíveis de uso do espaço e oferta de serviços.

Finalmente no quesito parques, Cambridge conta com um total de 19 parques científicos e comerciais em um raio de 16km ao redor da cidade. Trata-se de estruturas voltadas para empresas estabelecidas e com diversos modelos de funcionamento: alguns permitem que as empresas construam seus prédios, outros alugam espaço próprio para elas, e outros ainda oferecem um modelo misto. A maioria dos parques opta por não estabelecer restrições quanto ao setor de atuação das empresas neles estabelecidas, mas há exceções. Os primeiros parques da região foram criados pela universidade (ou por seus colleges), mas posteriormente o setor privado entrou no ramo. Destaca-se o Cambridge Science Park: maior e mais antigo do Reino Unido, fundado em 1971; já dentre os fundados pela universidade estão: St John's Innovation Park, West Cambridge Site e Cambridge Biomedical Campus.