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Maillages non-structur´es avec un raffinement local appropri´e

4.3 Estimations d’erreur

4.4.3 Maillages non-structur´es avec un raffinement local appropri´e

Diversos estudos vêm apontando para a necessidade de se com- preender a saúde como um fenômeno biopsicossocial, articulada ao pro- cesso de desenvolvimento histórico, político, econômico, cultural e que reflete o contexto social no qual os sujeitos se inserem (BARATA, 2001; BUSS; PELLEGRINI FILHO, 2007; ALMEIDA FILHO, 2009). Conforme a proposta, já bastante conhecida, da Organização Mundial da Saúde (OMS, 1946), a saúde não consiste, apenas, na ausência de enfermidade. Essa nova concepção abre espaço para reflexões sobre a necessidade de superação dos modelos biomédicos, ressaltando a urgência de um novo modo de agir em saúde, que considere os sujeitos como seres biopsicos- sociais e reconheçam os determinantes sociais e as influências da cultura nas práticas em saúde (BUSS; PELLEGRINI FILHO, 2007).

Nesse contexto, situamos as relações de gênero que, intimamen- te relacionadas com as questões étnico-raciais e de classe, configuram-se como importantes marcadores sociais e políticos, bem como determi- nantes sociais da saúde, que interferem diretamente no modo como ho- mens e mulheres exercem o cuidado de si e dos outros (GOMES, 2008; VILELA; MONTEIRO; VARGAS, 2009; SCHRAIBER, 2012). Portanto, como já apontado nos artigos iniciais, “gênero” aqui, não é entendido apenas como um sinônimo ou uma oposição ao termo “sexo”.

Antes, conforme destaca Scott (1995), gênero se refere a “um elemento constitutivo das relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, [...] uma forma primária de dar significado às relações de poder” (p.86). Em outras palavras, é preciso considerar que os processos de interação social, sejam eles entre homens e mulheres, mulheres e outras mulheres, ou entre homens e outros homens, encontram-se fortemente impregnados pelos sentidos atribuídos ao “ser-homem” e “ser-mulher” e, ainda, por relações de poder.

Para além de uma simples constatação acerca das diferenças se- xuais, Scott (1995) chama a atenção para os diferentes processos através dos quais tais singularidades são transformadas em instrumentos de do-

minação e desigualdades sociais, que localizam os sujeitos em posições hierárquicas distintas na tessitura social, legitimando, inclusive proces- sos de violência e dominação.

A dimensão do poder que constitui e, ao mesmo tempo, per- passa as relações de gênero, amplia o nosso olhar acerca deste fenôme- no. Buscando elucidar esse processo, Pierre Bourdieu (2007) faz uso do conceito de “dominação masculina”. Segundo o autor, historicamente, nossas sociedades vêm se estruturando a partir de um paradigma pa- triarcal e do suposto poder “natural” e “essencial” dos homens sobre as mulheres, legitimando assim um processo de violência simbólica e de dominação.

Para Bourdieu, enquanto fenômeno social, a dominação mascu- lina encontra-se (re)produzida nos discursos de diferentes instituições e agentes sociais, como a igreja, a escola, a família, a mídia, entre outros, que trabalham, cotidianamente, no intuito de legitimar uma posição de privilégios e superioridade dos homens sobre as mulheres. O autor tam- bém ressalta que, trata-se de uma violência simbólica, “suave, insen- sível, invisível a suas próprias vítimas” (p.07), mas que é perpetuada, cotidianamente e que ordena as interações e as posições que homens e mulheres ocupam (ou não) na tessitura social.

Entretanto, é preciso considerar que nem todos os homens pos- suem as mesmas posições hierárquicas e privilégios neste contexto de dominação. Nesse sentido, tendo em vista a complexidade e a multipli- cidade de possibilidades de exercício dos modos de “ser-homem”, Con- nel (2005) ressalta a necessidade de pensarmos em “masculinidades”, no plural, abrindo espaço para uma grande gama de experiências e de variações desses padrões em função de outros marcadores como, por exemplo, cor/raça, etnia, classe social, orientação sexual, identidade de gênero, geração, tradições culturais, entre outros.

Apesar de reconhecer tal diversidade de modos de exercitar as masculinidades, Connel (2005) também aponta para a existência de um modelo de masculinidade hegemônica que, segundo ela, refere-se a um modo específico de ser-homem, também difundido cotidianamente por

meio de diferentes instituições sociais e que exige que os mesmos, desde a tenra infância, persigam e exerçam comportamentos e atitudes que ates- tem, frente aos demais membros do grupo, sua virilidade e hombridade.

Todavia, é preciso considerar que tal modelo de masculinida- de, embora hegemônico, não é o único padrão difundido, idealizado e incorporado (CONNEL, 2005). Kimmel (1998) chama a atenção para o fato de que a coexistência de múltiplas masculinidades também se encontra perpassada por uma disputa hierárquica e de poder, de modo que o modelo de masculinidade hegemônica somente se estabelece por meio da subordinação de outros padrões poucos valorizados, denomi- nados por ele como “masculinidades subalternas”. Para o autor, nesse grupo encontram-se todos aqueles homens que assumem concepções e práticas de masculinidades que se distanciam e/ou se contrapõem aos padrões estabelecidos pelo modelo hegemônico e se aproximam daque- les culturalmente atribuídos às mulheres, como, por exemplo, os grupos de homens homossexuais (KIMMEL, 1998; GOMES, 2008).

Nessa perspectiva, as masculinidades referem-se a uma constru- ção social produzida no âmbito de uma intensa disputa de poder, seja dos homens sobre as mulheres, como também entre os próprios homens (KIMMEL, 1998). Ainda nessa direção, Silva (2000) destaca que o proces- so de construção da identidade masculina exige que os meninos se afas- tem de quaisquer atitudes e comportamentos socialmente denominados de femininos e das práticas que os comparem aos homens homossexuais.

Desse modo, é necessário que os homens, constantemente, deem provas de sua virilidade e atestem-na frente aos demais membros do gru- po, visando obter não apenas status nessa tessitura hierárquica, como também o reconhecimento de sua hombridade pelas mulheres e outros homens (CONNEL, 2005; GOMES, 2008). Tal processo, frequentemen- te, coloca esses sujeitos em diversas situações nas quais a saúde pode ser gravemente comprometida e interferem no quadro de saúde desta população (LYRA et al., 2012; SCHWARZ et al., 2012; MOURA, 2014).

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