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MAGNÉTI- QUES

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O crescente débito americano em relação a China e a outros governos estrangeiros para o financiamento do seu déficit comercial reduz a capacidade americana de impor seus interesses em negociações multilaterais e bilaterais que são as bases da governança econômica internacional (ARRIGHI, 2008, p.205). O débito nacional americano em relação à China torna o país mais vulnerável economicamente, deixando-o à mercê dos seus credores internacionais, afetando negativamente o papel do dólar como moeda de reserva internacional e reduzindo a liderança dos EUA nas instituições financeiras internacionais (BRZEZINSKI, 2012). Apesar da relativa perda de poder em termos econômicos pelos Estados Unidos e do crescente deslocamento da centralidade da economia internacional para o eixo asiático, os EUA têm sido contrários a mudanças que alterem a distribuição de poder nas organizações internacionais, de forma a refletir a nova hierarquia já existente de poder (PAUTASSO, 2015, p.13).

A crise de 2008 evidenciou, novamente, a vulnerabilidade das economias nacionais resultantes da dependência em relação ao dólar e à economia americana. A postura unilateral, voltada para a estabilidade econômica nacional, muitas vezes desligada das necessidades da economia internacional, tem impactado de forma negativa a liderança americana no sistema financeiro e monetário internacional. Há também a crescente desilusão com o modelo neoliberal promovido pela liderança dos Estados Unidos desde os anos 1970 (HU, 2015, p.236).

Todavia, a crise de 2008 mostrou, também, que as instituições de Bretton Woods ainda são importantes para a estabilização do sistema financeiro visto que a China, como potencial poder hegemônico, ainda não possui todas as capacidades necessárias para prover a estabilização do sistema financeiro internacional. Para tanto, a China reforçou seu engajamento nas tradicionais organizações de Bretton Woods com o objetivo de adequá-las à nova realidade de poder (CHIN & THAKUR, 2010, p.127). Porém, a partir

de 2013 o país passou a complementar a pressão por reforma nas organizações tradicionais com a proposição de instituições financeiras complementares e alternativas. A postura dos EUA contrária às reformas em termos de representação nas organizações financeiras internacionais junto com a demanda dos países periféricos por acesso a recursos sem ingerência política, através da imposição de condicionalidades relacionadas à aplicação de políticas neoliberais do Consenso de Washington, tem direcionado o esforço desses países para a criação de novas instituições financeiras (PAUTASSO, 2015, p.14). A ordem multilateral não sobreviverá ao desalinhamento em relação à distribuição real de poder no sistema internacional (CHIN & THAKUR, 2010). A China tem sido um importante ator na promoção dessas novas instituições ao mesmo tempo que busca aumentar a abertura do seu mercado de capitais e almeja a posição central dos fluxos financeiros internacionais.

A crescente importância da Ásia na economia internacional tem apontado para o redirecionamento do centro do mercado capitalista internacional para o continente asiático (ARRIGHI, 2008; BRZEZINSKI, 2012; PAUTASSO, 2015, p.14). A China, principalmente, saiu da periferia para o centro da economia global (VADELL et.al, 2016, p.67). Assim, este país, que já é considerado o “chão de fábrica” do mundo, tem se encaminhado para ocupar também uma posição central nos fluxos financeiros internacionais. Concomitantemente, o país tem adotado uma postura mais assertiva em relação a provisão de ordem e estabilidade internacional através de novas instituições, principalmente no sistema financeiro e monetário. Ao propor novas instituições que se apresentam como complementares, mas são também alternativas ao sistema de governança financeira existente, a China busca avançar a acomodação dos seus interesses e necessidades nesse sistema. A atuação chinesa nesse sentido é o foco do próximo capítulo.

4.4 Conclusão

O cenário financeiro e monetário internacional atual é marcado por recorrentes crises e meios insuficientes e insatisfatórias para a resolução destas. A percepção de crescente instabilidade é real para países emergentes, como a China. As instituições tradicionais têm se mostrado insuficientes na manutenção e no resgate da estabilidade internacional em tempos de crise. A crescente perda de legitimidade dessas instituições está associada à perda de poder relativo dos EUA no cenário internacional e a ascensão de potências emergentes como atores demandantes nesse sistema. O expressivo crescimento chinês nos últimos anos trouxe consigo o aumento da importância do país

nos fluxos financeiros internacionais. Hoje, a China é o maior detentor de reservas cambiais, sendo o principal provedor de liquidez internacional.

Esses fatos revelam a contradição entre a distribuição de poder existente e a ordem internacional, que ainda reflete de forma estagnada a distribuição de poder do período pós-Segunda Guerra. A crise das instituições tradicionais é reflexo desse descompasso. Concomitantemente, a hierarquia de prestígio não acompanhou o processo de mudança da distribuição de poder e também se encontra descompassada. A China tem atuado como importante ator na busca de reforma dessa ordem para melhor concordância com a distribuição de poder atual. Evitando uma postura conflitiva e combativa às instituições tradicionais, o país tem buscado reformas no ensejo de melhor acomodar seus interesses e necessidades e os interesses dos países em desenvolvimento.

O engajamento chinês no resgate da estabilidade da ordem internacional e a acomodação dos seus interesses e dos países em desenvolvimento está intimamente relacionada com a mudança da estrutura de poder no sistema. Ao se tornar uma grande potência, o país tem condições de questionar as regras de governança que contradizem seus interesses. Os EUA, poder hegemônico vigente, enxergam essa postura como uma ameaça à estabilidade e à ordem internacional, quando, na verdade, representa uma afronta apenas aos interesses americanos. A busca pelo reordenamento do sistema envolve a mudança do grupo de países cujos interesses são beneficiados pelo ordenamento do sistema. A vinculação do país com a estabilidade do sistema financeiro e monetário internacional é um elemento importante para a confirmação de uma possível hegemonia chinesa. Se confirmada, essa associação da estabilidade com a China levará a progressiva alteração da hierarquia de prestígio para corresponder à nova hierarquia de poder.

Contudo, as iniciativas de reforma têm se mostrado insuficientes na obtenção dos interesses da China em relação ao sistema financeiro e monetário internacional. Isto posto, o país tem trabalhado na provisão de novas instituições complementares e alternativas às instituições tradicionais criadas sob a hegemonia americana. A atuação chinesa, nesse sentido, será explorada no próximo capítulo.

5 A CHINA E A RECONFIGURAÇÃO DA GOVERNANÇA NO SISTEMA FINANCEIRO E MONETÁRIO INTERNACIONAL

5.1 Introdução

No capítulo anterior discorreu-se sobre o processo de ascensão chinesa, a redistribuição de poder no sistema internacional e observaram-se os mecanismos iniciados por esse processo de mudança da estrutura hierárquica internacional, no regime financeiro e monetário, principalmente nas organizações tradicionais como o FMI e o BM, além do G-20 financeiro. A continuidade do crescimento chinês e a emergência de novas potências minam de forma progressiva a preponderância do poderio americano. Observou-se, também, que as instituições tradicionais do sistema financeiro e monetário internacional não têm sido capazes de acomodar os interesses chineses, principalmente seu desejo de maior influência nessas instituições de acordo com suas capacidades econômicas.

A China, hoje, é a segunda maior economia mundial e já superou a economia americana em termos de paridade de compra, contudo, sua influência sobre a elaboração da agenda e das regras que governam o sistema econômico internacional é bastante aquém de seu poderio econômico. Compreendendo a importância dos elementos financeiros e monetários para a continuidade do crescimento chinês, o país tem buscado maior protagonismo nesse âmbito. A atuação chinesa nesse sistema tem sido crescentemente vista como fundamental para a existência de estabilidade e equilíbrio, devido ao impacto crucial da economia chinesa na economia internacional.

O objetivo deste capítulo é identificar as iniciativas chinesas cujo propósito é aumentar sua participação como definidora de agenda e normas do sistema financeiro e monetário internacional. No fim do capítulo, retoma-se a discussão sobre transição de ordens hegemônicas e faz-se uma análise dos elementos presentes e ausentes para a confirmação de um possível ciclo de hegemonia chinesa.

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