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M´ ecanismes d’endommagement

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Etat de l’art ´

2.5 M´ ecanismes d’endommagement

Segundo Vanda Gorjão (2002:250), ―A participação feminina na oposição continuou, demasiadas vezes, a valorizar competências tradicionais da mulher,

202 Entrevista realizada a 29 de Junho de 2004. Helena Neves foi militante comunista e fundadora do

MDM.

203 LOISEAU, Dominique, (1999), DELPHY, ―La politique du PCF et les femmes depuis 1945‖, in

Christine et CHAPERON, Sylvie orgs, Simone de Beauvoir, Cinquantenaire du Deuxiéme Sexe, colloque

international, pp. 388.

204 Entende-se por ―naturalização‖ das mulheres uma forma de ver as mulheres como dependentes da ―sua

natureza‖ que as predestina para serem mães e esposas. O discurso aristotélico que influenciou durante séculos toda a filosofia ocidental via na mulher um ser inferior devido à sua natureza, a mulher era, segundo Aristóteles, um ―homem incompleto‖.

reafirmando-se mesmo a sua função primordial na família‖. O facto de no discurso da oposição se frisar o novo estatuto social das mulheres ―não impediu que continuasse a perdurar um conteúdo tradicional relativamente ao seu papel na família‖. (GORJÃO:190)

A oposição democrática acabou por transmitir uma política de ―naturalização‖ das mulheres no próprio funcionamento dos movimentos e grupos políticos e não teve capacidade para promover dinâmicas de maior igualdade entre mulheres e homens na política. As dificuldades na articulação da luta feminista com a luta mais geral pela democracia têm uma raiz comum na esquerda: a forma dogmática como, a partir dos finais dos anos 30, o marxismo analisou a luta de classes. O facto de se viver em ditadura, num regime autoritário e repressivo, portador de uma ideologia anti-feminista, não determinaria, por si só, que a luta contra o regime, que envolveu tantas mulheres, das mais destacadas205 às mais anónimas, ficasse distanciada da componente feminista.

As mulheres não deixaram de estar presentes na luta contra o regime totalitário do Estado Novo, mas deixaram de participar em organizações específicas de mulheres. ―Foram essencialmente os grupos e movimentos de oposição que catalizaram a actividade política feminina, ora ao lado dos homens, ora em comissões específicas‖

(GORJÃO, 2002:271). Contudo, mesmo quando a área de actuação era a de comissões de mulheres, a perspectiva veiculada estava sempre ligada às questões democráticas gerais, considerando-se que a luta das mulheres era parte do caudal geral da luta democrática e da luta de classes. Esta concepção da luta das mulheres é bem evidente em artigos escritos por dirigentes comunistas. No Militante nº 74, de Fevereiro de 1954, num artigo subscrito por ―Paiva‖ e intitulado ―Saibamos mobilizar as mulheres para a luta‖ pode ler-se: ―Se pensarmos que metade da população portuguesa é constituída por mulheres concluiremos que é indispensável a sua participação na luta pela paz, pela democracia e pelo derrubamento do fascismo‖. (...) A luta pela paz, contra as medidas de guerra do salazarismo é um campo vasto de mobilização e organização das mulheres‖. Neste mesmo artigo combatiam-se ainda ―as concepções pequeno-burguesas‖ que impediam a participação na luta das companheiras e filhas dos militantes.

Para Maria Antónia Palla:

―O fascismo foi o principal responsável pelo corte da memória republicana (da luta das mulheres), mas o PCP também teve responsabilidades, pois a partir de determinado momento dominou a oposição e defendia que não

205 Podem-se citar nomes já anteriormente referidos, mas fazendo jus a um trabalho de investigação de

São José Almeida publicado a 27 de Dezembro de 2004 no Público apraz destacar os nomes de Maria Isabel Aboim Inglez, Virgínia Moura, Maria Lamas, Margarida Tengarrinha e de muitas outras que sofreram nas prisões da PIDE sevícias inimagináveis.

tinha de haver luta específica e autónoma das mulheres. Tratava-se de combater o fascismo. Por outro lado, os que não eram comunistas eram tradicionalmente misóginos. Aliás, veja-se o que eles fizeram às mulheres que ajudaram a fazer a República‖.206

Segundo Vanda Gorjão, torna-se importante entender como é que a ―ideologia de género‖ atravessou um longo período histórico, resistindo à passagem do regime republicano, acentuando-se com o Salazarismo, tendo ainda impregnado os meios oposicionistas, revelando-se transversal às classes sociais, manifestando-se tanto no operariado como nas classes médias e na burguesia intelectualizada. ―Por essa razão as mulheres continuaram a ser vistas na oposição como representantes do sexo feminino. (...) Mesmo quando assumiam responsabilidades políticas, foi diminuto o poder de que se viam investidas‖ (GORJÃO, 2002:269).

Ana Vicente refere que é preciso perceber que Portugal vivia muito isolado, um

isolamento profundo:

―Não tínhamos acesso à informação. A percentagem de analfabetismo era elevadíssima – 80%. A classe média tinha de lutar muito por manter-se e a reduzida classe rica tinha acesso à informação mas por razões óbvias não estava interessada e os intelectuais eram extremamente machistas porque reproduziam a cultura dominante. Nas tertúlias que havia, nos clubes, com figuras como o Ferreira de Castro e outros intelectuais, estes assuntos dos direitos das mulheres não lhes interessavam. Decerto que a Igualdade fazia parte do discurso do Partido Comunista, mas depois na prática as mulheres assumiam sempre um papel secundário. Acho que o país é subdesenvolvido em termos europeus porque existe uma opressão histórica das mulheres. O meu livro sobre ―Os Viajantes‖ demonstra isso. Já no século XVIII, os estrangeiros achavam espantoso como é que as mulheres portuguesas da classe aristocrática estavam enclausuradas. Os talentos das mulheres foram abafados‖.207

Segundo Christine Bard, o ―anti-feminismo de esquerda‖ manifestava-se fundamentalmente pela subordinação da luta autónoma das mulheres à prioridade da luta de classes (BARD, 1999:462)

Helena Neves considera que, na estrutura ideológica do PCP, o que mais se valorizavam eram as questões consideradas prioritárias em termos de luta social e política: o trabalho, os direitos políticos,...―Há uma intencionalidade: «não é o momento, não está amadurecido para estas questões, há prioridades nas lutas,...e estas questões só se resolvem com a revolução». Essa intencionalidade faz com que o

206 Entrevista realizada a Maria Antónia Palla a 28 de Outubro de 2004, no âmbito deste trabalho.

207 Entrevista realizada em Setembro de 2004 a Ana Vicente, investigadora em Estudos sobre as Mulheres

e autora de vários livros. Dirigente do Movimento ―Nós somos Igreja‖. Ocupou o cargo de Presidente da Comissão para a Igualdade e Direitos das Mulheres de 1992 a 1996.

feminismo seja colocado numa esfera de exclusão no âmbito político, que até é perturbadora‖.208

Tratava-se de uma questão pragmática de prioridades políticas. Desta forma, será que não seria possível situar numa base ideológica este ―anti-feminismo de esquerda‖? É a própria Christine Bard que levanta a diferenciação de papéis atribuídos a mulheres e homens na resistência francesa, onde as tarefas relacionadas com os apoios familiares e outros não eram suficientemente valorizadas. As mulheres faziam jornais clandestinos, tratavam dos fornecimentos alimentares e escondiam os clandestinos.209 O triunfo do familialismo nas três décadas que vão de 1930 a 1960 corresponde também a um certo eclipsar do feminismo, segundo a mesma historiadora. Por seu turno, a esquerda não ficou imune a esta vaga. Na esquerda, diz-nos Vanda Gorjão, não se ignoravam as discriminações sofridas pelas mulheres no interior da família. Contudo, a resolução dos problemas colocavam-se na esfera mais geral das lutas. O fim das discriminações das mulheres implicaria uma transformação de toda a sociedade.

No Brasil da ditadura, segundo refere Cyntia Sarti,210o carácter do movimento fez-se articulando género e classe. O novo feminismo no Brasil nasceu na altura da ditadura,211na década de 1970, numa situação muito difícil: ―Por um lado, o regime militar e repressivo não via com bons olhos qualquer tipo de organização da sociedade civil, ainda mais quando se tratava de mulheres que, inspiradas nas norte-americanas ameaçavam a tradição e a família brasileira. Mas o paradoxo se constitui na medida em que as mulheres também não encontravam guarida entre os grupos que lutavam contra a ditadura (…)‖.212

Influenciado por mulheres brasileiras no exílio em França e nos Estados Unidos, que são portadoras das ideias da nova vaga dos feminismos, o feminismo brasileiro foi um movimento que lutou pela autonomia num espaço muito marcado politicamente pela oposição ao regime, sendo visto ―pelos integrantes desta mesma luta como um sério desvio pequeno-burguês‖.213

208 Entrevista realizada em 29 de Junho de 2004.

209Também em Espanha, durante a guerra civil, as mulheres integraram inicialmente as milícias

defensoras da República, mas foram depois remetidas para outros trabalhos, libertando os homens para o combate. Assumiu, neste sentido, um papel de organização das mulheres a Associação de Mulheres Antifascistas dirigida pela comunista Dolores Ibárruri.

210 SARTI, Cyntia, ―Feminismos e contexto: lições do caso brasileiro‖, Cadernos Pagu, nº 16, p. 32. 211 O golpe militar de 1964 deu origem a longos anos de um regime marcado pela censura, prisões

arbitrárias, torturas, desapareceimentos, exílio. O governo Médici inaugurou, a partir de 1969 um regime de terror. A abertura do regime com a amnistia aos presos políticos só se deu em 1979.

212 PINTO, Céli Regina Jardim (2003), Uma história do feminismo no Brasil, S. Paulo, Edição Fundação

Perseu Abramo, p. 66.

213

Ainda, segundo Vanda Gorjão, os comunistas consideravam que:

―As «feministas burguesas» ao individualizarem o problema da mulher, não faziam mais do que gerar confusão e fragmentação na sociedade, omitindo que as relações paritárias entre homem e mulher no espaço doméstico ou no espaço social, sendo um passo importante, não era decisivo, porque não abarcava a verdadeira questão: a luta de classes que haveria de culminar no fim do sistema capitalista e na tomada do poder pelo proletariado‖. (GORJÃO, 2002:130)

O familialismo constituiu assim uma base ideológica da esquerda do pós-guerra, como também se evidencia na experiência francesa. A União de Mulheres Francesas, fundada em 1945 por influência do Partido Comunista Francês, adoptou uma postura maternalista expressa pelo slogan:‖para vingar os mortos, nós damos a vida‖. A defesa da família e da paz constituía uma das suas principais bandeiras de luta e considerava o controlo dos nascimentos uma preocupação de cariz individualista e burguês. (BARD, 2001:165)

Neste contexto, o Segundo Sexo de Simone de Beauvoir foi acusado de imoral e até de pornográfico. O livro foi proibido pelo Vaticano. ―Uma violenta polémica despertou em torno das questões sexuais que a maioria das mulheres consideravam como secretas e privadas‖ (CHAPERON, 2000 A:114). À direita, as ideias de Beauvoir foram criticadas por se traduzirem em valores e atitudes ―individualistas e hedonísticas‖ que comprometiam a civilização fundada no casamento, na família e no trabalho. Na esquerda, o dogmatismo do partido comunista considerava a obra uma ―diversão com o fim de desviar as mulheres do verdadeiro combate pela sua libertação‖ (CHAPERON, 2000 A:171-177). Seria assim um produto de decadência burguesa. Em Portugal, nos anos 50, o isolamento do país e a censura não abriam espaço à divulgação de obras deste tipo. Apenas alguns sectores intelectuais que se deslocavam a Paris ou que aí estavam exilados lhes tinham acesso. Na década de 1960, o Segundo Sexo seria uma fonte de inspiração para a nova vaga dos feminismos em França e nos Estados Unidos.

CAPÍTULO 5 - Anos 60, os ventos para uma nova vaga dos

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