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Dans le document LibreOffice 4.0 Writer Guide (Page 167-200)

A este propósito, começamos por realçar que a noção de «identidade» perpassa indele‑ velmente pelas narrativas que têm no fenómeno das migrações o seu cerne, daí que, conse‑ quentemente, seja também inerente à construção da própria história europeia. Na verdade, e subjacente aos postulados sobre os quais esta se ergueu, parecia perfeitamente instituída a ideia de uma continuidade entre certos grupos que cruzaram a Europa e alguns Estados modernos que acabaram por emergir naquela geografia: seria este o caso dos polacos, supos‑ tos descendentes dos eslavos, ou o dos ingleses, cujas raízes radicariam nos anglo ‑saxões586. Contudo, estes «povos» configurariam unidades muito pouco homogéneas587, pelo que a ideia de uma origem comum não passaria, afinal, de um mito588. A respeito dos alvores do período anglo ‑saxónico na atual Inglaterra, John Hines chama a atenção para a ausência de uma correspondência direta entre as identidades políticas vigentes e as identidades étnicas registadas por Beda, o Venerável, na obra Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum, e entre as quais se incluem as referentes a anglos, saxões e jutos. Com efeito, os referidos grupos sur‑ giam divididos e esparsos por diferentes províncias e reinos, sendo que até os seus líderes podiam derivar de uma mescla de origens. Por outro lado, o facto de algumas zonas revela‑ rem justaposição de materiais arqueológicos tradicionalmente imputados a um grupo em particular, denuncia a fluência de intercâmbios e trocas, ao mesmo tempo que ilustra clara‑

585 AZKARATE GARAI ‑OLAUN, 2004: 394.

586 HEATHER, 2009: 12 ‑13.

587 «[…] the Lombards in Italy, for instance, incorporated Gepids, Suevians and Alamans, Bulgarians, Saxons, Goths, Romans

and others. This ‘polyethnic’ composition was generally observed […]» (POHL, 1991: 41).

mente que a transmissão das «identidades étnicas», longe de se afirmar como um processo simples, implicaria, pelo contrário, uma permanente redefinição589.

Peter Heather, por seu turno, lembra que os relatos das migrações góticas foram fixa‑ dos no século VI por Jordanes, historiador cuja ascendência remetia precisamente para aquele fundo étnico. Aplicando à quarta centúria, retrospectivamente, a visão da realidade que observava naquela em que vivia, Jordanes delineou os moldes em que ocorrera a cisão política que motivara o afastamento entre visigodos e ostrogodos, quando habitavam a norte do Mar Negro. No entanto, Heather sublinha que a configuração das duas entidades, que acabaram por fundar reinos distintos no ocidente europeu, é afinal o produto de «cria‑ ções» forjadas no século V590. E salienta, dada a diversidade de grupos abarcados pelo epí‑ teto «gótico» na centúria anterior, que as migrações documentadas dificilmente poderiam resumir ‑se à imagem idealizada por Jordanes e que pugnava, em suma, a seguinte fórmula: «[…] one king, one people, one move […]»591.

São muitas as problemáticas suscitadas pelas migrações. J. Martens evoca Estrabão e os escritos que este autor clássico introduziu na composição da obra Geografia, onde afirmou que estes povos se deslocavam com facilidade, para equacionar que as migrações poderiam constituir uma variável intrínseca ao «sistema»592, um meio de o manter equilibrado593. Mas qual exatamente a dimensão do fenómeno?

A historiografia tradicional, suportada nas escassas fontes coevas, perspetivava as «grandes migrações», sobretudo as desenvolvidas entre os séculos IV a VI, como deslo‑ cações massivas de poderosos contingentes de «bárbaros» de origem germânica: homens, mulheres e crianças, movimentando ‑se de forma intencional em direção a um novo espaço para ocupar594, num processo gerador de forte impacto que, invariavelmente, culminaria na substituição de um grupo étnico por outro. Os substratos previamente sedimentados ou as inevitáveis interpenetrações ficavam à margem da interpretação quando, na realidade, um grupo «exógeno» poderia até conquistar supremacia política ou militar num território, mas permanecer culturalmente aquém dos níveis granjeados pelos supostos «dominados»595.

589 HINES, 2007: 224 ‑225.

590 «[…] Visigoths and Ostrogoths, groupings who formed successor states to the West Roman Empire in the fifth century,

were both demonstrably new creations of that century, formed under Roman eyes and on Roman soil […]» (HEATHER, 2009: 123).

591 HEATHER, 2009: 123 ‑124.

592 MARTENS, 2003: 64.

593 «[…] comparative studies have repeatedly demonstrated that migration is a life strategy more readily adopted by

populations who are already mobile. This point even applies across generations. Statistically, the children and grandchildren of immigrants are much more likely than the average to move on. Another reason why populations groups comprising men, women and children were ready to trek from Wielbark and Przeworsk areas to the Black Sea is that their inability to maintain long ‑term agricultural fertility meant that they were already pre ‑programmed to use relocation as a strategy for achieving great prosperity. […]» (HEATHER, 2009: 147).

594 HEATHER, 2009: 10.

Por outro lado, estes antepassados distantes tenderam a ser olhados como grupos de grande dimensão, distinguíveis não apenas do ponto de vista cultural, mas igualmente em termos biológicos: encontrava ‑se então assente que cada grupo de «bárbaros» se reproduzia de forma endogâmica e que, independentemente da sucessão de acontecimentos sobrevin‑ dos no quadro dos percursos, mais ou menos extensos, que haviam traçado em território europeu, ter ‑se ‑iam mantido incólumes e com as suas especificidades inalteradas596.

Pressupunha ‑se também que, na sua trajetória implacável, os grupos germânicos haviam deixado um enorme rasto de horrores e destruições. Veja ‑se, como exemplo per‑ feitamente ilustrativo deste cenário, as pilhagens e brutalidade decorrentes das primeiras investidas suevas sobre a Conimbriga romana597, às quais, três anos mais tarde, se terão seguido novos ataques, que culminaram na suposta aniquilação total da cidade598: sucessos imortalizados nas descrições produzidas por Idácio de Chaves, contemporâneo das invasões peninsulares dos alvores do século V599. No entanto, são muitos os materiais arqueológicos achados no velho oppidum que contrariam a ideia tão longamente propalada de um termi‑

nus da vida daquele espaço, subsequente aos assaltos suevos600. Mas é certo que esta visão

catastrofista foi dominante em diversos países europeus, nomeadamente nos do sul; já nou‑ tras geografias, o ímpeto das «vagas» germânicas foi encarado como um influxo de vigor, infundido a um Império que se achava já em decadência601.

Mas se, em traços gerais, os ecos da perspetiva delineada se mantiveram longamente enraizados, uma vaga de novas correntes começou entretanto a procurar demoli ‑la.

Talvez, porém, se tenha caminhado entre extremos, e da tese se tenha avançado para a completa antítese: de um panorama pouco convincente, excessivamente confiante na veraci‑ dade das fontes e propiciador das maiores generalizações, comutou ‑se para a negação, quase que em bloco, de praticamente todas as premissas que sugerissem que as migrações haviam desempenhado um papel de relevo no desmoronamento do mundo romano do Ocidente.

É neste campo que se posiciona Walter Goffart, autor que salienta como, em pleno século XX, foi encontrado terreno fértil e prolífico para o florescimento daquilo a que se refere como o «mito» das migrações germânicas, que entende como fruto de anseios patrió‑ ticos e da necessidade sentida, por parte de alguns teóricos, de se afastarem de uma narra‑ tiva histórica universal centrada em conceções bíblicas e clássicas602.

596 HEATHER, 2009: 11.

597 «[…] § 229. Les Suèves, après avoir pénétré par traîtrise à Conimbriga, s’emparent des biens de la noble famille de Cantaber

et emmènent en captivité la mère et ses fils […]» (IDÁCIO, 1974: 171).

598 «[…] § 241. II. Conimbriga, surprise en paix, est pillée; les maisons et une partie des murailles rasées, les habitants sont

capturés et déportés: la cité et sa région ne forment plus qu’un désert […]» (IDÁCIO, 1974: 175).

599 TRANOY, 1974.

600 Este problema será abordado no capítulo 6. Por outro lado, alguns dos materiais mencionados, concretamente, os que se

enquadram na cronologia deste trabalho, estão arrolados no Catálogo anexo.

601 WARD ‑PERKINS, 2006: 5.

E, a este propósito, veja ‑se o debate que colocou em lados opostos Walter Goffart e Guy Halsall, por um lado, e Peter Heather, por outro. A discussão prende ‑se com as razões que terão levado ao desencadear das movimentações «bárbaras» ocorridas na região do Danúbio Médio a partir do terceiro quartel do século IV e que culminaram na «crise» que marcou a Europa ocidental nos alvores da centúria ulterior. O «expansionismo» dos hunos no tempo de Átila foi tradicionalmente apontado como o motor explicativo do avanço dos grupos germânicos para ocidente a partir de 376, altura em que os eventuais riscos decorrentes da penetração nas fronteiras do Império pareciam menos avultados que os que adviriam de um confronto com os hunos, povo das estepes, em progressão contínua no território europeu. Goffart formulou entretanto uma visão alternativa e que, em termos genéricos, explica o atravessamento do Danúbio e a consequente intrusão em solo romano por parte dos godos como resultado não só de uma mudança da perceção do grupo relati‑ vamente à política imperial, mas igualmente como fruto de uma tomada de consciência de que o poder de Roma se encontrava fragilizado. Por seu turno, Guy Halsall defendeu que o estado indefeso a que as fronteiras junto ao Reno foram votadas se ficou fundamentalmente a dever ao facto de, nas duas últimas décadas do século IV, os usurpadores Magno Máximo e Flávio Eugénio terem optado por retirar as legiões ali estacionadas, canalizando ‑as para as guerras que travavam com Teodósio, o imperador do Oriente. Constantes lutas pelo poder deixaram o problema por resolver e a proteção das fronteiras dependente da atuação e boa vontade dos reis bárbaros aliados. E este seria apenas um dos sintomas de um fenómeno maior e mais profundo: a inexorável perda de controlo por parte da autoridade romana.

Ora, o que ressalta das duas abordagens é que ambas pressupõem que, na raiz dos avanços «germânicos» para o seio do Império, se encontram as transformações internas que nele ocorreram e não acontecimentos exteriores às suas fronteiras. Neste sentido, con‑ sideram que os grupos exógenos que acabaram por se movimentar para o seu interior não o fizeram para escapar às incursões hunas, antes aproveitaram as circunstâncias vividas por Roma e a expectativa de riqueza que, não obstante, continuava a irradiar da capital do Império do Ocidente, deslocando ‑se e deixando atrás de si um vazio de poder, que então sim, foi ocupado pelos hunos603. Constata ‑se, portanto, que subjacente às conceções enun‑ ciadas se encontra uma evidente mudança de paradigma.

P. Heather, por seu lado, não hesita quanto ao reconhecimento de que os fatores enun‑ ciados pelos dois autores são pertinentes para explicar o desenrolar da crise. No entanto, acaba por enunciar uma série de argumentos que desmontam o peso determinante que lhes é imputado. E conclui que a conjugação dos fatores internos indicados não poderá, por si só, explicar de forma satisfatória todas as movimentações ocorridas externamente, em particular, na região do Danúbio Médio604. Com efeito, Heather defende que a segunda

603 HEATHER, 2009: 178 ‑179.

fase das investidas dos hunos foi decisiva para que os diferentes clãs que habitavam a leste dos Montes Cárpatos se reunissem e procurassem escapar à crescente pressão exercida pelo referido grupo de origem asiática. Na realidade, esta hipótese, que continua a revelar ‑se a mais válida e menos rebuscada, é não só sugerida pela correlação cronológica entre a che‑ gada dos hunos e a partida de vândalos, alanos e, pelo menos, dos godos que integravam a «aliança» liderada por Radagaiso, como, por outro lado, é facilmente sustentável se se atender ao tratamento conferido pelos hunos às populações que permaneciam nas áreas por eles cruzadas605. E o que, na nossa opinião importa realçar, é que este exemplo é revela‑ dor do facto de a rejeição dos processos migratórios não constituir, afinal, e parafraseando expressão plasmada em artigo da autoria de Quirós Castillo e demais investigadores, «[…] una estrategia muy operativa para explicar estas sociedades […]»606.

Tejerizo García, afastando ‑se de algumas correntes crescentemente difundidas e que preconizam uma hesitação evidente quanto à possibilidade de os visigodos terem, efetiva‑ mente, penetrado na geografia peninsular, afirma não ter dúvidas quanto a este facto. Em contrapartida, porém, realça um pressuposto que se nos afigura fulcral: o de que os dados transmitidos pelo registo arqueológico dificilmente poderão ser interpretados exclusiva‑ mente à luz do paradigma tradicional, que coloca a tónica somente no fator étnico. Con‑ cordamos, por isso, quando afirma que as migrações e as adaptações que a sua ocorrência forjou só poderão ser plenamente compreendidas se a perspetiva for alargada e se todo um outro corpo de dinâmicas, também relativas ao desenvolvimento interno das sociedades, for igualmente tido em consideração607.

Para atestar a pertinência desta renovada conceptualização e a introdução de ressalvas a uma leitura mais imediatista dos dados, recorremos aos resultados obtidos com o estudo dos marcadores isotópicos608 em San Martín de Dulantzi, um sítio localizado em Álava, no País Basco. As escavações ali levadas a cabo, no quadro de uma ação de caráter preventivo, permitiram definir um total de oito fases de ocupação609, sendo que aquelas em que aqui nos deteremos se referem à 4 (que se inicia na segunda metade do século VI e estende ao

605 HEATHER, 2009: 184.

606 QUIRÓS CASTILLO et al., 2013: 228.

607 TEJERIZO GARCÍA, 2011: 39.

608 «[…] El estudio de los marcadores isotópicos se emplean en arqueología […], sustancialmente con el fin de determinar el

paleoclima, la dieta o la movilidad de las poblaciones antiguas […]. En el caso del yacimiento de Dulantzi se han analizado los isótopos de nitrógeno y de carbono de 65 individuos para estudiar su dieta, y en 32 esqueletos los de estroncio para determinar si su origen era local o si, en cambio, se trataba de inmigrados. […]» (QUIRÓS CASTILLO et al., 2013: 224).

609 «[…] fase 1: ocupación doméstica de la edad del bronce; fase 2: ocupación doméstica altoimperial seguida por una

reestructuración a partir del siglo III carente de estructuras de habitación; fase 3: ocupación de carácter funerario del siglo V – primera mitad del VI; fase 4: construcción de un edificio religioso y de un cementerio fechables en la segunda mitad del siglo VI y el siglo VII; fase 5: densificación del asentamiento y formación de un amplio cementerio entre finales del siglo VII y el siglo IX; fase 6: transformación de la iglesia y del área funeraria en los siglos X ‑XII; fase 7: edificación de la nueva iglesia de San Martín, siglos XII ‑XIV; fase 8: transformaciones recientes, siglos XV ‑XXI […]» (QUIRÓS CASTILLO et al., 2013: 218 ‑219).

longo do VII) e à 5 (balizada entre os finais do século VII e o IX)610. Começando por atentar na primeira dessas fases, note ‑se que, num total de dezanove sepulturas, que se dispunham no interior do edifício de culto ali erguido ou se organizavam em seu redor, todas pos‑ suíam pregos, atestando a utilização de caixões de madeira, à semelhança do verificado na necrópole de Aldaieta, situada nas proximidades. Mas eram apenas nove as que continham materiais de adorno pessoal, armamento ou demais elementos de prestígio, caso de vasos vítreos ou de bronze611. No entanto, a possibilidade de o número de sepulcros providos de depósitos ser maior do que o aferido não é de afastar, atendendo às destruições desencadea‑ das pela posterior abertura de silos e que poderão ter provocado a aniquilação de contextos prévios612.

Por seu turno, um amplo conjunto constituído por cem túmulos, dispersos por uma vasta área, estaria relacionado com a segunda das fases (a 5). Nesta e, contrariamente ao que fora possível percecionar para a 4, o espaço de culto deixara de funcionar como eixo central, a partir do qual se organizavam as sepulturas. Na verdade, nem sequer parece ter subsistido a preocupação de manter um alinhamento coerente entre a orientação do templo e a das numerosas estruturas detetadas. Por outro lado, e igualmente por oposição ao apurado para a fase 4, no interior daquelas não havia qualquer material a registar: pregos, adornos ou elementos votivos encontravam ‑se completamente ausentes613.

Ora, das análises preconizadas sobre os marcadores isotópicos concluiu ‑se que, num universo de vinte indivíduos relacionados com a fase 4, quatro seriam alóctones (sendo que um se relacionaria com a fase 4a e três, com a 4b); já no que concerne à 5, de um total de nove indivíduos, seriam dois os migrantes. E o primeiro ponto significativo a realçar prende ‑se com a manifesta falta de correspondência entre a proveniência dos indivíduos e o tipo de ritual funerário preconizado: com efeito, na fase 4b, só um dos inumados alóctones foi acompanhado de elementos votivos ou de adorno. Contudo, não deixa de ser particu‑ larmente expressivo que a mulher depositada naquela que é considerada a «sepultura fun‑ dacional» (n.º 181, da fase 4a) não tenha origem local, circunstância que leva a equacionar toda uma série de hipóteses explicativas para a criação do templo de Dulantzi. De qualquer modo, a inexistência de uma correlação direta entre um determinado corpus de materiais depositados em contexto funerário e uma «cultura» ou «horizonte» específicos614, demons‑ tra as dificuldades inerentes às propostas de identificação étnica imediatistas. Na verdade, alguns dos indivíduos locais foram inumados juntamente com objetos tidos como apanágio

610 QUIRÓS CASTILLO et al., 2013: 217; 219 ‑220.

611

«

[…] Estos materiales presentan grandes analogías con los hallados en Aldaieta, de tal forma que en el catálogo de materiales

de este yacimiento se encuentran paralelos prácticamente para todas las piezas de Dulantzi […]» (QUIRÓS CASTILLO et al., 2013: 222).

612 QUIRÓS CASTILLO et al., 2013: 222.

613 QUIRÓS CASTILLO et al., 2013: 223 ‑224.

de grupos exógenos, sendo que, em contrapartida, nem todos os inumados que denotavam características alógenas repousaram junto dos adereços que se esperaria ver ‑lhes associados nos sepulcros. É certo que, em conformidade com o ressalvado pelos autores do estudo, a técnica utilizada «[…] permite identificar la primera generación de migrados que conser‑ van tanto los marcadores isotópicos del área de origen como el de destino; en cambio no permite reconocer a los descendientes crecidos in loco. […]»615. Mas vejamos de que modo os dados foram interpretados.

A propósito desta problemática, os investigadores chamam a atenção para outras reali‑ dades estudadas na geografia europeia. Um dos exemplos que citam centra ‑se na necrópole de Lankhills School, em Winchester, no sul de Inglaterra, onde se comprovou a presença quer de indivíduos oriundos da região húngara, quer procedentes do Mediterrâneo. Toda‑ via, também neste caso não se revelou possível estabelecer um vínculo direto entre a prove‑ niência dos inumados e a dos objetos, o que levou a equipa responsável a depreender que outros fatores, além dos étnicos, poderão justificar as opções plasmadas no ritual funerário, fatores esses decorrentes dos laços de parentesco, das alianças criadas pelo matrimónio, de tendências culturais ou mesmo de preferências políticas616.

Mas retornando a Dulantzi, é fundamental sublinhar o quão revelador é o facto de, mais de um século transcorrido sobre a migração, parte dos indivíduos continuar a ser inu‑ mada com recurso a materiais, designadamente armas e elementos de adorno, cuja origem remete para além dos Pirenéus, e que nesses elementos encontra um meio para construir a sua identidade. É provável, em paralelo, que pelo menos alguns dos indivíduos que acaba‑ ram por ser sepultados em associação com o local de culto integrassem uma elite local com relevância social que, justamente, teria auferido condições para deter uma igreja privada, e que a utilizou como área de enterramento privilegiada. Em contrapartida, a partir do século VIII (já na fase 5) e acompanhando o incremento do número de inumações, não só se perderam os indicadores artefactuais que caracterizavam parte dos túmulos da fase pre‑ cedente como, além do mais, se desvirtuou a orgânica espacial prévia, muito embora sem que a «memória» dos enterramentos que a compunham se tenha apagado617. Em suma, e se bem que os resultados analisados não possam ser generalizados e que a escassez de dados passíveis de serem cotejados com os que foram obtidos em Dulantzi constitua uma evidên‑ cia, este estudo demonstra claramente que nem sempre as interpretações mais imediatas se revestirão de validade. Na verdade, os paradigmas tradicionalmente aplicados podem mostrar ‑se inadequados aos esforços de compreensão dos espaços funerários peninsulares datáveis dos séculos VI e VII618.

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