1. INTRODUCTION
1.1. The importance of chromosomal inversion polymorphism in natural
1.1.5. Maintenance of inversion polymorphism in natural populations
Uma coisa, no entanto, é estar familiarizado com um modelo; outra bem diferente é este modelo estar tão internalizado a ponto de estruturar o próprio pensamento de alguém sobre o mundo (INGOLD, 2015, p. 157).
As ideias, da mesma forma que as uvas, crescem em cachos (THOMPSON, 2014, p. 7).
A partir da consciência do cuidado – aquela que se faz presente e atenta às conexões relacionais – emerge a possibilidade tanto de reescrever antigas histórias, como de criar novas. Isto é o que pretende Leonardo Boff ao fazer renascer a Fábula-Mito de Higino sobre o Cuidado que perpassa todas as relações, desde o início de tudo, por exemplo.
O objetivo deste tópico é propor uma breve contemplação sobre mitologias de origens que pertencem a outras matrizes culturais, diferentes da nossa judaico-cristã. Não será feita aqui uma análise aos moldes de Lévi-Strauss, pois minha proposta não é encontrar semelhanças entre os mitos, tampouco analisar suas estruturas. O que pretendo é acrescentar ao nosso modo de ver ocidental uma maneira díspar de explicar o início da vida e a relação entre os viventes. Ofício que se dá como modo de ampliação criativa do modo Ocidental de ver o mundo, e assim, quem sabe, possamos iniciar a relativizar nossas certezas e a nós mesmos.
Talvez seja possível passar a contar também a história da conexão do ser humano com todas as coisas e não a da separação, ou seja, talvez possamos valorizar o que temos em comum e não o que nos separa como seres vivos. Para esse feito foram selecionadas duas mitologias a título de exemplo e contemplação.
Destaca-se aqui o livro de Davi Kopenawa e Bruce Albert, A queda do céu- palavras de um xamã yanomami (2015). Nele, os autores trazem a riqueza da cosmologia dos povos yanomami e demonstram uma compreensão de mundo atrelada à ideia da humanidade como guardiã da Terra. Além disso, nos contam sobre a existência dos xapiri, entidades espirituais, duplos astrais de todos os seres que compartilham a existência comum. Eles teriam a função de cuidar e de curar os humanos, bem como de sustentar o céu em seu devido lugar.
No mesmo caminho, Thich Nhat Hanh, através de histórias e práticas, contribui para uma outra visão de mundo. Ao publicar o livro O Príncipe Dragão: histórias e lendas de um Vietnã desconhecido (2009), demonstra seu incômodo em relação à falta de literatura voltada para crianças no Vietnã. Thich faz um minucioso trabalho de resgate da História de seu país através de contos folclóricos combinados com a expressa intenção de criar uma narrativa que transcenda o “pensamento bélico” dualista, identificado por ele na literatura infantil ocidental. Como resultado, cria-se um belíssimo livro que consagra a criação do mundo e da humanidade com o dom do cuidado.
1.3.1 Palavras de um Xamã Yanomami
Para nós, a política é outra coisa. São as palavras de Omama e dos xapiri que ele nos deixou. São palavras que escutamos no tempo dos sonhos e que preferimos, pois são nossas mesmo. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham com eles mesmos. [...]. Por isso não conseguem entender nossas palavras (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 390).
Segundo Eduardo Viveiros de Castro e Debora Danowski: “verdadeiros especialistas em fins do mundo, os Mayas, como todos os demais povos indígenas das Américas, têm muito a nos ensinar” (2014, p. 142, grifo dos autores). Isso porque, ainda segundo Viveiros de Castro em entrevista concedida a Eliane Brum, “os índios”
são todas as minorias que estão fora, de alguma maneira, dessa megamáquina do capitalismo, do consumo, da produção, do trabalho 24 horas por dia, sete dias por semana. Estes índios planetários nos ensinam a dispensar a existência das gigantescas máquinas de transcendência que são o Estado, de um lado, e o sistema do espetáculo do outro, o mercado transformado em imagem (VIVEIROS, 2014, [n.p.]).
Nesse contexto, Davi Kopenawa se destaca como um grande embaixador e porta-voz das mensagens de um outro mundo, que é físico, mas também encantado. Um mundo onde as relações de causalidade são descritas apontando para os pontos mais frágeis de nossa branca compreensão de mundo. Como ressalta Alberto Pucheu (2016), a primeira frase do livro de Davi é: “Faz muito tempo, você veio viver entre nós e falava como um fantasma”. Fantasmas no caso somos nós, em oposição aos povos indígenas. Vivemos nossas vidas imersos no esquecimento, segundo a percepção de Davi Kopenawa.
O objetivo de se debruçar sobre o mito de origem dos Yanomami, não como uma proposta de retorno, mas de maneira atualizada, é de oferecer uma outra ideia de cuidado. Não um cuidado imbuído de um ideal romântico maternal, ocidental, mas um cuidado ligado à noção de responsabilidade e de interdependência. A intenção de Davi ao desnudar e entregar as palavras de Omama28 a seu interlocutor branco – Bruce, o antropólogo e amigo – para que fossem colocadas em “imagens de papel” e, portanto, compreensíveis por nós, é que possamos dar vida a novos pensamentos. Para que pudéssemos entrar em um “devir índio”, cada um de nós, antropólogos e não antropólogos.
Vamos ao relato do mito intercalado por comentários:
Foi Omama que criou a terra e a floresta, o vento que agita as folhas e os rios cuja água bebemos. Foi ele que nos deu a vida e nos fez muitos [...]. No começo, Omama e seu irmão Yoasi vieram à existência sozinhos. Não tinham pai nem mãe. Antes deles, no primeiro tempo, havia apenas a gente que chamamos yarori29. Esses animais eram humanos com nomes de animais e
não param de se transformar. Assim, foram aos poucos se tornando os animais de caça que hoje flechamos e comemos. Então foi a vez de Omama vir a existir e recriar a floresta, pois a que havia antes era frágil. Virava outra sem parar, até que, finalmente o céu desabou sobre ela. Seus habitantes foram arremessados para dentro da terra e se tornaram vorazes ancestrais de dentes afiados a quem chamamos de aõpatari. Por isso Omama teve de criar uma nova floresta, mais sólida, cujo nome é Hutukara. É também este o nome do antigo céu que desabou outrora. Omama fixou a imagem dessa nova terra e
28 Omama é o demiurgo da mitologia Yanomami.
29 “Trata-se, na mitologia yanomami, de seres cuja forma pré-humana, sempre instável está sujeita a
uma irresistível propensão ao devir animal [...]. São as imagens (utupë) desses seres primordiais que são convocadas como entidades (‘espíritos’) xamânicas (xapiri)” (KOPENAWA; ALBERT, 2010, nota 1, p. 614).
esticou-a aos poucos, cuidadosamente, do mesmo modo como espalhamos o barro para fazer placas de cerâmica mahe30. Em seguida cobriu-a com pequenos traços apertados, pintados com tinta de urucum, parecido com desenhos de palavras. Depois, para evitar que desabasse, plantou nas suas profundezas imensas peças de metal, com as quais também fixou os pés do céu31. Sem isso a terra teria ficado arenosa e quebradiça e o céu não teria
permanecido no lugar. Mais tarde, com o metal que ficou, depois de fazer com que ficasse inofensivo, Omama também fabricou as primeiras ferramentas de nossos ancestrais32. Finalmente, assentou as montanhas na superfície da terra,
para evitar que as ventanias de tempestade a fizessem tremer e assustassem os humanos. Também desenhou o primeiro sol, para nos dar luz. Mas era por demais ardente e ele teve que rejeitá-lo, destruindo sua imagem. Então, criou aquele que vemos até hoje no céu, bem como as nuvens e a chuva, para poder interpô-lo quando esquenta demais. Isso ouvi os antigos contarem (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 81).
A primeira parte do mito de origem Yanomami conta uma série de eventos que antecederam a existência da Terra como temos hoje. Dá a ideia de que houve um desencadeamento de tentativas e erros para que nossa morada ganhasse a estabilidade necessária para sustentar a vida, qualquer tipo de vida física. A busca por estabilidade parece ser mesmo uma tônica desses povos.
Antes os seres e a própria terra não paravam de se transformar. Foi necessário que o demiurgo tomasse uma série de providências para que cada elemento da natureza ganhasse solidez e para que a interação entre esses elementos entrasse em equilíbrio, ou seja, em homeostase. Faz-se interessante notar que entre os Yanomami existe, desde a origem, uma percepção da interligação entre tudo que compõe nosso mundo físico, bem como da importância da manutenção de uma qualidade de constância para a conservação da vida. Como chamamos atenção no tópico anterior, essa não foi a maneira como a percepção judaico-cristã se perpetuou.
30 “Placa circular de cerâmica utilizada para assar os beijus de mandioca (mahe)” (KOPENAWA;
ALBERT, 2010, nota 3, p. 614).
31 “Os yanomami descrevem o nível celeste (hutu mosi) como um tipo de abóbada apoiada no nível
terrestre (warõ patarima mosi) graças a pés (estacas) gigantescos” (KOPENAWA; ALBERT, 2010, nota 4, p. 614).
32 Kopenawa explica sobre a importância do metal e traça sua explicação sobre terremotos e a
instabilidade da Terra: “Omama escondeu seu metal lá no meio dos morros das terras altas, onde também fez jorrar os rios. É de lá que surgem os ventos e o frescor da floresta. É de lá que vêm sua fertilidade. Quando fazemos dançar a imagem desse pai dos minérios, ela aparece a nós como uma montanha de ferro subterrânea, cheia de imensas hastes fincadas em todos os lados. Omama a colocou nas profundezas do solo para manter a terra no lugar e impedir que a ira dos trovões e dos raios a faça tremer e a desloque. [...] Assim, esse ferro está enfiado na terra como raízes de árvores. Ele mantém firme como espinhas fazem com a carne dos peixes e esqueletos com a de nosso corpo. Torna-a estável e solida, como nosso pescoço faz nossa cabeça ficar reta. Sem essas raízes de metal, ela começaria a balançar e acabaria desabando sob nossos pés. Isso não acontece em nossa floresta, pois ela está no centro da terra, onde esse metal de Omama está soterrado. No entanto, entre os brancos, em seus confins, onde o solo é mais friável, acontece às vezes de ela tremer e se romper, destruindo cidades” (2010, p. 360).
Omama criou também as árvores e as plantas, espalhando no solo, por toda a parte, as sementes de seus frutos. Os grãos germinaram na terra e deram origem a toda a floresta em que vivemos desde então. [...] No início seus galhos eram nus. Depois, frutos se formaram. Então, Omama criou as abelhas, que vieram morar nelas e sorver o néctar das flores que produzem seus vários tipos de mel (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 81-82).
Considero interessante a menção feita à criação dos insetos personificados na figura da abelha. Sabe-se hoje da primordial função exercida por estes pequenos seres para polinização de diferentes espécies de plantas, bem como para o surgimento de novas espécies. Primeiro Omama cria as plantas, depois as sementes e frutos que podem germinar e, como elemento de ligação, cria as abelhas e os insetos. Como se supostamente fizessem parte de um mesmo sistema o qual suponho que façam. Os insetos seriam, então, uma medida de sustentabilidade da existência das florestas em toda sua diversidade.
No início, também não existiam os rios; as águas corriam debaixo da terra, bem fundo. Só se ouvia seu ronco, ao longe, como de fortes corredeiras. Formavam um enorme rio que os xamãs nomeiam de Motu uri u. Certo dia Omama trabalhava na roça com o filho, que começou a chorar de sede. Para matar-lhe a sede, ele perfurou o solo com uma barra de metal. Quando a tirou da terra, a água começou a jorrar violentamente em direção ao céu e jogou para longe o menino que se aproximava para bebê-la. Lançou também para os céus todos os peixes, arraias e jacarés. Subindo tão alto que um outro rio se formou nas costas do céu, onde vivem os fantasmas de nossos mortos. Em seguida a água foi se acumulando na terra e começou a correr em todas as direções, formando os rios, os igarapés e os lagos da floresta (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 82)
O elemento água entra em cena para matar a sede de um filho. Como se antes da existência dos filhos não houvesse sede no mundo. A partir da água passam a existir também todos os seres. Consequentemente a vida começa na terra e o rio nas costas do céu dá lugar aos mortos. Vida e morte que se atrelam aos ciclos das águas, aqui e além.
No início nenhum humano vivia ali. Omama e seu irmão Yoasi viviam sozinhos. Nenhuma mulher existia ainda. Os dois irmãos só vieram a conhecer a primeira mulher muito mais tarde, quando Omama pescou a filha de Tepëresiki num grande rio. No início, Omama copulava na dobra do joelho de seu irmão Yoasi. Com o passar do tempo, a panturrilha deste ficou grávida, e foi assim que Omama primeiro teve um filho. Porém, nós, habitantes da floresta, não nascemos assim. Nós saímos, mais tarde, da vagina da esposa de
Omama, Tʰuëyoma, a mulher que ele tirou da água. Os Xamãs fazem descer sua imagem desde sempre. [...] Era um ser peixe que se deixou capturar na forma de mulher. Assim é (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 82).
Os humanos nascem do encontro do demiurgo com uma mulher das águas. Para os povos yanomami o elemento feminino provém das águas, assim como toda a diversidade da vida. Em outras partes do livro, Kopenawa conta sobre a existência de um outro “mundo” submerso, onde moram o terrível Tepëreski e suas filhas e filhos.
Relata que são seres poderosos e que também auxiliam os xamãs em suas curas. Porém, houve um primeiro filho, não humano, gerado por Omama na panturrilha de seu irmão – portanto sem contato com o feminino. Este trecho fala da existência de um filho especial que vem ao mundo e carrega uma missão para com todos os humanos.
Mais tarde, Omama ficou furioso com seu irmão Yoasi, porque este, contra sua vontade, tinha feito surgir na floresta os seres maléficos das doenças, os në wãri, e também os da epidemia xawara33, que, como eles, são comedores de carne humana. Yoasi era mau e seu pensamento, cheio de esquecimento. Omama era quem tinha criado o sol que não morre nunca. Não falo aqui do sol motʰoka, cujo calor cobre a floresta, e que é visto pelas pessoas comuns [gente que simplesmente existe (kuaporatʰëpë)], mas da imagem do sol. Assim é. O sol e a lua têm imagens que só os xamãs [gente espírito (xapiritʰëpë)] são capazes de fazer descer e dançar. Elas têm a aparência de humanos, como nós, mas os brancos não são capazes de conhece-las (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 82).
Este trecho faz menção a existência de seres transcendentes aos quais as pessoas que “simplesmente existem” não têm acesso. Considero importante destacar esta compreensão sobre uma existência comum, corriqueira. Existir simplesmente seria uma forma de vida limitada ao que os olhos físicos podem ver. Uma vida que não transcende a experiência do real, o mundo da matéria. Em contrapartida, os olhos da “gente de espírito” enxergam um mundo animado, rico em vida, ligações e complementaridades entre os vivos. Neste modo de ver, tudo canta e dança, bem como tudo é passível de ser cantado e dançado. Os xamãs podem ver e se relacionar com algo como uma essência que pulsa em cada ser ou objeto.
Omama queria que fôssemos imortais, como o sol chamado de Motʰokari pelos xamãs. Queria fazer bem as coisas e pôr em nós um sopro de vida
33 São assim nomeadas as doenças infecciosas que seriam propagadas pela fumaça: fumaça de epidemia
realmente sólido. Por isso buscou na floresta uma árvore de madeira dura para coloca-la de pé e imitar a forma de sua esposa. Escolheu para tanto uma árvore fantasma pore hi, cuja pele se renova continuamente. Queria introduzir a imagem dessa árvore em nosso sopro de vida, para que este permanecesse longo e resistente. Assim, quando envelhecêssemos, poderíamos mudar de pele e esta ficaria sempre lisa e jovem. [...] Era o que Omama desejava. No entanto, Yoasi [...] tratou de colocar na rede da mulher de Omama a casca de uma árvore fibrosa e mole, a que chamamos kotopori usihi. Então, a casca acabou se dobrando num lado da rede e começou a pender para o chão. Imediatamente, os espíritos tucano começaram a entoar seus pungentes lamentos de luto. Omama ouviu-os e ficou furioso com o irmão. Mas era tarde demais, o mal estava feito. Yoasi nos ensinou a morrer para sempre. Tinha introduzido a morte, este ser maléfico, em nossa mente e em nosso sopro, que por esse motivo se tornaram tão frágeis. Desde então, os humanos estão sempre perto da morte (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 82).
O mito demonstra de forma bem marcada o antagonismo entre Omama e seu irmão Yoasi. Um bom, o outro mau. Fala também da percepção da introdução da morte na vida como um ato de descuido, uma trapaça, um engano. Não era essa a intenção do criador, mas uma vez feito, não pode ser desfeito. Atesta a morte como um ser maléfico que nos acompanha e nos torna frágeis.
Se faz interessante também a forma como os povos yanomami percebem a interação entre os seres, ou a forma como as imagens dos seres podem se misturar agregando características de um ao outro. O “sopro da vida”34, ou o que Kopenawa chama de imagem, seria algo semelhante em todos os elementos que compõem a magnitude vivente e haveriam canais de comunicação, troca e mistura. Para Pucheu, “instaurando a morte, Yoasi ensina a ignorância do morrer necessário, Omama, instaurando a eternidade do “sopro de vida”, ensina o saber, o “sopro de vida” enquanto sabedoria, enquanto o vigor da e na materialidade da floresta” (2016, [n.p.]).
Por isso Omama criou os xapiri, para podermos nos vingar das doenças e nos proteger da morte a que nos sujeitou seu irmão mau. Então ele criou os espíritos da floresta urihinari, os espíritos das águas mãu unari e os espíritos dos animais yarori. Depois, escondeu-os, até que seu filho se tornasse xamã, no topo das montanhas e nas profundezas do mato [...]. O pai da minha esposa conta também que foi a esposa de Omama, mulher das águas, quem primeiro pediu que os xapiri fossem trazidos a existência. Somos seus filhos e nossos antepassados tornaram-se numerosos a partir dela. Por isso, depois de ter procriado, perguntou ao marido: ‘O que faremos para curar nossos filhos quando ficarem doentes?” Essa era sua preocupação. O pensamento do
34 “Sopro da vida” ou wixia é traduzido por Kopenawa como “força ou riqueza”. Não é atribuído somente
à respiração, mas também à abundância de sangue e aos batimentos cardíacos, à essência vital da pessoa (utupë) (Cf. KOPENAWA; ALBERT, 2010, nota 16, p. 612).
marido, Omama, continuava esquecido. Por mais que seu espírito buscasse, ele se perguntava em vão o que poderia criar. A mulher das águas lhe disse então: ‘Pare de ficar aí pensando, sem saber o que fazer. Crie os xapiri, para curarem nossos filhos!” Omama concordou: ‘Awei! São palavras sensatas. Os espíritos irão afugentar os seres maléficos. Arrancarão deles a imagem dos doentes e as trarão de volta para seus corpos! Foi assim que ele fez aparecer os xapiri, tão numerosos e poderosos quanto os conhecemos hoje (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 84).
A criação dos xapiri foi uma medida de cuidado materno contra todo o mal que poderia assolar seus filhos. A presença dessa crença no cotidiano de um povo instaura um sentido de pertencimento e reverência expressos por gestos de cuidado. Um tipo de atitude que, pela maneira como é vivenciada no mito, pretende ser propagada como um sentimento de responsabilidade de cada um para com o todo. Ao se aprofundar na explicação sobre a existência dos xaripi ao longo do livro, Kopenawa descreve a floresta de uma maneira absolutamente encantada, repleta de caminhos cintilantes e frágeis espelhos pelos quais esses seres passam, dançam e vivem. Posso falar que após ler essas “imagens de papel” (letras/livros), nunca mais entrei em uma floresta como antes. Hoje, carrego em mim a possibilidade entusiasmada de que exista lá muito mais vida do que posso enxergar, e isso gera uma atitude de extremo cuidado e reverência ao adentrar em sua morada sagrada.
Mais tarde, o filho de Omama tornou-se um rapaz e seu pai quis que ele aprendesse a fazer dançar os xapiri para poder tratar os seus. Buscou uma árvore yãkoana hi na floresta e disse ao filho: ‘Com esta árvore, você irá preparar o pó de Yãkoana! Misture com as folhas cheirosas maxara hana e as cascas das árvores ama hi amatʰ a hi e depois beba! A força da yãkoana revela