Ao iniciar o processo de escrita deste texto de pesquisa, vivenciei um momento difícil, considerado por Clandinin e Connelly (2000), como um período de transição, que marca o momento em que passamos dos textos de campo para a composição do texto de pesquisa. Esse momento, na perspectiva desses autores, é marcado, por alguns conflitos e dilemas que emergem quando começamos a refletir sobre as questões de significado, significância e propósito do nosso trabalho.
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A experiência vivida no Projeto-PIBEG-Tandem foi registrada por meio de diferentes textos de campo que formam o material documentário desta pesquisa. Conforme já discutido, esse material é formado por diários reflexivos, atas, relatórios, arquivos das listas de discussão Yahoo, entre outros documentos do Projeto-PIBEG-Tandem. Antes de iniciar o procedimento de análise do material documentário, o pesquisador narrativo, em geral, passa por um difícil processo de organização e de seleção desses textos de campo que, por meio da composição de sentido, são reconstruídos como textos de pesquisa.
A análise desse material documentário, neste estudo, deu-se por meio da composição de sentidos, conforme Ely, Vinz, Downing e Anzul (2001). Ao vivenciar o processo de composição deste texto de pesquisa, comparei a experiência de composição de sentidos com o trabalho de um tecelão que, juntando vários fios, ao final, tem uma peça ou um tecido único.
Em geral, para configurar e reconfigurar nosso pensamento a respeito dos dados, nós precisamos ouvir, atentar e tornar familiar aquilo que desperta nosso interesse no tópico em primeiro lugar. Portanto, muito cedo nesse processo é importante escrever, considerar, falar, pensar e escrever mais ainda. 6 (ELY; VINZ; DOWNING ; ANZUL, 2001, p. 20). (tradução da pesquisadora)
Da mesma forma, o processo de análise na PN inicia com a composição de temas que, de acordo com Ely, Vinz, Downing e Anzul (2001), não emergem ou nascem automaticamente dos textos de campo. É nesse sentido que é necessário ler, reler, contar e recontar até que se consiga compor os temas de forma que eles possam fazer sentido para o pesquisador.
Ainda refletindo sobre esse processo de composição de sentidos, creio ser relevante destacar o quanto me senti à vontade com a questão da flexibilidade quanto ao uso da linguagem proporcionada pela PN. Para Mello (2004), a forma narrativa no texto de pesquisa “constrói possibilidades de espaço para a reflexão e expressa as experiências vividas ou relatadas. É possível mas, não imprescindível, usar outras formas de escrita tais como, poesia, teatralização, vinhetas, ficção, imagens entre outras” (MELLO, 2004, p. 91)
Ao iniciar o processo de composição de sentidos, o pesquisador narrativo precisa ser capaz de articular o relacionamento entre os interesses pessoais, problematizando, também, o sentido de significância por meio de amplas questões sociais, conforme Clandinin e Connelly
6 In order to figure and refigure our thinking about the data, we need to listen, attune, and grow familiar again with what brought us to our interest in the topic in the first place. So, very early in the process it is important to write, consider, talk, think, and write more.
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(2000). É ainda por meio da composição de sentidos que o pesquisador narrativo relata as aprendizagens construídas acerca de uma determinada experiência vivida, o que, na visão desses autores, talvez dificilmente pudesse ser aprendido de forma significativa, somente por meio de teorias ou métodos.
No momento da composição de sentidos, o pesquisador narrativo, ao afastar-se do contato direto, próximo e diário do campo de pesquisa, volta sua atenção, principalmente para os textos de campo. É o início de um importante processo de ler e reler esses textos, objetivando a composição do texto de pesquisa. É o momento em que mudamos do espaço de viver histórias (living), para experenciar o espaço de contar e recontar as histórias vividas (telling and retelling) Clandinin e Connelly (2000).
No decorrer do processo de composição e de construção de um texto de pesquisa, o pesquisador narrativo experiencia diferentes dilemas relacionados a questões de voz, autoria, audiência e forma narrativa. As tensões provocadas por esses dilemas devem ser negociadas, conforme Clandinin e Connelly (2000), dentro espaço tridimencional da PN, marcados pelos aspectos do pessoal e social, do tempo e do espaço/lugar.
Ao situarmos uma pesquisa no espaço tridimensional da PN, no momento de análise e de composição de sentidos, uma série de questionamentos, produzidos pelos aspectos social, temporal e de lugar/espaço, emergem e precisam ser, portanto, considerados.
[...] como pesquisadores, as circunstâncias, e os ângulos de observação, influenciam o que nos interessa, as perguntas que perguntamos, o foco de nosso estudo, e os métodos de coleta, assim como a forma de análise. E o significado que compomos dos nossos Projetos de pesquisa, são filtrados por meio de nossas crenças, atitudes e experiências anteriores, bem como por meio de ambas as posições teóricas, formais e informais que nós compreendemos ou acreditamos.7 (ELY; VINZ, DOWNING; ANZUL , 2001, p. 38) (tradução da pesquisadora).
Esse é, portanto, um período marcado por questionamentos sobre os participantes do estudo, o porquê de estarmos escrevendo, que contextos pessoais, teóricos e práticos são relevantes tanto para pesquisa, como para os resultados da mesma, conforme Clandinin e Connelly (2000).
7 As researchers our stances, our angles of repose, do affect what we are interested in, the questions we ask, the foci of our study, and the methods of collection as well as the substance of analysis. And the meaning we make from our research projects are filtered through our beliefs, attitudes, and previous experiences as well as through both the formal and informal theoretical positions we understand or believe in.
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Após o esclarecimento desses pontos, que julgo serem relevantes para a compreensão de como essa PN se constituiu, passo a apresentar o capítulo de análise deste estudo.
Na primeira parte do capítulo de análise, apresento as histórias construídas ao longo do caminho, compostas com base nas experiêncais que juntos, Billy e eu, vivenciamos no Projeto-PIBEG-Tandem.
Na segunda parte, apresento a reconstrução das histórias. E, reconstruindo histórias e compondo sentidos, respondo o objetivo deste estudo, bem como a questão de pesquisa apresentados inicialmente.